2012-03-07





Foto de Sandra para Resim & Fotoğraf.










Necessito de desorganizar-me


Necessito de desorganizar-me. Há um abismo em pêndulo. As casas dissolvem-se perante a voz negra que me cega. Horrorizo a maldade do mundo - as marionetas. Quero transferir-me para a costa do sol e comer os frutos deliciosos do bosque escrito nas margens do lábio - a sinceridade chora-se pela ferida.


A injustiça dos corações. A fraca humanidade e a melancolia da raiva - um punhal emerge - apetece matar.


A clivagem entre as caras. A clivagem do verbo. A savana repleta de hienas e um trigo indolente que adoece a flora na retina da casa - a desorganização orgânica explode na íngreme esfera - os poros suam cadáveres e a dismenorréia corre como um rio - o mensageiro decepa órgãos.


Corre um sémen pela turbina da fauna. Um vento frio esconde a boca e o resto numa água febril - a ebulição dos peixes amontoa-se na lixeira social.


Quero berrar. Quero berrar-me. Não consigo...


A exaustão violenta da cólera desmente-me nas esquinas.


Tenho-me preso nas abóbadas do sangue.


Alguém emerge.





Carlos Vinagre

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Cold Season






Foto de Emira para Resim & Fotoğraf.










I am cold.

I am cold and it is like–
I will never warm up.
My Darling, Darling Beloved!
How old was that wine?

Don't you see?
We live in the age of drowning time,
and the sharks are biting-–
into my arms.

So why, why?
Why do you still keep me–
beneath this nameless freeze–
of the seas?

**&**

I am cold.
I am cold and I hate–
these pearl earrings!

I am cold and I know:
From all the illusions of a tulip,
only a few drops of blood will last.

But,
a few drop of blood–
will last, last!









Forough Farrokhzad (Selected from The Cold Season, 1967)

(Trans.: MD, March 2006, Montréal)
.




Por: Persian Poetry in English

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2012-03-05

Mulheres de Atenas





Foto: de João Costa




Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres
De Atenas!
Vivem pr'os seus maridos
Orgulho e raça
De Atenas!...

Quando amadas se perfumam
Se banham com leite
Se arrumam
Suas melenas...

Quando fustigadas não choram
Se ajoelham, pedem, imploram
Mais duras penas
Cadenas!...

Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres
De Atenas!
Guardam-se pr'os maridos
Poder e força
De Atenas!...

Quando eles embarcam soldados
Elas tecem longos bordados
Mil quarentenas
E quando eles voltam sedentos
Querem arrancar violentos
Carícias plenas
Obsenas!...

Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres
De Atenas!
Despem-se pr'os maridos
Bravos guerreiros
De Atenas!...

Quando eles se entopem de vinho
Costumam buscar o carinho
De outras falenas
Mas no fim da noite, aos pedaços
Quase sempre voltam pr'os braços
De suas pequenas
Helenas!...

Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres
De Atenas!
Geram pr'os seus maridos
Os novos filhos
De Atenas!...

Elas não tem gosto ou vontade
Nem defeito, nem qualidade
Têm medo apenas
Não tem sonhos
Só tem presságios
O seu homem, mares, naufrágios
Lindas sirenas
Morenas!...

Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres
De Atenas!
Temem por seus maridos
Heróis e amantes
De Atenas!...

As jovens viúvas marcadas
E as gestantes abandonadas
Não fazem cenas
Vestem-se de negro
Se encolhem
Se conformam e se recolhem
As suas novenas
Serenas!...

Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres
De Atenas!
Secam por seus maridos
Orgulho e raça
De Atenas!...

por Ney Matogrosso

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2012-03-04

"Caruso"





Foto: José Eduardo Agualusa











Qui dove il mare luccica,


E tira forte il vento


Sulla vecchia terrazza


Davanti al golfo di surriento


Uno uomo abbracia una ragazza


Dopo che aveva pianto


Poi si schiarisce la voce,


E ricomincia il canto



Te voglio bene assai


Ma tanto tanto bene sai


É una catena ormai


Che scioglie il sangue tinto vene sai...



Vide le luci in mezzo al mare,


Penso alle notti là in america


Ma erano solo le lampare


E la bianca scia di un'elica


Senti il dolore nella musica,


E si alzo dal pianoforte


Ma quando vide uscire


La luna da una nuvola,


Gli sembro piu dolce anche la morte


Guardò negli occhi la ragazza,


Quegli occhi verdi come il mare


Poi all'improvviso usci una lacrima


E lui credette di affogare



Te voglio bene assai


Ma tanto tanto bene sai


É una catena ormai


Che scioglie il sangue tinto vene sai



Potenza della lirica,


Dove ogni dramma è un falso


Che con un po' di trucco e con la mimica


Puoi diventare un altro


Ma due occhi che ti guardano,


Cosi vicine e veri


Ti fan scordare le parole,...


Confondono i pensieri


Cosi diventa tutto piccolo,


Anche le notti là in america


Ti volti e vedi la tua vita,


Dietro la scia di un'elica


Ma si, è la vita che finisce,


E non ci penso poi tanto


Anzi, si sentiva gia felice,


E ricomincio il suo canto



Te voglio bene assai


Ma tanto tanto bene sai


É una catena ormai


Che scioglie il sangue tinto vene sai






Lucio Dalla

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2012-03-03

Motor de busca (embriólogo) A.A.















foto: Emira para Resim & Fotoğraf.






Escrever é esse voo movediço
Incêndio de sombras

Encontro de língua com lama
embebida em luz

Cortejo vagabundo
atravessando uma morte íntima, menor
que a de um homem
trespassado por um beijo

Etiquetas: katyuscia carvalho

do mural de Virgílio Liquito no faebook

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2012-03-02

"Parts of The Cold Season"







Foto de Emira para 
Resim & Fotoğraf.






Let us believe,
let us believe in the beginning of the cold season.
let us believe in the ruin of the garden of dreams,
in unloaded, abandoned spades, and in caged seeds.

Look!
The snow is falling outside.

Perhaps, Truth was those young hands.
They are now buried under the unending blow of snow.

But,
when the spring makes love-
to the blue reflection of the sky-
and the green stream of fresh grass-
flows in its veins- they will flourish, my Beloved!
They will flourish, My Beloved!
Forough Farrokhzad , 1967

(Trans.: MD, March 2006, Montreal)
.
PS. In the picture: Forough Farrokhzad on set of her documentary The House Is Black, 1962.

See: http://en.wikipedia.org/wiki/The_House_Is_Black
.

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2012-02-27

"The Bird May Die"









Foto: Sandra para 
 Resim & Fotoğraf.




I feel sad,
I feel blue.

I go outside and rub my cold fingers–
on the sleek shell of the silent night.

I see that all lights of contact are dark.
All lanes to relate us- are blocked.

Nobody will introduce me to the sun.
Nobody will take me- to the gathering of doves.

Keep the flight in mind,–
The bird may die.


Forough Farrokhzad, 1962
(Trans.: MD, September 2006, Montreal)
.

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2012-02-26

Ahmad Shamlou (Parts of The Hyman Abraham in Fire*, 1973)


Foto de Kenya (Lake Manyara)















The deluge of dawn,
wounded and bleeding, 
runs to hail a man, a man–
beyond the ground–
of the mundane.

What a man!
What a man!

A man who believed–
the truth of a man can only blaze–
in its fated tryst with the blades.
Such loyal to Love!

And ,the mystery of his end–
constantly streams, 
in the sorrows of Love–
and the torments of Solitude.

**&**

“And who-
was ever as dignified–
as to draw the lines of My Destiny?
Which One?”

I, I alone, screamed: No!
I, I alone, soared away–
from the Fall.

I was a voice and a face-–
amongst the collection of depictions.

But then,
I was animated in the dimensions of sense.

I was,
But then I became;
Not alike a bud thriving into a rose;
and not like roots into stems;
and not like seeds into forest;
But like a man, just a man–
surging into a martyr,
The Martyr!

(Trans.: MD, June 2010, New Brunswick)
.
* 'The Hymn of Abraham in Fire' was composed by Ahmad Shamlou as an elegiac poem for the execution of one of his friends, Mehdi Rezaei, in the pre-revolution Iran.
.
Por: Persian Poetry in English

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2012-02-22

cinzas e rosas






Foto do mural de Isabel Mendes Ferreira, imagem disponível no google








existo sem continuidade.existo em folhas em cinza em pétalas. em memórias bravias umas aparentes outras. existo para dizer esventradamente a renúncia e a subtileza do mato e da água doce que me existe vagabunda insana e respiração.
existo em cinzas de rosas. em rosa ao lado das cinzas.




de Isabel Mendes Ferreira

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2012-02-21

Ser Poeta




Foto: Jornal Público


S. stenophylla  planta do pleistocénico congelada há cerca de 30.800 anos descoberta e "ressuscitada" pela equipa de cientistas russos liderada por  Svetlana Yashina e David Gilichinsky













Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!
É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!
É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!
E é amar-te, assim perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!


Florbela Espanca

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2012-02-20

"De cereja translúcidos"







Foto de Maasai












Para Jacob 


Quem fomos naquele quarto
Se não desespero de carnes, animais vulcânicos
Sem tino nem despedida digna da tua criança
Que se perdeu tão sozinha numa mancha vermelha
Talvez eu seja um pouco religioso, talvez um pouco antiquado, talvez um porco
Mas agora que a tua criança se foi eu estou triste
e o teu sorriso ficou velho
o meu fôlego faliu
Nem coragem tenho para contar de como mal sobrevivo
à partida da tua criança que tinhas desde criança
há tão poucas horas atrás
Tão só, só eu sou agora,
Esqueceste-te de alguma coisa, amor?
Guardaste tudo na mala? Não, deixa os sabonetes do hotel
Eu compro-te aqueles de cereja translúcidos na loja das alfazemas (para virgens)
Deixa tudo anjo, que a tua criança partiu
E a única graça que deixou foi o teres pensado que foi bom
mas eu sei que o amor que te dei, que me deu vida, matou
a criança que foste, a criança que se esfumou como um fantasma
na escuridão incerta de um quarto
cujas toalhinhas brancas mudam-se dia a dia.

August Miller, in, "The old Hotel"

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2012-02-19

"Bandoleiro"



Foto de Alain Hanel












Fossem ciganos a levantar poeira
A misturar nas patas
Terras de outras terras, ares de outras matas
Eu, bandoleiro, no meu cavalo alado
Na mão direita o fado
Jogando sementes nos campos da mente
E se falasses magia, sonho e fantasia
E se falasses encanto, quebranto e condão
Não te enganarias, não te enganarias
Não te enganarias, não!
Fossem ciganos a levantar poeira
A misturar nas patas
Terras de outras terras, ares de outras matas
Eu, bandoleiro, no meu cavalo alado
Na mão direita o fado
Jogando sementes nos campos da mente
E se falasses magia, sonho e fantasia
E se falasses encanto, quebranto e condão
Feitiço, transe-viagem, alucinação
Miragem...





Ney Matogrosso

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2012-02-17

Odor a Jasmim



Foto: Inspire me (partilhada através do Facebook)







E o Monstro disse à sua amada:
“Ainda não tenho saudades dos teus
Lábios rendilhados, bordados a jasmim”.
E a Bela retorquiu: 
“ Terás mais tempo de todo o mundo, de todas as saudades do relevo meus lábios Rendilhados”.

Virgílio Liquito

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2012-02-15













Foto de Sandra para   Resim & Fotoğraf.








Paura / Medo
Paura

Nuda come uno sterpo
nella piana notturna
con occhi di folle scavi l’ombra
per contare gli agguati.
Come un colchico lungo
con la tua corolla violacea di spettri
tremi
sotto il peso nero dei cieli.

Antónia Pozzi

Medo

Nua como uma vara
em chão noturno
com olhos de loucura escavas a sombra
para contar as emboscadas.
Como um açafrão-do-prado
com a tua corola violácea de espectros
tremes
debaixo do negro peso dos céus

(trad: alberto augusto miranda)

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o amor é todos os dias...

Foto de Emira para Resim & Fotoğraf.











Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?


Luís Vaz de Camões

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2012-02-08

Escritor Francisco José Viegas, Secretário Geral da Cultura, visita Ceide para comentar filme de José Fonseca e Costa, baseado na obra de José Cardoso Pires



Francisco José Viegas nasceu no Pocinho, precisamente a última paragem da linha do Douro e esteve cá em Famalicão na passada 6ª dia 27 de Janeiro para falar sobre o filme “A Balada da Praia dos Cães”, realizado por José Fonseca e Costa, também presente no evento. O filme é baseado na obra homónima do escritor José Cardoso Pires
Francisco José Viegas foi professor de Linguística e Semiótica na Universidade de Évora, director da Casa-Museu Fernando Pessoa de 2006 a 2008, director da revista “Ler”; foi, também, apresentador de televisão em vários programas relacionados com a Cultura e a promoção da Literatura. É autor de vários romances policiais, ensaios e, também, poeta. Foi, ainda, director da editora Quetzal e deputado independente pelo PSD tendo sido, em 2011, nomeado para a função de Secretário de Estado da Cultura.

Francisco José Viegas afirma ter escolhido este filme de José Fonseca e Costa pelo facto de o mesmo filme ser baseado numa obra de José Cardoso Pires, escritor da sua preferência, e por este filme não estar disponível em DVD, tendo sido necessária a autorização do realizador para exibir o exemplar depositado no acervo da Cinemateca Portuguesa..

«Escolhi esta obra por ter um conjunto de personagens muito bem construídas que, no filme, adquirem uma dimensão que me comove muito. E, claro, por causa da cena erótica no elevador, que vem na página 110 do livro, mas onde no filme os actoresrespiramde forma particularmente intensa. Depois, gosto mais do Elias Santana do filme do que do livro, por causa da melancolia no olhar de Raul Solnado, que me comove muito, também. É um filme português, de um autor português... José Cardoso Pires e eu tivemos uma amizade muito tardia. Quis entrevistá-lo a propósito deA Balada da Praia dos Cãese deAlexandre Alpha. Fomos almoçar e...embebedámo-nos. E não fiz a entrevista. (risos)».

«A Balada...é fascinante porque acaba por ser o romance policial típico. Sou da opinião que toda a literatura é policial onde são usadas determinadas marcas como fórmulas: a morte, a vida , o mistério, o medo, a paixão. Quis homenagear a obra de José Cardoso Pires e de José Fonseca e Costa num filme ao qual fiqueipreso

O interesse demonstrado pelo cineasta José Fonseca e Costa em relação à realização do filme, tem a ver com a temática em si e com o hábito de José Cardoso Pires misturar personagens fictícias com personagens reais.

«Gosto do filme, porque tanto eu como o(Cardoso Pires) tivémos conhecimento dos factos que estão na origem do romance, ainda antes de se tornarem conhecidos (a morte do General Almeida Santos). Também penso que todas as histórias que se contam são policiais porque toda a história que não mete, paixão, medo e mistério, para mim não têm interesse nenhum. Um dos maiores realizadores de filmes policiais é, para mim, a figura de Michelangelo Antonioni.»

José Cardoso Pires parece ter explorado todo um conjunto de infelizes coincidências e “A Balada da Praia dos Cães” envolvendo um conjunto de personagens presos nas suas convicções políticas e desejos pessoais, tornando possível um complexo jogo de conflitos, pelo que, se não fosse isso, o desenvolvimento da trama seguiria um caminho muito mais formal.

Face a isto, Francisco José Viegas confessa sentir-se movido pela personagem Elias Santana, a qual inspirou a criação do seu detective, Jaime Ramos, presente em todos os seus romances policiais. A figura do inspector da polícia é, segundo o escritor, quase sempre uma figura da contra-cultura”.

«Maso Eliasestá nos antípodas. Ele é o produto típico da sociedade do Estado Novo. No romance, são mantidos dois tipo de tensão: a tensão política e a tensão passional

José Fonseca Costa, confrontado com a questão relativa à adaptação do livro ao cinema , responde à questão lançada pelo moderador do debate, Dr. José Manuel, director do Centro de Estudos Camilianos, sobre o que teria retirado da história original, o cineasta afirma ter suprimido, como pano de fundo, a cidade de Lisboa, a qual aparece sempre nos romances de José Cardoso Pires.

«No romance, José Cardoso Pires faz de Elias Santana um pequeno vicioso (o sonho voyeurista na cena do elevador) e que faz grandes deambulações por Lisboa. Mas naquela época (anos 80) era impossível filmar essa Lisboa porque os passeios estavam atulhados de carros e era impossível reconstituir o ambiente dos anos 60, altura em que havia muito menos carros.»

O realizador afirma, também, ter sido a escolha de Raul Solnado algo complicada não só porque o actor nunca antes tinha explorado a sua faceta dramática, tendo, à primeira abordagem, recusado o papel. Mas também, porque o próprio José Cardoso Pires não acreditava no resultado da escolha. Solnado, no entanto, muda de ideias e Cardoso Pires, ao ver o filme concluído, dos poucos elementos que aprecia realmente na obra é, precisamente, o desempenho de Raul Solnado.

José Fonseca e Costa fez notar que “A balada da Praia dos Cães” teve um grande impacto fora de Portugal, particularmente em Espanha e França, devendo muito o sucesso à participação e desempenho dos actores. Além do mais, tratando-se de uma co-produção entre Portugal, Espanha e França, houve muitos actores a falar várias línguas diferentes tendo de se recorrer à dobragem em algumas vozes.

«Assim, tivemos Mário Viegas a fazer a voz do capitão, Paula Guedes a fazer a voz de Mena (interpretada pela belíssima actriz Assumpta Serna) e António Feio a dar a voz à personagem Roque.»
O realizador sublinha que, a gravação das vozes em estúdio, em substituição do uso do som directo, é muito comum no cinema comercial americano e, também nos filmes italianos - Fellini recorria sempre a esta técnica – enfatiza o realizador.

Relativamente a Elias, José Fonseca e Costa afirma não se tratar de uma personagem inspirada em Salazar , mas no sistema.

«Elias Santana é produto da sociedade do Estado Novo mas não é inspirado em Salazar. É antes o retrato do salazarismo, um homem tipicamente lisboeta, solitário, tem muitos tiques de Fernando Pessoa na figura de Bernardo Soares. A decoração do quarto, a religiosidade...só podia ser português . Tem algo de um personagem do escritor grego Petrus Makaris. Makaris tem uma personagem um pouco assim, misógino; embora Elias Santana não é propriamente misógino, mas é solitário. O José Cardoso Pires deu-lhe um tom mais malandro».

«José Cardoso Pires escreve o livro como se de uma peça processual se tratasse. A escrita dele é muito perigosa, faz notas de rodapé, tal como emO Delfim. É uma escrita muitoburguesa, típica do século XIX. No entanto, José Cardoso Pires é, também, muito marcado pela influência dos escritores americanos como Norman Mailer no aspecto do apuramento documental e na mistura de situações fictícias com factos reais.»

Também agindo um pouco como Elias Santana, José Cardoso Pires parece ter-se inspirado na personagem real Maria José para construir a figura de Filomena Ataíde. Para tal, espiava-lhe os movimentos. O realizador, que a conhece pessoalmente , afirma ter ainda acrescentado alguns elementos que não estão no livro, salientando que “ uma história muito interessante para contar do ponto de vista da Maria José.

No livro, a intriga é aumentada pelo facto de a PIDE querer fazer constar que o crime tem origem na oposição ao regime, quando se trata na verdade um crime passional. A confusão é lançada com intenção de aproveitamento político.

A conversa foi empolgante embora a sala contasse com um público pouco participativo. No entanto, o diálogo a três, com os tópicos lançados estrategicamente pelo moderador, compensaram a timidez da audiência, numa sala praticamente repleta.


Cláudia de Sousa Dias

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2012-02-02

POSSIBILIDADES





Fotografia discretamente roubada do mural de Carlos Vaz Marques no Facebook




Prefiro cinema.
Prefiro os gatos.
Prefiro os carvalhos nas margens do Warta.
Prefiro Dickens a Doistoievski.
Prefiro-me gostando dos homens
em vez de estar amando a humanidade.
Prefiro ter uma agulha preparada com a linha.
Prefiro a cor verde.
Prefiro não afirmar
que a razão é culpada de tudo.
Prefiro as excepções.
Prefiro sair mais cedo.
Prefiro conversar com os médicos sobre outra coisa.
Prefiro as velhas ilustrações listradas.
Prefiro o ridículo de escrever poemas
ao ridículo de não escrever.
No amor prefiro os aniversários não redondos
para serem comemorados cada dia.
Prefiro os moralistas,
que não prometem nada.
Prefiro a bondade esperta à bondade ingénua demais.
Prefiro a terra à paisana.
Prefiro os países conquistados aos países conquistadores.
Prefiro ter abjecções.
Prefiro o inferno do caos ao inferno da ordem.
Prefiro contos de fada de Grimm às manchetes de jornais.
Prefiro as folhas sem flores às flores sem folhas.
Prefiro os cães com o rabo não cortado.
Prefiro os olhos claros porque os tenho escuros.
Prefiro as gavetas.
Prefiro muitas coisas que aqui não disse,
e outras tantas não mencionadas aqui.
Prefiro os zeros à solta
a tê-los numa fila junto ao algarismo.
Prefiro o tempo do insecto ao tempo das estrelas.
Prefiro isolar.
Prefiro não perguntar quanto tempo ainda e quando.
Prefiro levar em consideração até a possibilidade
do ser ter a sua razão.


Wislawa Szymborska, in "rosa do mundo" assírio & alvim, 2001
Prémio Nobel 1996


Falecida ontem dia 01.02.2012

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2012-01-30

Sem título



Sei que dez anos nos separam de pedras
e raízes nos ouvidos

e ver-te, ó menina do quarto vermelho,
era ver a tua bondade, o teu olhar terno
de Borboleta no Infinito

e toda essa sucessão de pontos vermelhos no espaço
em que tu eras uma estrela que caiu
e incendiou a terra

lá longe numa fonte cheia de fogos-fátuos.

António Maria Lisboa in Poesia
Edição Assírio&Alvim

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2012-01-23

"A Criação"








Foto de Diógenes Araújo
"A Mosca Azul"





Da folha de papel, amarfanhada,
a mosca sobes aos montes,
desce aos vales,
evola-se.

A mão, armada,
recomeça a planar
sobre outra folha, lisa,
de papel.

Alexandre O'Neill
in Poesias Completas
Edição: Assírio & Alvim

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2012-01-18

De um poeta que se tornou imortal












O Pão
Há pessoas que amam
com os dedos todos sobre a mesa
Aquecem o pão com o suor do rosto
E quando as perdemos estão sempre
ao nosso lado.

Por enquanto não nos tocam
A lua encontra o pão caiado que comemos
enquanto o riso das promessas destila
na solidão da erva.

Estas pessoas são o chão
onde erguemos o sol que falhou os dedos
e pôs um fruto negro no lugar do coração.

Estas pessoas são o chão
que não precisa de voar.

Rui Costa
(1972-2012)

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