2013-09-18

À BELEZA



Photo by Sandra forResim & Fotoğraf































À Beleza

Não tens corpo, nem pátria, nem família,
Não te curvas ao jugo dos tiranos.
Não tens preço na terra dos humanos,
Nem o tempo te rói.

És a essência dos anos,
O que vem e o que foi.

És a carne dos deuses,
O sorriso das pedras,
E a candura do instinto.
És aquele alimento
De quem, farto de pão, anda faminto.

És a graça da vida em toda a parte,
Ou em arte,
Ou em simples verdade.
És o cravo vermelho,
Ou a moça no espelho,
Que depois de te ver se persuade.

És um verso perfeito
Que traz consigo a força do que diz.
És o jeito
Que tem, antes de mestre, o aprendiz.

És a beleza, enfim. És o teu nome.
Um milagre, uma luz, uma harmonia,
Uma linha sem traço...
Mas sem corpo, sem pátria e sem família,
Tudo repousa em paz no teu regaço.

Miguel Torga

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2013-04-27

Peter Lagusen

Photo by Resim & Fotoğraf

Há algo no ar,
é transparente,
inodoro e insonoro.
Noto-o
quando choco com ele,
como se precipita um pássaro voando
contra um vidro.
A minha imagem especular está
na janela –
vejo-me
com um aspecto que não tenho,
e atrás de mim na cozinha
ficam os rolos de papel
como peles caídas de serpente
e o casulo da borboleta
em tapetes voadores
de amor e solidão.
O lago é um olho azul
no rosto verde da terra
e os terraços suspendem-se
como barcos salva-vidas
na medida das casas grandes
O tempo plana
à sombra de comboios de mercadorias e de gatos,
correm-se as cortinas
a luz apaga-se atrás delas.

Tudo flutua em calma pelo espaço
ao longe brilham cinco estrelas
e o céu para o sul está turquesa.

Peter Lagusen
Himmel Kœrlighet Frhed, 1982

Tradução de Amadeu Baptista

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Praia da Boa Nova

Photo by Resim & Fotoğraf.

Mar. Chuva. Ventania.
No denso canavial
(em ligeiro sobressalto)
o doce golpe das palavras,
a desordem dos corpos,
o caos das línguas
na preia-mar das bocas.
Labaredas de fogo
entre enganos e afectos.
No horizonte de neblina,
o voo insondável e branco
de uma gaivota.

António José Queirós

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Adeus

photo by Esradan forResim & Fotoğraf.

Penso em ti.
Há uma voz que se repercute
no coração do poema
com a cadência de um látego incansável.
Oiço os acordes obscuros
de uma música descompassada,
o rumor de um mar intranquilo.
Regressa à memória
o desastre de um desejo envelhecido.
Está frio.
Um tímido sol anuncia
o lento suicídio do Inverno.
Penso em ti,
na vertigem súbita das falésias,
no verde e húmido
olhar da despedida.

António José Queirós

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A divina imperfeição



Photo: autor desconhecido

Caminho sem pressa pelas veredas
de um labirinto que parece não ter fim.
Oiço o som dos meus passos solitários
e sinto as fragrâncias de um jardim que se perdeu.
Entre ser livre ou ser feliz, escolhi
a liberdade de construir outro destino.
Sei agora que a minha vocação
é o silêncio íntegro das sementes
nos campos tranquilos e lavrados.
É tarde. Do pó vim, ao pó quero regressar,
liberto, enfim, da geometria cruel do labirinto.
Dia após dia, procuro a secreta passagem
para a morada longínqua do mundo inicial.
Se Deus projectou em mim a sua imagem
em mim negou a sua divina perfeição.

António José Queiróz.

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Sena-Lino


Photo by Sandra for Resim & Fotoğraf

uma doença infecta, provocada
por balas tracejantes e episódios
retirados do acaso, ora domésticos,
sublinhados por discussões violentas,

ora fortuitos como um acidente
em que uma parte da nuca bate contra o chão
e o sangue corre, fervente, pelo passeio
em que um menino de bibe e sapatilhas pretas

leva as mãos aos ouvidos para não ter que ver
mais do que vê, insustentadamente.
um pavor de doença, que amplia

a legião de fantasmas que nos segue
e nos piores pesadelos admoesta
o sono leve com que a noite passa.


Pedro Sena-Lino
(in Negrume, Lisboa, & Etc, 2006)

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2013-04-26

Éramos deuses


Photo by Tourism in Turkey.

Éramos deuses
e fizeram-nos escravos.
Éramos filhos do sol
e consolaram-nos
com medalhas de lata.
Éramos poemas
e puseram-nos a
recitar uma esmolinha
por amor de Deus.




GONZALO ARANGO (1931-1976)

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2012-07-17

Photo by Esradan for
Resim & Fotoğraf

A luz que vem das pedras, do íntimo da pedra,
tu a colhes, mulher, a distribuis
tão generosa e à janela do mundo.
O sal do mar percorre a tua língua;
não são de mais em ti as coisas mais.
Melhor que tudo, o voo dos insectos,
o ritmo nocturno do girar dos bichos,
a chave do momento em que começa o canto
da ave ou da cigarra
— a mão que tal comanda no mesmo gesto fere
a corda do que em ti faz acordar
os olhos densos de cada dia um só.
Quem está salvando nesta respiração
boca a boca real com o universo?»

«A Luz que Vem das Pedras», de Pedro Tamen, in «Agora, Estar»

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2012-06-27

DE OUTRA REALIDADE

Photo by Flores.


Ponho-me doente do grito que pede realidade.
Estive demasiado próximo das coisas,
de modo que me queimei ao atravessa-las
e estou do outro lado delas,
onde a luz não está separada da obscuridade,
onde não se pôs nenhum limite,
só um silêncio que me lança para um universo de solidão,
de incurável solidão.
Olha, refresco a mão na erva fria:
Isto será a realidade,
será suficiente realidade para os teus olhos
mas estou do outro lado
onde as lâminas da erva são sinos sonoros de pena e



amarga expectativa.
Tenho nas mãos a mão de uma pessoa,
olho os olhos de um ser humano,
mas eu estou do outro lado
onde o homem é bruma de solidão e angústia.
Ai, se eu fosse uma pedra
que pudesse suportar o peso deste vazio,
mas eu sou um ser humano arremessado ao país fronteiriço,
e ouço rugir o silêncio,
oiço gritar o silêncio
de mundos mais profundos do que este.

Gunvor Hofmo
Fra en annen virkelighet, 1948

Tradução de Amadeu Baptista

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2012-06-26

AMIZADE ACABADA

Photo by Helena Soares

Tudo sem altura, sem profundidade.
Andar pelas tuas ruas e sorrir
maliciosamente para as tuas entranhas
enquanto te fica o asco
na garganta:

os olhos exilados de Cristo
não são teus,
morta está a tua amarga ternura por uma alma.
Céu baixo, neve cinzenta e um cemitério.

Gunvor Hofmo
I en våkenatt, 1954

Tradução de Amadeu Baptista

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BARCO NOCTURNO

Photo by Erkan Torunn by Resim & Fotoğraf.



Os corredores vazios.
Só está acesa a lâmpada da mesa.

O hospital como um barco
que navega por águas perigosas.
E os passageiros angustiosamente despertos.
Atentos aos ruídos de fora,
algum tremor no enorme casco do barco,
um grito que nunca chega.

Finalmente o grito volta-se
para os signos de sonho do céu
representados, imagem após imagem,
por anjos negros como a noite que abrem
os abismos com as suas chaves celestes.

E calada, uma enfermeira acerca-se com passo rápido
de alguém que se queixa a dormir.
O barco inclina-se para uma noite ainda mais profunda.

Gunvor Hofmo
Gjest på jorden, 1971

Tradução de Amadeu Baptista

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DESPACHA-SE



photo by Erkan Torunn for Resim & Fotoğraf.


Despacha-se o asseio matinal
despacham-se almoço e jantar
com a mesma inexorabilidade
Despacha-se a tarde
e os enfermeiros vão para casa
Despacha-se o sonho
e a enfermeira anda com passo ligeiro
pelos corredores.
Despacham-se as guerras
e algo sempre fica
crianças com pele cinzento de chumbo, o soldado
com uma perna que zurze
a muleta contra a calçada,
os cegos.
Despacha-se a morte
e há uma rosa solitária
diante de uma pedra fria.

Gunvor Hofmo



November, 1972

Tradução de Amadeu Baptista

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DEUS NÃO FALA

Photo by Sandra for Resim & Fotoğraf.

Deus não me fala
a mim como a Moisés
não me agride
como a Job
mas Ele está no
terrível silêncio
dentro de mim.
Lentamente Ele
vai-se desprendendo
como as primeiras folhas
luminosamente verdes da bétula.

Gunvor Hofmo

Veisperringer, 1973

TRadução de Amadeu Baptista

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NÃO EXISTE


Photo by I dream of Lebanon

Não existe
o que veio com a chuva
o que veio com os ventos
o que veio com a neve
A queixa inconsciente
de um pássaro adormecido disse-o:
não existe!

Gunvor Hofmo
Mellomspill, 1974


Tradução de Amadeu Baptista

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UMA ROSA BRANCA


Photo by Erkan Torunn for Resim & Fotoğraf.

Uma rosa branca é uma lua
colocada no deserto jarrão
do céu.


Der er sent, 1978






Versão minha - © Amadeu Baptista





Gunvor Hofmo. Nasceu em 1921, em Oslo. Publicou os seus primeiros poemas no jornal comunista Friheten e na revista Hjemmet. Um dos seus primeiros poemas foi escrito para a sua amiga Ruth Maier, que veio a ser, durante o Holocausto, presa, deportada e assassinada em Auschwitz, perda central para a vida de Gunvor Hofmo, que iniciou uma luta profunda com a depressão e a doença mental. Foi institucionalizada no Gaustad Hospital, entre 1955 e 1971. De 1977 até à sua morte, que ocorreu em 1995, nunca deixou o seu apartamento em Nordstrand, Oslo. Publicou 17 livros de poesia e foi traduzida em sueco e em russo.

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2012-06-21

UM BURACO NA TERRA


Photo by Rick Bohler for Project Noah.


Apareceu um buraco na terra. Vazio.
Sem terra à volta
não existiria em absoluto.
O buraco depende profundamente da terra,
um vazio que mostra que algo existe
algo que mostra que aquele vazio existe.
Se não houvesse terra
tão pouco haveria vazio.
De um buraco vieste
à terra voltarás.
Ou vice-versa.
Dou uma palmaditas carinhosas no buraco
e sigo caminhando na terra.


Personlige papirer, 1974

Versão minha - © Amadeu Baptista





Benny Andersen. Nasceu em Vangede, Copenhagen, em 1929. Estreou-se em 1965. Além de poesia, escreveu um romance, guiões para cinema, literatura infanto-juvenil e comédias para a televisão. Excelente pianista, compõe a música e as letras das suas canções. A sua poesia, de tom humorístico, é já parte integrante da cultura dinamarquesa.

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2012-06-17

Ode ao Gato


Photo by Esradam for Resim & Fotoğraf.



Os animais foram


imperfeitos,

compridos de rabo, tristes

de cabeça.

Pouco a pouco se foram

compondo,

fazendo-se paisagem,

adquirindo pintas, graça, voo.

O gato,

só o gato

apareceu completo

e orgulhoso:

nasceu completamente terminado,

anda sozinho e sabe o que quer.



O homem quer ser peixe e pássaro,

a serpente quisera ter asas,

o cachorro é um leão desorientado,

o engenheiro quer ser poeta,

a mosca estuda para andorinha,

o poeta trata de imitar a mosca,

mas o gato

quer ser só gato

e todo gato é gato

do bigode ao rabo,

do pressentimento ao rato vivo,

da noite até seus olhos de ouro.



Não há unidade

como ele,

não tem

a lua nem a flor

tal contextura:

é uma só coisa

como o sol ou o topázio,

e a elástica linha em seu contorno

firme e sutil é como

a linha da proa de um navio.

Seus olhos amarelos

deixaram uma só

ranhura

para jogar as moedas da noite.



Oh pequeno

imperador sem orbe,

conquistador sem pátria,

mínimo tigre de salão, nupcial

sultão do céu

das telhas eróticas,

o vento do amor

na intempérie

reclamas

quando passas

e pousas

quatro pés delicados

no solo,

cheirando,

desconfiando

de todo o terrestre,

porque tudo

é imundo

para o imaculado pé do gato.



Oh fera independente

da casa, arrogante

vestígio da noite,

preguiçoso, ginástico

e alheio,

profundíssimo gato,

polícia secreta

dos quartos,

insígnia

de um

desaparecido veludo,

seguramente não há

enigma

na tua maneira,

talvez não sejas mistério,

todo o mundo sabe de ti e pertences

ao habitante menos misterioso,

talvez todos o acreditem,

todos se acreditem donos,

proprietários, tios

de gatos, companheiros,

colegas,

discípulos ou amigos

do seu gato.



Eu não.

Eu não subscrevo.

Eu não conheço ao gato.

Tudo sei, a vida e seu arquipélago,

o mar e a cidade incalculável,

a botânica,

o gineceu com seus extravios,

o por e o menos da matemática,

os funis vulcânicos do mundo,

a casaca irreal do crocodilo,

a bondade ignorada do bombeiro,

o atavismo azul do sacerdote,

mas não posso decifrar um gato.

Minha razão resvalou na sua indiferença,

o seu olho tem números de puro.



Pablo Neruda
(Tradução de Maria Teresa Almeida Pina)

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2012-06-13

Tua 6

Photo by Esradan for Resim & Fotoğraf.

Não te rias. Eu creio no
idioma como uma possibilidade de mudança
Creio no torpe, o confuso, a insegurança
Na criança que ensina o interior das coisas, o ronronar
que ama a obscuridade do noitibó na valeta
Não me censures. Eu não posso ser assim
Não me censures. Não conheço outra maneira de
chegar até ti
Sou evasiva e mentirosa, tombo
móveis, mas deste caos talvez possamos...
Não me censures. Sou completamente física.
A fragmentação, querido, a falta de seriedade, a
vida capitalizada como sombra e resplendor!
a ruptura terrível e lenta.
Física. Casas altas à deriva, continentes à deriva e
a menina pequenina com o seu chambre azul sob
os abetos, bosque de inverno imóvel
Apenas o demorado movimento da
neve que cai de um ramo

Tua Forsström
in Tallort, 1979

Tradução deAmadeu Baptista

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Tua 5


Escrevo aos meus médicos, pergunto-lhes
sobre a amizade, a chuva torrencial, o menino
que se senta na cama e sussurra: por que
vieste sem?
Ocasionalmente os sonhos deixam-se desmascarar
Mas, onde te vou pôr, em qual
dos meus quartos?
“ A vida é uma preparação para algo
que nunca acontece”.
Não apanhes frio! Não te sintas mal! Senta-te bem! Sê boa
para o teu filho! Evita penas desnecessárias!
Aqui as filhas estão praticamente à borda d’água
entre amieiros, e cicuta, salgueirinha,
uma paisagem lacustre raramente matizada pelas tempestades
Só aquele que muda continua
sendo o mesmo, é isso ao certo? A chuva
goteja na água, água na água. Chuva de semanas
Uma está de vigilante de noite. Vai de vigilante de greve,
não sabe de todo o que tem que vigiar!
Mas uma borboleta alonga as manchas dos seus olhos
Um alce passa deslizando sem ruído, pesadamente
Flores de humidade brotam do papel de parede
Não, tu foste o meu querido e irrealizável projecto
e eu sou uma pobre, fechada na minha cabeça de escassos cabelos
O que tem alguma importância é tanto e
tão pouco
Mas aqui o mundo esclarece-se como
natureza, a vida esclarece-se!, no resplendor dos faróis de uma



segadora
sobre metros e metros de um trigal tardio que se agita inquieto Um
resplandecente insecto nocturno E o longínquo
faz-se um pouco mais real.

Tua Forsström
in September, 1983

Tradução de Amadeu Baptista

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Tua 4

Photo by Sandra for Resim & Fotoğraf.

PENÉLOPE
( cantata )

1

Sou a Esposa, cercada.
Os anos fluíram como água,
Acostumamo-nos. Aconteceu
Que eu me separei da minha espera
E olhei os Pretendentes, negado
tu. Esqueci-me de mim, esqueci-me
das noites sob as Suas mãos
Como se esquece um sonho até
que volta. Passaram anos
como instantes. Há
Uma espera tal que um se separa.

2

O que chamamos tempo
É talvez embrenhar-se
em incertezas, carências.
O que chamamos tempo
É talvez finalmente renunciar!
Eu esqueço o Seu nome!
Esqueço como me queixava
De desejo, cansada na luz matinal!
Os pretendentes cercam agora a casa.
Eu esqueço! Esqueço
o Seu nome!
A guerra deforma.
A memória reduz!
Cercar ou ser cercada
Afinal é o mesmo. Mas
negar um abraço
como a água derramada?
Ai, pudesse eu sequer vislumbrar
O teu esqueleto na multidão!

3

Ossos pêlos plumas escamas!
Os anos passam alegremente e faz-se noite
Invioláveis são as leis dos minerais
Na terra, as vistosas superfícies estalam:
Sobre o rosto sem custódia que era o do sonho
Sobre o rosto sem custódia que era a máscara sem custódia
Dos sonhos

4

Um corpo é levar um baú
Com relíquias. Ossos como porcelana
Eu não sou ainda uma mulher
Velha, isso enfada-me.
Teço uma teia. Sonhei
Ontem à noite com um barco que ia à deriva
Para uma costa longínqua
Recordas-me? O que
volta é sempre outro
Com a sombra de guerras no rosto
Com cicatrizes de todo o estrangeiro
Gravadas no corpo
Quem volta como era?
O que se perdeu é real:
O que se perdeu conserva-o
para sempre. Uma espera,
Um homem. Recordas-me?
Apressa-te, se podes.

Tua Forsström
in Snoleopard, 1987

Tradução de Amadeu Baptista

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