2012-03-31

DEPURAÇÃO



Photo by Misia, lindíssima fadista da sua igualmente linda Kyoko

Tudo o que for conforto,
que se rasgue:
e fique depois
só angústia que baste

Um consolo interior
feito de ausência:
como uma luva, a mão
inexistente

O que sobra depois
angústia mais presente
em dose exacta.

Ana Luisa Amaral in "Coisas de Partir", 1993

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O RATO (POEMA EM ZiGUEZAGUE)


                             
Photo by Emira for Resim & Fotoğraf.

                               (Nunca chega tão tarde!
                               tem sido pontual
                               no ziguezague)


Quase uma da manhã
e a noite por roer.
Perdeu-se no luar?
Ou sedução maior: baga
mais doce, semente
de mais sumo?


                              (Nunca chega tão tarde!
                               Tem sido pontual
                               de cada vez)

Lembro a primeira entrada,
o arrepio:
raio sobre azulejos,
a retirada em mútuo zigue
zague


                               (Nunca chega tão tarde!
                                Tem sido pontual
                                de cada vez)


Ontem, sem deserção
o olho na distância
confortável.
Mas hoje a noite
intacta


                               (Nunca chega tão tarde!
                                Tem sido pontual
                                no zigue
                                zague)

Ou sedução maior:
baga perfeita
em escura primavera
ou esta lua cheia
a convidar
amor?

Ana Luísa Amaral in "Coisas de Partir", 1993.

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METAFÍSICO FRUTO



Um fruto reticente é a saudade:
a pele custosa à faca, olhos como
cavernas onde a faca não chega e

uma arte cirúrgica é precisa.
Não posso permiti-la no caixote
a insistir-me a alma. Por isso

insisto a arte e a minha perícia
em lhe arrancar a pele, os olhos
reticentes de Sibila.

Às fatias depois - tarefa igual -

Ana Luisa Amaral in "Coisas de Partir", 1993

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REFLEXOS


 Photo by Resim & Fotoğraf.


olho-te pelo reflexo
do vidro
e o coração da noite

E o meu desejo de ti
são lágrimas por dentro,
tão doídas e fundas
que se não fosse:




o tempo de viver;



e a gente em social desencontrado;



e se tivesse a força;



e a janela ao meu lado



fosse alta e oportuna,

invadia de amor o teu reflexo
e em estilhaços de vidro
mergulhava em ti

Ana Luísa Amaral in "Coisas de Partir", 1993

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MADRIGAL EM MADRUGADA









Photo by Resim & Fotoğraf.

A exaustão
das cinco da manhã
e a noite em claro

Gravo o poema,
que o peso da caneta
e eu nem Atlas

Os olhos a fecharem-se
mais fortes
que o desejo

          (vontade de rimar
           nestes espaços)

          [Se agora tu viesses
           dar-me um beijo
           com certeza adormecia
           nos teus braços]

Ana Luísa Amaral in "Coisas de Partir", 1993

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OUTRAS PAISAGENS



Photo by Ana Goncalves Towarzysz


À distância de
antes
(de televisão, de insectos,
de místicos perfumes
e entradas)

As roupas penduradas
na varanda (lençóis em
sugestão são mais
que dez)

Poeira levantada
no meio desta Lisboa
em frente da esplanada
onde estou

e à distância nem sei
se da infância
- ou erro
te escrevo e desfaleço
de amor.
E trinta e oito graus
à sombra.



Ana Luísa Amaral in "Coisas de Partir", 1993

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INCOMPLETUDES









Photo by Sandra for
Resim & Fotoğraf


Algum frio (não demais),
os meus olhos pousados
quase na mesma flor deste jardim,
eu sentada em degrau de casa
alheia
A noite traz sabores
insuspeitados,
uma liquidez quase
do olhar

(A morte
deve vir desta maneira:
numa suspeita que não chega
a ser)

Pelos degraus acima
a minha sombra vive,
desigual,
a palavra chegou,
incompleta

Numa insuficiência tão brutal
como morrer no meio de um descampado,
ignorante do raio -

Ana Luísa Amaral in "Coisas de Partir", 1993.

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CLARIDADE



















O que a perturba mais:
corredores negros, ao fundo nem
janela. Luz demais ofuscando
a pupila.

Às vezes,
só um olho
em sobressalto.

Ana Luisa Amaral in "Coisas de Partir", 1993.

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ACTUAÇÃO ESCRITA















Photo retirada do mural de Helena Soares no Facebook



Pode-se escrever sem ortografia
Pode-se escrever sem sintaxe
Pode-se escrever sem português
Pode-se escrever numa língua sem saber (essa língua)
Pode-se escrever sem saber escrever
Pode-se pegar na caneta sem haver escrita
Pode-se pegar na escrita sem haver caneta
Pode-se pegar na caneta sem haver caneta
Pode-se escrever sem caneta
Pode-se sem caneta escrever CANETA
Pode-se sem escrever escrever PLUME
Pode-se escrever sem escrever
Pode-se escrever sem sabermos nada
Pode-se escrever NADA sem sabermos
Pode-se escrever SABERMOS sem nada
Pode-se escrever NADA
Pode-se escrever com nada
Pode-se escrever sem nada

Pode-se não escrever

Pedro Oom
poema retirado do livro
"A única real Tradição viva"
Selecção de Perfecto E. Cuadrado
ed Assírio & Alvim

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AS VIRTUDES DIALOGAIS












Photo by Resim & Fotoğraf.



Dentro
de mim
há uma planta
que cresce
alegremente
que diz
bom dia
quando nos tocamos
ao entardecer
e boa noite
quando florimos
à alvorada
uma árvore
que não está com o tempo
este tempo
a que chamamos
nosso

Pedro Oom

Poema retirado do livro
"A única tradição real viva"
com selecção de Perfecto E. Cuadrado
Ed. Assírio & Alvim

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2012-03-30

POEMA SEXAGÉSIMO NONO















Imagem retirada de Google.



Amo a figueira,

a sonolenta árvore onde Judas

ajustou contas com a sua palavra,
vitória breve da inflorescência da
traição. Figo que no espírito se fez carne
e se fez casa ambiciosa, difícil de sustentar
a hipotética hipoteca da
consciência.

A figueira recusou
os trinta dinheiros que
pendiam da mão desolada do apóstolo,
sem contabilizar o envergonhado brilho
dessa prata que
bastaria para comprar todos os figos
que a figueira nunca pretendeu
mais
que oferecer.

Joaquim Pessoa
(Do livro inédito, GUARDAR O FOGO)

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FÁBULA DE JOAN MIRÓ












Photo by Emira for Resim & Fotoğraf.



O azul estava imobilizado entre o vermelho e o negro.
O vento ia e vinha pela página da planície,
acendia pequenas fogueiras, revolvia-se na cinza,
saía com a cara tisnada gritando pelas esquinas,
o vento ia e vinha abrindo e fechando portas e janelas,
ia e vinha pelos crepusculares corredores do crânio,
o vento com má letra e as mãos manchadas de tinta
escrevia e apagava o que tinha escrito sobre a parede do dia.
O sol não era senão o pressentimento da cor amarela,
uma insinuação de plumas, o grito futuro do galo.
A neve extraviara-se, o mar perdera a fala,
era um rumor errante, umas vogais em busca duma palavra.

O azul estava imobilizado, ninguém o olhava, ninguém o ouvia:
o vermelho era um cego, o negro um surdo-mudo.
O vento ia e vinha perguntando: por onde anda Joan Miró?
Estava aí desde o princípio, mas o vento não o via:
imobilizado entre o azul e o vermelho, o negro e o amarelo,
Miró era um olhar transparente, um olhar de sete mãos.
Sete mãos em forma de orelhas para ouvir as sete cores,
sete mãos em forma de pés para subir os sete degraus do arco-íris,
sete mãos em forma de raízes para estar em toda a parte e ao mesmo tempo em Barcelona.

Miró era um olhar de sete mãos.
Com a primeira mão batia no tambor da lua,
com a segunda semeava pássaros no jardim do vento,
com a terceira agitava o covilhete das constelações,
com a quarta escrevia a lenda secular dos caracóis,
com a quinta plantava ilhas no peito do verde,
com a sexta fazia uma mulher misturando noite e água, música e electricidade,
com a sétima apagava tudo o que fizera e começava de novo.
O vermelho abriu os olhos, o negro disse algo incompreensível e o azul levantou-se.
Nenhum dos três podia crer no que via:
eram oito gaviões ou eram oito guarda-chuvas?
Os oito abriram as asas, deitaram-se a voar e desapareceram por um vidro quebrado.

Miró começou a queimar as suas telas.
Ardiam os leões e as aranhas, as mulheres e as estrelas,
o céu povoou-se de triângulos, esferas, discos, hexaedros em chamas,
o fogo consumiu inteiramente a granja planetária plantada no centro do espaço,
do montão de cinzas brotaram borboletas, peixes-voadores, roucos fonógrafos,
mas entre os agulheiros dos quadros chamuscados
surgiam o espaço azul e a risca da andorinha, a folhagem de nuvens e o bordão florido: era a primavera que insistia com verdes ademanes.
Perante tanta obstinação luminosa Miró coçou a cabeça com a sua quinta mão, murmurando para si mesmo: Trabalho como um jardineiro.

Jardim de pedras ou de barcas? Jardim de roldanas ou de bailarinas?
O azul, o negro e o vermelho corriam pelos prados,
as estrelas andavam nuas mas as friorentas colinas meteram-se debaixo dos lençóis, havia vulcões portáteis e fogos-de-artificio a domicílio.
As duas raparigas que guardam a entrada à porta das percepções, Geometria e Perspectiva
foram passear de braço dado com Miró, cantando Une étoile caresse le sein d'une négresse.

O vento voltou a página da planície, ergueu a cara e disse: mas onde anda Joan Miró?
Estava aí desde o princípio e o vento não o via:
Miró era um olhar transparente por onde entravam e saíam atarefados abecedários.
Não eram letras as que entravam e saíam pelos túneis do olho:
eram coisas vivas que se juntavam e se dividiam, se abraçavam e se mordiam e se dispersavam,
corriam por toda a página em fileiras animadas e multicolores, tinham cornos e caudas,
umas estavam cobertas de escamas, outras de plumas, outras andavam vestidas de peles,
e as palavras que formavam eram palpáveis, audíveis e comestíveis mas impronunciáveis:
não eram letras mas sensações, não eram sensações mas transfigurações.

E tudo isto para quê? Para traçar uma linha na cela dum solitário,
para iluminar com um girassol a cabeça de lua dum camponês,
para receber a noite que chega com personagens azuis e pássaros de festa,
para saudar a morte com uma salva de gerânios,
para dizer bons-dias ao dia que nasce sem nunca lhe perguntar de onde vem nem para onde vai,
para recordar que a cascata é uma rapariga que desce as escadas morta de riso,
para ver o sol e os seus planetas balançando-se no trapézio do horizonte,
para aprender a olhar e para que as coisas nos olhem e entrem e saiam pelos nossos olhares, abecedários viventes que deitam raízes, sobem, florescem, rebentam, voam, se dissipam, caem.

Os olhares são sementes, olhar é semear, Miró trabalha como um jardineiro
e com as suas mãos traça incansável — círculo
e cauda, oh! e ah! —
a grande exclamação com que todos os dias começa o mundo.

Octavio Paz, in Antologia Poética [1935-1987], trad. Luís Pignatelli, Círculo de Leitores, Março de 1991, pp. 116-119.

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2012-03-28






























Photo by 莊穠瑋.


Non dormo, ho gli occhi aperti per te.
Guardo fuori e guardo intorno.
Com'è gonfia la strada
di polvere e vento nel viale del ritorno...

Quando arrivi, quando verrai per me
guarda l'angolo del cielo
dov'è scritto il tuo nome,
è scritto nel ferro
nel cerchio di un anello...

E ancora mi innamora
e mi fa sospirare così.
Adesso e per quando tornerà l'incanto.

E se mi trovi stanco,
e se mi trovi spento,
sei meglio già venuto
e non ho saputo
tenerlo dentro me.

I vecchi già lo sanno il perché,
e anche gli alberghi tristi,
che il troppo è per poco e non basta ancora
ed è una volta sola.

E ancora proteggi la grazia del mio cuore
adesso e per quando tornerà l'incanto.
L'incanto di te...
di te vicino a me.

Ho sassi nelle scarpe
e polvere sul cuore,
freddo nel sole
e non bastan le parole.

Mi spiace se ho peccato,
mi spiace se ho sbagliato.
Se non ci sono stato,
se non sono tornato.

Ma ancora proteggi la grazia del mio cuore,
adesso e per quando tornerà il tempo...
Il tempo per partire,
il tempo di restare,
il tempo di lasciare,
il tempo di abbracciare.

In ricchezza e in fortuna,
in pena e in povertà,
nella gioia e nel clamore,
nel lutto e nel dolore,
nel freddo e nel sole,
nel sonno e nell'amore.

Ovunque proteggi la grazia del mio cuore.
Ovunque proteggi la grazia del tuo cuore.

Ovunque proteggi, proteggimi nel male.
Ovunque proteggi la grazia del tuo cuore.




V. Caposella

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EXERCÍCIO ESPIRITUAL



















É preciso dizer Rosa em vez de dizer Ideia
é preciso dizer Azul em vez de dizer Pantera
é preciso dizer Febre em vez de dizer Inocência
é preciso dizer O mundo em vez de dizer Um homem

É preciso dizer Candelabro em vez de dizer Arcano
é preciso dizer Para sempre em vez de dizer Agora
é preciso dizer O Dia em vez de dizer Um Ano
é preciso dizer Maria em vez de dizer Aurora

Mário Cesariny (1923-2006), «Uma Grande Razão — os poemas maiores»
e também in "Estilhaços e Cesariny" (Assírio & Alvim) com poemas e voz de Adolfo Luxúria Canibal

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Nobody cares for flowers.



Nobody cares for flowers.
Nobody cares for birds.

Nobody wants to believe that Little Garden is dying,
Nobody wants to believe that Little Garden’s heart- is swollen in this parching heat.
Nobody wants to know that Little Garden's mind- is slowly losing its green past.
And it seems that Little Garden's sense is lost- in a remote isle,
perishing fast, in the isolating scent of the air.

Our courtyard is feeling lonely.
Our courtyard is yawning- in the hope of a raining cloud.
And young, tiny leaves- are collapsing from the heights of trees.

And from the pastel windows of the cage,
song of the birds suddenly breaks- into the attacks of coughing.
Our courtyard is feeling lonely.

**&**

My sister was friend with flowers and birds.
When my mother was mad, wanted to scold her,
she was hiding behind the green mass of the trees.
She loved to play with wounded, unwell birds.

My sister is living in uptown now.
Now she has a sham house.
Now she has a synthetic rose.
Now she has an artificial plant.
She stays with her fake husband.
They listen to synthesized music.
And they will make lots of natural kids.

My sister comes to visit,
She doesn’t like dusts of Little Garden,
She always brings perfumed, hydrating creams.

**&**

Our courtyard is feeling lonely.
Our courtyard is feeling lonely.
The whole day, it sounds like razing and hammering:
Our neighbors are implanting mines in their field,
Our neighbors are mounting a safety cover for their pool,
Our neighbors’ basement looks like a secret arsenal base.
Our neighbor’s children are fighting with noisy guns and bombs.
Our courtyard is feeling scared.

**&**

And I am scared of this Heartless Time,
I am scared of all those Wasted Hands,
I am scared of all these Stranger Heads,
I am so lonely, like a nerd in Math Class.

I think we have to bring Little Garden to the clinic.
I think, I think, I think…

And Little Garden’s heart is swollen in this parching heat.
And Little Garden’s mind is slowly losing its green past.

Forough Farrokhzad (Selected from I feel Little Garden’s pain 1967)
(Trans.: MD, June 2006, Montreal)
.

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2012-03-25

OUTROS MOLDES DE MEMÓRIA


















I

Os cavalos de pedra
que vejo hoje na fotografia
precisei de os tocar: as narinas
a edra arrefecida e húmida, os
contornos de pedra

era domingo e esses cavalos
grandes demais na minha
mão

II

que passeava à lua
sobre as crinas, húmidos e redondos
desatentos, o tempo que deixara
de ser tempo
para ser um sem-tempo:
um tempo a menos

III

e os cavalos de pedra
a latejar,
narinas ofegantes, as minhas mãos nas
crinas (dos cavalos), a pedra
sobre o lago galopando-se e notas
audíveis (indistintas)
os cavalos rodeando em valsa

IV

e finalmente (ou só)
de tanta roda ou tanta valsa
(ou tanta mágoa, que ela só comparável
à que sentia então
de ter nas minhas mãos cavalos
frios
e finalmente de tanto rodear
indicador, polegar, palma da mão,
as crinas, as narinas, o torso (tudo frio)
remontar

V

com saudade (enternecida,
como deve ser sempre a saudade)
ao momento retido:
pape impressionado pela luz de repente
(o flash deslumbrante)

VI

em suma,
re-moldar deslumbramentos
de pedras, de cavalos, ou de
nada.

ANA LUISA AMARAL in "Minha senhora de quê", 1990.

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TERRA DE NINGUÉM

















Digo: espaço
ou uma receita qualquer
que seja em vez

Um espaço a sério
ou terra de ninguém
que não me chega
o conquistado à custa

de silêncios, armários
e cebolas perturbantes

A síncopes de mim
construí um reduto mas não
chega: nele definham
borboletas e sonhos
e as mesmas cebolas em vício se repetem

Digo espaço
ou receita qualquer
em vez de mim. 

ANA LUíSA AMARAL in "Minha senhora de quê" 1990.

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DISCRETA ARTE
















Photo by Resim & Fotoğraf.



Discretamente. Cultivar a palavra.
Arte de dispor flores por longa mesa
prazer de dispor quadros por paredes
em critério de escolha pessoal.

Discretamente: aqui uma pequena
haste a lembrar o sol, ali a folha
resolvendo o lugar, o espaço certo
(ligeiro afastamento necessário

para o conjunto articulado em cores).
O quadro mais azul naquele sítio,
o mais cinzento e largo a distrair-se


sobre a nudez de uma parede clara. 
Discretamente. E a palavra nascida
de tela (ou terra) resolvida. Agora. 

ANA LUÍSA AMARAL in "Minha Senhora de Quê", 1990.

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SEQUÊNCIA EM NOTA MAIOR QUALQUER














Photo by Resim & Fotoğraf.



I

O quarto mais barato que
tivessem. E cá estou em poleiro de sol
por cima dos telhados.
Não falta clarabóia, nem janela redonda,
nem, tecto de declínio
para o tom da mansarda ser total.
E na casa de banho descentrada
é sorte o verão, que a janela não
fecha. o meu riso sozinha
por cima dos telhados, a água escorregando
e eu rindo-me sozinha
os telhados por baixo do quarto
mais barato que eles tinham
mas o melhor de todos.

ANA LUÌSA AMARAL in "Minha senhora de quê", 1990

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ESPAÇOS














Photo by Emira for Resim & Fotoğraf.




As nuvens não se rasgaram
nem o sol: só a porta
do meu quarto

A abrir-se noutras
portas dando para outros
quartos e um corredor ao fundo

Não havia janelas nem
silêncios: sinfonias por dentro
a rasgar o silêncio

A porta do meu quarto
já nem porta: madeiramento
para o fogo. 

ANA LUÌSA AMARAL in "Minha senhora de Quê", 1990.

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APARÊNCIAS


O tempo devagar recolhe areias.
Ampulhetas de sol. Eu acordada
dentro da noite ainda. Meio verso
um calmante: muito suave que

o instinto é agudo. Ampulhetas
de sol já se passaram quantas?
Tudo parece e nada é de facto. O tempo: uma invenção, mal

necessário, ou cerne do instinto.
Enxutas as areias, devagar, agora em ampulhetas feitas de sol
e versos. 

ANA LUÍSA AMARAL in "Minha Senhora de Quê", 1990.

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VERSO



Like an immense fire in the wind;
Like the waltz of a sleeping lake–
under the stroke of rocks;












Photo by Jorge Velhote






Like a grey, thick crowd of clouds–
in the crisis of storm;

Like breathless skies–
in the warm, and humid summer days:

He was extended- up to the infinity,
down to the other side,
in the lost end of me.



I saw myself thawing,
with seizing bends of his hands.
And I sank in the opaque steam of my substance.

I saw my skin cracking in the expansion of love.
I saw my burning mass, slowly melted;
melted and poured, poured, poured.
It poured in the moon,
that waned, slight,
pale moon.



We had cried in each other.
In that fleeting instant of unison,–
We had lived madly–
in each other.

Persian Poetry in English

Forough Farrokhzad (selected from Unison, 1962)
(Trans.: MD, June 2006, Montreal)


Como o imenso fogo embalado pelo vento;
Como o movimento da valsa do lago e – a dormecido sob o traçado das rochas;

Como cinzenta e espessa massa de nuvens -
que anuncia a tempestade;

Como os céus – sem fôlego
debaixo da canícula e humidade daqueles dias de Verão:

Ele prologava-se até o infinito,
para baixo até ao outro lado,
perdido de mim.


E no meu corpo deu-se o degelo, sob a passagem das suas mãos.
E fiquei submersa no vapor opaco de minha substância.
Eu vi minha pele abrirem-se fendas na expansão do amor.
E vi-me com um massa ardente, lentamente fundida;
derretida, vertendo-se, vertendo-se, vertendo-se.
Derramado-se na Lua,
Lua desvanecida, ligeira, pálida.


Gritámos um no outro.
Naquele instante fugaz em que nos unimos–
e em que viveramos loucamente–
um para o outro.

Tradução livre de Cláudia de Sousa Dias
.

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INVERSO













Photo by Jorge Velhote




The river,
is the unmoving anthem of Dawn,
performed at the proximity–
of the lakes of night.

And Day begins–
with the last breath of the night’s–
resigning reign.

At present,
this dawn is taking slowly away- the blaze of my torch,
and it feels like a massive sun,
rising with might in my blood–
for the sake of Atonement.

**&**

At present,
in this dawn,
all the blue springs I have lived,
and all the green leaves I have seen,
peacefully rest on your fingertips.

And this vast sky–
glows with the golden flow of a breeze,
streaming from your pierced wrists.

**&**

Recite your most beautiful verse!
Disclose the veiled torment of your soul!
Deliver the child of your grief!
Recite, sing, reveal!

And,
Beloved!
Fear Not!
Fear not that they say–
your tale- is a vain tale.
For the Tale of Love, sure,
can never be plain, mundane.

And, Beloved!
Take all the time- it takes,–
and all the nights and days- it deserves!
For Love, is itself the next day–
and the light that lasts,
ever-lasts.

**&**

There is no instance–
or instant for you:
A butterfly in flight.
A river in rush.

And so–
is Eternally True:
Nothing streams in reverse.
The butterfly sits on a rose.
The river joins the sea.

Persian Poetry in English

Ahmad Shamlou (Selected from Nocturnal 1965)
(Trans.: MD, January 2009, Montreal)
.
PS. I picked the picture of Sherazade, The Mythical Tale-teller of One Thousand and One Nights, as the poem implicitly refers to it.

One Thousand and One Nights:

http://en.wikipedia.org/wiki/One_Thousand_and_One_Nights

Scheherazade:

http://en.wikipedia.org/wiki/Scheherazade

One Thousand and One Nights - Wikipedia, the free encyclopediaen.wikipedia.org
One Thousand and One Nights (Arabic: كتاب ألف ليلة وليلة‎ Kitāb alf laylah wa-laylah) is a collection of Middle Eastern and South Asian stories and folk tales compiled in Arabic during the Islamic Golden Age. It is often known in English as the Arabian Nights, from the first English language edition...


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2012-03-24

DIMANADA









Photo by Emira for Resim & Fotoğraf.

DIMANADA
colhias
o veneno com o corpo; a flor
fechada, tão adormecida do teu sexo,
apenas lábio
cavado na mudez;
cega de amêndoa,
raça de olhos fechados…
Cabelos errantes, provavas
(dente cravado na morte: uma oração desfeita
a fim de ser criada)
o sangue a chorar dos ramos

Do norte
veio o sangue,
e havia de invadir as águas;
do norte desatou-se aquele vento
que agora te inclina,
aninhada nele, entardecida de febre
- a mão amputada que se estende
para ciosamente se saciar
de ti.

Arnau Pons

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ÁRIA












Photo by Resim & Fotoğraf.


É belo o tempo de Inverno,
no silêncio, a lenha húmida
das maternas canções da chuva.
Na lentidão de Janeiro
fica mais longe a morte. As aves
habitam nos beirais
como príncipes destronados.

Inês Lourenço
In: Câmara Escura - Uma Antologia, com selecção de Manuel de Freitas, Língua Morta, 2012

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O NOME DO ARCO






















Photo by Hayattir for Resim & Fotoğraf.

O NOME DO ARCO és tu;
a sua flecha,
uma foice negra.

Lança-a para o alto:
leva consigo, cravado no coração,
um fruto por morder –
-ceifado.


Arnau Pons

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SESSÃO LITERÁRIA













Photo by Emira for

Resim & Fotoğraf



Falam de perfeição. De perseguir
ao menos em verso, esse vórtice de luzes
e excelsa beleza ou
beatitude que logrará
a canónica obra. Velho
enredo já sem graça divina
nem humana.
Melhor falassem
das batatas novas, que
costumam aparecer
antes da Páscoa.

Inês Lourenço
[in Câmara Escura - Uma Antologia, com selecção de Manuel de Freitas, Língua Morta, 2012]

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2012-03-23

A ROSA











Photo by Esradan for Resim & Fotoğraf




Uma sépala, pétala, um espinho,
Numa simples manhã de verão_
Um frasco de orvalho _
Uma abelha ou duas _
Uma brisa_um bulício nas árvores _
... E eis-me rosa!

[Emily Dickinson]

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Poema aos homens constipados














Pachos na testa, terço na mão,
Uma botija, chá de limão,
Zaragatoas, vinho com mel,
Três aspirinas, creme na pele
Grito de medo, chamo a mulher.
Ai Lurdes que vou morrer.
Mede-me a febre, olha-me a goela,
Cala os miúdos, fecha a janela,
Não quero canja, nem a salada,
Ai Lurdes, Lurdes, não vales nada.
Se tu sonhasses como me sinto,
Já vejo a morte nunca te minto,
Já vejo o inferno, chamas, diabos,
Anjos estranhos, cornos e rabos,
Vejo demónios nas suas danças
Tigres sem listras, bodes sem tranças
Choros de coruja, risos de grilo
Ai Lurdes, Lurdes fica comigo
Não é o pingo de uma torneira,
Põe-me a Santinha à cabeceira,
Compõe-me a colcha,
Fala ao prior,
Pousa o Jesus no cobertor.
Chama o Doutor, passa a chamada,
Ai Lurdes, Lurdes nem dás por nada.
Faz-me tisana e pão de ló,
Não te levantes que fico só,
Aqui sozinho a apodrecer,
Ai Lurdes, Lurdes que vou morrer

António Lobo Antunes
(AOS HOMENS que estão com gripe)

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PARA ATRAVESSAR CONTIGO O DESERTO DO MUNDO





















Photo: do mural de Alice Sequeira no facebook.


Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade, para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei.
Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso.
Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo.
Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento. 

Sophia de Mello Breyner Andresen

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2012-03-22

«Algumas proposições com pássaros e árvores que o poeta remata com uma referência ao coração».


 Photo by Our Beautiful World & Universe.


Os pássaros nascem na ponta das árvores
As árvores que eu vejo em vez de fruto dão pássaros
Os pássaros são o fruto mais vivo das árvores
Os pássaros começam onde as árvores acabam
Os pássaros fazem cantar as árvores
Ao chegar aos pássaros as árvores engrossam movimentam-se
Deixam o reino vegetal para passar a pertencer ao reino animal
Como pássaros poisam as folhas na terra
Quando o outono desce veladamente sobre os campos
Gostaria de dizer que os pássaros emanam das árvores
Mas deixo essa forma de dizer ao romancista
É complicada e não se dá bem na poesia
Não foi ainda isolada da filosofia
Eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros
Quem é que lá os pendura nos ramos?
De quem é a mão a inúmera mão?
Eu passo e muda-se-me o coração



Ruy Belo

(Poema dito por Carlos Vaz Marques na TSF em celebração do Dia Mundial da Poesia)

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2012-03-21

Sem título








Photo by

Resim & Fotoğraf.



Inesperadamente um pombo lança-se do prédio.
Corta em voo picado o céu de tédio
e esborracha-se em vermelho na calçada.
A morte arrasta-se pesada ao ouvir o chamamento.
A pomba, debruçada lá do alto,
mede a distância que a separa do asfalto.
Uma lágrima liberta-se dos seus olhos
e rebenta cá em baixo num lamento.
Parece que a morte ainda se demora.
Ficou retida num semáforo vermelho.
Indignado, levanta-se o pombo e vai-se embora.
No chão sobrou uma mancha encarnada,
e a pomba que era viúva voltou a ser casada.

Gonçalo Mira

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MOLDURA











Photo by Emira for Resim & Fotoğraf.



A serrania e a tarde são uma
única moldura de ouro velho e sombras:

não há barrancos pirenaicos nem círculos de lua

descritos no cinzelado fantasioso

da talha, o acanto luminoso que faz ondular

as águas, a concha de turvo nevoeiro fundida
no alto com a espessura de algum antigo
arvoredo no lugar mais distante

onde se cruzam as brisas do museu
e a pintura, com a marca indivisa
que fecha a tarde sobre um Pirinéu
dourado, completamente vago, impreciso…


Yvette K. Centeno

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NA ESCURIDÃO, O LOUREIRAL


















Photo by Sandra for Resim & Fotoğraf - Erkan Torunn.




Na escuridão o perfume do loureiral
é de piedosos e apagados aromas: mais próprios
do húmus: o estropiado, belo, espia
o rumor que sobe ( o cérebro mais
alto dos inomináveis estados).
Sábado, Dezembro, à noite. Desfazem
a memória armários cheios de livros
no palácio paterno que alberga o gelado
fascismo. O insuportável rumor
de asas de anjo que tansportam e deixam
suavemente em terra a casa santa
com revestimento de mármore
de quinhentos, fumo e fartura de pombos.
A farsa começa a expansão.

Yvette K. Centeno
(do livro “contas da revolução” )

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2012-03-18

A GRANDE COLHEITA

Photo by Miguel Gonçalves



Na casa, o fogo faz arder portas falsas.

É deus Polar, vertical como os meridianos,

e com os cimos em cruz na flor da azinheira, ergue-se

diante do Cruzeiro com o Hissope nas mãos.

Brota na torrente a cauda de um cometa,
pela encosta abaixo, saltando sem barulho,
enquanto os palheiros, em branco ou em maquette
enchem a Carroça grande ou a mais Pequena

Fundem-se pouco a pouco na dôr,
a água é um bosque ainda não consumido,
com flocos de casa no ar puro.

Sobre a folhagem luz a serrania,
arde nas rochas a água prateada,
suspenso no céu o fundo obscuro.


Yvette K. Centeno

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2012-03-17

Rui Costa, in memoriam




Tethys (lua de Saturno) by NASA








Sábado, dia 2 de Março de 2012, amigos e admiradores do poeta Rui Costa uniram-se para uma homenagem, na livraria Poetria, na Rua José Falcão, no Porto. Foram lidos poemas, conversou-se sobre as múltiplas facetas da vida e do ser que foi este Poeta: as paixões, convicções, a sua irreverência. Rosa Alice, Branco, Amadeu Baptista, Rui Lage, Henrique Fialho, leram textos e deram a conhecer vários aspectos da vida de Rui Costa. António Pedro Ribeiro deu a voz a músicas compostas pelo homenageado para a banda Mana Calórica.

Eu, no entanto, não conheci o Poeta Rui Costa. A primeira vez que ouvi mencionar o seu nome foi através de um chat no Facebook, no qual o meu amigo António Pedro Ribeiro desabafava, preocupado, o desaparecimento do amigo, lançando abruptamente a frase:

“Desapareceu um amigo meu. Rui Costa. Tínhamos uma banda, a Mana Calórica”.

Não vi a mensagem imediatamente, só horas depois. Tinha o computador ligado, mas andava de um lado para o outro a ajudar o Gustavo a preparar o jantar. Quando, finalmente me sentei, li a mensagem, não liguei muito – o António Pedro já não estava no chat -, mas fiquei de orelha em pé.
Dois dias depois, na quarta-feira, vejo o anúncio do desaparecimento no blogue “Porosidade Etérea”, “Apelo” e em mais alguns blogues. No entanto, a informação desaparece quase imediatamente. Intrigada, procuro saber mais. Tudo indica que as autoridades estão a investigar e não desejam qualquer fuga de informação. O primeiro pensamento que me vem à ideia é o de sequestro, assalto à mão armada. Enfim, as coisas adquiriam uma configuração algo sinistra. Espicaçada pela curiosidade, procuro saber mais. Procuro dados biográficos, obra publicada. Encontro um currículo impressionante: uma licenciatura em Direito, pós-graduação em Londres, Doutoramento em Saúde pública, a frequentar no Brasil, professor na Escola Superior de Saúde do Vale do Ave, em Famalicão; um conjunto bastante considerável de obras publicadas, inclusive a obtenção do Prémio Daniel Faria, em 2005.

E encontro o poema “O Pão”.

E fico completamente cativada.

Passo os olhos por mais alguns poemas, dispersos por blogues e sites vários e penso: como é possível que o Talento possa estar envolvido num véu de sombras, uma espécie de cortina de fumo que mantém a humanidade, a imprensa, os principais peritos em crítica literária, envoltos num misterioso e inexplicável silêncio impedindo-os de se maravilharem ou de estremecerem com o impacto das suas palavras?

Os dias passam. A muralha do silêncio persiste, à volta dos media. As investigações, claro. Não se pode prejudicar o trabalho da Polícia.
Mas os amigos trocam impressões , em conversas de café, por e-mail, nos chats...M. do blogue “A Panificadora Ribeiro”, traça-me o retrato do poeta, a quem conheceu pessoalmente. Cerca de duas semanas depois, encontram o carro, com o telemóvel e o casaco do jovem, desaparecido aos 39 anos. Poucos dias depois, a tragédia confirma-se. O corpo é encontrado num areal, em Afurada, onde ao que tudo indica, terá caído da ponte. O arauto é o poeta Rui Lage, que me transmite a notícia em primeira mão, através do fecebook. Decido publicar “O Pão” no blogue Rendez-vous, em homenagem, mas ainda sem mencionar o óbito, aguardando a autorização dos pais. Subitamente, liga-me António Pedro Ribeiro. Pergunto-lhe se sabe alguma coisa, convencida que a notícia lhe terá chegado primeiro. Intuitivo, apercebe-se que estou a par de algo. Interroga-me até me conseguir extrair a notícia. É a primeira vez que sou a a mensageira da Morte. Espero que,tão cedo, Ela não me volte a incumbir de semelhante tarefa. Não tão cedo. De preferência, nunca mais...ou, pelo menos, não nos próximos vinte anos.


Cláudia de Sousa DiasSábado, dia 2 de Março de 2012, amigos e admiradores do poeta Rui Costa uniram-se para uma homenagem, na livraria Poetria, na Rua José Falcão, no Porto. Foram lidos poemas, conversou-se sobre as múltiplas facetas da vida e do ser que foi este Poeta: as paixões, convicções, a sua irreverência. Rosa Alice, Branco, Amadeu Baptista, Rui Lage, Henrique Fialho, leram textos e deram a conhecer vários aspectos da vida de Rui Costa. António Pedro Ribeiro deu a voz a músicas compostas pelo homenageado para a banda Mana Calórica.

Eu, no entanto, não conheci o Poeta Rui Costa. A primeira vez que ouvi mencionar o seu nome foi através de um chat no Facebook, no qual o meu amigo António Pedro Ribeiro desabafava, preocupado, o desaparecimento do amigo, lançando abruptamente a frase:

“Desapareceu um amigo meu. Rui Costa. Tínhamos uma banda, a Mana Calórica”.

Não vi a mensagem imediatamente, só horas depois. Tinha o computador ligado, mas andava de um lado para o outro a ajudar o Gustavo a preparar o jantar. Quando, finalmente me sentei, li a mensagem, não liguei muito – o António Pedro já não estava no chat -, mas fiquei de orelha em pé.
Dois dias depois, na quarta-feira, vejo o anúncio do desaparecimento no blogue “Porosidade Etérea”, “Apelo” e em mais alguns blogues. No entanto, a informação desaparece quase imediatamente. Intrigada, procuro saber mais. Tudo indica que as autoridades estão a investigar e não desejam qualquer fuga de informação. O primeiro pensamento que me vem à ideia é o de sequestro, assalto à mão armada. Enfim, as coisas adquiriam uma configuração algo sinistra. Espicaçada pela curiosidade, procuro saber mais. Procuro dados biográficos, obra publicada. Encontro um currículo impressionante: uma licenciatura em Direito, pós-graduação em Londres, Doutoramento em Saúde pública, a frequentar no Brasil, professor na Escola Superior de Saúde do Vale do Ave, em Famalicão; um conjunto bastante considerável de obras publicadas, inclusive a obtenção do Prémio Daniel Faria, em 2005.

E encontro o poema “O Pão”.

E fico completamente cativada.

Passo os olhos por mais alguns poemas, dispersos por blogues e sites vários e penso: como é possível que o Talento possa estar envolvido num véu de sombras, uma espécie de cortina de fumo que mantém a humanidade, a imprensa, os principais peritos em crítica literária, envoltos num misterioso e inexplicável silêncio impedindo-os de se maravilharem ou de estremecerem com o impacto das suas palavras?

Os dias passam. A muralha do silêncio persiste, à volta dos media. As investigações, claro. Não se pode prejudicar o trabalho da Polícia.
Mas os amigos trocam impressões , em conversas de café, por e-mail, nos chats...M. do blogue “A Panificadora Ribeiro”, traça-me o retrato do poeta, a quem conheceu pessoalmente. Cerca de duas semanas depois, encontram o carro, com o telemóvel e o casaco do jovem, desaparecido aos 39 anos. Poucos dias depois, a tragédia confirma-se. O corpo é encontrado num areal, em Afurada, onde ao que tudo indica, terá caído da ponte. O arauto é o poeta Rui Lage, que me transmite a notícia em primeira mão, através do fecebook. Decido publicar “O Pão” no blogue Rendez-vous, em homenagem, mas ainda sem mencionar o óbito, aguardando a autorização dos pais. Subitamente, liga-me António Pedro Ribeiro. Pergunto-lhe se sabe alguma coisa, convencida que a notícia lhe terá chegado primeiro. Intuitivo, apercebe-se que estou a par de algo. Interroga-me, até me conseguir extrair a notícia. É a primeira vez que sou a a mensageira da Morte. Espero que, tão cedo, Ela não me volte a incumbir de semelhante tarefa. De preferência, nunca mais...ou, pelo menos, não nos próximos vinte anos.


Cláudia de Sousa Dias

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POEMA OCTAGÉSIMO













Photo by Joaquim Nogueira




Frágeis como os ossos de um cristal,
os meus pensamentos aninham-se na noite
para construir o poema. A minha dor branca prefere
a luz que prenuncia a madrugada, luz bailarina
que me ilumina a pele molhada de alegria
sempre que faço em ti o trabalho doce da abelha
e me deito sobre o teu corpo para provar da vida
o melhor de todos os néctares, o mais completo
dos versos que o teu sangue me dá. Escrevo-te
com o corpo. Quero ganhar o nobel da ternura.

Joaquim Pessoa
(Do livro inédito, GUARDAR O FOGO)

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2012-03-16

êxtase ganapatyas













Photo by Joaquim Nogueira


se todos os sopros (spiritus) e partes do ar confluissem assim num único oceano, formariam uma só alma, por mais numerosos e incontáveis que fossem.
giordano bruno, tratado da magia.

aparece desnuda a ilha wali
na magia aquiescente da frágil campina
liliputiana folhagem
amarela palha
fulgura-se nela
a coroa de espuma cósmica
sorriso desdobrado
fios de ébano no peito das velas
dobam o descanso
rendilham a dádiva ao ouvido

oh ganesha
ganesha
ganapati om
vinayaka om
vinayagar om
pillayar om
vinayakudu om

entre o campo da tessitura
planam as aves
véu livre na duna do silêncio
mimesis da memória
hermética dissolvência da resenha pura
palavra erecta
brune o epicarpo gogado
eira de sol inflamada
plurificada
lavoura fundente
que abafa de caruma a brasura da soenga
olorante incenso venal
metamorfose alotrópica do amor
gramática híbrida que se gera

brunus brunus
magnanima sapientis criatura
fumo da terra
erva-moleirinha
tratado teínico dos milagres

toda a mundanidade se pia no mergulho nocturno
pelo ósculo tépido das águas
(circula âmbar cristalizado dentro do olho)
a arena muda
afia o sorvo embriagado na fonte
(carícia que desponta da língua
no tablado fértil da galeria reservada)
vínica vox
extensa flammula

brunus brunus
brincam dois sóis no leito terracota que o vento embala

perfurando as luras floridas
atinge-se a dourada cinza do sono
viagem única
líquida semente
dentro do nenúfar
que alarga pelo calor da fricção
falo sublime
fígulo solar
pedestre humildade
do sonho habitado

nebulosa vertebral dos dias moços
dançarinos com paus de canela
no jardim festivo do algodão

por fátima vale, 'spabilanto, incomunidade 2012

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POR ESTAS PRAÇAS, RUAS E ESCADAS












Photo by Sónia Cunha
(céu nocturno em Vizela às 19:00)


Por estas praças, ruas e escadas
correu o sangue (Não é uma frase
feita: parece que foi literalmente
assim). Inocência. A aura move
as caras dos espectadores, sobe
uma dôr pelo seu flanco esquerdo,
imperial, alguém que circula com
algma coisa descabeçada e um
velho estranho que come um galo
da Índia com chanfana. Tudo entre
dois enormes espelhos um pouco
inclinados reflectindo muitíssimas vezes
os meios corpos, as caras, os poentes,
durante aquele longo fim de semana.

Yvette K.Centeno

( do livro “contas da revolução” )

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2012-03-14





photo: Vénus de Milo, Louvre (wikipedia)

The Bird's fled to the aquatic side.
The sphere is vertical.
The sphere is vertical–
and the motion:
Rise and Fall!

At the borders of sight, bright stars rotate.
This Earth stands steady, seen from the heights.
All the black holes are altered- to confined circuits–
and concealed links.

And The Day and its sense–
is an unknown vastness–
to the contracted wits–
of the paper-worm*.

But why,
why shall I mind?

**&**

Why this inert bog is there, why?
Isn’t it just to amass the mass of vicious bugs?

Don’t you see?
These decomposed corpses had shaped–
all thoughts of this freezing morgue.
In the dark, infirm creatures veil–
and the insect talks.

Don’t you see?
These printed sheets will not prolong–
the short life- of a shameful thought!

But why,
why shall I mind?

**&**

I milk–
the unripe clusters of wheat–
with the warmth of my breasts.

So why,–
why shall I mind?

Forough Farrokhzad (from, Only the sound will last, 1967)

(Trans.: MD, May 2006, Montreal)

PS. This poem has been written as a response to a derogatory newspaper article about her. The reference to "paper-worm" and "printed sheets" comes from there.



O pássaro fugiu para o lado aquático.
A esfera é vertical.
A esfera é vertical– e o movimento:
Ascensão e queda!

Até onde a vista alcança, estrelas brilhantes giram.
Esta Terra permanece constante, vista do alto.
Todos os buracos negros são alterados - para novos caminhos– confinados
e ocultas as saídas.

E o dia e sua lógica – é uma imensidão– desconhecida
para formigas contratadas–
do papel-worm dos periódicos *.

Mas por que razão, por que devo me importar?



Por que existe este pântano inerte, por quê?
Não é apenas a acumular massa de disfunções viciosas?

Não vês?
Esses cadáveres decompostos tinham formatados–
todos os pensamentos desta congelação, deste necrotério.
Veladas– criaturas escuras, enfermas
e conversações de insectos.

Não vês?
Estas folhas impressas não serão o prolongamento–
mas a curta vida-de um pensamento vergonhoso!

Mas por que razão, por que devo me importar?



Eu desfaço em leite–
os flocos imaturos de trigo–
com o calor de meus seios.

Então, por que, –
para quê a mentira?







Forough Farrokhzad in, Apenas o som vai permanecerá, 1967

PS. Este poema foi escrito como uma resposta a um artigo de jornal depreciativos sobre a Autora. A referência ao "papel-worm" e "folhas impressas" vem daí.


(Traduzido por Bing, com arranjos de Cláudia de Sousa Dias)
Forough Farrokhzad (from, Only the sound will last, 1967)

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DISTANTE MELODIA









Photo by Alain Hanel




Num sonho de Íris morto a oiro e brasa,
Vem-me lembranças doutro Tempo azul
Que me oscilava entre véus de tule  
-Um tempo esguio e leve, um tempo-Asa.

Então os meus sentidos eram cores,
Nasciam num jardim as minhas ânsias,
Havia na minha alma Outras distâncias -
Distâncias que o segui-las era flores...

Caía Oiro se pensava Estrelas,
O luar batia sobre o meu alhear-me...
- Noites-lagoas, como éreis belas
Sob terraços-lis de recordar-me!...

Idade acorde de Inter-sonho e Lua,
Onde as horas corriam sempre jade,
Onde a neblina era uma saudade,
E a luz - anseios de Princesa nua...

Balaústres de som, arcos de Amar,
Pontes de brilho, ogivas de perfume...
Domínio inexprimível de Ópio e lume
Que nunca mais, em cor, hei-de habitar...

Tapetes de outras Pérsias mais Oriente...
Cortinados de Chinas mais marfim...
Áureos Templos de ritos de cetim...
Fontes correndo sombra, mansamente...

Zimbórios-panteões de nostalgias,
Catedrais de ser-Eu por sobre o mar...
Escadas de honra, escadas só, ao ar...
Novas Bizâncios-Alma, outras Turquias...

Lembranças fluídas... Cinza de brocado...
Irrealidade anil que em mim ondeia...
- Ao meu redor eu sou Rei exilado,
Vagabundo dum sonho de sereia...



Mário de Sá-Carneiro

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2012-03-12

ENTRE SILÊNCIOS :













Photo by Emira for Resim & Fotoğraf




Visitarei um dia
essa floresta
perdida no alto
da montanha
com a famosa caverna
das palavras
por onde fugiam
ratos
e morcegos
arrepanhando os sonhos
do poeta

Poeta que já não escreve:
ergue palavras-pedra
escolhendo cada palavra
com cuidado
obedecendo às ordens
do Senhor da floresta
o Rei dos Álamos
que o obrigava a construir
cavernas
com as palavras escuras
das pedras
que encontrava

palavras que eram castelos
caves túmulos muralhas

palavras que aprisionavam
e que ele agora
esquecia
e recordava...
(y.k.c.,1997)

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2012-03-11

TU




Photo by António Branco de almeida

'The Ghosts of Paolo and Francesca Appear to Dante and Virgil', 1855 | Musée du Louvre, Paris.
Ary Scheffer (10 February 1795 – 15 June 1858)







TU

Com esse teu ar
de arcanjo negro

pálido e magro
triste e alheado

ficas por vezes quase etéreo
calado
enquanto eu te olho docemente

Num espanto condenado
quase místico
debruço-me secreta à tua beira

e numa espécie de prece
porque existes

alheado - magro
belo e triste

estou de joelhos
meu amor
e beijo-te

Maria Teresa Horta

"Candelabro" - 1964

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Coração Inconstante











Photo by Erkan Torun for Resim & Fotoğraf.

 Coração inconstante, a quem a charneca edifica a cidade
no meio das velas e das horas,
tu sobes
com os choupos até aos lagos:
aí talha a flauta, de noite,
o amigo do seu silêncio
e mostra-o às águas.
Na margem
vagueia embuçado o pensamento e escuta:
pois nada
surge com a sua própria forma,
e a palavra, que brilha sobre ti,
crê no escaravelho dentro do feto.

Paul Celan, in "Papoila e Memória"
Tradução de João Barrento e Y. K. Centeno

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Foto by Kenya










Entre as raparigas da ilha
e os leões do deserto
assim permaneço
assim vivo desperto

não me alcançais, ó senhores
aqui os dias são meus
asceta longe da tribo
xamã encoberto

estou nos meus reinos,
ó vendilhões,
nada é mais certo.




A. Pedro Ribeiro



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2012-03-08

Para a Mulher


Foto do mural de Maria Quintans


Elas tecem o desacato com engenho, na mansa lentidão dos dias; tão depressa suspiram maleitosas, ensimesmadas e aflitas, como em tudo inventam supérfluos motivos de riso e de alegria.
Elas cantam, rodopiam, dançam, interpretam peças maliciosas e declamam poemas.
Elas confrontam-nos com o rasto do mal, usando perfumes de gardénia, de nardo e de almíscar, odores doces e turvos, a fazerem esvoaçar a roda das saias folhadas, rendadas.
Elas usam nos lábios e nas faces o carmim das rosas selvagens, pondo igual desvario nas vestes e nas ideias.
Elas são altivas e vaidosas, escrevem poesia, discutem filosofia, lêem livros proibidos.
Elas tresandam a heresia com as suas atitudes e ideias pervertidas; provocam com estouvamentos e arroubos.
Elas gostam do luxo.
Elas trazem consigo ideais perigosos, instruem-se, estudam, perseguem a utopia, na constante busca extremada da Luz, em busca do atordoamento do novo.
Elas cultivam a desobediência e os rancores, sarcásticas e vingativas. Regem-se por regras próprias.
Elas questionam os dogmas, duvidam da fé, não cortam a raiz da tentação e das dúvidas.
Elas espalham a desordem.



Adaptado de “As Luzes de Leonor” de Maria Teresa Horta

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2012-03-07





Foto de Sandra para Resim & Fotoğraf.










Necessito de desorganizar-me


Necessito de desorganizar-me. Há um abismo em pêndulo. As casas dissolvem-se perante a voz negra que me cega. Horrorizo a maldade do mundo - as marionetas. Quero transferir-me para a costa do sol e comer os frutos deliciosos do bosque escrito nas margens do lábio - a sinceridade chora-se pela ferida.


A injustiça dos corações. A fraca humanidade e a melancolia da raiva - um punhal emerge - apetece matar.


A clivagem entre as caras. A clivagem do verbo. A savana repleta de hienas e um trigo indolente que adoece a flora na retina da casa - a desorganização orgânica explode na íngreme esfera - os poros suam cadáveres e a dismenorréia corre como um rio - o mensageiro decepa órgãos.


Corre um sémen pela turbina da fauna. Um vento frio esconde a boca e o resto numa água febril - a ebulição dos peixes amontoa-se na lixeira social.


Quero berrar. Quero berrar-me. Não consigo...


A exaustão violenta da cólera desmente-me nas esquinas.


Tenho-me preso nas abóbadas do sangue.


Alguém emerge.





Carlos Vinagre

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Cold Season






Foto de Emira para Resim & Fotoğraf.










I am cold.

I am cold and it is like–
I will never warm up.
My Darling, Darling Beloved!
How old was that wine?

Don't you see?
We live in the age of drowning time,
and the sharks are biting-–
into my arms.

So why, why?
Why do you still keep me–
beneath this nameless freeze–
of the seas?

**&**

I am cold.
I am cold and I hate–
these pearl earrings!

I am cold and I know:
From all the illusions of a tulip,
only a few drops of blood will last.

But,
a few drop of blood–
will last, last!









Forough Farrokhzad (Selected from The Cold Season, 1967)

(Trans.: MD, March 2006, Montréal)
.




Por: Persian Poetry in English

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2012-03-05

Mulheres de Atenas





Foto: de João Costa




Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres
De Atenas!
Vivem pr'os seus maridos
Orgulho e raça
De Atenas!...

Quando amadas se perfumam
Se banham com leite
Se arrumam
Suas melenas...

Quando fustigadas não choram
Se ajoelham, pedem, imploram
Mais duras penas
Cadenas!...

Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres
De Atenas!
Guardam-se pr'os maridos
Poder e força
De Atenas!...

Quando eles embarcam soldados
Elas tecem longos bordados
Mil quarentenas
E quando eles voltam sedentos
Querem arrancar violentos
Carícias plenas
Obsenas!...

Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres
De Atenas!
Despem-se pr'os maridos
Bravos guerreiros
De Atenas!...

Quando eles se entopem de vinho
Costumam buscar o carinho
De outras falenas
Mas no fim da noite, aos pedaços
Quase sempre voltam pr'os braços
De suas pequenas
Helenas!...

Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres
De Atenas!
Geram pr'os seus maridos
Os novos filhos
De Atenas!...

Elas não tem gosto ou vontade
Nem defeito, nem qualidade
Têm medo apenas
Não tem sonhos
Só tem presságios
O seu homem, mares, naufrágios
Lindas sirenas
Morenas!...

Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres
De Atenas!
Temem por seus maridos
Heróis e amantes
De Atenas!...

As jovens viúvas marcadas
E as gestantes abandonadas
Não fazem cenas
Vestem-se de negro
Se encolhem
Se conformam e se recolhem
As suas novenas
Serenas!...

Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres
De Atenas!
Secam por seus maridos
Orgulho e raça
De Atenas!...

por Ney Matogrosso

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