2010-06-23

Ivo Machado implementa a campanha publicitária " Um disco por um postal ilustrado ",


Fotografia de António Freitas

O objectivo da iniciativa é o de proceder a uma maior difusão do seu último trabalho discográfico iniciada, já, no dia 19 de Maio na Casa das Artes que marcou o espectáculo de apresentação do mesmo CD. Este inclui doze poemas musicados por Ivo Machado, formando uma mini antologia, onde figuram os mais importantes poetas famalicenses. A Casa das Artes apresentou, na altura, um espectáculo sublime, marcado pelo signo da beleza e harmonia, ao envolver a música e a escrita com o acompanhamento da guitarra de Carlos Carneyro. O evento abriu com o coro de dezoito jovens a entoar carta de marear de Manuela Monteiro da obra Silêncio Inquieto, uma interpretação electrizante pelo grupo de Teatro Baú dos Segredos. A obra inclui ainda trechos musicais que emolduram poemas de Júlio Brandão, Álvaro de Castelões, Camilo e Flora Castelo Branco, Fernando Carneiro e Aurélio Fernando e Manuel dos Santos Marques.
Os interlúdios ficaram marcados pela interpretação de uma pequena pela pelo GRUTACAGrupo de Teatro Amador Camiliano soberba interpretação do professor António Sousa do Canto I de Os Lusíadas de Luís de Camões, e pelo Coro Juvenil Ilha dos Amores da Escola Júlio Brandão, dirigidos por Rui Mesquita, que entoaram algumas faixas do anterior trabalho de Ivo Machado O Búzio de Cós, totalmente composto por poemas de Sophia de Mello Breyner Andresen.


Nesta campanha, os participantes deverão proceder ao envio de postal ilustrado onde exprimam o desejo de obter o disco Maré de Sonhos - Tributo aos poetas famalicenses para a morada Rua da Ribeira, 57 4760-132, VNF, indicando respectivos os dados postais ( Nome e Endereço). Após a recepção dos postais, proceder-se-á ao envio gratuito dos CD, incluindo portes de envio.
A iniciativa prende-se com a vontade de divulgar o mais possível a poesia famalicense pelo maior número de pessoas e abrangendo um vasto território geográfico que ultrapasse em larga escala as fronteiras do Município. E, claro, dar igualmente a conhecer a excelente qualidade da música de Ivo Machado.

Cláudia de Sousa Dias para Jornal Cidade Hoje

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2010-04-21

Mestria Musical e Humorística conjugam-se no Festival Internacional de Música de Câmara em Vila Nova de Famalicão





Fotografias de António Freitas


Durante cinco dias, a cidade acolheu alguns dos mais talentosos jovens músicos vindos dos quatro cantos do Globo, no âmbito da 3ª edição do Festival Internacional de Música de Câmara Stellenbosch – Vila Nova de Famalicão, ao qual se juntou a presença do consagrado dueto de pianistas Nina Schumann, nascida em África d Sul, e Luís Magalhães, natural de Lousado. O casal tem um projecto intitulado Two Pianists nomeado para os Grammy 2009 e para os South African Music Awards em 2010.






Os jovens participantes deste festival recebem, formação musical com artistas internacionais de topo. O concerto final contou com a participação dos estudantes inscritos. Entre eles destacou-se o primeiro violino Frank Stadler, natural de Bavaria, tendo já tocado em várias orquestras de renome mundial, como primeiro violino, que numa das peças assumiu o lugar de maestro; Searmi Park, a jovem de origem oriental, residente nos EUA, tocou nas principais orquestras dos EUA, especializando-se em Brahms, Sibelius, Beethoven, Prokoviev e Mozart .






Searmi empunha o violino e o arco com a pose de um samurai, toca não só com os braços mas com o corpo inteiro, entrando em sintonia com os colegas, recorrendo ao olhar – é a mais expressiva de todos os instrumentistas.






Destaque ainda para a participação do sérvio Predrag Katanic que conta com um vasto currículo e que é actualmente membro do Stadler Quartet juntamente com Frank Stadler; para Eugene Osadchy, Professor de violoncelo na Universidade do Norte do Texas e Claudio Bohorquez, de origem peruana a residir em Berlim, considerado pelos especialistas um dos jovens intérpretes mais dotados da sua geração.




As peças em destaque incluíram autores como Richard Schumann, Sergei Rachmaninoff, Lyapunov, E.W. Korngold (com um magnífico solo de violoncelo), Elgar e Mendelssohn. E, para finalizar, o soberbo Carnaval des Animaux de Camile Saint-Saëns composto por um conjunto de trechos musicais de características onomatopaicas a fazer lembrar, cada um deles, um animal específico. A narração das fábulas esteve a cargo de Herman José que deu mostras do seu talento histriónico e de uma enorme capacidade de improviso.






No entanto, o talento do casal de pianistas Nina Schumann e Luís Magalhães foi de uma perfeição e arrebatamento de inspiração sobrenatural, arrancando um mega aplauso do público, rendido ao virtuosismo e paixão pela música de ambos.

Foram três dias de concertos magníficos com um final apoteótico. E um dos melhores concertos da Casa das Artes até à data.








Cláudia de Sousa Dias

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2010-01-29

Rui Veloso na Casa das Artes







Rui Veloso esteve este fim-de-semana em Vila Nova de Famalicão para apresentar, na Casa das Artes, o concerto comemorativo dos seus trinta anos de carreira. A lotação esgotou em ambas as récitas tendo, inicialmente, estado prevista a realização de apenas um espectáculo o qual, mediante a afluência massiva do público, teve de desdobrar-se em duas apresentações.
Na sala, estiveram presentes várias gerações de admiradores do cantor/autor/compositor, que fez jus ao profissionalismo decorrente de trinta anos a pisar os palcos. As melodias, conhecidas de há longa data e, por isso, facilmente identificáveis apesar nos novos arranjos – como é o caso de Bairro do Oriente, que foi precedida de um espectacular prelúdio, cheio de sonoridades árabes, a lembrar os mercados de Marraquexe e outros territórios da milenar rota da seda e das especiarias – fizeram furor.




Canções que evocam, algumas delas, vários aspectos contraditórios da nossa sociedade, e outras de cariz mais romântico, a puxar para a nostalgia ou a exaltar a veia mais apaixonada do Autor. Dentre a assistência, trauteava-se Fui ao baile da paróquia, Já não há canções de amor ou o belíssimo Não me mintas.




Humor e simplicidade são as características que mais se destacam na personalidade de Rui Veloso, não importando se se trata ou não do lado solar de alguém que pisa um palco. O profissionalismo é inquestionável, quando alguém como Rui Veloso consegue trocar uma guitarra avariada a meio de uma canção, sem interromper a performance, como aconteceu ao cantar Porto Covo. Também a generosidade é algo que salta à vista. Rui Veloso gosta de partilhar o triunfo com os colegas da banda, inclusive com os ausentes como Zé Nabo, submetido há poucos dias a uma intervenção cirúrgica.
A recta final do concerto prosseguiu com aquilo a que chamou de “fado à moda do Porto”, ou seja, o Fado do Ladrão Enamorado, Todo o tempo do Mundo e Lado Lunar. Sem esquecer Intervalo (que não houve) e que O prometido é devido.




O concerto teria terminado com o apropriadíssimo Não há estrelas no Céu, se não fosse o público a patear a sala, quase deitando a casa abaixo, a exigir um encore. O cantor regressou, feliz, brindando-nos com aquilo a que chamou de “uma paixão pré-adolescente”, isto é, a temática de O meu primeiro beijo, seguido de A Paixão de Nicolau da Viola, devidamente acompanhada pelo público.




A saída, após o primeiro encore, fez com que a sala em peso aplaudisse de pé, após o que o cantor agradeceu cantando, desta vez, como mensagem de despedida a conter a promessa de um regresso breve, Postal dos Correios.




“…sou capaz de ir aí pelo Natal”.




Cá o esperamos. O prometido é devido…




Cláudia de Sousa Dias

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2009-07-19

Concerto de Yann Tiersen, Casa das Artes, 5 de Julho 2009











Foto com violino da autoria de Rita

Guillaume Yann Tiersen e um compositor francês de origem judaica que nasceu em Brest, 23 de junho de 1970. É considerado como um músico de vanguarda, multi-instrumentista. Compõe música para piano, acordeão e violino, aproximando-se de Erik Satie e do minimalismo de Steve Reich, Philip Glass e Michael Nyman. Tornou-se internacionalmente conhecido ao compor bandas sonoras de filmes como O fabuloso destino de Amélie Poulain e Good Bye, Lenin! e agora volta sendo reconhecido pela composição Summer 78 na promoção de Do Começo ao Fim, o filme Brasileiro mais polêmico dos últimos tempos.
Yann Tiersen passou a infância em Rennes e na Bretanha, onde estudou violino, piano e direccção orquestral. Possuindo formação clássica, este compositor e intérprete direccionou-se para o rock , já nos anos 1980. Em seguida, começa a escrever bandas sonoras para peças de teatro e obras cinematográficas como "A vida sonhada dos anjos" (1998), de Erick Zonca, Alice e Martin (1998), de André Téchiné e O que a Lua Revela (1999), de Christine Carrière.

O último concerto de Yann Tiersen que teve lugar em Vila Nova de Famalicão, mais uma vez na Casa das Artes deliciou o público embora não de forma surpreendente, uma vez que o compositor já há dois anos atrás nos tinha habituado ao seu estilo musical, caracterizado pela fusão de sonoridades de origens tão díspares como a música clássica, o rock ou, até, o heavy metal.

Neste último trabalho, a mesma tendência acentua-se mais ainda marcando a distância face ao estilo nostálgico que caracteriza a banda sonora de Amélie Poulain ou do dramático Godbye Lenin.

O concerto de 5 de Julho iniciou com os acordes de um prelúdio a lembrar as obras mais conhecidas do compositor mas, após alguns segundos, o ritmo inflectiu para uma alternância de ritmos trepidantes, obrigando o público a sucumbir à loucura dos instrumentos eléctricos sublinhando, precisamente, a ruptura com o estilo presente nos trabalhos anteriores, às quais são adicionadas as sonoridades do vidro e do metal.

Às melodias mais lentas, a lembrar os adágios dos concertos clássicos, seguiram-se trechos de ritmos que sugeriam quase que uma possessão demoníaca, delirante, tempestuosa, após o que se procedeu a um curto regresso à acalmia, durante o qual os espectadores usufruíam da sensação de quase que ouvir o marulhar das ondas, diante de uma praia-mar imaginária. Daqui emergiram, pouco depois, os primeiros acordes do violino de Yann Tiersen: o momento alto do concerto, onde o músico consegue demonstrar todo o seu virtuosismo como intérprete. Yann Tiersen manipula o arco com a leveza e a rapidez do batimento das asas de um colibri. Ou de um moscardo.

O violino do compositor foi acompanhado pelo compasso marcado pelo ritmo, impróprio para cardíacos, da percussão e, depois, pelos instrumentos eléctricos: guitarra e baixo.

O concerto terminou, oficialmente, com um fabuloso dueto de guitarras. O público não se deu por satisfeito, exigindo a presença do músico no palco diante de aplausos ensurdecedores.

A noite de 5 de Julho na Casa das Artes ficou assinalada como um dos melhores espectáculos do ano, onde aquilo que ficou para a memória colectiva é que a Beleza sob a forma de Arte surge sempre da harmonia resultante dos contrastes.


Cláudia de Sousa Dias

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2009-03-06

Concerto de António Pinho Vargas na Casa das Artes



António Pinho Vargas formou-se em História na Universidade do Porto. Estudou posteriormente, no Conservatório de Roterdão, entre 1987 e 1990, onde se formou em Composição. É professor de Composição na Escola Superior de Música, em Lisboa, desde 1991. E, também, um dos principais nomes do jazz em Portugal, fortemente influenciado pela música contemporânea. O primeiro dos seus álbuns intitula-se, Outros Lugares (1983), tendo produzido, também, bandas sonoras para filmes e peças de teatro.


Após regressar dos Países Baixos, tem sido sobretudo um compositor clássico. Escreveu três óperas, e ensembles orquestrais para várias peças. No início da década de oitenta, faz uma breve incursão pelo rock, ao colaborar com os Arte e Ofício e com a Banda Sonora de Rui Veloso, cujo trabalho o aproxima dos blues. Após este trabalho dedica-se ao jazz, que constituiu um ponto de inflexão na sua carreira, deixando uma marca bastante profunda na linguagem musical de Pinho Vargas: um jazz melódico de construção e inspiração tradicionais, recordando ora as paisagens atmosféricas popularizadas pela editora alemã ECM, ora o virtuosismo de Keith Jarrett (from: Wikipedia).

A partir de finais da década de 1980 e início da década seguinte, as suas gravações de jazz serão mais espaçadas, dividindo o seu tempo, cada vez mais, entre o jazz e a música contemporânea.


A partir de 1996, o compositor regressa a uma linguagem ainda mais depurada de jazz com A Luz e a Escuridão, álbum a três onde, ao piano de Pinho Vargas e ao saxofone de José Nogueira, é adicionada a voz de Maria João. Editou, posteriormente, As Mãos (1998) seguindo-se Versos (2001), Dias Levantados (2003), Grafitti (2008) e Solo (2008).

O concerto do passado dia 28 de Fevereiro abriu com o belíssimo Quedas d’Água com Lágrimas cujo espectacular glissando, no final, fez lembrar o tilintar de múltiplos cristais. Seguiu-se June, do álbum Vilas Morenas, dedicado a José Afonso, uma música de sabor romântico seguida, depois, pela fabulosa Dança dos Pássaros a embrar, um pouco, a música da Andaluzia e, por fim, Dinky Toys, para finalizar a primeira parte do concerto.

“Esta foi a música que compus antes de me dedicar à música contemporânea, que é aquela de que quase ninguém gosta; que descende daquilo a que chamam de “alta cultura” ou “high culture”…eu não partilho dessa opinião (…) são línguas diferentes, jazz e música contemporânea. Pode-se falar inglês ou chinês mas nunca anglo-chinês que é coisa que não existe…! (sic)”

Na segunda parte, APV tocou Fado Negro de onde saíram tonalidades sombrias e melancólicas, a unir o jazz ao tango e ao fado, seguido de temas como General Complex e o celebérrimo Tom Waits, um dos seu temas mais emblemáticos, após o que deliciou o público com a melodia Lindo Ramo, verde escuro, inspirada nos cantares do Alentejo, antecedida pelo respectivo fugatto inspirado em Bach, Shostakovich e Ballestrini, antes do tema final, La Corazón, a lembrar novamente a Andaluzia.


O entusiasmo do público trouxe um encore com uma belíssima composição intitulada Cantiga para Amigos, cuja melancolia, aliada a um ritmo marcado por pausas sincopadas e à tonalidade grave dos acordes, fazem com que não haja uma única nota que não se ame, nesta cantiga de amigo cheia de reminiscências medievais…


Mais um momento especial a juntar à já longa galeria de espectáculos de superior qualidade na Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão.


Cláudia de Sousa Dias

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2008-05-28

John Cale na Casa das Artes – um dos melhores concertos do ano em Vila Nova de Famalicão




A Casa das Artes proporcionou, mais uma vez, um espectáculo de qualidade superior, ao público não só de Famalicão mas também oriundo de cidades vizinhas, como Porto, Braga e Guimarães, que vieram propositadamente para assistir ao concerto.

A tónica dominante da performance resume-se a três pares de palavras-chave associadas: energia e vitalidade; ritmo contagiante e fusão de estilos musicais (clássico e rock).

Características que facilmente se explicam pela formação musical deste emblemático compositor e interprete galês, cuja carreira despoletou nos finais dos anos sessenta ao lado de Lou Reed com os Velvet Underground.
Após afastar-se de Lou Reed, Cale inicia a sua carreira a solo com o disco Vintage Violence, tendo produzido mais de três dezenas de trabalhos discográficos desde então.

Ainda criança, John Cale demonstrava, já, um talento indiscutível como intérprete no piano e na viola de arco. Foi, no entanto quando estudava em Goldsmith’s College London que começou a interessar-se pela música electrónica e avant-garde. É após receber uma bolsa de estudos para a Universidade de Boston nos Estados Unidos para continuar a sua formação musical na Orquestra de Tanglewood, que Cale desenvolverá os seus talentos musicais noutra vertente: o experimentalismo. Sobretudo após conhecer Lou Reed com cuja parceria procederá à fusão entre os dois estilos.

“Eu sabia que a música que fazíamos não podia ser ignorada, havia muitos elementos do classicismo naquilo que estávamos a fazer para que as pessoas encarassem essa trabalho como simples “barulho”. Era muito construído…” (Fonte: wikipedia).

De facto, John Cale sempre se situou no limiar do rock, ao traçar o seu percurso evolutivo na senda do experimentalismo – um dos motivos que o levou à separação de Lou Reed e à dissolução dos Velvet Underground – e em cisão absoluta com o mainstream. John Cale é, como tal, para muitos especialistas, um dos precursores do punk.
O reencontro com Lou Reed deu-se em 1990 com o trabalho Songs for Drella, dedicado a Andy Warhol.

O traço principal, na música de Cale consiste, sobretudo, na integridade estética e criativa apesar do estilo marginal, híbrido ou, se quisermos, fronteiriço, em termos de género musical.

A voz exibe uma tonalidade ligeiramente nasalada, por vezes um pouco semelhante à de Willie Nelson e, simultaneamente grave, ligeiramente rouca, a lembrar um pouco Springsteen.

Com uma carreira que conta já com mais de três décadas, Cale consegue, sem dificuldade, electrizar toda uma plateia, com esta sua Acoustimatic Band, ao misturar o estilo country, rock, sons africanos, alternados com notas de instrumentos orquestrais. Por vezes, temos a sensação de ouvir gritos de gaivotas arrancados das cordas de um contrabaixo, acordes extraídos do keyboard a fazer lembrar um compasso de uma sonata de Beethoven, ou uma guitarra eléctrica a trazer-nos sons de inspiração mediterrânica como um bandolim grego.

Um espectáculo inesquecível, com o último refrão cantado à capela no último dos encores, na vã tentativa de satisfazer um público insaciável…

Cláudia de Sousa Dias

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2008-03-21

Concerto de Mariza, na Casa das Artes – O Fado no Dia Internacional da Mulher







A terminar a Cerimónia de Abertura do Famafest 2008, o concerto de Mariza trouxe o glamour dos anos 20 ao evento, onde o visual do charleston, exibido pela cantora, veio emprestar ao Fado um colorido cinematográfico ao estilo de Hollywood.

A lotação esgotou, num dos espectáculos de maior qualidade performativa na história da Casa das Artes.


Na noite do passado dia 8 de Março, a expectativa após o final da abertura do Famafest é grande. A Casa das Artes está completamente cheia. Já só há espaço para alguém se sentar, nas escadas. O momento mais esperado da noite aproxima-se. Afinal, Mariza é a primeira cantora portuguesa nomeada para o Grammy.

As luzes apagam-se após a saída de Lauro António do palco, feitas as devidas homenagens aos 100 anos de Manoel Oliveira e a menção da atribuição do Prémio Goya a Carlos do Carmo.

Sobe o pano.

Os músicos entram, enquanto a plateia aguarda, no mais profundo silêncio. Ouvem-se os primeiros acordes de guitarra.

As palmas despoletam.

A diva entra, vestida de negro absoluto, num violento contraste com o cabelo platinado, uma vaga reminiscência de Jean Harlow.

Logo no primeiro tema cantado tomamos consciência da afinação perfeita de uma voz de registo grave, numa cantora que sabe utilizar as pausas e os volteios, para contornar a dificuldade em chegar às notas mais agudas, como muito poucas o conseguiram fazer ao longo da História da Música – entre elas, Amália ou Maria Callas.

Os dotes de actriz, que a cantora afirma serem inatos, aliados a uma extraordinária percepção auditiva e sinestésica, permitem-lhe jogar com as luzes, ao retirar-se para a sombra, sempre que necessário realçar o desempenho dos músicos que a acompanham.

" É um prazer estar na abertura do Famafest…aproveito para saudar as mulheres que estão aqui, esta noite…”

De Paulo de Carvalho, Mariza cantou Meu Fado Meu, emprestando um novo colorido ao Fado – Páthos.

Com o ritmo sincopado de Barco Negro acompanhada pela espectacular percussão de João Pedro Varela, Mariza contou, ainda, com a participação do público que a acompanhou no refrão, mostrando-se agradavelmente surpreendida e radiante ao deparar-se com “um coro tão afinado…”

Mas foi com Alfama e a beleza da poesia de Ary dos Santos que ficámos todos com a voz presa na garganta, emudecidos, com a emoção que se escapa dos versos do poeta, dos trinados da guitarra, do drama contido na voz…

Alfama cheira a saudade

Cheira a tristeza e a pão…


Do mesmo modo, a poesia de Florbela Espanca transformada em música.

Mariza está, neste momento, a preparar um álbum que inclui alguns temas inéditos com que a cantora nos brindou com o concerto de Sábado.

Na segunda parte do espectáculo, Mariza introduz um pouco do folclore e da música tradicional portuguesa com Feira de Castro acompanhada por Pedro Castro, na guitarra portuguesa, Diogo Clemente, na guitarra, e João Pedro Varela, na percussão.

Finaliza com o seu fado preferido; Primavera, levando o público ao rubro o qual aplaudiu de pé, atirando as rosas brancas – oferecidas às senhoras, na noite do Dia Internacional da Mulher, à entrada para o espectáculo -, para o palco, ao mesmo tempo que exigia os encores da praxe.

O primeiro encore surgiu com Oh, gente da minha terra, onde Mariza sublinhou o prazer de ter trocado Madrid por Famalicão nesse dia, após o que o público volta a insistir num segundo encore.

A cantora passeia-se por entre o público, durante o último tema deixando, escapar um suspiro por entre o cansaço…os aplausos soam mais uma vez.

Despede-se, finalmente, com Oh Gente da minha Terra, desta vez cantado à capela, com a ajuda do público que entoa o refrão, totalmente rendido à magia do Fado.

As rosas choveram no palco, semi-abertas, pelo calor emanado de uma sala de espectáculo a abarrotar desabrichadas na noite do fado e caindo como estrelas de feérica luz branca em fundo negro absoluto.


Uma noite inesquecível.


Cláudia de Sousa Dias

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2008-01-02

Concerto de David Fonseca na Casa das Artes



Bacharel em Cinema, vertente de Imagem, pela Escola Superior de Teatro e Cinema de Lisboa, David Fonseca foi aluno da Escola Superior de Belas Artes de Lisboa (1992/94). Foi fotógrafo, colaborando com diversos catálogos de moda e participou em exposições colectivas e individuais. Nos discos que edita tem sido também o responsável pela imagem gráfica. Para além de vocalista, é autor de letras musicais e toca vários instrumentos musicais.
Em 2003, estreou-se a solo com o álbum
Sing Me Something New.
Em 2005, David Fonseca lançou o álbum
Our Hearts Will Beat as One com o lançamento do single em 300 rádios nacionais.
Regressa em Outubro de 2007 com o álbum
Dreams In Colour.


(Fonte: Wikipédia)


Dreams in Colour inclui onze temas compostos por David Fonseca e a sua própria versão de Rocket Man – uma canção de Elton John que se enquadra na temática de Dreams in Colour, a qual se debruça sobre a solidão e, de certa forma, na anomia, presente nos ambientes urbanos. Como contraponto, surgem canções a falar da tranquilidade e da paz em ambientes bucólicos.

Ao ser questionado sobre o porquê da temática na qual incidiu o concerto, David Fonseca admite oscilar entre o ambiente campestre e o das grandes metrópoles, comentando ser “…uma pessoa citadina, mas a tempos, porque a cidade deprime-me um bocadinho. Vivo um bocado entre esses dois mundos”.

E explica:

“A cidade traz a ideia falsa de que a vida é muito preenchida; na “aldeia”, é o oposto, o que move a nossa vida é a nossa acção (…) tem a ver com o facto de olharmos à nossa volta do ponto de vista do consumo (...) talvez porque, na aldeia se foque mais o olhar nas pessoas…ou talvez porque se ouça mais as pessoas.”

A sobriedade de David Fonseca, em palco, sem o mais leve vislumbre de vedetismo, juntamente com o carinho que coloca nas palavras dirigidas ao público famalicense (na sua maioria, muito jovem), foram o factor decisivo para que o concerto de sexta-feira, dia 23 de Novembro, realizado na Casa das Artes, despertasse a reacção entusiástica da plateia.
Para não falar dos impecáveis arranjos musicais e da performance da banda que acompanhava o cantor. O grande écran, como pano de fundo, permitia a visualização dos cenários, outra mais-valia a adicionar e a potenciar o efeito final.

O refinado sentido de humor de David Fonseca, que demonstra numa excelente capacidade para se rir de si próprio, ajudou a “quebrar o gelo” e a esbater a fronteira entre o público e o palco.

O contraste rítmico entre os vários temas apresentados contribuiu para o dinamismo, patente ao longo de todo o concerto, o qual contou com canções como Someone that can not love ou Secret Voyd, sendo a voz de David modificada com a ajuda de um sintetizador, neste último tema.

A qualidade vocal de D.F. é inquestionável: o cantor consegue atingir notas altíssimas – sem entrar em voz de falsete –, as quais alterna com os sons baixos que costuma introduzir nos ritmos mais lentos.

O público famalicense mostrou uma incrível capacidade para reproduzir o ritmo musical de algumas canções, chegando mesmo a requerer a performance de Kiss Me, oh Kiss Me marcando o compasso com o bater de palmas, deixando o cantor verdadeiramente deliciado.

Seguiram-se alguns momentos de humor, com a reprodução e paródia a alguns temas kitsch dos anos oitenta como Touch Me de Samantha Fox ou Boys de Sabrina (O cantor recusou-se, no entanto a reproduzir, Mónica Sintra!). O objectivo foi exclusivamente o de fazer a distinção entre a música pimba anglo-saxónica – caracterizada pela ênfase na repetição, quer textual que das notas musicais – e a música mais elaborada. No entanto, sublinha que gostaria de ter composto The Eye of the Tiger

Já a versão de Da, da, da dos Trio foi reproduzida na íntegra, deixando-nos impressionados com a velocidade com que pronuncia Ich liebe dich, du liebst mich nicht, mais uma das suas muitas habilidades vocais.

Os encores foram incisivos. A presença de David Fonseca seria indubitavelmente apreciada pelo triplo do tempo em que esteve no palco da Casa das Artes.

O concerto terminou com Temptation, um tema inédito, o qual afirma ser “um disco diferente dos outros: o lado bucólico não está tão omnipresente”.

De facto, o ritmo electrizante de Temptation é puramente urbano, frenético. Uma verdadeira tempestade de sons.

David Fonseca despediu-se do público com uma verdadeira jóia musical que começa com o som de um despertador, prosseguindo com o tique-taque de vários relógios a fazer lembrar o início do filme Delicatessen. O compasso dos relógios, que marca o ritmo de “uma viagem ao tempo em palco” transforma-se, gradualmente, num ritmo galopante, atingindo um paroxismo quase demoníaco, abruptamente interrompido, regressando logo a seguir, ao ritmo compassado do despertador, como um coração que tenta normalizar a alternância sistólica e diastólica, após a realizar um esforço sobrenatural.
O acorde final, após a última batida do relógio cardíaco, é dado por uma caixa de música.

A suprema e derradeira tentação.

Cláudia de Sousa Dias

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2007-12-15

Concerto de Nina Nastassia na Casa das Artes: a música e o humor por uma cantora Gourmet (e Gourmande) de voz excepcional



Duas guitarras aguardam a entrada da cantora, como duas guardiãs, postadas no centro do palco.

Uma jovem, semelhante a um duende, entra descontraidamente, olhando sub-repticiamente para o público. A postura e os gestos são tão despretensiosos que ninguém diria tratar-se de uma estrela. Sai do palco, advertindo expressivamente o público que volta em seguida…

Regressa, com uma garrafa de água, e senta-se. Pega numa das guitarras e solta uma acorde…de fazer acordar todos os mortos do cemitério!!!!

Começa, então, a dedilhar algumas notas e, então, a voz enche a sala. Uma voz fortíssima que quase dispensa o uso de microfone. O timbre é límpido, não muito grave, transparente e sussurrante como a voz de Enya nos pianissime, ou tonitruante como a de Skunk Anansie nos fortissime. Flexível e versátil. O potencial desta cantora torna-se inesgotável, ao aliar os dotes vocais com o perfeito à-vontade com que manipula os instrumentos, tornando-se desnecessário o acompanhamento de uma banda. Nina é compositora além de cantora. Criativa e originalíssima e, sobretudo, despretensiosa.

Dialoga com o público, explica o contexto de cada uma das canções. “I souldn’t gossip”. Isto é, não deveria falar dos colegas que a acompanham na banda. Mas a verdade é que não resiste a contar os pormenores mais divertidos, das suas digressões. As gargalhadas saltam como fogo de artifício. Um membro do público, com acentuadíssimo sotaque português do Norte, tenta conversar com a cantora (!!!!) a qual afirma não perceber uma única palavra daquele inglês, para ela, tão exótico. Resultado: gargalhada geral.

Nina comenta e elogia a gastronomia portuguesa – um dos seus maiores prazeres parece ser o facto de desfrutar de boa comida – à qual se rende incondicionalmente.

As canções sucedem-se numa alucinante variedade de ritmos a fazer lembrar uma montanha russa. Ou a alternância entre uma suave brisa marinha e a violência de um tufão no Pacífico.

Destaque para a belíssima balada “She” onde se misturam emoções como amor, desamor, ódio e nostalgia, a tónica dominante na lírica de Nina Nastassia.
E foi assim a noite de 16 de Novembro na Casa das Artes em Vila Nova de Famalicão.
Com Nina Nastasia, vinda de Nova Iorque.

A cantora da voz de vento que se apaixonou por Portugal.
(Principalmente por causa da comida)
:-)


Cláudia de Sousa Dias

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2007-12-10

Concerto de Lauren Field na Casa das Artes



Beleza, requinte e muita sedução.

São os adjectivos que coloriram o concerto realizado no passado dia 20 de Outubro no Grande auditório da Casa das Artes.

Lauren Field, já foi actriz, mas a sua verdadeira vocação é, indiscutivelmente, a música, pelo que, há alguns anos atrás, sofreu uma reconversão na sua carreira, redireccionando-a.

Lauren fez o seu début na música jazz, onde predomina a melancolia dos blues e à qual adiciona um pouco do estilo de bossa nova no álbum “Modern Woman”, um trabalho de há cerca de dois anos atrás.

As melodias saíram, na sua maior parte da sua própria pena, embora o concerto de sábado contasse com algumas incursões de temas novos e de compositores clássicos como “I’ve got you under my skin” de Cole Porter.

A sua música está classificada como pertencente à categoria de jazz acústico/blues à qual se junta uma pitada do aroma apimentado dos ritmos latinos, de onde emerge, por vezes, a sensualidade da rumba cubana, que se junta à influência do estilo de Janis Joplin e Billie Holiday, em canções como “Havana”, por exemplo.
Segundo a própria cantora, algumas das suas letras originais têm muito de autobiográfico. Na realidade, está patente nos seus poemas musicados uma certa ironia, algo amarga, no que diz respeito à igualdade de oportunidades entre homens e mulheres.

Quanto à voz, a versatilidade e qualidade superior em diferentes registos, bem como a riqueza tímbrica demonstrada, colocam-na ao nível de cantoras de destaque como Diana Krall ou Norah Jones.

A beleza das melodias foi amplamente realçada pelo acompanhamento dos outros membros da banda, particularmente pelos solos vindos do piano, que foram entusiasticamente aplaudidos.

Destaca-se a beleza melancólica de canções como “Funny Valentine” e sobretudo “My Man”, cujos acordes iniciais remetem para o romantismo de clássicos como Débussy ou Chopin.

Um concerto que, para os espectadores, fechou a semana com chave de ouro.



Cláudia de Sousa Dias

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2007-10-27

“A Bela Adormecida” de Tchaikovski: um espectáculo que deliciou o público de Famalicão no Grande Auditório da Casa das Artes



A Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão apresentou, este fim-de-semana, nos dias 5 e 6 de Outubro, o espectáculo de bailado, intitulado “A Bela Adormecida”, uma peça musical da autoria de Piotr I. Tchaikovski, trazida à cena pela escola Ginasiana de Vila Nova de Gaia.
O corps de ballet era composto, essencialmente, por alunos amadores – ainda a frequentar o conservatório – mas de entre o qual já se faz notar algumas interpretações de elevadíssimo nível, a denunciar um potencial de qualidade superior. Sobretudo Mirella, a Fada Cor-de-Rosa – na apresentação de Sábado – cuja leveza de pássaro lhe facilita o elevado nível de performance técnica, demonstrada nos saltos e piruetas. Já Kátia, a Fada Lilás, mostra uma excelente capacidade de interacção com o público, onde facilmente nos apercebemos, também, que a capacidade de expressão ultrapassa a técnica propriamente dita, a qual já se encontra no patamar de “Bom”. O porte e a altura da jovem bailarina reforçaram a beleza dos movimentos executados.

Destacou-se, ainda, e antes de tudo, o desempenho da bailarina que interpreta o papel da Princesa – Elena Martinova – que nos chega da Escola Russa de Leninegrado e que conta, já, com um vasto currículo nos círculos balléticos, tal como o irmão, que interpretou a figura do Príncipe.

Elena personificou a beleza grácil nos movimentos sincrónicos das mãos, no voltear da perna, na extrema segurança ao executar saltos e piruetas e na fluidez mostrada durante as ligações entre várias sequências de passos.

Já a exibição de Andrei Martinov revelou-se um pouco mais modesta, em virtude de se encontrar lesionado.

Durante uma curta entrevista, após o final do espectáculo, o coreógrafo e director artístico Marcelo de Souza afirmou que, ao idealizar o guarda-roupa para a peça, pretendeu que esta se situasse, de certa forma, “fora do tempo” ou atemporal. Onde as fadas surgem como aparições, indo ao encontro da concepção mais tradicional do figurino e da coreografia do ballet clássico, o mesmo acontecendo em relação ao par protagonista. Já o guarda-roupa das restantes personagens, permite ao espectador situar a história em qualquer época, seja ela medieval, renascentista, na belle époque ou contemporânea.

Marcelo enfatizou, ainda, a intenção de introduzir o contraste entre o elemento clássico e o moderno, ao confrontar a dicotomia dos arquétipos do Bem e do Mal, que são sublinhados por dois estilos opostos quer no que toca ao guarda-roupa, quer a dança propriamente dita. Isto é: ao artificialismo do ambiente da corte, espartilhado no protocolo regido pelo Mestre-de-Cerimónias, Marcelo opõe a entrada da ultra-rebelde Fada Má e do seu séquito.

Ela é, nitidamente e desde o primeiro momento, “ pessoa indesejada, cuja presença é fisicamente incómoda, segundo afirma Marcelo Souza.

É, sobretudo, sexualmente provocadora, exibindo uma sexualidade ambígua e um visual inspirado nas drag queen – cabelo rapado, botas com plataformas e um vestido vermelho e preto de onde emerge um corpo musculado, a sugerir uma bomba de sensualidade, prestes a explodir.

A Fada Má e os seus seguidores tentam, ainda, introduzir o erotismo na corte, ao aliciar os outros intervenientes.

A interpretação desta Fada Má, com algo de dominatrix, esteve a cargo de Isabel Ariel e foi, sem sombra de dúvida, a melhor interpretação de todo o espectáculo, nivelada apenas com a de Elena Martinova.

Isabel alia, ao perfeito domínio da técnica de dança, um excepcional talento como actriz. Um verdadeiro “animal de palco”. Ou a Callas da dança moderna.


Um belo espectáculo, onde a improvisação do corpo de baile infantil proporcionou um momento de especial deleite e descontracção na plateia.

Um belo projecto de desenvolvimento e formação de novos talentos.


A continuar.

Em nome da Arte.


Cláudia de Sousa Dias

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2007-06-04

Anabela Duarte na Casa das Artes – Kurt Weill e Boris Vian reunidos em palco pela voz sublime da cantora



Foi com um enorme e agradável sentimento de surpresa que desfrutámos, no passado dia 18 de Maio, da presença e da voz de Anabela Duarte, a ex-vocalista dos Mler Ife Dada, na Casa das Artes, com canções de Kurt Weill e Boris Vian, num registo totalmente diferente daquele que ficou conhecido do grande público nos anos 80.

Com este espectáculo, Anabela apresenta o seu último trabalho – Machine Lyrique – composto exclusivamente por canções de Boris Vian e Kurt Weill . Dois autores que, pela temática abordada, foram considerados quase que marginais, pelo facto de se dedicarem a parodiar o meio social e cultural, tanto europeu como americano, no período que se seguiu à Segunda Grande Guerra. Weill foi, inclusive saneado, no seu pais natal, durante o período do nazismo, sendo obrigado a emigrar. A intenção de ambos era, realmente, ultrapassar a fronteira do social e politicamente correcto ao escreverem canções como “Le Deserteur” ou “Je bois” (Vian) ou a homenagearem grupos underground como as prostitutas ou os marinheiros, respectivamente caracterizados por Weill com “J’attends un navire” e “Surabaya Johnny”.

Anabela Duarte deleitou o público, desconhecedor da sua faceta de actriz, à qual junta uma belíssima voz trabalhada, ao longo dos anos, durante os quais desenvolveu uma carreira multifacetada: desde a monografia da sua licenciatura – O Fantástico na Ópera McBeth de Verdi – até à interpretação de peças da cena lírica e clássica de autores como Verdi, Bellini, Donizzetti, Strauss, Satie, Bach, Mozart, Carl Orff e Offenbach, entre muitos outros, passando pela dança – moderna e clássica –, o teatro, a música – piano – e, ainda, uma pós-graduação em antropologia. Tudo mais-valias que, em palco, fazem toda a diferença colocando-a a anos-luz de interpretações medíocres.

O dramatismo que coloca em canções como “Je bois” ou “J’attends un Navire” (Vian) ou a sensualidade natural em “Surabaya Johnny” (Weill) a beleza lírica em “September Song” (Weill), assim como o equilíbrio perfeito entre a musicalidade do canto e a declamação em “Bilbao Song” (Weill) ou “Je suis Snob” (Vian), que se conjuga com um momento de inesperada e extrema sensualidade quando, na interpretação de “Speak Loud”, se parte uma alça do vestido – o erotismo a rebentar pelas costuras a extravasar do vestido, justíssimo – um momento muito “Vian”…

A extensibilidade da voz de Anabela e a facilidade com que se movimenta nos agudos está patente em “Cet Été” (Vian), numa interpretação exigente e fisicamente extenuante em termos de esforço vocal.

Tal como em “Tchaikovski” (Weill) uma composição alucinante, de inspiração cossaca, cujo ritmo atinge um paroxismo quase demoníaco, orgíaco no final – uma das canções mais exigentes de todo o repertório.

Mas a “cereja no bolo” ficou para o final espectáculo: o belíssimo “Youkali Tango” (Weill) onde Anabela Duarte exibe toda a técnica vocal da bela voz de soprano, soberba, desde os pianissíme aos fortíssime, que facilmente dispensa o uso do microfone! Uma interpretação que provocou o inequívoco efeito “pele de galinha”, brilhantemente acompanhada ao piano por Ian Mikittoumov.

O público rendeu-se, definitivamente. Aplaudida de pé, Anabela foi obrigada a regressar mais duas vezes ao palco para os encores. O primeiro, uma sátira de Vian e, para terminar, o inédito e hilariante “La Valse des Chats” do poeta “enfant terrible”, deixando-nos deliciados com linguagem dos miados.

Uma intérprete que prima pela sobriedade do visual. De negro, sem um único enfeite. Sem uma única jóia.

Só o Talento.

E o feitiço da sedução na voz.

Cláudia de Sousa Dias

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2007-03-17

Uma noite com Yann Tiersen na Casa das Artes



Para muitos espectadores a enorme expectativa criada à volta do concerto de Yann Tiersen, que teve lugar no passado dia 6 de Março na Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão prendia-se, sobretudo, com o trabalho que deu origem às bandas sonoras dos filmes O fabuloso destino de Amélie Poulain e Goodbye Lenin.

No entanto, as arranjos musicais elaborados pelo compositor que, no seu último trabalho, sintetiza dois géneros musicais completamente opostos – o clássico e o rock – possibilitaram o reconhecimento imediato das melodias de pendor mais clássico, presentes em trabalhos anteriores, que surgem agora “vestidas” de um dinamismo proporcionado pelos instrumentos eléctricos, cuja energia contagiou o público. Este viu-se literalmente transportado para o estado de euforia e delírio, que se traduziu num dos mais entusiásticos aplausos da História da Casa das Artes.

A guitarra eléctrica substituiu, por diversas vezes, ao longo do concerto, o violoncelo, enquanto que, noutros momentos, o virtuosismo do violino manipulado por Tiersen, quase imitava o som das gaivotas e das orcas, ao interpretar uma das melodias do seu trabalho Le Phare, onde predominam os sons da beira-mar – uma das prestações mais aplaudidas do espectáculo.

Uma das guitarras foi, muitas vezes, percutida como se se tratasse de um xilofone – golpe de audácia criativa que caracteriza o compositor - , instrumento utilizado com bastante frequência nos trabalhos de Tiersen, enquanto que a imitação do som do vento resultava de uma combinação do som do violino com a manipulação de uma serra de carpinteiro.

O concerto revestiu-se de um grande ecletismo rítmico, onde o espectador melómano pôde sentir-se passar, de uma momento para o outro, do paraíso ao Inferno, através da criação de um contraste chocante entre a agressividade da guitarra e dos instrumentos de percussão, com a doçura do xilofone.

Por outro lado, a calma e a envolvência da voz de Tiersen, que substituía o timbre aquático da voz de Shannon Wright, opunha-se ao ritmo dos instrumentos electrónicos impróprio para cardíacos.

Mais perto do final do espectáculo, nos temas instrumentais retirados do álbum Les Retrouvailles, a guitarra e o órgão criam como que uma música fantasmal a lembrar uma viagem nocturna na auto-estrada do silêncio.

Subitamente, os gemidos do violino rasgam a noite com os seus requebros, a fazerem lembrar os mais complexos capricci de Paganini. O canto do violino é, por sua vez, cortado pelo impressionante abalo sísmico da bateria, após o qual, a voz de Yann Tiersen, regressa como um narcótico.

Por fim, chega aos nossos ouvidos a doçura dos acordes de um acordéon, a trazer à memória as cenas interpretadas por Audey Tautou ao interpretar Amélie Poulain, numa melopeia repentinamente transmutada num ritmo galopante, onde o arco do violino de Tiersen se movimenta num frenesi dionisíaco, parando abruptamente.

A multidão aplaude, em êxtase absoluto.

O concerto termina. A multidão grita “bravos”. Ouvem-se assobios estridentes. O público permanece de pé a bater palmas durante mais de dez minutos seguidos, exigindo o regresso do músico.

Yann Tiersen volta ao palco para os encores.

O violino e o som do marulhar das ondas inundam o auditório. O compositor terá ainda de regressar mais duas vezes ao palco. O Público está simplesmente insaciável.

A seguir veio a sessão de autógrafos, após a qual o compositor ainda cedeu alguns minutos do seu tempo para uma mini-entrevista, antes de partir com a sua banda para Lisboa.

Em resposta ao pedido do Jornal Cidade Hoje para falar um pouco do seu último trabalho, Yann Tiersen afirma:

«A minha intenção foi a de construir versões completamente diferentes da minha anterior discografia, partindo das velhas canções. Foi como que um começar de novo, um renascimento, um abrir de novas portas.»

A formação de Yann Tiersen é clássica, tal como tivemos a oportunidade de observar pela mestria demonstrada nos seus solos ao violino ou, em trabalhos anteriores, ao piano.

«Eu estudei piano e violino desde os seis até aos doze anos de idade. Depois, já “farto”do estilo clássico, descobri o rockn’roll, nos anos da minha adolescência. Fundei uma banda. E agora, com este novo “live álbum” fecha-se o ciclo ao reunir os dois estilos em palco!».

Quando lhe perguntamos se para o próximo ano ou daqui a dois anos, poderemos contar com Yann Tiersen na Casa das Artes de Famalicão, acompanhado por uma orquestra ele responde simplesmente:

«Talvez as duas coisas: a orquestra e a guitarra eléctrica…»

E foi assim a noite de 6 de Fevereiro de 2007 em que Yann Tiersen levou ao rubro a cidade de Famalicão.

Um compositor contemporâneo, cujo talento o colocará, sem sombra de dúvida, na galeria dos Imortais.

Ficámos à espera, num eterno encore.

Cláudia de Sousa Dias

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2006-11-27

Sobre António Fagundes e “As Mulheres da minha Vida”

Tive, no passado dia 17 de Novembro, que tive a oportunidade de assistir na Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão, à peça As Mulheres da minha Vida, com um actor que, para o Grande Público, dispensa apresentações.

O carisma de António Fagundes conjugado com a qualidade da peça levada a palco, contribuíram, respectivamente, para que a lotação esgotasse em todas as récitas e para que o actor fosse aplaudido de pé por um público completamente seduzido. A genialidade do texto de Neil Simon, aliada ao virtuosismo e expressividade de António Fagundes conseguiram hipnotizar o público, logo à primeira frase. Quanto às restantes personagens, elas actuam como elementos de suporte que gravitam à volta do protagonista, George, um escritor de sucesso.

E as mulheres da vida de George nada mais são do que as diferentes formas de afectividade, que ele consegue exprimir.

A peça consiste essencialmente num monólogo, ou melhor, num diálogo interno, imaginário, de um escritor – George – com as pessoas que lhe são mais próximas, todas elas mulheres: a irmã, Karen, sensível, dedicada e solitária, que o ama incondicionalmente, o seu grande apoio afectivo; Diana, a esposa actual, uma executiva de topo , com quem tem graves problemas de comunicação, devido ao facto de viverem em mundos completamente diferentes; Carol, a filha na fase adulta, inteligente, culta, devotada ao pai, mas quase sempre ausente; a recordação da filha na fase infantil, observadora, perspicaz e doce; a memória da falecida esposa, Júlia, com quem teve um casamento idílico, de uma felicidade quase perfeita, com todos os sonhos realizados; a psicóloga, Edith, a consciência de George, cuja frieza objectividade e sentido de humor algo ácido, o levam a olhar para si mesmo como se fosse Outro, facilitando-lhe a introspecção. Edith é a consciência do lado negativo de George.

O aspecto mais curioso dos diálogos é o facto de todas estas personagens entrarem em diálogo uma com as outras e não somente com o protagonista. O tema da conversa é só um: o próprio George, o que é um sintoma mais do que evidente do seu extremo narcisismo. Todo o diálogo interno com as restantes personagens é originário da mente do próprio protagonista. Nestes diálogos ou monólogos, George é sempre o centro das atenções. Para ele, é extremamente importante a forma como os outros o vêem, para analisar o tipo de relação que estabelece com as pessoas. George é um a pessoa extremamente insegura., sempre encerrado em si mesmo, na sua concha, refugiado no mundo restrito da sua caixinha de trabalho – o computador.

A evolução da personagem consiste exactamente num trabalho de auto descentralização ou de extroversão, passando a focar-se nas necessidades daqueles que o rodeiam.

A intensa actividade mental, expressa mo monólogo interno de George é característica da estrutura mental típica de quem faz da escrita criativa a sua ocupação principal: é a mente de alguém que está em constante diálogo consigo próprio e a reconstituir as situações do quotidiano.

Por outro lado, o diálogo real entre George e Diana, é o espelho que reflecte o dia-a-dia de duas pessoas que não têm muitos interesses em comum e que optam por formas de estar e de se relacionar com os outros completamente diferentes, para não dizer opostas. O que as obriga necessariamente a uma ruptura. Sobretudo quando ambos têm personalidades fortes – como é o caso – tornando impossível a submissão de um face à forma de estar do outro. Ou têm ambos de passar por uma fase de amadurecimento e crescimento para tornar possível uma vida em comum.

Por todas estas razões As Mulheres da minha Vida é uma peça imperdível. Pelo menos, enquanto o elenco estiver em digressão em Portugal...

Cláudia de Sousa Dias

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