2009-12-02

Ainda há Futuros como Antigamente? - VIII: "Os sonhos, dez anos depois"


Fotogra fia de Pedro Norton, importada do blog "adevidacomédia" de Miguel Carvalho



O jantar em casa do Jorge foi uma verdadeira festa para o palato. A confecção dos pratos, a cargo do anfitrião, com o precioso auxílio das mãos de Carina, a assistente do chef. Naquela noite, provei o melhor arroz à valenciana da minha vida. A carne assada, os legumes salteados, a salada não lhe ficaram nada a dever. As sobremesas, trazidas pelos convidados, davam o toque final àquele festim pantagruélico.



O objectivo da reunião era juntar os amigos de há mais de quinze anos, do tempo da faculdade, cujos laços se prolongaram muito depois da data da queima das fitas. Nos últimos anos, porém, a ligação entre as pessoas parecia estar a afrouxar, de uma forma lenta, gradual e progressiva, fruto da pressão imposta pelas necessidade de carácter profissional a separarem vidas e sonhos em comum.



No início do milénio, alguns anos depois de acabarem as licenciaturas, todos irradiavam ainda energia, vitalidade, capacidade empreendedora e forte sentido crítico. Deles, esperava-se carreiras brilhantes, continuadoras de um caminho, já trilhado pela bitola da excelência.
Mas naquele dia, sentada à mesa na casa do Jorge, em Esmoriz, o trigo parecia não ter crescido conforme se havia semeado. E a terra, mimada e cuidada em extremo, teimava em não dar os frutos esperados.



Jorge tem prosseguido firmemente na carreira de professor, aparentemente assegurada por um desempenho profissional irrepreensível, antes e depois da implantação do actual – e mais do que controverso – sistema de avaliação de professores. Dos restantes convidados falarei mais adiante.



Durante a refeição, discutiu-se política, economia e a crise, a corrupção endémica e tentacular, a (suposta) divisão de poderes entre os vários órgãos governamentais, a sucessiva dos direitos constitucionais (na prática, como sabemos, uma vez que, formalmente, ainda se encontram em vigor). A tónica dominante era o pessimismo, a insegurança e o medo em relação ao futuro. Para alguns deles, os negócios não crescem tanto quanto seria de esperar. Mas apesar de a situação não estar má, a incerteza rouba-lhes o sono. E, pelo que vejo, a alegria.



Estou na ponta da mesa e entabulo conversa com Marco André, com quem já não falava há meses. Uma transferência no local de trabalho, devido a um conflito com o chefe colocou-o atrás de um balcão como recepcionista, passando a maior parte do tempo a tirar fotocópias. Marco tem uma pós-graduação no currículo, oito anos à frente da direcção de um museu e domina cinco idiomas. Mas tudo isto não parece constituir uma alavanca suficiente para deixar de ser técnico administrativo e usufruir das regalias destinadas às funções de técnico superior.



Carina comenta, divertida, a forma como surpreende, de quando em vez e não sem uma ponta de malícia, o chefe a jogar solitário no computador durante a hora do expediente, enquanto goza de um cómodo salário de 3000 euros. A jovem finge não perceber. Nas horas de tédio, o chefe sai do gabinete para meter conversa com Carina e as restantes funcionárias administrativas: “Acho que não aguentava ficar oito horas a olhar para um computador”. Algumas sufocam uma gargalhada.



Eu e Marco André divertimo-nos com comentários picantes acerca de algumas “ligações perigosas” dentro daquela organização. Como o da funcionária que entra no gabinete do chefe com leggings e sai sem elas…



Mariana pronuncia-se sobre as uniões de facto e os casamentos dos homossexuais, exprimindo-se com a saudável rebeldia e irreverência de uma alma que ficará eternamente ancorada na juventude…



Natália, a aluna mais brilhante, nos meus tempos do liceu e, depois, na faculdade, refugia-se na sombra dos seus pensamentos, soltando por vezes uma frase de ironia arrasadora…
Estou a abusar das reticências. Influência de Céline.



Em suma, enquanto os convivas continuam a desancar nos políticos, à esquerda, à direita e ao centro, eu e o meu amigo de longa data dissertamos sobres as razões dos desajustamentos emocionais que levam as pessoas a afastarem-se, nos nossos dias. Analisámos caso a caso. Fazemos autênticas autópsias de relacionamentos. As orelhas dos restantes convidados começam a voltar-se na nossa direcção. Não falta muito para sermos expulsos da mesa. Parecemos mesmo as comadres da aldeia, apesar de falarmos para nós e não para os restantes convidados. A gaffe é imperdoável, mas o facto é que a política, a crise, a economia e os negócios já me esgotaram a paciência e não consigo explorar um assunto quando começa a entediar-me.



Para dizer a verdade, estava-me a causar calafrios na espinha o facto de cada um deles ocultar cuidadosamente as suas vidas, o seu íntimo. E não ouvir nunca palavra mágica: prazer. Ou então: amor. Não ouvi uma única vez: “Adorei ter feito isto”. Ou: “Aquilo foi maravilhoso”.
Excepto num único ponto.





O jantar. A comida na mesa. Feita com amor. Só pode.



No mais, os afectos parecem estar congelados. Ou então cuidadosamente encerrados no sótão da obscuridade. Ou no mundo onírico de Dalí. Ou Freud.



Retirei-me um pouco para a biblioteca do anfitrião, com o pretexto de postar algo num blog. Queria reflectir um pouco. Olhar para dentro. Pensar.



Faltara ali o fogo de uma lareira imaginária para incendiar e derrubar os muros que construímos para nos escondermos do Outro. Como Adão e Eva, quando decidiram sair do Paraíso.
As nossas almas vestiram-se de folhas de figueira. A inocência dissipou-se.
E, passo o sincretismo, Afrodite não parecia ter lugar àquela mesa, naquela noite. Se calhar não foi convidada. Nem mesmo a maternal Deméter.



Será que, num futuro muito próximo - ou hoje mesmo em tempos de crise -, o amor é um luxo a que, quem tem fome não pode aspirar?

Cláudia de Sousa Dias

2009-11-10

"O Magusto em casa da bisavó Angelina"







A perna de borrego assa no forno a lenha enquanto o gato, preto como a noite, se aquece, praticamente encostado à panela da sopa de couves verdes segadas durante a manhã no quintal, para ser comida como entrada, com um garfo na mão direita – com as couves enroladas como spaghetti – e um naco de pão de milho com chouriço na mão esquerda, a acompanhar e dar “substância”. As castanhas que irão guarnecer a carne estão a ser cozinhadas num molho que até hoje nunca consegui imitar, porque a receita morreu junto com a bisavó. O pêlo do gato começa a arder. Parece as bruxas, condenadas antigamente à fogueira, pelo Santo Ofício. Quando o lume lhe chega à pele, desata a correr pela cozinha de terra batida, soltando miados aterrorizantes, capazes de acordar todos os mortos do cemitério. A bisavó atira-lhe uma bacia cheia de água gelada e o animal esconde-se, ensopado, debaixo de um dos compridos bancos de madeira da mesa da cozinha. Mais tarde, voltará a postar-se junto das panelas para secar o pêlo, para não ficar com bronquite. A bisavó recorda o tempo em que preparava carne de javali - naquele tempo os porcos selvagens abundavam na região e a bisavó chegou a domesticar alguns, criando-os de pequenos para matar e fazer chouriços, que tratava no fumeiro – com castanhas por altura do São Martinho, altura em que se encontrava grávida de gémeos. Lembra-se como se fosse hoje da queda que deu enquanto transportava o cesto do pão que distribuía pela aldeia. A gravidez ia no sétimo mês e não chegou a completar o tempo previsto. Um dos gémeos nasceu morto. Mesmo assim, conseguiu aguentar quase dois meses com um filho morto na barriga. Quando nasceram, o mais pequenino e mirrado foi quem sobreviveu. Chamaram-lhe Mário. O outro, gordo e lindo, nasceu sem vida com uma evidente contusão na cabeça, de onde já saíam vermes. A bisavó Angelina recorda as febres que se seguiram ao nascimento, as lavagens e as mezinhas feitas e elaboradas pela parteira. Sobreviveu. A bisavó suspira, enquanto vai buscar o vinho tinto verde, feito com as uvas da ramada do quintal, à adega. A bisavó não gosta de jeropiga. A Tia Lucinda, irmã mais velha do gémeo sobrevivente, chegará, vinda do Porto, com a sobremesa: pudim de castanhas e marrom glacê, receitas aprendidas em casa do Douto, onde trabalha como criada de servir lá para os lados da Sra. da Hora. Está na hora de pôr a mesa. A mãe, a trisavó Ludovina, do alto dos seus 102 anos, abre subitamente os olhos míopes, por detrás das lentes encavalitadas na ponta do nariz adunco e indaga, varada pela fome e pela gulodice: "Então, Lininha? As rabanadas já estão prontas? Já deve estar quase na hora da missa do Galo…”


Memórias de Black Desert Rose


este texto estará sujeito a votação para a melhor blogagem de Novembro. para votar neste texto ou noutro de que gostem mais só têm que clicar em http://aldeiadaminhavida.blogspot.com/ entre os dias 28 e 30 de Novembro e comentar o vosso texto preferido, deixando o voisso nome (esta votação não poderá ser anónima caso contrário a mesma pessoa poderia votar várias vezes).

2009-11-06

"À espera, no Restaurante"


Espero a Marta e mais três amigos, sentada à mesa, na “Sara Barracoa”. Um nervoso miudinho arranca-me pequenos arrepios na espinha. Nada relacionado, com a serpente cósmica da cultura hindu – a Kundalini –, mas a proximidade da apresentação do filme “Carandirú” de Hector Bebenco e da discussão do livro dentro de poucas horas está a deixar-me inquieta. Não gosto de ler livros requisitados na biblioteca. Espero não ser despedida ao escrever isto. Mas é só por não poder sublinhá-los a lápis e fazer notas à margem, como é o meu hábito. Não gosto de fazer fichas de leitura e escrever num papel à parte. Mas desta vez teve de ser, uma vez que o livro estava esgotado em praticamente todas as livrarias.
Releio, então, os apontamentos dispersos e tento organizá-los. Releio e sublinho. Com marcador fluorescente. A escrita sai-me sob a forma de crónica, por influência das últimas leituras: a do Dráuzio, a do Miguel, do Magris (claudiano como eu) e do soberbo Vintila, o romeno que escreveu, no exílio, sobre o mais falado romano exilado em Tomos, na antiga Dácia: Ovídio, o poeta, maldito para o Imperador Augusto, autor do provocador “A Arte de Amar”.
As escritas dos diversos Autores colam-se-me ao espírito e passam para a esferográfica. Não consigo evitá-lo. Acabarei um batido, não digo cocktail, porque raramente bebo álcool, de gerações, séculos, milénios da forma de escrever dos que se podem chamar “verdadeiros escritores”. Sem um pingo de originalidade. E, como tal, tenho de me resignar a nunca ser “escritora”, na verdadeira acepção do termo. Não procuro o sublime para impressionar a humanidade, como ambiciona A. Pedro Ribeiro, o ternurento e patético Nero dos tempos modernos e das letras inconvenientes. Espelho-me no espírito racional e pragmático de Agripina, agarrada ao mundo terreno. Apesar de tudo, fascinan-me os que se deixam alienar, movimentando-se no éter do mundo dos sonhos. Um romance onde figurassem todos os escritores contemporâneos correria ao risco de se tornar um plágio de “A Rameira do Diabo” de C. Clément. Ou mais um volume de intragável literatura adocicada, com veneno moralista a escorrer pela caneta fora.


A fome começa a apertar. Ouço um fado na televisão, enquanto observo o guarda-louça de nogueira, com tampo de mármore rosa e me lembro do toucador da minha avó. Desaguam na memória lembranças de almoços de infância, comunhões e baptizados naquela mesma sala, no restaurante já centenário, com a mesa cheia da presença dos que já partiram e agora é o José Luís Peixoto quem está a soprar-me ao ouvido. A parte superior do mesmo guarda-louça tem os copos de que me lembro, de vinho branco, tinto, água, mas as taças de champanhe inspiradas nos seios de Maria Antonieta foram substituídas por elegantes e pudicas flutes. Que pena.

Bem...chegaram os convidados. Bom apetite a todos.

Black Desert Rose

2009-10-26

"Aqui na Terra" de Miguel Carvalho na Biblioteca de Vila Nova de Famalicão


Na próxima 6ª feira, Miguel Carvalho, Grande Repórter da Revista "Visão" apresenta a sua colectânea de reportagens recolhidas nos mais remotos lugares de um Portugal esquecido dos média e do marketing turístico. Mas que se reveste da cultura, do sentido da vida característico do nosso eu colectivo. Um Portugal que, tal como afirma o autor, trazemos "vestido por dentro".


Não percam. Na próxima 6ª feira às 21 e30. Na biblioteca Camilo Castelo Branco.



Cláudia de Sousa Dias

2009-10-10

Carandiru



O médico Drauzio Varella decide fazer um trabalho de prevenção no âmbito da SIDA na Casa de Detenção de São Paulo. Ao dar entrada na instituição, toma contanto com uma realidade, para nós inimaginável: violência, subrelotação, instalações precárias, falta de assistência médica e jurídica, falta de tudo. Com mais de sete mil detidos, usufrui de uma merecida fama de "inferno na terra". Porém, o protagonista logo se apercebe que, mesmo numa situação limite, os internos não correspondem necessariamente a encarnações de figuras demoníacas. É paradoxalmente surpreendido por situações de solidariedade, organização e, acima de tudo, uma grande vontade de viver.

Ficha Técnica
Título Original: Carandiru
Género: Drama
Duração: 146 min.
Lançamento (Brasil): 2002Site: http://www.carandiru.com.br/
Distribuição: Sony Pictures Classics / Columbia Tristar do Brasil
Direção: Hector BabencoRoteiro: Hector Babenco, Fernando Bonassi e Victor Navas
Produção: HB Filmes, Globo Filmes e Columbia Tristar do Brasil
Co-produtores: Flávio R. Tambellini e Fabiano Gullane
Direção de produção: Caio Gullane
Produtor Associado: Daniel Filho
Coordenação de pós-produção: Alessandra Casolari
Música: André Abujamra
Som direto: Romeu Quinto
Edição de som: Elisa Paley e Miriam Biderman
Fotografia: Walter Carvalho – ABC
Desenho de Produção: Direção de arte: Clóvis Bueno
Figurino: Cristina Camargo
Edição: Mauro AliceMaquiagem: Gabi Moraes
Casting: Vivian Golombek
No elenco encontramos uma infinidade de profissionais das artes dramáticas do Brasil conhecidos do grande público, dos quais citamos apenas alguns:

Luiz Carlos Vasconcelos (Médico), Milton Gonçalves (Chico), Ailton Graça (Majestade), Maria Luisa Mendonça (Dalva) Aída Lerner (Rosirene), Rodrigo Santoro (Lady Di), Gero Camilo (Sem Chance) Floriano Peixoto (Antonio Carlos), Ricardo Blat (Claudiomiro), Vanessa Gerbelli (Célia), Leona Cavalli (Dina), Wagner Moura (Zico), Caio Blat (Deusdete), Julia Ianina (Francineide), Sabrina Greve (Catarina), Lázaro Ramos (Ezequiel), Gabriel Braga Nunes (Sérgio) e muitos outros.

O filme obteve o Prémio Glauber Rocha, na 25ª Edição do Festival Internacional do Novo Cinema Latino-Americano de Havana. O guião baseou-se no livro “Estação Carandirú” de médico Dráuzio Varella, de 1999, sendo que a produção do filme contou com cerca de oito (8) mil figurantes tendo implicado três longos anos de trabalho, mobilizando mais de 250 profissionais. Foram escritas nove versões do guião. De forma a mobilizar os presos de Carandiru, que ainda viviam nos pavilhões (só o dois e o seis estavam desactivados na altura), a produção do filme encomendou um número especial da revista "Viralata", supervisionada por Dráuzio Varella e editada por Paulo Garfunkel & Líbero Malavoglia.
O filme será exibido no próximo dia 16 de Outubro pelas 21 e30 na Biblioteca Municipal Camilo Castelo Branco, após o que se seguirá o debate acerca do livro no qual foi baseada a obra cinematográfica com os participantes, contando com a habitual moderação de Cláudia de Sousa Dias e com a participação especial da Antropóloga e Jornalista Marta Vaz.
A entrada é gratuita.

2009-09-21

Cineliterário na Biblioteca Municipal de Vila Nova de Famalicão













Na passada 6ªa feira, dia 18 de Setembro, a foi exibido o filme “Romeu e Julietta” de Baz Lurhmann, seguindo-se o debate relativo à obra homónima de William Shakespeare. O publico abrangia uma considerável heterogeneidade relativamente às idades, contando com a presença de jovens /adolescentes com idade muito próximas às das personagens principais, estendendo-se às faixas etárias entre os 40 a 50 anos.
A versão de Baz Luhrmann da mais conhecida peça William Shakespeare, a representar o arquétipo do amor juvenil, vem juntar-se a um número já considerável número de outras versões cinematográ ficas tais como a de 1936 (George Cukor), 1954 (Renato Castellani), 1966 (Paul Czinner) e 1968 (Franco Zefirelli), sendo, provavelmente, esta última a mais conhecida tendo utiliza actores de 17 e 15 anos como protagonistas. Existe ainda uma considerável lista de histórias inspiradas na obra de Shakespeare como "Romanoff and Juliet" de Peter Ustinov .
Luhrmann constrói a sua adaptação ao cinema com o mérito de manter a fidelidade ao texto original. Opta, no entanto, por transpor a trama para a actualidade utilizando uma linguagem visual – baseada nos gestos, postura corporal, atitudes e vestuário típica das sociedades urbanas no século XXI, facilmente assimilável pelas camadas mais jovens. A acção passa-se num bairro imaginário, fora do espaço físico e do tempo - Verona Beach nos EUA, que se parece com qualquer grande metrólope americana, onde os arranha-céus coexistem com elementos saídos da inspiração no período renascentista italiano, com imagens de santos, igrejas e outros símbolos religiosos. na realidade, parece retratar uma colónia de imigrantes italianos onde se destacam os edifícios das grandes empresas Capuletto e Montecchio - aqui dois grandes industriais, ou patriarcas de dois clãs de inspiração mafiosa – enquanto que, nas ruas, os habitantes envergam roupas, a relembrar um pouco o estilo trash /kitsch.

As espadas são substituídas por revólveres de marca “Sword” (espada), e o Príncipe que serve de mediador entre ambas as famílias, tentando fazer prevalecer a autoridade no meio do caos é o chefe da polícia local, que intervém nas rixas dos dois gangs rivais.
O realizador, num momento de inspiração e criatividade, cujo brilhantismo o aproxima dos parâmetros da genialidade, decidiu incluir sequências que colocam a obra na categoria de parente proximo dos filmes de animação, devido à aceleração da acção de algumas personagens e a introdução de cortes temporais súbitos, servindo para acentuar o lado cómico que Shakespeare tão bem sabia introduzir nas peças, ao alternar momento de drama e comédia.
Para culminar, este será um é um "Romeu e Julieta" que se situa entre pop e o clássico, devido a uma interessante fusão crida entre dois estilos musicais opostos que compõem a banda sonora, e ajudam a sublinhar o dinamismo do filme, tal como o contraste utilizado entre a linguagem arcaica de finais do século XVI com o visual típico da sociedade contemporânea.

A banda sonora inclui Garbage, Gavin Friday, Butthole Surfers, The Cardigans, Radiohead, The Wannadies, Des'ree e uma versão gospel de "When Doves Cry" de Prince, cuja interretação esteve a cargo de um grupo coral infantil.
Salienta-se a interpretação, irrepreensível, de Leonardo DiCaprio no papel de Romeu, da beleza da voz de Claire Danes ao declamar as frases mais líricas da peça, da hilariante expressividade dos actores secundários, sobretudo os intérpretes dos papéis de Benvólio e Mercucio.A verosimilhança colocada nas falas e atitudes de, praticamente, todos os membros do elenco, não deixaram de causar a emoção no público, rendido ao talento da equipa.

O debate prosseguiu, após a projecção do filme, incidindo nos aspectos temáticos da obro do dramaturgo de Stattford-on Avon e da sua intemporalidade, no contexto histórico e influências literárias.


Cláudia de Sousa Dias



2009-09-12

Tudo o que não escrevi sobre "A Costa dos Murmúrios"





Publico aqui tudo aquilo que gostaria de ter escrito sobre o magnífico livro"A Costa dos Murmúrios" de Lídia Jorge e que deixei ficar de fora, citando as fontes como é da praxe: comecemos pelo magnífico texto de João de Mancelos.












A Costa dos Murmúrios de Lídia Jorge

Sempre adivinhei a leitura como uma espécie de cinema mental. Por qualquer insondável alquimia, aquele que lê deixa de, a partir das primeiras paginas, ver os rebanhos de letras e frases impressos no papel. Passa antes a ter projectadas nas folhas do livro florestas de imagens, sons, tonalidades, acções. Abstrai-se dos caracteres negros e encontra dentro de si o que o escritor ousou apenas rabiscar. Dois universos– o do autor e o do leitor – volvem-se assim íntimos. Apesar de apertados. E tanto mais quanto for o talento do escritor para evocar, transformar uma singela palavra num fotograma de imaginação.







Reside aqui a arte de Lídia Jorge. Profeta no manejo da prosa, puxa-nos pela gravata do real e arrasta-nos ao hemisfério da Ficcionalidade. A Costa dos Murmúrios é pródiga nesta florescência de evocações. Dir-se-ia que um sótão de memórias, ao despegar cores, sons e aromas, cria atmosferas susceptíveis de desenroscar a capacidade que o leitor tem de, segundo Barthes, re-escrever o texto.







A narradora da maior parte de A Costa dos Murmúrios, Eva Lopo, nota esse fluido de sensações no comentário a Os Gafanhotos (a primeira parte do romance ) :







"Esse um relato encantador. Li-o com cuidado e concluí que tudo nele é exacto e verdadeiro, sobretudo em matéria de cheiro e som." Esquece, a meu ver, o mais relevante – a pauta de cores, tonalidades e cambiantes com que, quer em Os Gafanhotos quer no restante do romance, se colorem cenários, personagens e até ideias. Como se Lídia Jorge fosse senhora de uma paleta que a falta de aquarelas se cumprisse pelas palavras.







Qualquer estudo exaustivo a lápis e sublinhador detectaria que dentre as cores, uma preside sobre a tela de A Costa dos Murmúrios: o Verde. É apresentado em todo o seu fulgor aguando da chuva de gafanhotos:







"Estão a ficar verdes. Completamente Verdes." (p. 32).
Fala-se no 'esverdinhar da atmosfera " (p. 32). Distingue-se "o suspiro Verde como as asas dos gafanhotos " (p. 33). Projecta-se a cor, até se diluir com outras :"as fogueiras também elas verdes " (p. 34), "o escuro verde" (p. 34, 35), o "verde em torno das lâmpadas" (p. 35) e até "clareiras de luz verde" (p. 37).







E como o bom e proverbial pintor, Lídia Jorge colhe com a ponta da esferográfica tonalidades intra-cromáticas – "e agora se via a luz das lâmpadas e as fogueiras passarem de verde-musgo a verde-coqueiro e a verde-esmeralda" (p. 36).







Os mais cépticos contra-argumentariam acerca da minha breve recolha. Provavelmente invocariam a supra-citada cor como sendo a mais natural para uma chuva de ortópteros. Acordaria, se não se repetissem estes factos / indícios ao longo de todo o romance, como é o caso. Exemplos esparsos: "a penumbra esverdeada das arvores " (p. 64), "as saladas esverdinhavam" (p. 108), "olhos castanhos, quase verdes (p. 127), "o verde dessa noite" (p. 137), "prisioneiro da luminosidade verde " (p. 142), "chuva verde " (p. 144) e outras infindas referencias cromáticas.







É o general quem decide aventurar-se, nas paginas derradeiras de A costa dos Murmúrios; aventurar-se a uma interpretação algo árida e sufocante a semiótica do leitor. Para ele o verde traça-se como sinónimo de "alia-se o mar, pela cor, a nossa esperanca". O próprio cego sinistrado dizia "lindo, lindo, como é verde" (p. 214), numa alusão as festas vitoriosas no Stella. Investiguemos: esta cor tem diferentes plurissignificações, no enredo. O verde é a frescura iniciática de Eva Lopo, a premonição do amadurecimento a distender na obra.
Oposto ao vermelho, que surgira a simbolizar a atmosfera de guerra perdida e de 'aftermath', o verde é, segundo a cromologia, uma chave que abre os cofres da memória. Ora, todo a costa dos Murmúrios se constrói como uma lembrança (o fim), de uma iniciação (o principio). É um rits-de-passage de Eva Lopo. Um círculo perfeito cujos términos se fundem quando ela devolve e anula o conto os gafanhotos, obtendo a paz de quem se reconcilia com o passado.
A uma consciência de cor na obra, de facto. E o AMARELO, o parente mais descorado do verde também tinge algumas páginas.







"África é amarela, minha senhora – disse o comandante (...). Amarela clara, da cor do whisky !" (pp. 11 e 12)." "Entornava-se de facto uma atmosfera amarela – clara, da cor do whisky" (p. 14). "Evita ficou a ver como de facto tudo era laranja e amarelo, mesmo o noivo " (p. 15). "A cidade da beira, prostrada pelo calor a borda dos cais, era tão amarela como o ananás e a papaia".







Curioso é reparar que as personagens mais alusivas a própria África parecem ser retocadas a limão. O major dos "dentes amarelos, um deles sustido por uma anilha de oiro" (pp. 10, 21, 22, 27, 30, 32...) é praticamente definido por essa cor física que se mescla com ideias de decadência. Debilidade. Corrosão psicossomática: " O doente. Estava amarelo" ou "A imagem amarela do tenente góis". (p. 110)







Precipitemo-nos para a antonímia do verde e do amarelo. A cor mais fulva do espectro de tons quentes – VERMELHO.







Uma das primeiras referencias significativas liga-se ao inicio da tragédia. Um presságio que emerge no rasto" não propriamente vermelho, mas da cor da ferrugem, a cor que o sangue toma diluído na água do sabão" (p. 19). Trata-se do afogamento dos negros, vestíbulo a indiciar o conflito. A noite que sucede é "vermelha e negra como um tapete que cai de uma janela sideral" (p. 31), apesar da relativa estultícia em que "o verde limo da luz conseguia "anular os objectos vermelhos do terraço" (p. 31). "Rosas", "Fio de sangue", "vergões", "tudo isso era vermelho", reparara o leitor.







Também as personagens, tal como no caso da cor amarelo, emergem como reflexos personificados de tons e cambiantes. "a mulher de cabelo ruivo" (p. 23), "a ruiva" (p. 28), "o cabelo encharcado de cor vermelha" (p. 121)... O próprio noivo, por contagio se afigura fulvo, ao surgir diante das aves cor de fogo" (p. 52), num intimismo com o cenário. De tal forma as cores se consorciam que Eva Lopo repara, a propósito de duas figuras relevantes no romance que "talvez o cabelo vermelho, talvez a pele leitosa (...) a união deles era um triunfo".







Interessante reparar que os interpretes mais antipáticos deste drama são definidos pelo colorido. E em tons fortes, a pedir inveja a um pintor "fauve". E não raras vezes associadas a tons de espectros diferentes. Helena é um exemplo franco – "ruivo-branco-cinzento" (p. 128). O vermelho é em suma uma cor ligada a cicatrizes, guerra, violência pelo acto e pela presença. A "cadeira vermelha" (p. 258), um símbolo que na antepenúltima pagina acaba por se ligar a imagem da capa, é a materialização certa. A variegada ilustração afirma-se até como prova de tudo que aqui se dilucidou Verde, amarelo, vermelho. Cores idênticas a bandeira nacional. Referencia a um pais fora do seu pais? Não importa. Os recônditos do detalhe são do domínio do autor. O que interessa são os tons que as palavras de humanidade, anti-militarismo e reflexão cumprem em Lídia Jorge.







Ao virar de cada página.











Agora os temas que me esqueci de abordar...






A Costa dos Murmúrios, um Filme de Margarida Cardoso

Discussão

1. É ou não um filme de guerra? Como é que a guerra entra / está presente no filme?

- o espaço não é o da frente de batalha: guerra a alguma distância
- o espaço é o da retaguarda, mas uma retaguarda intermédia, i.e., a colónia (Moçambique) e não a metrópole.
- história não é (só) a de um soldado – centrada na mulher do soldado (mas é porque Evita é mulher de um soldado que se conta aquela história) – a guerra tem muitas histórias, muitos protagonistas, e muitos espaços.
- Moçambique, final anos 60, guerra colonial
- contexto particular da guerra colonial portuguesa: mulheres e famílias inteiras que acompanhavam os soldados – fenómeno incentivado pelo regime
– cf. artigo de Margarida Calafate Ribeiro: http://www.ces.uc.pt/publicacoes/rccs/artigos/68/RCCS68-007-029-Margarida%20C.Ribeiro.pdf

- preocupação em evocar um contexto histórico concreto (no romance e no filme – imagens documentais iniciais):
-Kaúlza de Arriaga – campanhas para acabar com a guerra de uma vez por todas (Mueda)
- massacres (Wiriamu)
- a propaganda de guerra do regime; a censura dos jornais

- elementos mais evidentes da guerra no filme [e que já conhecemos]:
- o exército, as diversas patentes: do soldado ao general, passando pelo alferes miliciano; alguns feridos e estropiados (o cego)
- a omnipresença das armas, a cultura castrense
- os discursos e a propaganda de guerra (e a censura) – mas é um cego que discursa (o olhar)
- o soldado intrinsecamente violento – máquina de matar:
- Forza Leal (força e lealdade com ortografia deturpada)
- “o herói”
- as fotos e os relatos (divergentes) da frente de batalha (Mueda) – “fizemos guerra a fingir entre nós só para os jornalistas filmarem” – fotos sem palavras podem dizer coisas diferentes – ver relato de Helena, relato do soldado ferido; acto de queimar documentos de crime que podiam ter sido testemunhos de actos heróicos, se o contexto fosse outro (o contexto faz mudar o significado daqueles documentos supostamente imparciais) – queima é prova de que Forza Leal e Luís Alex sabem que tudo acabou.
- a transformação do soldado: de Luís Alex Galois, o matemático promissor, a Luís Galex, cujo alvo preferido é as galinhas e que coloca cabeças de “turras” espetadas em paus como troféus de caça em cima de palhotas; quer copiar Forza Leal e “fazer gosto ao dedo”. É cópia fraca e ironicamente trágica. Morre na roleta russa, incapaz do exercício de tal violência e de tal frieza no terror.
– algo que já conhecemos de “Braço Tatuado”,
excepto que, aqui, não é o soldado que se desconhece
– é a mulher que o desconhece / se desconhece / se divide (jogo de espelhos) – por isso, evolução psicológica da mulher
, mas também processo de conhecimento do que a rodeia: “Então a noiva que tinha chegado apenas na noite anterior, mas a quem todos já chamavam Evita, abriu os olhos”
– romper os silêncios, as falsas harmonias (ver “Os Gafanhotos”: beleza, harmonia – Eva Lopo diz ao narrador: deixe estar, não rompa essa harmonia).
Luís diz a Evita: Não olhes tanto.
Evita diz ao jornalista “Você tem os olhos bem abertos”

A Costa dos Murmúrios (Moçambique, a sociedade colonial, finalmente: Portugal – bainha das calças da Europa):







- quem mais (se) desconhece o quê? Que silêncios? Que murmúrios se ocultam / se tornam audíveis?

Percurso de Evita: a aquisição de lucidez acerca de Luís, acerca da guerra, acerca da sociedade colonial e patriarcal (de dominação masculina) é concomitante

O Império e a guerra:







1) A boda - exposição
- momento idílico cheio de murmúrios: onde estão um e os outros?
- terraço do hotel Stella Maris (Estrela do Mar / Virgem Maria) – típico da sociedade colonial
– significado deste espaço e dos espaços dentro deste espaço
- terraço: altura, sobre o Índico; varanda é espécie de amurada; espaço superior – festas dos portugueses, servidos por criados negros de farda branca; distanciamento da realidade; superioridade racial
- hall: piso térreo – onde chegam os relatos da guerra, as notícias do exterior (verdadeiras ou falseadas)
- quarto: espaço privado de Evita e Luís – a história dos encontros / desencontros a dois. (a casa-de-banho: a noite de núpcias num mar revolto de mármore).
- o baile, a orquestra (tudo brancos, um negro), o banquete, o beijo (05.00-06.00)
- as mulheres junto à varanda, mulheres sem nome, nomeadas pelos penteados ou em função das patentes dos maridos (06:00) + os homens fardados e também sem nome, só patentes (contexto de guerra, mas parece aproblemático)
- empregados negros de farda branca

Murmúrios:







Desfaz-se a boda e há um grito – não é o grito da noiva:
No mesmo terraço – cena 3 – todos de robe (perdem pose, mas ainda na posição superior) – mortos dão à costa – evocação de massacre colonial – descrição dos negros: “matam-se entre eles e culpam-nos a nós – a estratégia deles”. Notícias na rádio: vida colonial imperturbável, apesar do massacre.
- guerra está presente – massacre na cidade é espelho do que acontece no mato; ao mesmo tempo, mostra a guerra e indica a sua causa – o colonialismo. Quando o massacre atinge um branco, o mundo protegido da sociedade colonial sente-se ameaçado – violência redobrada na cidade.

Um idílio cheio de murmúrios, onde não há guerra (discurso oficial) - é a imagem que o regime quer dar de si mesmo para dentro e para fora (função das mulheres / família é absolutamente importante nisto – mas esta sociedade está em derrocada – está amarela e passará a verde)

Verde: a praga de gafanhotos – praga bíblica (destruição, devastação, castigo divino contra um povo usurpador e que escraviza outro) – mas ainda é dado como um idílio (mulheres que continuam a dançar no terraço – só uma não o faz). Eva Lopo diz (voz off): “não se preocupe agora com a verdade” – o idílio é cada vez mais falso: irrecuperabilidade do Império, só desgraça – muito mais relevo no livro do que no filme (1.31.17)
Sabino diz: “Isto vai tudo mudar. Acabou e não vêem. Têm os olhos fechados.”

Mais traços da sociedade colonial:
A cidade do asfalto e o musseque;
Os mainatos (mortos, fardados de branco, sem identidade ou com identidade transformada).
Os versos de Sabino: Europa violara África, mas a situação vai inverter-se.

O Masculino / O Feminino:
- “As mulheres do Stella” – vivem em função dos maridos, a espera, o crochet, os cabelos passados a ferro
- Forza Leal e Helena de Tróia
– a beleza como motivo de contenda – Guerra de Tróia – épicos guerreiros mais antigos (romance situado expressamente no paradigma ocidental da literatura de guerra)
- ruiva: o vermelho / sangue
- mulher raptada, violentada
- sociedade patriarcal – colonização da mulher (violência do soldado sobre o negro reproduz-se sobre a mulher, igual posição de dominação / submissão / exploração); Helena tratada como um recruta
Cena dos Flamingos (15: 37 – :
- “fazer gostinho ao dedo”
- tratamento paternalista, mas também humilhante e violento de Forza Leal sobre Helena de Tróia (vida de terror: as armas, como recordação constante da ameaça de morte e do assassinato do amante); Helena corre para os flamingos (identifica-se com ele, acto suicida)
- atirada para um relvado, esperneando no seu “fato caqui de caçadora” – comentário irónico de Eva Lopo: “imagem de harmonia”. (dualidade de todas as cenas, violência e destruição sempre latente)
- a prisão (in)voluntária de Helena de Tróia – a obsessão pelas estatísticas; o “poder da mente” como expressão de medo e impotência; Helena de Tróia que o herói encerra e nenhum herói vem libertar.

[- a Beleza / o Belo como leitmotiv do romance, que também aparece no filme (o narrado é tudo menos belo, mas fala-se constantemente em harmonias, transfigurações levadas a cabo pelas palavras), beleza é necessária]

Forza Leal: paradigma do machismo violento mais gritante: mulher como objecto de exploração e que se pode tratar com arbitrariedade e violência.

- Evita
- mulher culta, liberal, dotada de sentido crítico, filosófico, político (defende movimentos de libertação, solução política)
- emancipada (não corresponde à fada do lar salazarista, não casa virgem)
- relação com o marido em termos de igualdade e não de sacrifício: “faria tudo por ti, desde que fosse razoável” (o marido quer prendê-la, por imitação de Forza Leal)
- rejeita violência desde o início (cena dos flamingos – é por aí que começa a desconhecer Luís – alguém do espírito, do pensamento abstracto, transformado em cópia fraca e trágica de Forza Leal)
- tentativa de denúncia do massacre dos negros – procura jornalista
- a partir das fotos, procura o relato que as complementa, para conhecer o marido, agora Luís Galex.
- também em relação à sociedade, percorre as ruas, observando, procurando a verdade por debaixo da superfície: os musseques, “até as putas são tristes” (Álvaro Sabino: “Aqui não se lê, decifra-se”)
- atracção pelo jornalista – atracção por uns “Olhos que vêem”, libertação (mas jornalista também é explorador de mulheres)
- não sucumbe à violência patriarcal e da guerra, embora fique marcada. Capaz de discurso e de memória. Fica sozinha.

Elementos simbólicos:

- as cores (amarelo, vermelho, verde);
- os animais (flamingos – beleza / violência; os gafanhotos)
- espelhos, desdobramentos
- o olhar, os véus
- as danças (como danças de espectros)
- os espaços (Stella, o Índico, terra / céu)
- luz / sombra
- evocações intertextuais (bíblicas, homéricas)


e, para finalizar com chave de ouro

O filme
visto por Lídia Jorge


A Margarida Cardoso fez um filme comovente nos dias que correm, em que o olhar está já desgastado com o vermelho do sangue. Poupa-nos à exibição da violência, retirando até alguma brutalidade que o livro, optando por transferi-la para os efeitos psicológicos. Numa altura em que o cinema está saturado de violência, o grande recado é que ela seja dada com subtileza, porque afinal tudo se passa no coração.

Livro e filme teriam sido certamente diferentes se assinados por alguém que tivesse feito a guerra, tivesse passado pela experiência da morte e da decepação, ficando assim definitivamente aniquilado para a subtileza. É preciso dizê-lo: a guerra colonial foi violenta, com aspectos sádicos até. A sua componente trágica é que a família desses soldados estava lá, para que tudo aparecesse de forma natural, como se não passasse de um “acaso de soberania”. Eram pessoas que não combatiam mas ouviam as histórias, a quem acontecia almoçar com um piloto e vê-lo chegar horas depois morto, dentro de um saco. E essa experiência permite um outro tipo de leitura dos acontecimentos. O que me une à Margarida Cardoso foi o termos sido poupadas à experiência concreta da guerra, é isso que nos permite a subtileza.
Entre os vários olhares do livro, a Margarida Cardoso escolheu um, o olhar de descoberta sobre a realidade da violência. O filme poderia chamar-se “A instrução de Eva”.

Leva essa perspectiva a uma potência muito alta, fá-lo com uma extraordinária
coerência, e mantém-se fiel ao espírito do livro pois, no fim de contas, o recado é o mesmo. Este é um filme sobre aquela guerra mas, capaz de saltar por cima do tempo, é afinal um filme sobre todas as guerras.

Excerto de entrevista com Lídia Jorge, autora do romance “A Costa dos Murmúrios


























2009-09-05

“Aqui na Terra” de Miguel Carvalho (Deriva)




Só para abrir o apetite para a apresentação do livro e leitura de estórias este Outono na Biblioteca Municipal de Famalicão com data ainda a definir...
Não percam.
A junção de uma série de reportagens, revistas e compiladas, a ilustrar o Portugal contemporâneo finalmente publicadas em livro, com a vantagem de incluir todos os ingredientes que poderiam servir de base para o argumento de um filme. Um filme de cuja narrativa principal se destacaria a arquitectura de uma aliciante teoria da conspiração, a qual pode perfeitamente constituir a base de um romance cuja trama ande à volta de uma intriga contemporânea com base em factos reais ocorridos nos últimos trinta anos: desde a investigação do assassínio do Padre Max à morte do Cónego Mello, girando à volta de um combate entre forças políticas atrás das quais se escondem as peças do tabuleiro de xadrez das super estruturas económicas que sustentam o poder no país.


Particularmente saborosa é a última das estórias deste mesmo livro, intitulada “O Imaculado” que expõe o triunfo de uma personagem que poderia figurar na célebre alegoria de Orwell, A Quinta dos Animais, adaptada ao cinema com o título O Triunfo dos Porcos.


Da leitura de Aqui na Terra pode-se contemplar uma paisagem social e económica onde parece triunfar o caciquismo, a radiografia de um país onde a falta de vitamina D , leia-se de Democracia e Desenvolvimento – dois dos três D’s que, a par da Descolonização, constituíam a linha de orientação política em Portugal após o 25 de Abril de 1974 –, implicando um evidente raquitismo no que respeita à assimetria de desenvolvimento regional.


Assumindo uma faceta que muito o aproxima da forma de olhar do antropólogo, pela forma de observar padrões de comportamento e de cultura, conforme refere a Autora do blogue “havidaemmarta”, Miguel Carvalho consegue, ainda assim, transmitir para o papel uma visão romântica, acerca do Portugal mais pitoresco, do qual faz parte a fatia da população de reduzido poder económico mas que vive a vida através da fruição dos pequenos prazeres: Miguel Carvalho dedica-se a explorar os lugares mais recônditos, onde por vezes falta algo tão básico como o saneamento ou a electricidade, onde a população vai, muitas vezes, desaparecendo para levantar voo em direcção a céus onde que abriguem terras que proporcionem melhores oportunidades.


Um país onde, apesar de tudo, existe a esperança (remota) de dias melhores como resultado de uma mudança significativa a implicar uma evidente melhoria de qualidade de vida. Em última instância, recorrendo à via do sobrenatural, obrigando muitas vezes a que se acenda, uma vela ao Criador e, também… ao Outro… só por via das dúvidas.


Os títulos das estórias estão, todos eles, relacionados referências religiosas: “O Pecador”; “O Altar”; “O Cónego”; “A Seita”; “A Purificação”; “A Celebração”; “O Pastor”; “A Cruz”; “O Ritual”; “A Agonia”; “O Santuário”; “O Martírio”; “A Aparição”; “A Devoção”; “A Via Sacra”; “A Romaria”; “A Relíquia” e “O Imaculado”.


A ironia subjacente aos títulos escolhidos para cada uma das estórias/narrativas, aponta para um país muito menos laico do que aquilo que se poderia pensar, atendendo a que estamos na em plena Europa do século XXI, conforme se adivinha pela leitura da epígrafe de Alexandre O’Neill:


O Padreca, o diabo, a criadita,
o tarata, avelha alcoviteira, o galã
e, às vezes, um verdadeiro rato branco trapezista
tramaram para nós a estafada estória
da nossa própria vida


Aqui o trabalho quase que de antropólogo efectuado por Miguel Carvalho funde-se com a missão do repórter, envolvendo as gentes do interior Norte e Centro de Portugal. A escrita é em Aqui na Terra é dotada de um toque de comicidade, que leva o colorido das personagens reais destas estórias e dá um sabor todo especial e pitoresco à obra. No entanto, Aqui na terra é um licvro onde sobressai humor, muitas vezes crítico e sarcástico, mas sobretudo humano, deixando, por vezes, transparecer alguma desilusão face a um vento de mudança que, nalguns recantos deste rectângulo do extremo ocidental do continente europeu nem chegou a soprar. Onde nos apercebemos que, por exemplo, que na meca do turismo religioso em Portugal existem contrastes chocantes, apresentando-se como um lugar onde se constata a cegueira de um povo dentre o qual, tal como no livro de José SaramagoEnsaio sobre a Cegueira -, só os santos mantém os olhos abertos mirando, com sobranceria, a humanidade.


Estórias como “O Cónego” ou “A Seita” evidenciam aqueles que detêm a audácia de remar contra a maré ideológica terão de pagar a factura com juros de agiota. Tanto em 1976 como nos dias de hoje. Sobretudo nas localidades onde governadas por gangsters e onde o tempo parece não correr, onde tudo permanece tão imutável como no tempo em que Eça de Queirós escreveu A Cidade e as Serras.


O monólogo do narrador na crónica do Festival de vilar de Mouros é, definitivamente, brilhante em termos de dotação de qualidade literária, pela fina ironia empregue de forma magistral ao longo de todo o texto, característica de que se serve o Autor para pintar todo um quadro de comportamentos sociais e, ao mesmo tempo, comparar de forma crítica e lúcida os gostos musicais de várias gerações cujos valores, formas de estar de estabelecer comunicação com o outro se projectam na música…


Logo a seguir, o Autor faz-nos chegar um apetitoso estudo sobre o universo da chamada “música pimba” a confirmar o gosto colectivo e secular, tradicionalíssimo e cultural, bem português, pelas cantigas de escárnio e mal-dizer.


Por último, a pérola negra da obra: a crónica “O Imaculado”, ou a dissecação de uma figura ávida de poder e, também, a mais sinistra personagem do livro, cuja leitura aponta alguns indícios acerca da extensão do poder do vil metal, na consolidação e expansão de pessoas individuais que se colocam acima da lei e se infiltram nas esferas do poder através de ameaças, intimação e violência, verbal e física, actuando como algumas personagens “O Polvo” , uma popular série italiana de há algumas décadas atrás, a causar a asfixia da estrutura daquele que deveria ser o poder legítimo.


Que os deuses tenham piedade.


Se puderem.


Se conseguirem.


Se os deixarem.




Cláudia de Sousa Dias

2009-07-19

Concerto de Yann Tiersen, Casa das Artes, 5 de Julho 2009











Foto com violino da autoria de Rita

Guillaume Yann Tiersen e um compositor francês de origem judaica que nasceu em Brest, 23 de junho de 1970. É considerado como um músico de vanguarda, multi-instrumentista. Compõe música para piano, acordeão e violino, aproximando-se de Erik Satie e do minimalismo de Steve Reich, Philip Glass e Michael Nyman. Tornou-se internacionalmente conhecido ao compor bandas sonoras de filmes como O fabuloso destino de Amélie Poulain e Good Bye, Lenin! e agora volta sendo reconhecido pela composição Summer 78 na promoção de Do Começo ao Fim, o filme Brasileiro mais polêmico dos últimos tempos.
Yann Tiersen passou a infância em Rennes e na Bretanha, onde estudou violino, piano e direccção orquestral. Possuindo formação clássica, este compositor e intérprete direccionou-se para o rock , já nos anos 1980. Em seguida, começa a escrever bandas sonoras para peças de teatro e obras cinematográficas como "A vida sonhada dos anjos" (1998), de Erick Zonca, Alice e Martin (1998), de André Téchiné e O que a Lua Revela (1999), de Christine Carrière.

O último concerto de Yann Tiersen que teve lugar em Vila Nova de Famalicão, mais uma vez na Casa das Artes deliciou o público embora não de forma surpreendente, uma vez que o compositor já há dois anos atrás nos tinha habituado ao seu estilo musical, caracterizado pela fusão de sonoridades de origens tão díspares como a música clássica, o rock ou, até, o heavy metal.

Neste último trabalho, a mesma tendência acentua-se mais ainda marcando a distância face ao estilo nostálgico que caracteriza a banda sonora de Amélie Poulain ou do dramático Godbye Lenin.

O concerto de 5 de Julho iniciou com os acordes de um prelúdio a lembrar as obras mais conhecidas do compositor mas, após alguns segundos, o ritmo inflectiu para uma alternância de ritmos trepidantes, obrigando o público a sucumbir à loucura dos instrumentos eléctricos sublinhando, precisamente, a ruptura com o estilo presente nos trabalhos anteriores, às quais são adicionadas as sonoridades do vidro e do metal.

Às melodias mais lentas, a lembrar os adágios dos concertos clássicos, seguiram-se trechos de ritmos que sugeriam quase que uma possessão demoníaca, delirante, tempestuosa, após o que se procedeu a um curto regresso à acalmia, durante o qual os espectadores usufruíam da sensação de quase que ouvir o marulhar das ondas, diante de uma praia-mar imaginária. Daqui emergiram, pouco depois, os primeiros acordes do violino de Yann Tiersen: o momento alto do concerto, onde o músico consegue demonstrar todo o seu virtuosismo como intérprete. Yann Tiersen manipula o arco com a leveza e a rapidez do batimento das asas de um colibri. Ou de um moscardo.

O violino do compositor foi acompanhado pelo compasso marcado pelo ritmo, impróprio para cardíacos, da percussão e, depois, pelos instrumentos eléctricos: guitarra e baixo.

O concerto terminou, oficialmente, com um fabuloso dueto de guitarras. O público não se deu por satisfeito, exigindo a presença do músico no palco diante de aplausos ensurdecedores.

A noite de 5 de Julho na Casa das Artes ficou assinalada como um dos melhores espectáculos do ano, onde aquilo que ficou para a memória colectiva é que a Beleza sob a forma de Arte surge sempre da harmonia resultante dos contrastes.


Cláudia de Sousa Dias

2009-07-04

Oscar Málaga Gallegos



Oscar Málaga Gallegos nasceu a 18 de Julho de 1946 en Lima. Estudou no colégio Salesiano e nas universidades de San Marcos, em Lima e em Santa María, en Valparaíso. Chile. Viajou pela Europa, Asia e América. Viveu em París, onde obteve o mestrado em Sociologia da Comunicação no Institut des Hautes Etudes de L’Amerique Latine, París III, Sorbonne Nouvelle; estudou também no Institut de Psicanalyse de l’ Université París VIII.


En 1971, ganhou o Prémio Nacional de Poesía José Maria Arguedas, com Canciones desesperadas y alegres aterrizajes para evitar el suicidio. Em 1989 publicou a colectânea de poemas Arquitectura de un puente (París–México 1984).


Trabalhou como Coordenador geral na revista Caretas, e colaborou nas páginas editoriais de vários diários peruanos. Foi Editor internacional na revista Beijing informa e de China Revista Ilustrada, em Beijing (Pequim) - China, país donde residiu durante onze anos e exerceu, também, a docência em diversas universidades na capital domesmo País.


Durante o ano de 2004, editou El libro del atolondrado, que obteve o prémio Juan Rulfo (París 2003) e o belíssimo romance Blues de un gato viejo, (Colombia, NORMA). No final de 2006, foi publicado o romance El secreto de la trapecista. A sua poesia está traduzida em várias línguas sendo este Autor considerado um dos poetas más representativos da sua geração.


Lançou o livro na edição das Correntes d’Escritas 2009, Blues de um Gato Velho.


Fonte : site oficial da CM PVarzim


Entrevista a Óscar Málaga Gallegos
A Cláudia de Sousa Dias para Correntes d’Escritas 2008


Óscar Málaga Gallegos, poeta, romancista, editor e docente, com mestrado em Sociologia da Comunicação cujo percurso de vida se desdobra em três continentes diferentes, afirma que raramente dá entrevistas, pelo que pode-se considerar um privilégio estes minutos de conversa informal para as Correntes…

CE – Como surgiu a inspiração para escrever O segredo da Trapezista?


OMG – Foi através de um sonho que eu tive… Eu vivia em Pequim e, uma noite, sonhei que estava no céu, a olhar um circo…Não era a vida normal… Era como ver a vida toda de uma personagem de um circo… Olhava a pessoa e “via” todas as suas emoções. Então, acordei, levantei-me pela manhã e demorei cinco dias a escrever a história, tal como surgia na minha cabeça. E, logo depois, trabalhei-a durante treze anos… O resultado, no livro que agora temos, é fruto de um trabalho de cortes e recortes, ao longo de treze anos. A primeira versão tinha quatrocentas e cinquenta páginas. O texto final, tal como o conhecemos tem cento e sessenta, a cento e oitenta páginas…


CE – E assim, não há uma única palavra supérflua…


OMG – Oh, há muitas, ainda…porque não as vi todas…


CE – A obra que não fica nunca perfeita…


OMG – Jamais. Creio que os escritores têm um dom, iluminações e obsessões como temas que não sabem muito bem porque têm de trabalhá-los… Não sei porque escrevi esta história, mas sei que, depois de a escrever, encontrei nela muitas significâncias.


CE – E quais são elas?


OMG – A primeira é que é um romance divertido. A segunda é que não é um romance histórico, apesar de quase todos os dados serem históricos. Depois, porque escrevi um romance sobre o amor, sobre as diferenças, sobre a paixão, a solidariedade e a esperança. Creio que é um romance para dois mundos: o mundo do circo e o mundo real. Mas o mundo do circo é, também fictício…é o meu mundo do circo. Quer dizer, o circo é para mim, o lugar onde se encontram pessoas muito diferentes: por exemplo, a mulher barbuda, o homem mais forte do mundo, as trapezistas…O que significa que são gente diferente, que não são socialmente comuns, mas que coexistem em harmonia e que lutam por continuar a viver em harmonia…Enquanto que, a minha cidade, no romance, é uma cidade caótica, onde não há solidariedade onde não há harmonia…há caos.


Esse é o meu romance.


Fonte:


http://www.cm-pvarzim.pt/povoa-cultural/pelouro-cultural/areas-de-accao/correntes-d-escritas/edicoes-anteriores/correntes-d-escritas-2008/entrevistas-aos-escritores/entrevista-a-oscar-malaga-gallegos

Cláudia de Sousa Dias

2009-06-30

poema cósmico


Preciso do teu amor sem dor nem siso, quero a tua alma espero que venha calma, levar-te ao céu é pecado, os anjos ao léu mesmo ao teu lado…



Não imagino quem possa ter postado este mini poema nos comentários deste blog.

mas não resisti a publicá-lo, acompanhado de um viagem imaginária aos anéis de Saturno...



csd

2009-05-01

O Amor


o amor é o fogo de Prometeu


e o ciúme, a águia de Júpiter que nos devora o fígado



CSD

2009-04-30

Cravos




o vermelho emerge do negro.


como a lava.



um cravo rasga a terra em Sarajevo
e outro em Bagdade.


perfumando o campo de papoilas


cor de sangue no meio das cinzas.


CSD

2009-04-19

"Subida do rio Douro de Barco num Sábado Pachorrento"



Depois do almoço, em casa da Irene, no terraço com vista para o Rio, decidimos levar as crianças ao palácio de Cristal. O Bernardo estava particularmente irrequieto e a Maria já não conseguia respirar o ar viciado à volta da casa com o apelo do sol lá fora.

Decidimos assistir à peça de Luís Sepúlveda ao ar livre. O Bernardo não gostou muito mas a Maria entusiasmou-se e até me convenceu a comprar um gato preto com olhos verdes para casa.

Depois decidimos subir o Rio de barco como os turistas. Tento convencê-los a viajar até Tormes para vermos a Casa Museu de Eça de Queirós. Maria protesta de imediato: “Tu e os teus pedantismos literários! Porque é que não vamos antes a uma discoteca?”. E eu a responder que as discotecas não são para meninas de dez anos…daqui a dois ou três anos terei de ser mais criativa...A subida ao douro de barco é deslumbrante. O ambiente apaziguador. O Bernardo sente vontade de ir a Tormes. Saímos do barco numa pequena aldeia que tem uma casa de pedra antiquíssima – 200 anos pelo menos – com uma pequena ourivesaria no rés-do-chão. Não resisto e começo a devorar a montra com os olhos. As peças são também antigas. Século XIX, belle époque. O meu olhar deixa-se prender num alfinete de prata ouro e esmeraldas que poderia ter pertencido a alguma família brasonada da região. Seria o presente ideal para oferecer à tia Lucinda. Afinal ninguém mais teria tido a paciência infinita de ficar com os meus filhos durante um ano até me curar da tuberculose.

Olho a casa. Tem um aspecto tão museológico quanto as peças na loja do rés-do-chão.

Apetece mesmo entrar lá para visitar.

Entro na loja. Ao balcão, está uma simpática senhora de cabelos de neve e olhar de safira. Conversamos por alguns minutos. Decido comprar a jóia. Quando pergunto se posso visitar a casa responde-me: “Não, aconselho…Sabe, está assombrada…”

Claudia de Sousa Dias


2009-04-15

Cineliterário "A Costa dos Murmúrios"


Sexta feira, dia 17 de Abril mais um filme seguido de debate deta vez sobre um romance de Lídia Jorge.
Na Biblioteca Municipal de vila Nova de Famalicão.
A entrada é livre para proporcionar uma viagem visual a Moçambique e à beleza da paisagem banhada pelo Índico.
Apareçam!

2009-04-08

Sanguínea



E porque é que o amor deixa sempre uma ferida semelhante aquelas que provocam a morte na arena?




CSD

2009-04-06

erguiendo un muro hacia la tristeza












El mar es un horizonte infinito donde tendrás que sumergir siempre con la certeza que vas a encontrar la esperanza en cada una de las brazadas que darás para flotar...*

* Com especial agradecimento a http://pacosdagua.blogspot.com/ autor desta preciosa pérola dos mares do sul...

2009-03-30

Passion et Poesie










les voyeurs




se promenent




dans le jardin




pendent que nous...




...nous aimons.






29/03/2009




Claudia de Sousa Dias

2009-03-06

Concerto de António Pinho Vargas na Casa das Artes



António Pinho Vargas formou-se em História na Universidade do Porto. Estudou posteriormente, no Conservatório de Roterdão, entre 1987 e 1990, onde se formou em Composição. É professor de Composição na Escola Superior de Música, em Lisboa, desde 1991. E, também, um dos principais nomes do jazz em Portugal, fortemente influenciado pela música contemporânea. O primeiro dos seus álbuns intitula-se, Outros Lugares (1983), tendo produzido, também, bandas sonoras para filmes e peças de teatro.


Após regressar dos Países Baixos, tem sido sobretudo um compositor clássico. Escreveu três óperas, e ensembles orquestrais para várias peças. No início da década de oitenta, faz uma breve incursão pelo rock, ao colaborar com os Arte e Ofício e com a Banda Sonora de Rui Veloso, cujo trabalho o aproxima dos blues. Após este trabalho dedica-se ao jazz, que constituiu um ponto de inflexão na sua carreira, deixando uma marca bastante profunda na linguagem musical de Pinho Vargas: um jazz melódico de construção e inspiração tradicionais, recordando ora as paisagens atmosféricas popularizadas pela editora alemã ECM, ora o virtuosismo de Keith Jarrett (from: Wikipedia).

A partir de finais da década de 1980 e início da década seguinte, as suas gravações de jazz serão mais espaçadas, dividindo o seu tempo, cada vez mais, entre o jazz e a música contemporânea.


A partir de 1996, o compositor regressa a uma linguagem ainda mais depurada de jazz com A Luz e a Escuridão, álbum a três onde, ao piano de Pinho Vargas e ao saxofone de José Nogueira, é adicionada a voz de Maria João. Editou, posteriormente, As Mãos (1998) seguindo-se Versos (2001), Dias Levantados (2003), Grafitti (2008) e Solo (2008).

O concerto do passado dia 28 de Fevereiro abriu com o belíssimo Quedas d’Água com Lágrimas cujo espectacular glissando, no final, fez lembrar o tilintar de múltiplos cristais. Seguiu-se June, do álbum Vilas Morenas, dedicado a José Afonso, uma música de sabor romântico seguida, depois, pela fabulosa Dança dos Pássaros a embrar, um pouco, a música da Andaluzia e, por fim, Dinky Toys, para finalizar a primeira parte do concerto.

“Esta foi a música que compus antes de me dedicar à música contemporânea, que é aquela de que quase ninguém gosta; que descende daquilo a que chamam de “alta cultura” ou “high culture”…eu não partilho dessa opinião (…) são línguas diferentes, jazz e música contemporânea. Pode-se falar inglês ou chinês mas nunca anglo-chinês que é coisa que não existe…! (sic)”

Na segunda parte, APV tocou Fado Negro de onde saíram tonalidades sombrias e melancólicas, a unir o jazz ao tango e ao fado, seguido de temas como General Complex e o celebérrimo Tom Waits, um dos seu temas mais emblemáticos, após o que deliciou o público com a melodia Lindo Ramo, verde escuro, inspirada nos cantares do Alentejo, antecedida pelo respectivo fugatto inspirado em Bach, Shostakovich e Ballestrini, antes do tema final, La Corazón, a lembrar novamente a Andaluzia.


O entusiasmo do público trouxe um encore com uma belíssima composição intitulada Cantiga para Amigos, cuja melancolia, aliada a um ritmo marcado por pausas sincopadas e à tonalidade grave dos acordes, fazem com que não haja uma única nota que não se ame, nesta cantiga de amigo cheia de reminiscências medievais…


Mais um momento especial a juntar à já longa galeria de espectáculos de superior qualidade na Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão.


Cláudia de Sousa Dias

2009-03-01

"Homenagem a Beaudelaire"




Mon coeur

est vetu

de noir


La nuit

s'est levée

dan mon âme


Le serpent

a glissé

son venin


dans mon

esprit

dejá fragile


furieuse et impuissante

je descend

aux Infers


Et partout

cette odeur

sulfureurse et amére


de ce bouquet maléfique.


18/06/2004



Cláudia de Sousa Dias - com a colaboração de Jean-Marc Marlier

2009-02-04

La salamandra en la Hoguera



eres tu, el fuego

de los dioses...

me calientas el alma

indomable,

salvaje,

corriendo

desenfrenado

al sabor del viento

de tu libertad...


yo, envuelta en el hielo

de tus ausencias,

en fuego líquido

me convierto

si me tocas...


soy la salamandra

danzando en el fuego

de tu embrujo...

hasta que tu magia

se desintegre

en humo y brumas...


no quedarán huellas

visibles en mi piel

pero mi alma,

esa sí,

llevará tu nombre:

una cicatriz

para la eternidad.



01/02/2004

2009-01-19

Uma Poesia Oriental


Li Bai (李白, (701-762AD), dinastia Tang (618-907), que representa o período áureo da poesia clássica chinesa



Para começar, a tradução literal:



白鹭

bai2 lu4


A Garça real


白鹭下秋水

bai2 lu4 xia4 qiu1 shui3

branca graça descer água outono


孤飞如坠霜

gu1 fei1 ru2 zhui4 shuang1

solitário voo como cair bruma (geada)


心闲且未去

xin1 xian2 qie3 wei4 qu4

coração despreendido porém não ir


独立沙洲旁
du2 li4 sha1 zhou1 pang2
só permanece areia margem lado


E a tradução adaptada à língua portuguesa:


A Garça real desce sobre as águas outonais


o seu voo solitário como as brumas que caem


num total abandono decide não partir


e só......permanece junto aos bancos de areia



Devemos esta magnífica tradução ao Professor João Canuto, responsável pelo ensino de Mandarim na Universidade Católica.


Estou deslumbrada.


:-)



Claudia de Sousa Dias

2009-01-08

O Génio da Luz: terceira e última parte











Vermeer: as cenas que inspiraram "Rapariga com Brinco de Pérola"






















Johannes Vermer, o Génio da Luz







2008-12-19

Poema


nocturna

curva de um seio

redondo, lunar

de seda e pérolas

dos mares do sul

onde navegam as sereias de Gauguin

taça da abundância

onde bebem os amantes

a espuma do néctar

da terra dos druidas


Cláudia de Sousa Dias (depois do banho)


15/12/2008

2008-12-18

Cineliterário - sábado dia 20 de Dezembro com a presença de Valter Hugo Mãe













No próximo dia 20 de Dezembro a Biblioteca Municipal de Vila Nova de Famalicão apresenta mais uma sessão do Cineliterário com o Filme Closer dirigido por Mike Nichols e baseado numa peça de teatro de Patrick Marber.














O evento será precedido pela apresentação do livro de Valter Hugo Mãe O Apocalipse dos Trabalhadores, após ao que se seguirá a projecção do filme, que conta com a participação de Jude Law, Clive Owen, Julia Roberts e Nathalie Portman e posterior debate interactivo liderado pelo escritor e pela blogger Cláudia de Sousa Dias.














Não percam!!!



;-))

















2008-11-21

Cineliterário: Hoje, dia 21 de Novembro - 21h30



O Grande Gatsby, baseado no romance homónimo de Scott Fitzgerald.


Os anos 20 nunca foram tão extravagantes como neste sumptuosa e romântica versão do clássico da era do Jazz.


No filme, Robert Redford interpreta o papel de Jay Gatsby, que outrora amou a bela e mimada Daisy Buchanan (Mia Farrow) e depois a perde para um rico herdeiro. Mas Gatsby enriquece misteriosamente... e está disposto a arriscar tudo para a reconquistar.


Vencedor de dois Óscares® da Academia, O Grande Gatsby inclui um refinado elenco de actores secundários e um elegante guião de Francis Ford Coppola.


E no centro da trama, encontra-se a opulenta evocação de uma era onde abundava o jazz quente e o champanhe gelado, mulheres tão exóticas e exigentes como flores de estufa e vidas que se tornaram fáceis, por se obter tudo, tão depressa.


Local Auditório da Biblioteca Municipal de Vila Nova de Famalicão


Horário 21h.30


Entrada livre.


Não percam.



2008-11-08

"O Passarinho Lá-Si-Dó e os amigos da Quinta"



O passarinho Lá-Si-Dó vivia numa árvore muito grande, enorme. Era uma pereira de folhas muito verdes, carregada de flores brancas e diáfanas que caíam no chão durante a Primavera, formando um espesso tapete, macio como a seda da longínqua China. No Verão, a pereira dava frutos grandes e sumarentos com que o passarinho Lá-Si-Dó se deliciava. A árvore erguia-se no meio de um grande jardim povoado de margaridas, branquinhas como flocos de neve, rosas perfumadas de todas as cores, deslumbrantes narcisos brancos e amarelos-dourados, elegantes e altaneiras tulipas e papoilas de um vermelho brilhante, cor-de-sangue.

Lá-Si-Dó era pequenino, amarelo, de peito branco, com um bico de uma cintilante tonalidade laranja dourada, que reflectia o sol nascente da alvorada de Junho. Possuía, ainda, uns inimagináveis e sonhadores olhos azuis celestes.

Todas as manhãs, ao romper do dia, Lá-Si-Dó tratava de divulgar, a plenos pulmões, as notícias da manhã aos seus amigos: os melros, os pintassilgos, o rouxinol cinzento do bosque, a cotovia e a calhandra.

Mas quem gostava, realmente, de acordar ao som daquele chilrear, semelhante ao das aves do paraíso, das ilhas do Pacífico, era o cãozinho, Puffy, e o pequeno hamster, Kikito, da Quinta das Amendoeiras, em Vila Alva, situada nos arredores de Cuba, uma pitoresca Vila a norte de Beja. Estes eram os seus dois melhores amigos.

Puffy costumava ser, um cachorrinho muito brincalhão. Adorava fazer travessuras: roer os chinelos da pequena Ângela, a menina da casa, trazer a manta de lã, que costumava estar no seu quartinho privado, para o quarto da dela, mantendo o hábito lá dormir todas as noites. Se os donos insistiam para que ele ficasse no seu próprio quarto, na arrecadação, ele chorava de tal maneira e toda a noite, que se tornava impossível dormir em qualquer das divisões da casa da quinta.

Puffy tinha uns olhos intensamente negros, brilhantes como cetim, focinho achatado, tricolor: castanho-claro, castanho-escuro e preto e, também, um rabo curtinho. Era um cão muito “fofo”, com aquele aspecto felpudo e redondo como uma bolinha tigrada. Um belo exemplar de rafeiro alentejano.

Em casa da Ângela, num buraco por detrás da parede da despensa, vivia um animal muito sinistro, o Grande Rato Carambol, da família das Ratazanas. Carambol é um grande e gordo Ratão, castanho com pintas pretas, um enorme rabo de um rosa muito escuro – assim mais para o vermelhusco –, olhos pretos e pequeninos, grandes orelhas, compridos bigodes e, por fim, um longo e bicudo nariz. Devido a estas duas últimas características – era impossível escapar-lhe fosse o que fosse enquanto viveu na casa da Quinta das Amendoeiras – nada lhe escapava. Nem a mais pequena migalhinha de bolo. E mesmo os mais leves passinhos de Kikito, na alcatifa, raramente lhe passavam despercebidos. Sabia de todos os movimentos de todos os habitantes da casa, pelo que, por vezes, Puffy, Kikito e Lá-Si-Dó chegavam mesmo a pensar se este bicharoco não teria poderes mágicos ou sobrenaturais.
Todas as noites, Carambol saía para visitar a despensa, tirar tudo o que lhe apetecia e pregar partidas pela casa toda. A cama onde dormia era feita de uma lata de atum, com pedaços de algodão sujo a fazer de colchão e folhas semi-apodrecidas. O tecto tinha buracos, por onde entrava a chuva, nos dias de mau tempo. A toca de Carambol estava ligada à rede de esgotos do Município que, por sua vez, se ligava com a capital de província, a sul. Era através desse gigantesco e complicado labirinto de esgotos que aquela descomunal ratazana comunicava com os seus parentes. Esse esgoto vai, também, dar ao mar, onde vivem, ainda, alguns dos amigos de Lá-Si-Dó, que é um passarinho muito viajado.

Mas isso fica para mais tarde. Voltemos, por agora, então, ao sinistro Carambol.

Devido às más condições habitacionais em que vivia, Carambol odiava Puffy e Kikito, por considerá-los injustamente privilegiados. Kikito sempre foi, normalmente, um hamster muito bem comportado. Quase nunca saía da gaiola, onde tinha todos os brinquedos de que mais gostava e a sua ração diária de sementes de girassol.

Um dia, Carambol, farto da situação, que considerava injusta e discriminatória por parte dos donos da quinta que nunca o convidaram para morar dentro de casa, decidiu engendrar um plano, de maneira a que os dois amigos fossem expulsos de casa e ele se tornasse senhor absoluto de toda a mansão.

«Eh!Eh!Eh! Vocês não perdem pela demora! Esta casa será toda para mim e para a minha família, com todas as coisas boas e quartos quentinhos por onde vocês passeiam e dormem. O vosso reinado tem os dias contados…».

E, nessa noite, quando todos estavam a dormir, a Grande Ratazana saiu sorrateiramente da sua toca imunda e abriu silenciosamente a porta da gaiola do Kikito... Este, de vez em quando, gostava muito de saltitar durante a noite, abriu os olhitos e, vendo a portinhola aberta, decidiu dar um passeio pela casa, como há muito tempo não fazia…

Entretanto, Carambol já estava há algum tempo no quarto da Ângela a fazer das suas…

De repente, ouviu uns passinhos, muito leves, no soalho. E pensou, enquanto ria cinicamente:

«Hum…! Já estive aqui tempo suficiente. Agora está na altura de fazer uma visitinha mais demorada à despensa…»

De manhã, os pais da Ângela levantaram-se para irem para o trabalho. O pai saiu apressadamente, sem tomar o pequeno-almoço, porque já estava atrasado como sempre. A mãe levantou-se um pouco mais tarde uma vez que, sendo professora primária do primeiro ano da escola da aldeia, só dava aulas à tarde. Ao chegar à janela da sala, viu a porta da gaiola de Kikito aberta. Preocupada, aproximou-se e viu que a comida do hamster estava suja com excrementos. Em seguida, dirigiu-se para a despensa pensando que o odor da comida tivesse atraído Kikito.

Qual não foi o seu espanto ao encontrar o suculento queijo da serra todo esburacado em vários sítios com grandes túneis, roídos a partir da casca lá para dentro. Catacumbas de queijo! A seguir olhou para a prateleira onde estava a tarte de framboesas e o bolo de chocolate para o aniversário da Ângela. Completamente estragados!

De seguida, foi inspeccionar o quarto da menina e ficou de boca aberta ao verificar que Kikito e Puffy estavam a dormir, ambos, juntamente com a pequena… Ao olhar para a cadeira, junto à cama, reparou também que o vestido novo e os sapatos, comprados na véspera para a festa de aniversário, estavam roídos e irremediavelmente estragados. Quanto aos chinelos de quarto, novinhos em folha, estavam completamente rotos e com um desagradável e pestilento cheiro a xixi…
A mãe da Ângela, a Professora Matilde, ficou mesmo furiosa. Decidiu então, no auge da irritação, colocar os dois amigos de castigo.
Kikito voltou para a gaiola sem comer – uma vez que, supostamente, já se teria deliciado a fazer estragos na despensa –, Puffy ficou fechado no quarto durante todo o dia. Os dois amigos ficaram sem entender nada do que se passava.

Ângela passou o dia todo, com o coração apertado e um nó na garganta, dominada pela angústia, com medo que os seus dois amigos fossem expulsos de casa…

A mãe colocou a gaiola de Kikito na janela aberta para arejar a gaiola e para que ele se distraísse e não pensasse muito em fazer asneiras.

O dia estava bonito. Os ramos da cerejeira – outra das árvores do jardim – estavam já a dar os frutos suculentos vermelhos-escuros que Lá-Si-Dó adorava devorar até ficar com dores de barriga. Entretinha-se a saltitar desta para o pessegueiro com os ramos ainda cheios daquelas florzinhas, cor-de-rosa como mousse de morango, que tocavam na janela onde estava a gaiola de Kikito. Num desses ramos perfumados, Lá-Si-Dó entretinha-se, nesse dia, a ensaiar mais uma das inúmeras variações do seu canto aflautado. Até que reparou no amigo, que estava invulgarmente quieto.

«Que se passa contigo, Kikito, que não estás a correr de um lado para o outro, como sempre?»

Kikito, desesperado por desabafar com alguém, contou-lhe as peripécias da noite, após o que Lá-Si-Dó tomou a firme decisão de ajudar o amigo.

«Não te preocupes, porque hei-de arranjar uma maneira de vos ajudar….»

Resolveu dar uma volta para espairecer. Porque Lá-Si-Dó pensava muito melhor quando sentia o vento a passar-lhe por debaixo das asas. Decidiu voar até ao litoral. Chegou à praia e começou a inspirar o cheiro a maresia. Apeteceu-lhe sobrevoar um pouco o mar.

De repente, viu um vulto surgir por entre as ondas e dar um salto mortal, mergulhando em seguida. Ao voltar à superfície, a criatura marinha interpelou-o, numa voz risonha:

«Entaaaão, Lá-si-dó, meu malandreco, que é feito de ti que não apareces há tanto tempo?»

«Pois…tenho andado um pouco ocupado…quero ver se arranjo tempo para fazer ninho…!»

«Bem, no mar, também andamos sempre de um lado para o outro! Não dá para estar parado!»

«Sabes, para dizer a verdade, tenho um assunto a preocupar-me muito ao ponto de me tirar o sono e o apetite: preciso de ajudar um amigo. Aliás, dois amigos. Por isso, lembrei-me de ti. Pensei que, juntos, pudéssemos encontrar uma solução para o problema deles.»

«São aqueles teus dois amigos de Cuba, não é verdade? Claro que, se estiver ao meu alcance farei tudo para os ajudar! Só tenho pena que a na tua terra não tenha mar para que eu possa visitar o local onde tudo indica ter nascido o Grande Almirante Colombo…»

E Lá-Si-Dó contou, então, a história ao golfinho Ariel. Este decidiu investigar, transmitindo informações aos seus primos, Cetáceos – as baleias, os golfinhos e as orcas – através do canto subaquático, que percorreu rapidamente os sete mares.

Até que, por fim, surgiu Sati, a avó-baleia, cheia de novidades para contar:

«Imaginem só, o que me disseram os meus amigos Peixinhos, que costumam passear lá para os lados da saída de esgoto, por altura da Maré-Viva…!»

«A sério?! E o que foi que ouviste?»

«Bom, sabes que, a família das Ratazanas costuma passear por lá, quase até à saída. O que os meus amigos ouviram, foi que a Ratazanas – os tios e os primos desse Carambol –, em várias cidades do Sul do país, estão muito entusiasmados com a ideia de irem morar para uma casa enorme, quentinha e cheia de coisas boas, depois de os animais que lá vivem, inclusive os humanos, serem todos expulsos. O pai de Carambol chegou a gabar-se de ter um filho muito inteligente, capaz de preparar uma armadilha tão perfeita contra o “cachorro mimado” e o “detestável hamster” que lá vivem, de maneira a que a culpa recaia sobre eles! Chegou mesmo a afirmar que esse nojento Carambol mereceria um prémio Nobel da Criatividade por conseguir tal proeza!»

Ao que Lá-Si-Dó respondeu:

«É revoltante…! Até dá vómitos só de ouvir! Vou agora mesmo contar tudo ao Kikito e ao Puffy».

O passarinho ficou realmente muito indignado. E, já de volta ao seu ninho na pereira do jardim, pensou:

«Caramba…andam aí tantos gatinhos na rua…cheios de fome…tanta que até chegam a comer passarinhos como eu…quando não andam a virar latas de lixo…hummmm…! Acho que vou ter de cantar um bocadinho aos ouvidos de alguns deles…tenho a certeza que se eles aparecessem lá por casa, no jardim, a pedir um pouco de leite, os pais de Ângela não teriam coragem de os mandar embora…Até pode ser que deixem a Mãe Gata e os quatro gatinhos do Bairro de Lata, na periferia da Cidade Grande, dormirem lá dentro para ficarem mais abrigados…e, se há coisa que a Mãe Gata detesta é um grande Ratão perto dos seus pequeninos…»

Lá-Si-Dó decidiu, então, voar até a um dos subúrbios Cidade, onde habitam os gatinhos pobres.
E faz um discurso, do alto de um poste de alta tensão, lançando-lhes um desafio:

«Caros amigos: tenho algo a propor-lhes. Existe a possibilidade de, uma vez que estão com muita dificuldade em arranjar comida e emprego, poderem encontrar um espectacular terreno de caça, se quiserem vir comigo até à Quinta das Amendoeiras.

«E, se conseguirem prender ou desmascarar o Grande Ratão Carambol, pode ser até que consigam um lar com jardim para ficarem…»

Os gatos do Bairro de Lata fizeram uma reunião geral. Conversaram, discutiram, argumentaram, pesaram prós e contras e, por fim, decidiram pôr as patas ao caminho. A primeira foi logo a Mãe Gata, que precisava urgentemente de emprego para sustentar os seus quatro gatinhos, recém-nascidos. Até porque os outros dois já tinham morrido e ela queria muito que estes sobrevivessem.

Chegados a casa, ou melhor, ao jardim da Quinta das Amendoeiras, a Mãe Gata e mais três outros Gatos de Rua, começaram a palmilhar o terreno. Os outros três gatos, além de alguns ratitos, que andavam por ali, andavam também atrás de coelhos, toupeiras e também… passarinhos! E alguns deles eram seus amigos…até que Lá-Si-Dó começou a questionar-se se teria realmente adoptado a solução certa…

Mas a Mãe Gata foi mais esperta. Começou a procurar exclusivamente no jardim da Quinta das Amendoeiras, definindo-a como seu território, enquanto que os demais gatos se espalharam pelas quintas da vizinhança.
Nos primeiros dois dias, Dona Gata caçou logo duas grandes toupeiras, três ratitos pequenos mais um casal de ratazanas. Todos eles tinham sido trazidos à Casa Grande pelo maléfico Carambol, é claro…

A Mãe Gata, sempre com muito empenho, exibia orgulhosamente o produto da caça à dona da casa para que ela tomasse conhecimento do trabalho feito.

A mãe de Ângela ficou muito satisfeita. Tão contente que começou a pôr, todos os dias, um grande prato de leite, pela manhã, e uma bela pescada cozida, à noite, para a Dona Gata ganhar força para sustentar os gatinhos.

Além disso, Dona Gata podia entrar à vontade na Casa Grande pela mesma portinhola por onde entrava Puffy.

Mas, uma noite, os residentes da Casa Grande da Quinta das Amendoeiras ouviram cair um frasco, lá para os lados da despensa. Ao mesmo tempo, notaram estranhos ruídos de luta. Dona Gata bufava e soltava miados arrepiantes. Parecia tomada por uma fúria mitológica. Ouvia-se, também, um outro animal que guinchava horrivelmente. Todos se levantaram e foram a correr ver o que se passava. Dona Gata, com o pêlo todo em pé, lutava corajosamente com um gigantesca e gorda Ratazana, quase do tamanho dela própria. Então, o pai da Ângela deu uma forte pancada no Ratão Carambol com o cabo da vassoura, que estava mesmo ali à mão de semear, deixando-o momentaneamente atordoado para, em seguida, fugir a sete pés!

A professora Matilde examinou a despensa e viu um grande buraco por detrás de uma das prateleiras. Olhou para os frascos e viu o mesmo que antes: alimentos roídos e estragados, excrementos que, dias antes, pensara serem obra de Kikito, e um cheiro nauseabundo por todo o lado.

«Oh, não…Bem pelo menos parece que o Kikito e o Puffy não têm culpa nenhuma por aquilo que se tem passado nesta casa…! E eu a castigá-los daquela forma…pelos vistos, o único responsável pelos estragos que se têm visto por aqui é esta horrível Ratazana. E, se calhar, há mais por aí…»

A partir de então, Dona Gata ficou como hóspede definitiva em casa de Ângela, Puffy e Kikito. Livre para entrar e sair quando quisesse, com um confortável cantinho, num anexo, junto ao celeiro, para estar à vontade com os seus gatinhos. Estes cresceram com um enorme espaço para brincar e amigos para partilhar os seus jogos.

Nunca mais se ouviu falar de um rato naquela casa.


Claudia de Sousa Dias

2008-10-29

Encontro com o escritor José Manuel Saraiva na Biblioteca Municipal de Vila Nova de Famalicão


Inserida na Comemoração dos 95 anos da Biblioteca Municipal Camilo Castelo Branco, a noite do passado dia 2 de Novembro contou com a presença do escritor José Manuel Saraiva para apresentação do seu novo romance, intitulado Aos Olhos de Deus,

A simplicidade e a modéstia do Autor, ex-jornalista do semanário Expresso, que agora se dedica de corpo e alma à escrita e à investigação histórica afirmava que:

“É uma honra para mim estar aqui presente…Eu não me considero um escritor. Não tenho obra feita. Acho uma prosápia aqueles que escrevem um livro e já se consideram escritores. Sou apenas um homem que gosta de escrever, ler e que ama os livros.”

Á pergunta retórica lançada pelo público “hoje é dificil ler?” José Manuel Saraiva responde, não sem um leve toque de ironia:

“Essa é a desculpa do mau pagador. Hoje em dia, passa-se horas em frente à televisão a ver programas indigentes. Tenho lido, em média, cerca de 40 a 50 livros por ano. Nós, se formos ao estrangeiro, quando olhamos as pessoas que vão no metro, vemos que estão todas a ler. Actualmente, em Portugal, quando viajamos de metro vemos, sobretudo os homens, a lerem, quando muito, a Bola ou o Record.

O debate prosseguiu, envolvendo o público entre o qual se encontrava Francisco Guedes, um dos principais pivôs responsáveis pela organização do encontro Internacional de escritores realizado anualmente na Póvoa de Varzim – Correntes d’Escritas – o qual participou acaloradamente na discussão ao comentar que:

“É preciso ver quem é que hoje em dia ensina os miúdos a ler. Os meus professores foram pessoas como Urbano Tavares Rodrigues, José Gomes Ferreira e Soeiro Pereira Gomes. Para mim, o Plano Nacional de Leitura deveria consistir em convidar os escritores às escolas para serem eles a dar as aulas aos alunos…Nunca vi um escritor, pelo menos nos últimos governos, a liderar o Ministério da Cultura ou da Educação. Se calhar, as pessoas que lá estão também não lêem. Nós, temos 900 anos de cultura. Temos é um governo que não lê. Prefiro que seja alguém como o José Manuel Saraiva a dar uma aula aos miúdos do que a cartilha vinda da Europa, concebida por pessoas que não lêem. Tudo depende das “Direcções”. Na época em que eu estudava, os escritores, que eram meus professores, obrigavam-me a pensar. Não ficavam era muito tempo no cargo. No mesmo ano, tive três professores porque, ao fim de cada trimestre cada um deles ou foi preso ou inibido de dar aulas…e eu, que aprendi com eles, hoje em dia resta-me fazer o quê? Organizar as Correntes na Póvoa e a Literatura em Viagem em Matosinhos... “

Face a este repto, José Manuel Saraiva não resistiu a reassumir, momentaneamente, as funções de jornalista desempenhadas ao longo de várias décadas:

JMS - “Mas muitos escritores só têm o problemas de só aparecerem aos eventos mediante pagamento…”


FG – “Essa é uma das razões porque prefiro os autores portugueses. A outra é por causa dos maus trabalhos de tradução que se fazem em Portugal, sobretudo quando são vertidos do castelhano”.

JMS – “Por isso prefiro os livros com História dentro…”

E, ao falarmos de História não resistimos à tentação de questionar José Manuel Saraiva relativamente às personagens históricas dos seus romances, tomando como exemplo mais carismático a rainha D. Leonor Telles, esposa de D. Fernando, protagonista do romance “Rosa Brava”. Ao que o Autor responde com uma brilho nos olhos:

“Leonor Telles é uma das personagens mais fascinantes da História. É uma mulher fora do seu tempo. Para além de bonita e com um tipo físico fora do comum: loira, de olhos azuis...era uma mulher sábia, pérfida também, mas com supremas qualidades. Daí muitos escritores escreverem sobre ela: Pinheiro Chagas, Damião de Goes, Seomara da Veiga Ferreira. É uma personagem muito sedutora.”

Em relação ao novo romance JMS esclarece que:

Aos Olhos de Deus é um romance que fala da história da embaixada do Rei D. Manuel ao Papa. Foi uma embaixada fabulosa. E cuja história é, curiosamente, muito mais conhecida em Itália do que em Portugal. Quando escrevi este romance, deparei-me com algumas dificuldades: primeiro em relação à bibliografia, porque praticamente ninguém tinha escrito sobre este tema em Portugal. Por exemplo, não há nenhum registo sobre a reacção da população de Lisboa ao ver aquele animal medonho, desconhecido na época, que era o elefante. Toda essa parte da passagem e da partida de Lisboa teve de ser ficcionada.”

Mas em relação à chegada de embaixada a Roma o caso já muda de figura:

“Essa parte já está muito bem documentada e registada por Damião de Goes…eu tenho também uma grande amor à História. Cheguei a ponderar escrever também sobre a Beltraneja – neta de D. Manuel – mas deparei-me com a mesma dificuldade de documentação. Por isso, o próximo romance versará provavelmente sobre a época actual.”

Após um curto debate sobre a escassa produção literária sobre as mulheres em Portugal ou sobre as figuras femininas mais carismáticas da nossa história, envolvendo mais uma vez, JMS e Francisco Guedes, o Autor deixa entrever um pouco em linhas gerais a temática do próximo romance:

“Há sempre uma história para escrever…amores improváveis, os valores internos ou a falta deles. A amizade, o amor, o ódio, a traição, as relações dissolutas, como em A Mulher Certa de Sándor Márai (…). É um desafio que me quero impor. Escrevi o meu primeiro romance passado no século XX – As Lágrimas de Aquiles – passado na Guiné. Isto ocorreu porque em 1996 – na altura em que ainda era jornalista fui à Guiné fazer uma documentário durante o qual falei com antigos militares e, pela primeira vez, fui posto frente a frente com os soldados que estiveram nos dois lados do conflito. E, ao visitar o memorial aos mortos da guerra, tive um “baque” e dali nasceu a necessidade de escrever algo sobre o tema…falei com o Manuel Alegre e ele incentivou-me a publicar. Mas dificilmente voltarei a falar sobre o mesmo tema porque me incomoda.”

Francisco Guedes, veterano da guerra do ultramar em Angola lançava o desabafo para a tertúlia:

“As palavras são curtas…”

“Mas é fascinante escrever…” reponde o Autor.

O debate prosseguiu pela noite dentro onde se discutiu apaixonadamente os encontros de escritores a decorrer em Portugal e em Espanha em 2009, os hábitos, a rotina diária dos profissionais da escrita, as diferenças de personalidade, as ambições, o ego…deixando-nos a vontade irresistível de repetir com bastante mais frequência iniciativas como esta…

Cláudia de Sousa Dias

2008-10-14

Cineliterário 6ª, dia 17, na Biblioteca Municipal de Vila Nova de Famalicão



RAPARIGA COM BRINCO DE PÉROLA

"Girl with a Pearl Earring" (2003 - 88m)
SINOPSE Um dos quadros mais amados de sempre é um mistério. Pouco se sabe sobre a sua real inspiração. Isto porque a vida do seu criador, o holandês Johannes Vermeer, é envolta num grande mistério. Quem é a modelo e porque foi pintada? O se olhar, e enigmático sorriso será inocente ou sedutor? E porque usa ela um brinco de pérola?
Holanda, 1665. Depois de o pai ficar cego devido a uma explosão, a jovem Griet vê-se obrigada a trabalhar para sustentar a família. Com apenas 17 anos, torna-se criada na casa de Johannes Vermeer, um pintor cuja atenção se começa a voltar para a jovem Griet. Apesar das diferenças dos dois mundos, Vermeer leva-a para o mundo da arte, e ela torna-se sua musa...
Uma bela e comovente hisória, baseada no Bestseller de Tracy Chevalier. Para escrever este romance, a escritora inspirou-se num dos quadros mais famosos do pintor Johannes Vermeer, "Girl with a Pearl Earring".
REALIZADOR Peter Webber
INTÉRPRETES Colin Firth, Scarlett Johansson, Tom Wilkinson, Judy Parfitt, Cillian Murphy, Essie Davis, Joanna Scanlan, Alakina Mann, Chris McHallem, Gabrielle Reidy, Rollo Weeks.
Depois da dinâmica criada com o Miguel Carvalho em Setembro passado a propósito do filme "A Casa dos espíritos" baseada no romance de Isabel Allende, será dificil manter o nível da performance.
Contudo, penso que a Scarlet Johansen e o Colin Firth bem como a esplendida realização do filme sejam motivos de peso para se deslocarem a Famalicão para mais um debate cinéfilo e literário...
Até lá!
Cláudia de Sousa Dias

2008-09-11

CIneliterário de 19 de Setembro com Miguel Carvalho


A propósito da comemoração de um 11 de Setembro que hoje tende a cair no esquecimento em virtudo da perda do protagonisto daquele que mais recentemente foi alvo de exaustiva exploração mediática, venho hoje lembrar o visitantes do rendez-vous que no próximo dia 19 de Setembro - a terceira 6ª do mês - será exibido o filme A Casa dos Espíritos, baseado no romance homónimo de Isabel Allende na Biblioteca Municipal de Vila nova de Famalicão no âmbito do Cineliterário.


Desta vez, contaremos com a presença de Miguel Carvalho, Jornalista na revista Visão que irá fazer o enquadramento histórico da trama a versar sobre a ditadura de Augusto Pinochet e o papel dos Estados Unidos no golpe de estado que derrubou Salvador Allende, pai da Autora do romance.



A Casa dos Espíritos
O diretor Billie August (Pelle, o conquistador) traz ao grande écran a história de três gerações de amores e dramas da família Trueba. Com Meryl Streep, Glenn Close, Jeremy Irons, Winona Ryder, Antonio Banderas, Vanessa Redgrave e Armin Mueller-Stahl.



Título Original: The House of the Spirits (Drama)

Duração: 150 minutos

Ano: 1993

Estúdio: Costa do Castelo Filmes / House of Spirits Film / Neue Constantin Film

Distribuição: Miramax Films

Direção: Billie AugustRoteiro: Billie August, baseado no romance de Isabel Allende

Produção: Bernd Eichinger

Música: Hans Zimmer

Fotografia: Jörgen Persson

Design de Produção: Anna Asp

Figurino: Barbara Baum

Edição: Janus Billeskov Jansen

Elenco:

Meryl Streep (Clara)Glenn Close (Ferula)Jeremy Irons (Esteban Trueba)Winona Ryder (Blanca)Antonio Banderas (Pedro)Vanessa Redgrave (Nivea)Maria Conchita Alonso (Transito)Armin Mueller-Stahl (Severo)Jan Nicklas (Satigny)Sarita Choudhury (Pancha)


Sinopse:


A história do Chile da década de 1920 aos anos 1970 é contada através da saga da família Trueba, que começa com a união de um homem simples (Jeremy Irons), que fica rico, com uma jovem (Meryl Streep) de poderes paranormais. A trama desenvolve-se até esta família ser atingida pela revolução que, no início da década de 70, derrubou o presidente Salvador Allende.




Cláudia de Sousa Dias

2008-08-05

Concerto para Violino e Orquestra de Brahms por um Violinista Checo


O último andamento do concerto para violino e orquestra de Johannes Brhams dança-me no ouvido, num vórtice rodopiante de gemidos, arrancados pelo movimento frenético do arco a caixa de ressonância da madeira centenária do stradivarius do violinista checo que vive no apartamento ao lado...
A música foi sempre o meu lugar de evasão, sobretudo quando o caos opressivo, sufocante, das noites de Agosto quase faz derreter as paredes de betão do prédio onde habito...
As notas do violino, na varanda ao lado, impelem-me para o mar. Fazem aumentar a já imensa sede daquela frescura nocturna da orla marítima, do cheiro levemente salgado a maresia, a algas e moluscos, do reflexo prateado dos astros nas águas negras, que vêm morrer à praia de areias pálidas, diante de uma imensa janela imaginária, misturando-se ao ruido narcótico das ondas...
Fuga...
Refúgio...
Para o mar...
Para as ondas...de Virginia ou de um outro qualquer oceano imaginário.
Fuga à sensação de emparedamento, omnipresente na selva de betão da Cidade. Onde os seres se desumanizaram e se desligaram já de tal forma dos sons da natureza que exigem a morte do pássaro que canta à janela, enquanto que o barulho infernal vindo dos bares e discotecas no rés-do-chão faz estremecer as paredes dos edifícios...
Alguns quarteirões mais adiante, a jovem que dançou em cima das colunas até às quatro horas da madrugada, a lembrar uma sacerdotisa de Baco, exige a decapitação do galo anunciador da alvorada...
Outra jovem, grávida, requer o desaparecimento do melro que tenta cativar a fêmea com os seus trinados, em frente à janela do quarto, por lhe espantar o sono e induzir sonhos e desejos interditos...
Já agora, porque não decretar a extinção dos grilos e das cigarras, do coaxar de todos os anfíbios, do pio de todas as aves nocturnas, predadoras de todas as variantes de roedores portadores da velha yersinia pestis, que outrora dizimou populações inteiras de humanos na Europa?
Ah...deixem-me imergir no mundo de Neptuno, em cujo seio cantam cetáceos e sereias...

E em cuja orla não seja probido o canto do melros.

E onde a alvorada se anuncia pela voz de trombeta do galo de penas azuis.


Desert Rose

2008-07-17

Duas entrevistas e dois livros de Mia Couto, num hiato de seis meses





Mia Couto é considerado um dos nomes mais importantes da nova geração de escritores africanos que escrevem em português da actualidade. Nascido na Beira, Moçambique, em 1955, Mia Couto foi director da
Agência de Informação de Moçambique, da revista Tempo e do jornal Notícias de Maputo. Nos últimos anos, tornou-se um dos ficcionistas mais conhecidos das literaturas de língua portuguesa. O seu trabalho sobre a língua permite-lhe obter uma grande expressividade, por meio da qual comunica aos leitores todo o drama da vida em Moçambique, após a independência. Mia é, assim, uma espécie de mágico da língua, criando, apropriando, recriando, renovando a língua portuguesa em novas e inesperadas direcções. Entre outros prémios e distinções (de que se destaca a nomeação, por um júri criado para o efeito pela Feira Internacional do Livro do Zimbabué, de Terra Sonâmbula como um dos doze melhores livros africanos do século XX), foi galardoado, pelo conjunto da sua já vasta obra, com o Prémio Vergílio Ferreira 1999 e com o Prémio União Latina de Literaturas Românicas 2007. Ainda em 200, Mia foi distinguido com o V Prémio Passo Fundo Zaffari & Bourbon de Literatura pelo seu romance O Outro Pé da Sereia (Fonte: www.cm-vnfamalicao.pt).








Conversa com Mia Couto 4ª feira, dia 13 de Fevereiro à hora de jantar – Póvoa de Varzim, durante o Encontro Internacional de Escritores de Expressão Ibérica Correntes d’Escritas

CE – É a primeira vez que participa no Correntes d’Escritas?

MC – Já é, talvez, a terceira ou quarta vez que estou na Póvoa…Não. Já cá estive umas quatro ou cinco vezes e duas delas foram no Correntes d’Escritas

CE – Desta vez, para apresentar O outro Pé da Sereia, obra com a qual também concorreu ao prémio…

MC – Sim e é a primeira vez que faço uma incursão no domínio do romance histórico…

CE – Como se desenvolve a trama?

MC – Há duas histórias cruzadas, uma no presente e outra no tempo passado – os capítulos respeitantes ao tempo passado estão escritos num papel amarelecido…

CE – E qual é o fio condutor que as une?

MC - O que as liga é uma estátua de Nossa senhora, legada por um missionário no século XVI – D. Gonçalo da Silveira – com o objectivo de converter o imperador local (em África). O imperador tenta, primeiro, agradar o missionário oferecendo-lhe ouro – o que ele recusa afirmando não aceitar bens terrenos. Então, o imperador decide enviar-lhe algumas belas jovens. Uma oferta que é, mais uma vez, recusada pelo missionário com a justificação de que já tem “a quem devotar o coração”, indicando, simultaneamente, a estátua de Nossa Senhora. O imperador apaixona-se pela estátua, que julga tratar-se de uma mulher terrena…No fim, ocorre uma tragédia e o missionário é assassinado e enterrado num local escondido, junto à estátua.
Depois, há uma maldição associada ao lugar do assassínio e àquela imagem de Nossa Senhora…
Eu peguei nesta lenda e decidi convertê-la num romance, fazendo com que um casal de camponeses reencontrasse a referida estátua, já no tempo presente, e a depositasse numa igreja…
Depois a ligação entre as duas histórias vai-se construindo, ao longo do romance. Faz-se no tempo. Há, depois, uma espécie de maldição que une as duas histórias. A maldição prolonga a história do missionário no tempo – prologa-se para o tempo presente – e faz com que a mulher que transporta esta relíquia transporte, também a mesma maldição personificada nos espíritos que povoam o lugar.

CE – A pedra toque é o realismo mágico…

MC – É o que eu faço, desde o primeiro livro que escrevi. Não poderia fazer outra coisa. Quando se fala de África, a realidade está sempre misturada com o fantástico. Não se trata de algo mágico ou religioso, mas de algo relativamente diferente: há toda uma cosmogonia, um modo de entender como os vários mundos que compõem um universo coexistem em harmonia.

CE – A capacidade de acreditar no maravilhoso como contraposição ao cepticismo ocidental?

MC – Sim, eu sou cientista, sou biólogo, e aprendi que, em África, uma árvore não é apenas um vegetal. Pode ser transformada num animal ou numa pessoa. Há uma percepção de que as entidades físicas podem viajar entre si…

CE – É um sistema religioso diferente…

MC – Sim, mas não existe um tempo para definir um sistema religioso. O deus ocidental construiu o mundo e depois isolou-se, demitiu-se, desiludiu-se com a humanidade. Em África, o homem tem uma relação muito próxima com os pequenos deuses: os antepassados. Com o deus distante a relação tem de ser mediada pelo feiticeiro. O homem mais velho do seu clã será sempre sacerdote, no seu tempo. É uma religião que não está institucionalizada. O sacerdote é chefe político, administra a terra, está integrado em todas as esferas sociais…

CE – Não há, portanto, uma divisão estanque entre os papéis sociais…

MC – Não.

CE – Sobre o livro O Gato e o Escuro, um livro que causa um impacto considerável nas crianças como surgiu esta escrita infanto-juvenil, em Mia Couto?

MC – Como pensava que nunca escreveria nada para crianças mandei o conto para uma revista que nunca o publicou. Um dia, a Caminho pregou-me uma partida: mostrou-me as ilustrações da Danuta e depois o aspecto profissional do texto juntamente com as ilustrações…

CE – Porque pensou nunca escrever para crianças?

MC – Não gosto da classificação de Literatura Infantil. Nós, escritores, escrevemos sempre este género de livros para a criança que há em nós…Este, por exemplo, é um livro que fala do medo. E o medo é um sentimento tão antigo como a necessidade de sobrevivência da espécie…
Aqui há tempos, dei um autógrafo a um menino que tinha lido esse livro. Conversámos um pouco, mas só quando lhe perguntei se ele tinha medo do escuro é que ele respondeu, é que ele falou realmente comigo: “Sim. E Tu?” e eu respondi “Também.” Então aconteceu algo de extraordinário: Ele sentiu-se na obrigação de me consolar e com isso citou-me uma frase do livro como se fosse dele! Para mim foi o melhor prémio literário que tive até hoje!
Mas isso fez-me pensar o quanto infantilizamos as crianças, achando que elas não são capazes de entender metáforas e coisas complexas.
Escrevi, também, um outro livro para crianças, publicado no Brasil, que falava sobre a morte e todas as crianças que o leram foram unânimes em mostrar que compreenderam a mensagem, sem necessidade uma protecção especial…

CE – E a próxima publicação?

MC – Vai sair em meados deste ano…e mais não posso dizer (sorriso) … ainda estou a escrever e não sei como vai terminar…


O cansaço está estampado nos olhos sonhadores de Mia Couto…É tempo de retemperar energias…O jantar está na mesa.
Póvoa de Varzim, Fevereiro 2008











Mia Couto lança no dia 12 de Junho “Venenos de Deus, Remédios do Diabo” na Biblioteca Municipal de Vila Nova de Famalicão


No passado dia 12 de Junho, Mia Couto marcou presença em Vila Nova de Famalicão para lançamento do seu último livro, cuja apresentação esteve a cargo do Professor Henrique Pereira, o qual ao referir-se ao escritor Moçambicano afirmou que:

«Uma das coisas que mais admiro em Mia Couto é a liberdade. Mia Couto é um escritor livre. Tudo quanto faz, fá-lo de uma forma não pensada…aconteceu-lhe ser escritor. Não se nasce escritor, mas está-se disponível para essa embriaguez, quase sensual, de criar estórias. Mia Couto deslumbra o leitor com a arte de recriar a linguagem com aparentes, distraídas, “brincriações”…Mia Couto, escolheu, ainda, a poesia como “escola de Desobediência”. E, neste livro, há pelo menos três poetas».

Uma vez que Moçambique é hoje um país multilingue com, nada mais nada menos do que dezoito línguas oficiais, para Mia Couto «…as palavras traduzem, em cada língua, a cultura que lhes está subjacente, com os seus neologismos ou “aportuguesamento de palavras”, assim como o uso de provérbios, máximas ou aforismos para exprimir o sincretismo da cultura africana na qual «…a relação com o sagrado tem de ser mediada pelo feiticeiro».

Mia Couto salienta que, «este romance é uma rede de mentiras» ou melhor, que é feito das “verdades que diz mentindo”.

Para Mia Couto, a respeito da realidade no contexto da cultura africana, «as coisas podem ser, não ser, ou…quase ser. Como naquela estória da cobra que cantava o hino nacional», uma vez que, nas estórias contadas e recontadas oralmente, a realidade é sempre transformada, de forma progressiva, com a passagem de boca em boca…

Depois há as dificuldades, onde uma palavra pode ter uma multiplicidade de significados…

Em conversa com o público, face às temáticas recorrentes na obra de Mia, sobre se em Venenos de Deus, Remedios do Diabo há uma continuidade relativamente a O outro Pé da Sereia, o autor sublinha ter havido um corte entre uma obra e outra, embora se verifiquem sempre temáticas recorrentes como o Tempo e a Identidade. No entanto, esta estória, «é completamente distinta das anteriores».

A sessão prosseguiu com um mini-debate entre o escritor e a plateia, composta por jovens adolescentes vindos das principais escolas do concelho e, também, por bibliómanos e analistas, que não quiseram perder a oportunidade de trocar impressões sobre os livros do Autor:

Plateia – Gostaria de lhe lançar duas perguntas à laia de provocação:
Mia Couto “inventa desenhos com as palavras”. Pergunto se o faz para contribuir para a evolução da língua. E se trabalha para o Prémio Nobel.

MC – Em relação á primeira pergunta a resposta é não. Faço-o porque me dá prazer. Em Moçambique a língua é como que um caldeirão a ser cozinhado, fruto de uma fusão de culturas. É uma coisa muito plástica e que, além de plástica, é muito bonita.
Quanto à segunda pergunta é, de facto, uma provocação…Obviamente que NÃO. Em relação a todos os prémios faço o mesmo que em relação ao acordo ortográfico. Faço de conta que não existe.

Plateia – O que o levou a escrever este livro?

MC – A necessidade de me desfazer de alguns fantasmas. E transformar isso em história.

Plateia – O protagonista tem algo a ver com Mia Couto?

MC – Não. Tem muito pouco de mim.

Plateia – Porque não “Remédios de Deus, Venenos do Diabo”? Será que no final os dois termos se invertem?

MC – Esta pergunta é complicada (risos)…talvez porque a questão mais importante…Há lugares em que a lógica do mundo se inverteu. Essa vida ficou tão distante, que Deus (ou os deuses) deixou de ouvir os homens. Então, o Diabo é o parceiro a que se torna possível recorrer. Os dois termos estão sempre cruzados porque, muitas vezes, requerem-se de Deus coisas que não são possíveis…

Plateia – Qual é o tema mais importante do livro?

MC – A importância de “rir junto”. É uma ponte extraordinária entre as pessoas. Quando falamos com uma pessoa que não é da nossa cultura, ou língua, e nos rimos da mesma coisa, há um elo que se cria…


E foi assim o diálogo com Mia Couto que transpira aquela humildade a ultrapassar o senso comum e a contagiar públicos de todas as idades num Auditório com a lotação esgotada.
Vila Nova de Famalicão, Junho de 2008

Cláudia de Sousa Dias

2008-06-19

Cineliterário - "A Selva" de Leonel Vieira


Desta vez o filme escolhido para o Cineliterário baseia-se num belíssimo romance de Ferreira de Castro a fazer lembrar O Coração das Trevas de Joseph Conrad.


Vejam o filme, leiam o livro e descubram as diferenças!


Não percam amanhã, dia 20 de Junho na Biblioteca Municipal de Vila Nova de Famalicão às 21 e

30!



A entrada, como sabem, é livre.


A Selva (Portugal / Brasil / Espanha 2002)


Alberto é um jovem monárquico português, que em 1912 se encontra exilado em Belém do Pará, Brasil. É, então, contratado por Velasco, um capataz espanhol, para trabalhar no seringal de Juca Tristão, em pleno coração da Amazónia. Após uma longa viagem pelo rio Amazonas, aporta ao seringal Paraíso, indo trabalhar na recolha da borracha sob a protecção de Firmino. Depois de um difícil período no coração da selva, Alberto é colocado no armazém do seringal. Nesse lugar inóspito, passa a conviver com Juca Tristão, o patrão; Velasco e Caetano, os seus capatazes; Guerreiro, o gerente, e a sua bela mulher, Dona Yáyá; e um velho e misterioso negro, um antigo escravo chamado Estica. Ao fim de pouco tempo apaixona-se por Dona Yáyá, envolvendo-se com ela num romance inesperado.



Realização: Leonel Vieira


Interpretação: Diogo Morgado, Maitê Proença, Karra Elejalde, Chico Diaz, Carlos Santos, Tó Melo, Cláudio Marzo, Gracindo Júnior, Sergio Villanueva


Duração aprox.: 104 minutos


Classificação: M/16

2008-06-07

Ainda "O Amante"...


Debate sobre a obra de Marguerite Duras O Amante com a socióloga Maria do Rosário Fardilha na Biblioteca Municipal Camilo Castelo Branco


A última sessão do Cineliterário no passado dia 23 de Maio contou com a presença da socióloga e escritora Maria do Rosário Fardilha do blog Divasecontrabaixos.

A excelência da visão de MRF sobre a obra de Marguerite Duras, a acuidade dos seus pontos de vista, para além de uma noção de equilíbrio estético pouco vulgar, fazem dela a pessoa ideal para partilhar com o público, amante da literatura e do cinema, o elevado teor literário e riquíssimo conteúdo temático da obra de Duras. Além de que o vasto conhecimento de Rosário Fardilha sobre cinematográfica da Autora foi uma enorme mais valia para quem teve a oportunidade e o privilégio de assistir ao debate.
Na realidade, Rosário conseguiu magnetizar de tal forma a audiência na noite de 23 de Maio último que os temas surgiam, como as cerejas, encadeados uns nos outros.

Foi abordado, logo no início o carácter auto-biográfico do livro e também o facto de Marguerite Duras não ter gostado da versão de Jean-Jacques Annaud, por fugir um pouco ao enquadramento e à linha de desenvolvimento original da trama.

De facto, Marguerite Duras explora muito mais a temática da família, como MRF fez – e muito bem – questão de frisar, da desagregação dos laços familiares e da relação problemática com aqueles que lhe eram mais próximos – a mãe e os irmãos, Pierre e Paul, do que a relação baseada no amor erótico pelo Homem de Cholan.

Já o filme de Annaud foca, muito mais a faceta do erotismo do que propriamente a desestruturação dos laços familiares. No livro, o número de páginas dedicadas ao “amante” é ínfimo, sendo consagrada a parte de leão da história ao ambiente doentio das relações familiares.

O Amante como obra literária surgiu quando a Autora contava já com 70 anos de idade, emanado directamente de uma necessidade compulsiva, imperiosa, de falar da mãe, da sua frieza, do gelo que dela emanava. E, também, da relação com os irmãos: a violência e os sentimentos ambivalentes de Pierre, o filho preferido e adorado, a dependência deste face às drogas e do jogo; a fragilidade de Paul – física e psíquica -, característica que lhe granjeava por parte da mãe um certo desprezo; e, claro, da ternura e, de certa forma, da maternalidade do Homem de Cholan. E da fragilidade deste, que o torna, tal como Paul e protagonista a qual assume muitas vezes o papel de narradora participante –, susceptível de ser amado.


O livro surge de uma necessidade catártica de escrever – “tudo para ela era escrever”, afirma MRF – desde o romance ao guião para um filme. A Autora tem sobretudo, necessidade de escrever “sobre a mãe e a falta de comunicação nas relações familiares”, quer horizontal quer vertical, segundo o ponto de vista de MRF.


Rosário Fardilha salienta que, no filme e, sobretudo, no livro, a vulnerabilidade que a mãe despreza é, precisamente, a característica que torna as personagens de Duras simpáticas aos olhos do público.


Foi, também, abordada a fragilidade relacionada com a extrema inocência de Héléne Lagonelle – a colega de pensionato da protagonista – assim como a ambiguidade sexual patente nos sentimentos da narradora participante.


Falou-se como não podia deixar de ser, do preconceito racial, omnipresente na obra, amplamente dissecado e exibido, tanto do ponto de vista ocidental como oriental.

E claro, do Impudor na escrita e na vida pessoal de Duras. Foi abordado o Erotismo, fortemente ampliado no filme, sobretudo pela extrema beleza do actor que desempenha o papel do Homem de Cholan, que no livro está longe de ser tão acentuada. Trata-se de um homem de aspecto comum, de aparência frágil e com poucas armas para lutar pela própria independência face ao domínio da família que não aprova a relação.

O impudor na escrita de Duras assume várias formas, sendo uma delas a exposição do sofrimento, patente sobretudo em A Dor, e também, uma assumida amoralidade que sempre esteve presente, de uma maneira ou de outra, na sua conduta, manifesta na total indiferença face às convenções sociais. O inconformismo é a marca que define o trabalho da Autora ao longo de mais de meio século.


Da mesma forma, o apoio económico do Homem de Cholan à família da jovem adolescente é um factor que ajuda a que alguns membros – a mãe e Pierre, sobretudo – se sintam ainda mais humilhados, com uma relação que não é socialmente bem vista.

Discutiu-se, ainda, com o público a questão da conjuntura política na Indochina francesa no período situado entre as duas grandes guerras – a localização espácio-temporal da acção – para contextualizar a emigração da família do Homem de Cholan, vinda da China para Saigão e, simultaneamente, a conjuntura económica dentro da qual se dá o empobrecimento da família da jovem protagonista, que se vê alvo do desprezo por parte dos colonos franceses devido ao fracasso económico.

Foi analisado ainda o percurso da carreira de cineasta de Marguerite Duras, que se dedicou, sobretudo, a explorar o género experimentalista. As divergências com Annaud e a relação de Marguerite com o álcool possibilitaram o surgimento do filme tal como o conhecemos.

Rosário Fardilha salienta o ponto de vista da Autora, a articulação dos cenários em conjunto com a alternância do narrador que tanto é participante como omnisciente, dependendo do ponto de vista que se quer mostrar “de dentro para fora” ou “de fora para dentro”.

O filme obteve muitas nomeações em vários festivais mas foi, sobretudo, premiado pela belíssima fotografia, pela mestria conseguida no jogo de luz, sabiamente coada pelas cortinas, pelas venezianas ou por um lençol de chuva.
MRF refere a qualidade do som que é, também, tratado como uma personagem ao integrar-se perfeitamente no cenário, sobrepondo-se e destacando-se, apenas e só, quando estritamente necessário, na altura em que passa a ser protagonista durante a cena final com a valsa de Chopin…

Muito mais haveria a dizer sobre uma obra de conteúdo inesgotável…

Talvez para um dos próximos Cineliterários.


Um grande, grande obrigada à MRF por vir de propósito de Aveiro a Famalicão, por amor à Literatura e ao Cinema como forma de Arte…

Cláudia de Sousa Dias

2008-05-28

John Cale na Casa das Artes – um dos melhores concertos do ano em Vila Nova de Famalicão




A Casa das Artes proporcionou, mais uma vez, um espectáculo de qualidade superior, ao público não só de Famalicão mas também oriundo de cidades vizinhas, como Porto, Braga e Guimarães, que vieram propositadamente para assistir ao concerto.

A tónica dominante da performance resume-se a três pares de palavras-chave associadas: energia e vitalidade; ritmo contagiante e fusão de estilos musicais (clássico e rock).

Características que facilmente se explicam pela formação musical deste emblemático compositor e interprete galês, cuja carreira despoletou nos finais dos anos sessenta ao lado de Lou Reed com os Velvet Underground.
Após afastar-se de Lou Reed, Cale inicia a sua carreira a solo com o disco Vintage Violence, tendo produzido mais de três dezenas de trabalhos discográficos desde então.

Ainda criança, John Cale demonstrava, já, um talento indiscutível como intérprete no piano e na viola de arco. Foi, no entanto quando estudava em Goldsmith’s College London que começou a interessar-se pela música electrónica e avant-garde. É após receber uma bolsa de estudos para a Universidade de Boston nos Estados Unidos para continuar a sua formação musical na Orquestra de Tanglewood, que Cale desenvolverá os seus talentos musicais noutra vertente: o experimentalismo. Sobretudo após conhecer Lou Reed com cuja parceria procederá à fusão entre os dois estilos.

“Eu sabia que a música que fazíamos não podia ser ignorada, havia muitos elementos do classicismo naquilo que estávamos a fazer para que as pessoas encarassem essa trabalho como simples “barulho”. Era muito construído…” (Fonte: wikipedia).

De facto, John Cale sempre se situou no limiar do rock, ao traçar o seu percurso evolutivo na senda do experimentalismo – um dos motivos que o levou à separação de Lou Reed e à dissolução dos Velvet Underground – e em cisão absoluta com o mainstream. John Cale é, como tal, para muitos especialistas, um dos precursores do punk.
O reencontro com Lou Reed deu-se em 1990 com o trabalho Songs for Drella, dedicado a Andy Warhol.

O traço principal, na música de Cale consiste, sobretudo, na integridade estética e criativa apesar do estilo marginal, híbrido ou, se quisermos, fronteiriço, em termos de género musical.

A voz exibe uma tonalidade ligeiramente nasalada, por vezes um pouco semelhante à de Willie Nelson e, simultaneamente grave, ligeiramente rouca, a lembrar um pouco Springsteen.

Com uma carreira que conta já com mais de três décadas, Cale consegue, sem dificuldade, electrizar toda uma plateia, com esta sua Acoustimatic Band, ao misturar o estilo country, rock, sons africanos, alternados com notas de instrumentos orquestrais. Por vezes, temos a sensação de ouvir gritos de gaivotas arrancados das cordas de um contrabaixo, acordes extraídos do keyboard a fazer lembrar um compasso de uma sonata de Beethoven, ou uma guitarra eléctrica a trazer-nos sons de inspiração mediterrânica como um bandolim grego.

Um espectáculo inesquecível, com o último refrão cantado à capela no último dos encores, na vã tentativa de satisfazer um público insaciável…

Cláudia de Sousa Dias

2008-05-16

Cineliterário no dia 23 de Maio - "O Amante" de Jean-Jacques Arnaud baseado no romance homónimo de Marguerite Duras




Na próxima 6ª feira dia 23 de Maio a Biblioteca Muunicipal de Vila Nova de Famalicão irá exibir o fime "O Amante de Jean-jacques Arnaud, em mais uma sessão do Cineliterário.


"L'Amant" (1992 - 111m) é baseado no romance homónimo de Marguerite Duras, que vendeu mais de um milhão de cópias em mais de 43 línguas, é a profjecção das suas "memórias de juventude" na Indochina francesa ,revestindo-se de uma carácter fortemente autobiográfico.





Com uma interpretação brilhante, a cargo, sobretudo, dos dois protagonistas e uma fotografia admirável, O Amante capta de forma absolutamente envolvente a essência do despertar sexual e do desejo proibido, como nenhum filme o fez até hoje.





Jane March é fascinante no papel de uma adolescente francesa oriunda de uma família empobrecida que, na década de 1920, conhece um importante e abastado diplomata chinês (Tony Leung) durante uma travessia do rio Mekong.





Fascinada pela riqueza e sofisticação dele emanadas, a jovem deixa-se levar pela vertigem do amor e os dois envolvem-se numa relação clandestina e tórrida.





Mas se os amantes conseguem ultrapassar as diferenças de idade, raça e classe, a sociedade colonial francesa da Indochina jamais permitirá que se ultrapassem as diferenças culturais.

Realizador. Jean-Jacques Annaud Intérpretes. Jane March. Tony Leung Ka Fai. Frédérique Meininger. Arnaud Giovaninetti. Melvil Poupaud. Lisa Faulkner. Xiem Mang. Philippe Le Dem. Ann Schaufuss

2008-05-10

Comemoração dos 10 anos da “Onda Poética na Academia de Música de Espinho no dia 3 de Maio – Crónica de um concerto em Sintonia Maior








A Onda poética nasceu na extinta Livramar, na Rua 62 – Espinho, em Março de 1998, tendo passado, anos mais tarde, para as instalações da Gulbenkian na Rua 21 e, pouco depois, para o Bar Dominó do casino de Espinho, onde efectua as suas sessões de poesia nas segundas segundas-feiras de cada mês.

Chagámos atrasadas. Eu e a Irene. Perdemos-mos na geométrica cidade de Espinho, onde deambulámos uns bons trinta minutos, como se estivéssemos no antigo labirinto da antiga Creta.

E perdemos a abertura do espectáculo e a magia da Water Music de Jorge de Sena, na voz de Carlos Jorge com a música homónima de Haendel a servir-lhe de cenário. Perdemos, também, a Chuva Oblíqua de Fernando pessoa pela voz de Luís carvalho, sublinhada pelas notas de Mendelsonh. A “chuva” continuou com o Chove de José Gomes Ferreira, interpretada por Céu Reis, cujas palavras iam caindo através da Bruma de Cláudio Carneyro.

Enquanto isso, Irene e eu andávamos às voltas, à procura da Academia de Música que ninguém, na cidade, parecia saber ao certo onde ficava…

Chegámos, finalmente, à recepção onde levantámos os bilhetes que o Luís nos tinha reservado quando, através da porta, nos chegam aos ouvidos as sedutoras notas da Syrinx de Debussy, pela flauta de Joana Oliveira…

Entrámos. Envolvidas pelo sortilégio das notas do “meu” compositor favorito. Como quem entra numa densa e misteriosa floresta, à espera de encontrar druidas, dríades, náiades…como as crianças na história do flautista de Hammelin…

Debussy continua a servir de pano de fundo à expressiva voz de Anthero Monteiro com La Cathedrale Engloutie de Jorge de Sena que ilustra a música com o mesmo nome do compositor francês da belle époque.

As palavras de Levi Condinho, Camilo Pessanha, António Gedeão, David Mourão Ferreira executam o seu ballet ao som de Elgar, Schumann, Bach, Brindle, Leo Brower e António Lauro, animadas pelo virtuosismo de vozes como as de Gilberto, Luís, Céu, Diana e Carlos Jorge.

Mas ninguém iguala a mestria de Anthero Monteiro cujo O dia-a-dia de um músico – de autotria do próprio Satie, extraído da sua obra Mémoires d'un Amnésique, traduzido por Anthero Monteiro – nos mostra um delicioso jogo de ironias acerca da rotina de um perfeccionista como Eric Satie. A crítica, implícita, ao romantismo ascético, onde tudo é perfeito e perfeitamente cronometrado, tal como na vida monástica. Mas só o preciosismo de um Eric Satie conseguiria criar algo tão divinal como a Gimnopedie

Após mais uma prestação de Céu Reis num poema de Levi Condinho, regressámos novamente a Claude Debussy com o animado Golliwog’s cake-walk por Ricardo Soares.

Segue-se o Concerto de portas fechadas de Tomás de Castro a dar, mais uma vez, oportunidade a Carlos Jorge de exibir o seu talento para as artes cénicas. Rematado, depois, pelo violino de Inês Breda, acompanhada ao piano pela professora Graça Bastardo, numa lindíssima versão da Méditation de Thaïs de Massenet. Uma performance que conseguiu arrancar as lágrimas ao fundo da alma da minha amiga Irene.

A Praça da alegria nº 11 de Tomás de Castro e Sentado numa cadeira de Al Berto foram mais dois (bons) momentos de descontracção a anteceder a frescura e vitalidade dos acordes de guitarra de Tiago Rodrigues com o Tristango en vos de Máximo Pujol.

Já o delicioso Andante from piano concerto in ck467 de Mozart serve de cenário à voz de Céu Reis enquanto declama O Menino Mozart de Carlos Murciano, seguida por Anthero Monteiro que opta por encantar a plateia com a alegre candura de um Mozart no céu de Manuel Bandeira.

A versatilidade da expressão facial e modulação da voz é-nos dada, mais uma vez, por Carlos Jorge com a Onomatopeia de José Régio para, logo depois, Luís Carvalho dar corpo à sedução de mais um poema de Levi Condinho – Mulher e Música -, com a envolvência do adaggio da 6ª sinfonia de Beethoven. A sensibilidade é trazida ao palco por Gilberto Pereira com o poema Meu Cão de Affonso Romano de Sant’Ana. Mas verdadeiramente sublime é a interpretação de Diana Devezas, a introduzir um momento de dramatismo e uma aura de tragédia digna de ser representada no Epidauro, com o Canto da Prisioneira grávida de Sidónio Muralha, acompanhado ao piano pelo Professor Francisco Seabra com a Sonata ao Luar de Beethoven – um dos momentos mais belos da noite.
Segue-se uma Cena de um filme…talvez para Truffaut de Levi Condinho, com Anthero Monteiro.

O espectáculo termina com uma Ode à Alegria da 9ª sinfonia de Beethoven, com letra de Anthero Monteiro acompanhada pelo coro composto por todos os participantes.

Uma noite inesquecível.


Cláudia de Sousa Dias

2008-04-14

"O Dr. Jivago" 6ª feira dia 18 de Abril na Biblioteca Municipal de Vila Nova de Famalicão






Sinopse

Uma eterna e maravilhosa história de amor, com Omar Sharif e Julie Christie Esta eterna e maravilhosa história de amor, que tem como pano de fundo a primeira guerra mundial e a revolução russa, conta-nos a comovente história de um angustiado médico-poeta, Yury Zhivago.


Dividido entre o amor pela sua mulher, Tonya e a paixão que o une a Lara, a sua vida sofre grandes convulsões, despoletadas por forças sociais e políticas que transformam o seu mundo para sempre.


O filme recebeu excelentes críticas e foi um êxito de bilheteira nomeado para vários Oscar, ganhando cinco de entre um total de dez nomeações.



À projecção do filme segue-se, como é habitual, o debate sobre a obra literária na qual foi baseado o filme, cujo Autor, Boris Pasternak, foi vencedor do Prémio Nobel da Literatura, em 1958. O debate serámoderadas por Cláudia de Sousa Dias (Socióloga e Crítica Literária).

Ficha Técnica:

DOCTOR ZHIVAGO

Duração: 200 m
Origem: E.U.A. - 1965
Autoria: Robert Bolt
Produção: David Lean, Carlo Ponti
Realização: David Lean
Fotografia: Freddie Young
Música: Maurice Jarre
Cenografia: John Box
Com: Omar Sharif, Julie Christie,Geraldine Chaplin
Entretanto, deliciem-se com as imagens!
Cláudia de Sousa Dias

2008-03-29

Inauguração da Sala Eduardo Prado Coelho na Biblioteca Municipal de Vila Nova de Famalicão e Cerimónia de Encerramento do Famafest – dois eventos que
















Foi no dia 15 de Março último, que tive a oportunidade de assistir à inauguração da sala Eduardo Prado Coelho na Biblioteca Municipal Camilo Castelo Branco a qual passa, a partir dessa data, a ser depositária do espólio da biblioteca pessoal de escritor, ensaísta e cronista do jornal Público, incluindo cerca de oito mil e setecentos e sessenta livros – a maior parte deles anotados por Eduardo Prado Coelho – e cerca de mil oitocentas e sessenta e cinco revistas, disponíveis para consulta pública.
Eduardo Prado Coelho considerava a sua própria biblioteca "como um seguro de vida", "com tantos livros por ler, como os já lidos". Costumava dizer que tinha "livros para duas ou três vidas" e que, por isso, tinha muitas obras que nunca teria tempo para folhear.A jovem jornalista do Público diz mesmo que através dos livros e das anotações feitas neles é possível "construir um percurso biográfico" de seu pai. "É como se fossem dois livros num só: o original e aquele feito através dos seus comentários e anotações". Por outro lado, com esta colecção, "é possível ver os temas que lhe interessaram e em que altura da sua vida".

O espólio da Biblioteca Eduardo Prado Coelho abarca cerca de meia centena de temas, da filosofia à sociologia, do cinema à economia, do teatro à literatura, entre tantos outros acabou por se mostrar bastante superior aos seis mil volumes inicialmente previstos.

A sala é ampla, inundada de luz natural, convidando ao estudo, à pesquisa, à investigação, ou simplesmente ao prazer de desfrutar uma boa obra literária que Eduardo Prado Coelho o qual, como crítico literário exigente, coleccionava e seleccionava de forma criteriosa. Um espaço muitíssimo agradável.

Na cerimónia, levada a cabo pelo Sr. Presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão, Arq. Armindo Costa, estiveram presentes Alexandra Prado Coelho (filha) e Maria Manuel Viana (esposa).

Alexandra Prado Coelho frisou, durante a leitura de uma crónica do pai, a paixão deste pela leitura que se traduzia num frenesim, num impulso que o levava a coleccionar livros e a lê-los com a voracidade característica daqueles que alimentam uma sede absoluta e inesgotável de aquisição de Conhecimento, a que se associa a tomada de consciência de que uma só vida é muito curta para ler todas as obras que conseguiu adquirir. E que precisaria de mais duas vidas para ler todos os livros que se encontravam pelas estantes de sua casa…De onde começa a germinar o impulso de partilhar a sua paixão pelos livros com o público, optando pelo Município de Vila Nova de Famalicão, por sugestão de Lauro António, com quem mantinha uma estreita relação de amizade.

Entre as obras que se encontram na Biblioteca estão algumas edições bastante raras, presentes na biblioteca da família há várias gerações, como aquele volume, de cor dourada, de poesia de António Nobre que me mostrou Alexandra Prado Coelho – uma jovem de expressão doce, traços marcantes, olhar denso e sorriso franco nos fazem pensar estar diante da versão rejuvenescida e feminina do pai.

A presença de Maria Manuel Viana, distintíssima e discreta, com o luto espelhado nas unhas pintadas de azul, cor que, para ela, está associada à morte, como nos apercebemos pela leitura do texto de sua autoria na revista Correntes d’Escritas 2008, ostenta uma silenciosa melancolia no olhar e nos gestos…

Durante a cerimónia da passagem do legado de Eduardo Prado Coelho para a posse da Biblioteca Municipal, foi anunciada pelo Sr. Presidente da CMVNF a criação do Prémio Literário Eduardo Prado Coelho, com o objectivo de incentivar e premiar a criação literária dos escritores locais e não só.
Procedeu-se, também à atribuição a Eduardo Prado Coelho da Pena de Camilo, galardão atribuído no âmbito do Famafest, já em 2007, que nunca lhe foi entregue pessoalmente. De acordo com Alexandra Prado Coelho, na altura o escritor já estava doente, "queria muito vir a Famalicão receber o prémio e conhecer a terra onde viveu Camilo Castelo Branco". Como não foi possível, pois faleceu entretanto, os familiares decidiram que "o galardão deve ficar junto dos objectos que ele mais gostava, que eram os livros", acrescenta a filha do homenageado.

O dia 15 de Março de 2008 passa a ser uma data marcante para a Biblioteca Camilo Castelo Branco, que a partir de então, ficou consideravelmente mais rica.


A noite de Sábado reservou-nos, ainda, a Cerimónia do Encerramento do Famafest 2008 – Festival Internacional de Cinema de Vila Nova de Famalicão durante a qual foram atribuídos os seguintes prémios: O Grande Prémio do Júri, para o Encontro com Milton Santos do brasileiro de Sílvio Tendler.
Lauro António, coordenador responsável pelo evento comentou que “o filme, versa sobre a vida e obra de um dos mais importantes sociólogos brasileiros, abordando o tema da globalização e do seu impacto em países como o Brasil. Sílvio Tendler já tinha feito parte do júri do Famafest e disse-me hoje que o prémio lhe abre portas para o documentarismo noutros países, nomeadamente na Europa.” (sic)

Na opinião de Lauro António, "o Festival demonstrou que o documentarismo português, nomeadamente o ligado à literatura, atingiu um patamar de grande qualidade, que surpreendeu toda a gente, nomeadamente, o presidente do júri, o realizador português, Fernando Lopes
O júri – constituído por Fernando Lopes, realizador (presidente), Uxia Blanco, actriz (Galiza), Maria das Graças, actriz (Brasil), Anxo Santomil (director Cinemas Dixitais, Galiza), Otelo Saraiva de Carvalho , militar na reforma, Valter Hugo Mãe, escritor, e Filipa Macedo Baptista, antropóloga - entregou o Grande Prémio da Lusofonia Manoel de Oliveira - ao filme Terra Sonâmbula, de Teresa Pratas (Portugal) baseado no romance homónimo de Mia Couto, o Prémio Ficção, a Monsieur Max, de Gabriel Aghion (França), o de Documentarismo - ao conjunto das obras de António José de Almeida (Portugal), e o de Ficção Jovem, a Deus Não Quis, de António Ferreira (Portugal).
Já o Júri da Juventude, constituído por, alunos de escolas e universidades portuguesas no domínio do cinema e da comunicação social, atribuiu o Grande Prémio da Júri da Juventude, à película Monsieur Max, de Gabriel Aghion (França), o de Ficção, a O Mistério da Estrada de Sintra, de Jorge Paixão da Costa (Portugal) o de Documentarismo, ao filme Encontro com Milton Santos, de Silvio Tendler (Brasil), e o de Curta-metragem, à obra Deus Não Quis, de António Ferreira (Portugal).O Prémio Especial do Júri da Juventude distinguiu o conjunto das obras apresentadas pela produtora Panavídeo (Portugal).Durante a cerimónia do encerramento foram ainda homenageados a actriz Adelaide João e o Cineasta Fernando Lopes.O Festival, que decorreu entre 8 e 16 de Março, com entrada livre em todas as sessões, teve uma assistência de 17 mil pessoas.Para 2009, comemora-se os 10 anos do Famafest e, além de novos filmes e realizadores, está já a ser programada a realização de uma grande gala do cinema e do documentário.

Cláudia de Sousa Dias

2008-03-21

Concerto de Mariza, na Casa das Artes – O Fado no Dia Internacional da Mulher







A terminar a Cerimónia de Abertura do Famafest 2008, o concerto de Mariza trouxe o glamour dos anos 20 ao evento, onde o visual do charleston, exibido pela cantora, veio emprestar ao Fado um colorido cinematográfico ao estilo de Hollywood.

A lotação esgotou, num dos espectáculos de maior qualidade performativa na história da Casa das Artes.


Na noite do passado dia 8 de Março, a expectativa após o final da abertura do Famafest é grande. A Casa das Artes está completamente cheia. Já só há espaço para alguém se sentar, nas escadas. O momento mais esperado da noite aproxima-se. Afinal, Mariza é a primeira cantora portuguesa nomeada para o Grammy.

As luzes apagam-se após a saída de Lauro António do palco, feitas as devidas homenagens aos 100 anos de Manoel Oliveira e a menção da atribuição do Prémio Goya a Carlos do Carmo.

Sobe o pano.

Os músicos entram, enquanto a plateia aguarda, no mais profundo silêncio. Ouvem-se os primeiros acordes de guitarra.

As palmas despoletam.

A diva entra, vestida de negro absoluto, num violento contraste com o cabelo platinado, uma vaga reminiscência de Jean Harlow.

Logo no primeiro tema cantado tomamos consciência da afinação perfeita de uma voz de registo grave, numa cantora que sabe utilizar as pausas e os volteios, para contornar a dificuldade em chegar às notas mais agudas, como muito poucas o conseguiram fazer ao longo da História da Música – entre elas, Amália ou Maria Callas.

Os dotes de actriz, que a cantora afirma serem inatos, aliados a uma extraordinária percepção auditiva e sinestésica, permitem-lhe jogar com as luzes, ao retirar-se para a sombra, sempre que necessário realçar o desempenho dos músicos que a acompanham.

" É um prazer estar na abertura do Famafest…aproveito para saudar as mulheres que estão aqui, esta noite…”

De Paulo de Carvalho, Mariza cantou Meu Fado Meu, emprestando um novo colorido ao Fado – Páthos.

Com o ritmo sincopado de Barco Negro acompanhada pela espectacular percussão de João Pedro Varela, Mariza contou, ainda, com a participação do público que a acompanhou no refrão, mostrando-se agradavelmente surpreendida e radiante ao deparar-se com “um coro tão afinado…”

Mas foi com Alfama e a beleza da poesia de Ary dos Santos que ficámos todos com a voz presa na garganta, emudecidos, com a emoção que se escapa dos versos do poeta, dos trinados da guitarra, do drama contido na voz…

Alfama cheira a saudade

Cheira a tristeza e a pão…


Do mesmo modo, a poesia de Florbela Espanca transformada em música.

Mariza está, neste momento, a preparar um álbum que inclui alguns temas inéditos com que a cantora nos brindou com o concerto de Sábado.

Na segunda parte do espectáculo, Mariza introduz um pouco do folclore e da música tradicional portuguesa com Feira de Castro acompanhada por Pedro Castro, na guitarra portuguesa, Diogo Clemente, na guitarra, e João Pedro Varela, na percussão.

Finaliza com o seu fado preferido; Primavera, levando o público ao rubro o qual aplaudiu de pé, atirando as rosas brancas – oferecidas às senhoras, na noite do Dia Internacional da Mulher, à entrada para o espectáculo -, para o palco, ao mesmo tempo que exigia os encores da praxe.

O primeiro encore surgiu com Oh, gente da minha terra, onde Mariza sublinhou o prazer de ter trocado Madrid por Famalicão nesse dia, após o que o público volta a insistir num segundo encore.

A cantora passeia-se por entre o público, durante o último tema deixando, escapar um suspiro por entre o cansaço…os aplausos soam mais uma vez.

Despede-se, finalmente, com Oh Gente da minha Terra, desta vez cantado à capela, com a ajuda do público que entoa o refrão, totalmente rendido à magia do Fado.

As rosas choveram no palco, semi-abertas, pelo calor emanado de uma sala de espectáculo a abarrotar desabrichadas na noite do fado e caindo como estrelas de feérica luz branca em fundo negro absoluto.


Uma noite inesquecível.


Cláudia de Sousa Dias

2008-03-03

E, sorrateiramente, em Surdina...


A Alba Mão


rasga o céu da Úmbria


enquanto a Ternura de um sorriso


se espelha no mar profundo da Alma


a deambular pelo sonho


enquanto o pestanejar enternecido


sacode o Sono


do Pensamento...
Cláudia de Sousa Dias

2008-02-19

Na Savana



A savana africana é composta por uma vasta planície de terra macia, clara, com tamarindos e acácias, de cujas folhas se alimentam as girafas e os elefantes. Na lagoa, a água e tão doce e fresca que todos os animais vão lá matar a sede.
Porém, entre a vegetação que cresce nas margens, rasteja, nas noites de luar, uma cobra lindíssima, de escamas verdes escuras e com a língua de um vermelho vivo como o sangue arterial agita uma bela, comprida e sinuosa cauda que termina com um guizo.

A bela Cobra Carmela costuma esconder-se traiçoeiramente por entre os juncos, onde espera as suas vítimas: passarinhos, ratos e pequenos coelhos. Os seus olhos hipnóticos cintilam, brilhantes como topázios, iluminando a noite.
Furtivamente, Carmela, a bela cobra de olhos dourados, rasteja por entre as ervas, enquanto o coelhinho Raponzel brinca inocentemente com os irmãos.

De repente, Raponzel olha Carmela directamente nos olhos, duas pedras preciosas que a enfeitiçam, e a deixam paralisada. Os músculos estão flácidos, inertes. Carmela abre a sua enorme boca, de cujos dentes escorre um potente veneno, cravando-os nas suas costas. Raponzel grita.
Logo a seguir, ouve-se um rugido e a silhueta ágil do Leão João surge por entre a erva.
Munido de poderosas garras, o destemido Leão João, com uma única patada, atira a sedutora Carmela para o cimo de uma árvore.
João coloca Raponzel em cima de uma rocha, mas a pequena coelhinha está extremamente doente, deixando o Leão João muito preocupado, a pensar o seguinte:

- É necessário chamar um médico …

Entretanto, a Girafa Pernalta, que estava por ali a comer folhas de acácia, tinha ouvido o tumulto e, cheia de curiosidade, perguntou:

- Olá João! O que é que se passa?

Preocupado, João explica, sarcástico:

- A nossa querida e bela Cobra Carmela fez mais uma das suas gracinhas maléficas. Desta vez, deu-lhe para morder, a pequena Raponzel, que ainda nem sequer tem carne para encher a cova de um dente!

Face a isto, a Girafa Pernalta pôs-se a pensar em alta voz:

- É preciso chamar, então, o Doutor Ouriço Magriço antes do amanhecer, senão ela morre!

- Mas ele vive longe…

- Bem, nada que eu, com duas corridas nas minhas pernas altíssimas (ou não me chamasse eu Pernalta) não possa percorrer em menos de meia hora! A Planície da Maratona é, para mim, do tamanho da tua sala de jantar!

- Esta bem! Ficas, então, encarregue desta missão de salvamento!

E a girafa lá foi buscar o Doutor Magriço, trazendo-o às suas cavalitas para não se picar nos seus mil picos.

O Doutor Magriço era um ouriço gordinho e espinhoso mas, ao mesmo tempo, muito tímido e medroso, apesar da sua armadura. Tinha contudo, uma alma boa, pacífica. Era, também inteligente e muito generoso. Por isso, concordou imediatamente em viajar nas costas da Girafa Pernalta para visitar a sua pequena doente.

A viagem fez-se num piscar de olhos. Ao chegar, o Doutor Magriço olhou a coelhinha e abanou a cabeça:

- É preciso arranjar pomada-de-ranho-de-caracol para curar a ferida e neutralizar o veneno…

- E onde é que encontramos um caracol? – perguntou a Pernalta, toda preocupada – Aqui não vivem caracóis…

- Pois não – respondeu o Doutor Magriço – É preciso ir até ao pântano e trazer o meu amigo, o farmacêutico Caracol Marisol. Ele é uma pessoa muito estranha e tem de ser trazido às costas de alguém, porque anda mesmo muito devagar.

Sabem, ele tem um aspecto ranhoso, viscoso, remeloso, com uma casca castanha-esverdeada e uns corninhos muito pretos que gosta de expor ao sol. Também é muito agarrado às coisas materiais, quer sempre levar a casa para todo o lado… Tem medo que lha roubem. Além disso, é muito forreta e guloso. Devora todas as folhas de alface que encontra pelo caminho. Terão de lhe pagar com alfaces.

Ao que responde o vaidoso leão:

- Claro! Nem toda a gente pode ser tão belo e majestoso, sedutor e cavalheiro além de forte como Eu!

- E, já agora, modesto também, não? – riposta Pernalta, bem humorada.

- E para é que é preciso ser modesto?!

- Bem, não vamos discutir isso agora – disse diplomaticamente o Doutor – é necessário, antes de tudo, que a nossa amiga Pernalta atravesse para a outra margem do lago até ao pântano e nos traga o Marisol.

E Pernalta assim fez. Com muita coragem, ao atravessar a lagoa a nado, evitando cuidadosamente os crocodilos, entretidos a devorar alguns gnus de uma manada que tinha passado ali perto.

Duas horas depois, a Girafa Pernalta chegou cansadíssima e cheia de sede, com o rabugento feiticeiro-farmacêutico Marisol às costas.

O Doutor Magriço colocou, então, suavemente o Caracol nas costas feridas da pequena Raponzel, espalhando, assim, aquela serosidade viscosa ao andar…

Após algumas horas, as feridas de Raponzel começaram a cicatrizar e a fechar. Os músculos começaram a recuperar a sua força e movimentos.

Os amigos saíram, então, para festejar o acontecimento enquanto a maligna Carmela os observava a salivar:

- Hoje, ganharam vocês…Mas amanhã…bem…amanhã ver-se-à! Um dia é da caça e o outro dia…é do caçador! Eheheh…!

E o sol nasce no horizonte da savana, como uma gigantesca bola cor-de-laranja…


Cláudia de Sousa Dias


Preciosamente adjuvada na caracterização das personagens e na atribuição dos nomes pelos meninos da Escola de S. Torcato - Guimarães – na Oficina de Escrita Criativa, no âmbito do projecto Puerpolis:

Aqui vai um beijinho ao

Diogo

Ao João

E ao

José Luís

…que me ajudaram neste história africana (duma autora que nunca pisou solo africano) e um abraço especial a Ondjaki com quem tive o prazer de rir à gargalhada, no almoço de sábado, graças às suas anedotas cheias de gindungo…

2008-01-24

Livros com Rabanadas




Na primeira semana de Dezembro, a Biblioteca Municipal de Famalicão recebeu duas turmas do Ensino Básico do segundo ciclo da escola Didáxis de S. Cosme do Vale, para ouvirem um conto de José Rodrigues Miguéis intitulado Arroz do Céu.

Trata-se de uma pequena estória que fala das dificuldades de um imigrante que desconhece a língua e a cultura do país anfitrião e da desigualdade de oportunidades em terras do Tio Sam (vide comentário ao livro da editora Contexto da qual extraímos a ilustração deste post, em http://www.orgialiteraria.com/ ).

Nos últimos 15 minutos da sessão, foi proposto às mesmas crianças que atribuíssem um final ao conto, à laia de epílogo, enquanto degustavam as rabanadas da época natalícia.

O resultado foi este, com erros e tudo, numa turma do 6º ano:

O limpa vias descobre de onde vem o arroz. O limpa vias descobre uma coisa valiosa no meio das grades e faz cópias e começa a vender e ganha dinheiro.

Joana Costa

O limpa vias começou a trabalhar como condutor do metro.

Anónimo 1

O limpa vias um dia foi ver a luz do sol e viu que o mundo não era como ele pensava pessoas a deitar coisas para o chão.

Diogo Monteiro

Não se deve deitar nada fora.

Anónimo 2

Ele passou a trabalhar numa igreja. Conseguio alimentar a sua família.

Anónimo 3

O senhor podia ganhar mais dinheiro a apanhar o lixo.

Marlene

O senhor apanhou tanto arroz que começou a vender. Por fim quando reparou estava rico.

Joana ribeiro

Ele arranjou outro emprego e de um momento para o outro ficou rico e começou a ajudar os pobres e mais necessitados.

João Batista

O Estados Unidos fez escolas e o homem foi para a escola e ficou rico e aprendeu a falar inglês.

Feliz Natal e Boas Festas

Anónimo 4

O senhor conseguiu outro emprego e ficou rico.

Daniel

(e agora um bocadinho de realismo mágico)

asseguir de cair arroz começaram a cair notas de 500 euros e ele ficou rico.

Anónimo 5

Como aquele tal senhor pobre que tinha sete filhos e que tinha de tirar a porcaria começou a cair aroz e sempre consegui alimentar a sua família com aquele aroz.

André Oliveira

Eles desperdisavam bastante arroz nos casamentos e coitado do limpa vias, que tinha de limpar tantas chicletes pegajosas. Ele limpou tanta chiclete e tanto arroz que até chegou a injuar.

Paula Pereira

Ele devia ganhar mais porque o trabalho que ele fazia era muito porco e comprou uma maquina que fazia aroz e ele ficou rico assim a fazer aroz.

Rui Manuel Costa Guimarães

O senhor limpa vias ficou rico do arroz; tinha muito. Vendeu algum arroz, porque não queria ficar com muito arroz.

Sérgio

Eu acho que ele ficou rico em arroz e nunca mais lhe faltava comida.

Fernando Carneiro

(sentido de humor)

O limpa vias começou a comer todos aqueles grãos de azzos, ficou muito gordo e grande e acabou por ficar uma grande e feliz toupeira.

Anónimo 6

E por fim comprou uma máquina de filtrar e embalar o arroz recolhido. E ficou rico.

Catarina Barbosa

Ele apanhou tanto arroz que começou a vendê-lo. E acabou por ficar rico.

Assinatura Ilegível

O desperdisio de arroz em pacotes.

Catarina Cunha

Ele arranjou outro emprego, casou-se (esqueçamos, portanto, o facto de que já era casado), arranjou outra casa e conseguiu alimentar a sua família para sempre.

Luís Miguel

No fim ele descobre que é uma igreja por cima do tecto e começa a ir lá resar todos os dias.

Anónimo 7

O senhor devia ganhar mais dinheiro e que aproveitasse o que apanhava para comer.

Anónimo 8

Ele montou uma firma de arroz e ficou rico. Tudo graças ao arroz que vinha do céu e o que sobrava ele vendia.

Anónimo 9

O senhor Limpavias ficou rico porque vendeu o aroz e mais ninguém disse-le mais nada e ganha 300 000 dólares.

Ana Faria

O limpa-vias decobriu tudo aprendeu a falar Inglês e modou de proficão que foi eletrecista.

Anónimo 10

O limpa vias despediuse e começou atrabalhar nuntro inprego.

Anónimo 11

O sinore limpavidos foico reco e fico polisa, gama o raminhos gana 40 000 eros.


Anónimo12

O limpa-vias descobriu muito dinheiro. E ele foi rico fez uma casa nova e comprou muitas coisas e comidas.



Já no 5º ano, as coisas são um bocadinho mais lineares:

O limpa bias com o arroz que juntou acabou por ter uma vida melhore as pessouas de sima que se fosse agora não tinham desperdisado tanto arroz.

Anónimo 1

Eu gostava que o limpa vias ficasse rico com melhores condições de viver e fosse feliz. E que tivesse dinheiro para viver e para comer.

Sara

Um dia as pessoas repararam que o limpavias era tão pobre e ainda por sima tinha sete filhos que a partir da aí começaram a não a tirar aroz e encenaram a falar a língua estrangeira e foi assim que o limpa-vias arranjou outro emprego e os sete filhos começaram a ter mais comida e viveram felizes para sempre.

Anónimo 2

O limpa-vias todos os dias apanhava o arroz que caia de depois nunca mais passou fome nem ele nem os seus filhos e a patroa (a esposa).

Bruna

O limpa-vias começou a ficar mais tempo a trabalhar e ganhou mais arroz. Começou a ter muita comida e a nunca mais ter problemas. Por fim, descubriu de onde vinha o arroz.

Marta

O limpa-vias no dia seguinte foi trabalhar para o Metro Nova Iorque e encontrou muito aroz e assim viveram felizes para sempre.


Susana

Um dia o limpadias que as pessoas não queria que caísse o arrós.

Anónimo 3

Assim ele e as suas filhas não passaram fome nem pobreza.

Anónimo 4

No final da história o limpa vidros foi viver para a cidade de Nova Iorque e ficou com melhores possibilidades de vida. E as pessoas aprenderam a partilhar as coisas.

Anónimo 5

O limpa vias foi dar um passeio e encontrou um dólar e foi ver o que era e assim descobriu a Cidade de Nova Yourk e foi procurar um emprego e encontrou um empresário e o empesário disse que pressisava de um empregado e ele asseitou.

Anónimo 6

E assim a família do limpa-vias ficou com a vida muito mais estável e começaram a ter mais alimentação.

Anónimo 7

Passado um ano a família do limpavias arranjou um emprego melhor e começou a ganhar mais dinheiro e deixou de ser pobre e sua família ficaram felizes.

Anónimo 8

O limpa vias ficou o resto da vida a comer aroz no subway que caía lá.

Anónimo 9

O fim da história podia ser que a família dele podia ter uma profição melhor e que ganha-se mais dinheiro.

Anónimo 10

O limpa-vias encontra um senhor rico atirar arroz num casamento e o limpa vias chateia-sse e volta para casa onde é promovido a organizador de casamentos e só casam as pessoas que não atirarem arroz aos noivos.

Anónimo 11

(originalíssimo e com um sentido de ironia muito peculiar)

O fim da história era quando o limpavias descobria que a sua mulhere começava adeitar arroz ao lixo.

Anónimo 12

E assim, o limpavias e a sua família começaram a ter comida para comer.

Anónimo 13

No fim o Lipa Bias desconfiou quem istava a deitar aroz e não disse aningingem.

Fim.

Anónimo 14

O limpa-vias sempre que ia limpar as vias levava arroz para a sua família e assima sua família passou a ter comida e nunca mais teve fome.

Ana Filipa

O limpa vias devia ficar com um emprego melhor e devia ficar mais rico.

Pedro Carneiro

As opiniões são unânimes. Apenas difere a criatividade destes pequenos ouvintes que pode ser, nalguns casos, inversamente proporcional aos resultados a nível cognitivo ou de compreensão do texto, embora a regra seja o inverso.

Diferem também e muito, sobretudo no 5ºano, os níveis de compreensão e expressão literária.

Comovente é a quase totalidade com que se verifica a capacidade para se sensibilizarem, denotando um forte sentido de solidariedade social e consciência cívica em idades tão precoces…

Cláudia de Sousa Dias

2008-01-21

Homenagem a Mário Cesariny na Fundação Cupertino de Miranda



Durante três dias – 22, 23 e 24 de Novembro último – a Fundação Cupertino de Miranda foi palco de homenagem ao poeta e pintor Mário Cesariny, a qual iniciou com a inauguração da exposição – cujo acervo inclui objectos, obras e manuscritos do artista – no dia 23. A referida homenagem terminou no Sábado, dia 24, data em que o público foi brindado com a apresentação de Titânia, obra póstuma do Autor, e com a apresentação, também, do projecto de construção do Centro de Estudos para o Surrealismo em Famalicão. Um recital de poesia e piano, com as respectivas interpretações de João Grosso e Afonso Malão coroaram o evento.

Os Encontros Mário Cesariny contaram com a intervenção de Manuel Rosa, da Editora Assírio &Alvim. Manuel Rosa dissertou sobre a obra poética e plástica do poeta e pintor surrealista, dando ênfase o riso do poeta como característica que o distingue dos restantes humanos pelas emoções nele contidas e que estão projectadas, decalcadas nos seus versos: “um riso ácido, sarcástico, que atravessava o espaço; (…) que causava incómodo (…) e um povo apreciador do poucochinho, das piadinhas e das graçolas, não aguentava o riso de Cesariny”.

O editor salientou, também, a importância dada pelo Autor à liberdade emocional na sua obra, o que obrigava a uma ruptura não só com o código moral vigente da época, mas também com os cânones estéticos, então em vigor. Uma ruptura que despoletou o aparecimento do surrealismo na poética portuguesa, assim como nas artes plásticas.

A Dra. Joaquina Madeira, presidente da Comissão Instaladora da Casa Pia de Lisboa, empenhou-se, por seu lado, em mostrar que essa mesma ruptura com a corrente estética, então em voga em Portugal, implicou também uma ruptura epistemológica face à utilização da Arte, nomeadamente da literatura, com o objectivo de proceder à massificação do pensamento colectivo. Cesariny quis, pelo contrário, enfatizar a importância do respeito pelo individualismo. O que, na óptica da Dra. Joaquina Madeira, justifica a atribuição do nome de Mário Cesariny à Academia Pedagógica e artística da casa Pia, destinada a promover o talento individual das crianças mais desfavorecidas, e o respeito pela especificidade de cada um.

A homenagem prosseguiu com a apresentação da obra póstuma do Autor, intitulada Titânia, com desenhos de Cruzeiro Seixas, a ilustrar os textos de Cesariny, seguida da intervenção do professor Perfecto E. Cuadrado o qual evidenciou o quanto “Cesariny foi um homem extremamente livre (…), olhava a vida com aquilo a que André Breton chamava de «o olhar selvagem» ou «o olhar de criança», «com um estado de absoluta disponibilidade para a vida».
Cesariny teve, ao que tudo indica, uma infância difícil, marcada por um relacionamento conflituoso com o pai, ourives de profissão. Já com a mãe, de origem castelhana, o jovem Mário teve um relacionamento mais próximo, mais terno.

Indo de encontro ao tema já dissertado pelo Editor da Assírio e Alvim, o Pr. Perfecto Cuadrado mostrou o quanto o Poeta necessitava de romper com os cânones estéticos que dominavam o panorama artístico nos anos 40 em Portugal – o neorealismo encabeçado por Fernando pessoa e o existencialismo.

Cesariny terá sido, então, um dos principais responsáveis pela introdução da corrente surrealista em Portugal, influenciado por André Breton, na escrita, ou Salvador Dali, na pintura, como contraponto ao falso humanismo do neo-realismo socialista da época.

“Mário Cesariny, levanta a sua voz, independente e livre, através da poesia, usando o heterónimo de Nicolau Cansado Escritor, o qual, coloca figuras da retórica como a paródia ou o pastiche, ao serviço de uma crítica feroz, dirigida à corrente poética dominante”.

Mário Cesariny coloca na poesia e, também, nos seus trabalhos plásticos, a denúncia da realidade social da época. Nomeadamente, que não existe romantismo na pobreza e que esta é, na realidade, obscena. O artista pretende desmistificar, ou melhor, desmascarar, a “poesia engajada, politizada”, destruindo a ideia do Povo mitificado, ao dirigir a sua ácida verve aos moralistas, com a sua crítica feroz, particularmente a Fernando Pessoa e, mais especificamente, ao heterónimo Álvaro de Campos, referência obrigatória nos círculos literários nos anos 1940.
O professor P.E. Cuadrado terminou a sua intervenção com dois poemas: o primeiro, de Cesariny, em homenagem a Mário de Sá-Carneiro; o outro, de um poeta castelhano, Enrique Carló,em homenagem a Cesariny.

Perfecto Cuadrado foi o orador que teve o condão de absorver de tal forma a atenção da audiência – ao “falar” com as mãos, que acompanham as modulações dramáticas da sua voz – que fez detonar um entusiástico e prolongado aplauso por parte do público presente no Auditório da Fundação Cupertino de Miranda.

A sessão prosseguiu com a apresentação do projecto do Centro de Estudos para o Surrealismo pelo Arquitecto Armindo Costa – Presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão – o qual evocou a memória de Cupertino de Miranda pelo seu filantropismo, manifesto na criação da Fundação com o seu nome, a qual guarda, actualmente, o espólio correspondente à obra de Cesariny e de outros surrealistas portugueses”.

O projecto do Centro de Estudos para o Surrealismo, que é da responsabilidade dos arquitectos Duarte e Nuno Simões, irá incluir uma sala de exposição permanente, com o objectivo de albergar o acervo relativo à obra dos artistas do movimento surrealista – actualmente expostas na fundação Cupertino de Miranda –, uma biblioteca e um auditório.

O edifício foi planeado de forma a causar impacto visual nos visitantes através de fortes contrastes no que respeita às proporções, e a potenciar o efeito dramático das obras nele contidas.

“A finalidade do estilo arquitectónico adoptado para este edifício é a de albergar a obra pertencente à corrente surrealista. Torna-se, por isso, necessário criar um edifício que esteja de acordo com esta corrente estética”, sublinha o arquitecto.

A homenagem a Mário Cesariny terminou com um recital de Piano e Poesia, com a respectiva interpretação de Afonso Malão e de João Grosso.

Duas interpretações sublimes, a de Afonso Malão com música de Lopes Graça e a de João Grosso, cuja intensidade dramática esteve à altura da escrita de Mário Cesariny, o poeta que empunhava a bandeira do surrealismo contra a hipocrisia kitsch da sociedade portuguesa do Estado Novo.


Cláudia de Sousa Dias

2008-01-10

CineLiterário 2008

10 Filmes e Livros a gerarem debate e troca de ideias na Biblioteca Municipal de Vila Nova de Famalicão sempre às 21 e 30 e na 3ª 6ª-feira de cada mês com excepção do mês de Janeiro.

As datas estão sujeitas a confirmação.

Janeiro – O Perfume de Patrick Süskind - 11 de Janeiro (confirmada)

Fevereiro – Orgulho e Preconceito de Jane Austen 15 de Fevereiro (confirmada)

Março – Como Água para Chocolate de Laura Esquível - 14 de Março (confirmada)

Abril – Doutor Jivago de Boris Pasternak - 18 de Abril (sujeita a confirmação)

Maio – O Amante de Marguerite Duras - 16 de Maio (sujeita a confirmação)

Junho – A Selva de Ferreira de Castro - 20 de Junho (sujeita a confirmação)

Setembro – A Casa dos Espíritos de Isabel Allende - 19 de setembro (sujeita a confirmação)

Outubro – Rapariga com Brinco de Pérola de Tracey Chevallier - 17 de Outubro (sujeita a confirmação)

Novembro – O Grande Gatsby de Scott Fitzgerald - 21 de Novembro (sujeita a confirmação)

Dezembro – Closer de Patrick Marber - 19 de Dezembro (sujeita a confirmação)

Conto com a vossa presença!


CSD

2008-01-02

Concerto de David Fonseca na Casa das Artes



Bacharel em Cinema, vertente de Imagem, pela Escola Superior de Teatro e Cinema de Lisboa, David Fonseca foi aluno da Escola Superior de Belas Artes de Lisboa (1992/94). Foi fotógrafo, colaborando com diversos catálogos de moda e participou em exposições colectivas e individuais. Nos discos que edita tem sido também o responsável pela imagem gráfica. Para além de vocalista, é autor de letras musicais e toca vários instrumentos musicais.
Em 2003, estreou-se a solo com o álbum
Sing Me Something New.
Em 2005, David Fonseca lançou o álbum
Our Hearts Will Beat as One com o lançamento do single em 300 rádios nacionais.
Regressa em Outubro de 2007 com o álbum
Dreams In Colour.


(Fonte: Wikipédia)


Dreams in Colour inclui onze temas compostos por David Fonseca e a sua própria versão de Rocket Man – uma canção de Elton John que se enquadra na temática de Dreams in Colour, a qual se debruça sobre a solidão e, de certa forma, na anomia, presente nos ambientes urbanos. Como contraponto, surgem canções a falar da tranquilidade e da paz em ambientes bucólicos.

Ao ser questionado sobre o porquê da temática na qual incidiu o concerto, David Fonseca admite oscilar entre o ambiente campestre e o das grandes metrópoles, comentando ser “…uma pessoa citadina, mas a tempos, porque a cidade deprime-me um bocadinho. Vivo um bocado entre esses dois mundos”.

E explica:

“A cidade traz a ideia falsa de que a vida é muito preenchida; na “aldeia”, é o oposto, o que move a nossa vida é a nossa acção (…) tem a ver com o facto de olharmos à nossa volta do ponto de vista do consumo (...) talvez porque, na aldeia se foque mais o olhar nas pessoas…ou talvez porque se ouça mais as pessoas.”

A sobriedade de David Fonseca, em palco, sem o mais leve vislumbre de vedetismo, juntamente com o carinho que coloca nas palavras dirigidas ao público famalicense (na sua maioria, muito jovem), foram o factor decisivo para que o concerto de sexta-feira, dia 23 de Novembro, realizado na Casa das Artes, despertasse a reacção entusiástica da plateia.
Para não falar dos impecáveis arranjos musicais e da performance da banda que acompanhava o cantor. O grande écran, como pano de fundo, permitia a visualização dos cenários, outra mais-valia a adicionar e a potenciar o efeito final.

O refinado sentido de humor de David Fonseca, que demonstra numa excelente capacidade para se rir de si próprio, ajudou a “quebrar o gelo” e a esbater a fronteira entre o público e o palco.

O contraste rítmico entre os vários temas apresentados contribuiu para o dinamismo, patente ao longo de todo o concerto, o qual contou com canções como Someone that can not love ou Secret Voyd, sendo a voz de David modificada com a ajuda de um sintetizador, neste último tema.

A qualidade vocal de D.F. é inquestionável: o cantor consegue atingir notas altíssimas – sem entrar em voz de falsete –, as quais alterna com os sons baixos que costuma introduzir nos ritmos mais lentos.

O público famalicense mostrou uma incrível capacidade para reproduzir o ritmo musical de algumas canções, chegando mesmo a requerer a performance de Kiss Me, oh Kiss Me marcando o compasso com o bater de palmas, deixando o cantor verdadeiramente deliciado.

Seguiram-se alguns momentos de humor, com a reprodução e paródia a alguns temas kitsch dos anos oitenta como Touch Me de Samantha Fox ou Boys de Sabrina (O cantor recusou-se, no entanto a reproduzir, Mónica Sintra!). O objectivo foi exclusivamente o de fazer a distinção entre a música pimba anglo-saxónica – caracterizada pela ênfase na repetição, quer textual que das notas musicais – e a música mais elaborada. No entanto, sublinha que gostaria de ter composto The Eye of the Tiger

Já a versão de Da, da, da dos Trio foi reproduzida na íntegra, deixando-nos impressionados com a velocidade com que pronuncia Ich liebe dich, du liebst mich nicht, mais uma das suas muitas habilidades vocais.

Os encores foram incisivos. A presença de David Fonseca seria indubitavelmente apreciada pelo triplo do tempo em que esteve no palco da Casa das Artes.

O concerto terminou com Temptation, um tema inédito, o qual afirma ser “um disco diferente dos outros: o lado bucólico não está tão omnipresente”.

De facto, o ritmo electrizante de Temptation é puramente urbano, frenético. Uma verdadeira tempestade de sons.

David Fonseca despediu-se do público com uma verdadeira jóia musical que começa com o som de um despertador, prosseguindo com o tique-taque de vários relógios a fazer lembrar o início do filme Delicatessen. O compasso dos relógios, que marca o ritmo de “uma viagem ao tempo em palco” transforma-se, gradualmente, num ritmo galopante, atingindo um paroxismo quase demoníaco, abruptamente interrompido, regressando logo a seguir, ao ritmo compassado do despertador, como um coração que tenta normalizar a alternância sistólica e diastólica, após a realizar um esforço sobrenatural.
O acorde final, após a última batida do relógio cardíaco, é dado por uma caixa de música.

A suprema e derradeira tentação.

Cláudia de Sousa Dias

2007-12-26

Visita de Virgílio Alberto Vieira à Biblioteca Municipal de Vila Nova de Famalicão




VERGÍLIO ALBERTO VIEIRA (nascido em 1950, Amares, Braga) formou-se em Letras na Universidade do Porto, passando a leccionar em Lisboa a partir de 1993. Nos últimos anos, reuniu quase toda a sua poesia no volume A Imposição das Mãos (1999) e parte da sua actividade crítica em A Sétima Face do Dado (2000). No domínio da ficção publicou, entre outros, os livros: Chão de Víboras (1982), agora em reedição corrigida, O Navio de Fogo (1993) e A Biblioteca de Alexandria (2001). Está representado nas seguintes antologias: Antologia do Conto Português Contemporâneo (Lisboa, 1984), A Imagem de Marrocos/Relatos Portugueses de Viagens (Fez, 1998), Antologia da Poesia Portuguesa Contemporânea (Rio de Janeiro, 1999), Vozes Poéticas da Lusofonia (Lisboa, 1999), Antologia da Ficção Portuguesa Contemporânea (Budapeste, 2000) e Antología del Cuento Portugués del Siglo XX (México, 2001). Está traduzido para castelhano, francês e búlgaro, línguas em que acaba de ser publicada uma antologia poética — Peregrinação ao Sul (Sófia, 2004). Autor de doze títulos (poesia, narrativa, teatro) no domínio da literatura infantil e juvenil, editou As Palavras São Como as Cerejas (2001), experiência criativa levada a cabo no âmbito de um Projecto de Oficinas de Escrita. Escreveu sobre livros no Diário de Lisboa, revista África, Jornal de Notícias e semanário Expresso. Integrou o júri dos principais prémios literários portugueses (APE, PEN Club, Eixo-Atântico, Correntes d’Escritas, etc.). Depois de Cidade Irreal e Outros Poemas (1999/ 2.a edição, 2003), publicou O Voo da Serpente (2001), Coágulos (2002) e Crescente Branco (2004), também de poesia.

Fonte: www.editorial-caminho.pt

O escritor esteve no 16 de Novembro de 2007, na Biblioteca Municipal de Vila Nova de Famalicão onde, à semelhança de outras visitas anteriores, deliciou as crianças do ensino básico com as suas histórias e poemas.

As recordações das suas viagens, retiradas da sua “arca do tesouro” portátil, isto é, de uma mala – tão cheia de livros que era impossível fechá-la – cheia de histórias fantásticas onde cabiam, também, cavalos marinhos secos, corais da Costa Rica, rosas do deserto (pedras belíssimas esculpidas pelos ventos caprichosos do deserto marroquino, em forma de rosa), um fragmento solto de uma varanda do Convento de Cristo em Tomar. "Ainda vou preso. Qualquer dia tenho de lá ir devolver a pedra…Mas ela estava solta…Eu só a apanhei…" - afirma o escritor. Da arca ou mala mágica escaparam também uma outra pedra, em forma de cabeça de mocho, esculpida por ventos e marés da Normandia,isto para não falarmos dos insectos: besouros e moscardos verdadeiros, extraídos de uma caixinha de jóias.

Virgílio Alberto Vieira falou da importância das pequenas coisas do dia-a-dia, das pequenas maravilhas que tendem a escapar aos mais novos, devido às longas horas passadas agarrados ao pequeno écran ou à Internet.

Falou também da importância em destrinçar o lixo televisivo dos programas que valem a pena, destacando o National Geographic e os desenhos animados direccionados para as crianças, como detentores de elevado nível de qualidade.

Depois vieram as histórias. Belíssimas. E os poemas. E as canções de Ivo Machado com a poesia de Virgílio Alberto Vieira.

Foram muitas as histórias. E várias delas inéditas. E até um poema para Inês, improvisado na hora.

O talento para a mímica e para a imitação do Autor – que consegue reproduzir na perfeição o som de um trombone, o gorjeio de um pássaro, ou dar a um poema o ritmo e a cadência de uma locomotiva, juntamente com os seus ruídos característicos – junta-se a extraordinária capacidade de entabular um diálogo construtivo com os mais pequenos, despertando-lhe a imensa curiosidade que é a sede inesgotável de querer saber sempre mais.

Mas o momento alto do evento foi despoletado pelo Pedro, o menino especial que volteava o olhar como o voo de uma borboleta, durante toda a sessão, inquieto, até postar-se diante do contador de histórias. Uma festa no cabelo é o suficiente para cativar-lhe a atenção e a afectividade incondicional, traduzida num carinhoso e comovente abraço.

Virgílio afirma que aqueles que nascem em desvantagem são, precisamente, aqueles a quem devemos amar mais.

Sem dúvida.

Cláudia de Sousa Dias

2007-12-15

Concerto de Nina Nastassia na Casa das Artes: a música e o humor por uma cantora Gourmet (e Gourmande) de voz excepcional



Duas guitarras aguardam a entrada da cantora, como duas guardiãs, postadas no centro do palco.

Uma jovem, semelhante a um duende, entra descontraidamente, olhando sub-repticiamente para o público. A postura e os gestos são tão despretensiosos que ninguém diria tratar-se de uma estrela. Sai do palco, advertindo expressivamente o público que volta em seguida…

Regressa, com uma garrafa de água, e senta-se. Pega numa das guitarras e solta uma acorde…de fazer acordar todos os mortos do cemitério!!!!

Começa, então, a dedilhar algumas notas e, então, a voz enche a sala. Uma voz fortíssima que quase dispensa o uso de microfone. O timbre é límpido, não muito grave, transparente e sussurrante como a voz de Enya nos pianissime, ou tonitruante como a de Skunk Anansie nos fortissime. Flexível e versátil. O potencial desta cantora torna-se inesgotável, ao aliar os dotes vocais com o perfeito à-vontade com que manipula os instrumentos, tornando-se desnecessário o acompanhamento de uma banda. Nina é compositora além de cantora. Criativa e originalíssima e, sobretudo, despretensiosa.

Dialoga com o público, explica o contexto de cada uma das canções. “I souldn’t gossip”. Isto é, não deveria falar dos colegas que a acompanham na banda. Mas a verdade é que não resiste a contar os pormenores mais divertidos, das suas digressões. As gargalhadas saltam como fogo de artifício. Um membro do público, com acentuadíssimo sotaque português do Norte, tenta conversar com a cantora (!!!!) a qual afirma não perceber uma única palavra daquele inglês, para ela, tão exótico. Resultado: gargalhada geral.

Nina comenta e elogia a gastronomia portuguesa – um dos seus maiores prazeres parece ser o facto de desfrutar de boa comida – à qual se rende incondicionalmente.

As canções sucedem-se numa alucinante variedade de ritmos a fazer lembrar uma montanha russa. Ou a alternância entre uma suave brisa marinha e a violência de um tufão no Pacífico.

Destaque para a belíssima balada “She” onde se misturam emoções como amor, desamor, ódio e nostalgia, a tónica dominante na lírica de Nina Nastassia.
E foi assim a noite de 16 de Novembro na Casa das Artes em Vila Nova de Famalicão.
Com Nina Nastasia, vinda de Nova Iorque.

A cantora da voz de vento que se apaixonou por Portugal.
(Principalmente por causa da comida)
:-)


Cláudia de Sousa Dias

2007-12-10

Concerto de Lauren Field na Casa das Artes



Beleza, requinte e muita sedução.

São os adjectivos que coloriram o concerto realizado no passado dia 20 de Outubro no Grande auditório da Casa das Artes.

Lauren Field, já foi actriz, mas a sua verdadeira vocação é, indiscutivelmente, a música, pelo que, há alguns anos atrás, sofreu uma reconversão na sua carreira, redireccionando-a.

Lauren fez o seu début na música jazz, onde predomina a melancolia dos blues e à qual adiciona um pouco do estilo de bossa nova no álbum “Modern Woman”, um trabalho de há cerca de dois anos atrás.

As melodias saíram, na sua maior parte da sua própria pena, embora o concerto de sábado contasse com algumas incursões de temas novos e de compositores clássicos como “I’ve got you under my skin” de Cole Porter.

A sua música está classificada como pertencente à categoria de jazz acústico/blues à qual se junta uma pitada do aroma apimentado dos ritmos latinos, de onde emerge, por vezes, a sensualidade da rumba cubana, que se junta à influência do estilo de Janis Joplin e Billie Holiday, em canções como “Havana”, por exemplo.
Segundo a própria cantora, algumas das suas letras originais têm muito de autobiográfico. Na realidade, está patente nos seus poemas musicados uma certa ironia, algo amarga, no que diz respeito à igualdade de oportunidades entre homens e mulheres.

Quanto à voz, a versatilidade e qualidade superior em diferentes registos, bem como a riqueza tímbrica demonstrada, colocam-na ao nível de cantoras de destaque como Diana Krall ou Norah Jones.

A beleza das melodias foi amplamente realçada pelo acompanhamento dos outros membros da banda, particularmente pelos solos vindos do piano, que foram entusiasticamente aplaudidos.

Destaca-se a beleza melancólica de canções como “Funny Valentine” e sobretudo “My Man”, cujos acordes iniciais remetem para o romantismo de clássicos como Débussy ou Chopin.

Um concerto que, para os espectadores, fechou a semana com chave de ouro.



Cláudia de Sousa Dias

2007-10-27

“A Bela Adormecida” de Tchaikovski: um espectáculo que deliciou o público de Famalicão no Grande Auditório da Casa das Artes



A Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão apresentou, este fim-de-semana, nos dias 5 e 6 de Outubro, o espectáculo de bailado, intitulado “A Bela Adormecida”, uma peça musical da autoria de Piotr I. Tchaikovski, trazida à cena pela escola Ginasiana de Vila Nova de Gaia.
O corps de ballet era composto, essencialmente, por alunos amadores – ainda a frequentar o conservatório – mas de entre o qual já se faz notar algumas interpretações de elevadíssimo nível, a denunciar um potencial de qualidade superior. Sobretudo Mirella, a Fada Cor-de-Rosa – na apresentação de Sábado – cuja leveza de pássaro lhe facilita o elevado nível de performance técnica, demonstrada nos saltos e piruetas. Já Kátia, a Fada Lilás, mostra uma excelente capacidade de interacção com o público, onde facilmente nos apercebemos, também, que a capacidade de expressão ultrapassa a técnica propriamente dita, a qual já se encontra no patamar de “Bom”. O porte e a altura da jovem bailarina reforçaram a beleza dos movimentos executados.

Destacou-se, ainda, e antes de tudo, o desempenho da bailarina que interpreta o papel da Princesa – Elena Martinova – que nos chega da Escola Russa de Leninegrado e que conta, já, com um vasto currículo nos círculos balléticos, tal como o irmão, que interpretou a figura do Príncipe.

Elena personificou a beleza grácil nos movimentos sincrónicos das mãos, no voltear da perna, na extrema segurança ao executar saltos e piruetas e na fluidez mostrada durante as ligações entre várias sequências de passos.

Já a exibição de Andrei Martinov revelou-se um pouco mais modesta, em virtude de se encontrar lesionado.

Durante uma curta entrevista, após o final do espectáculo, o coreógrafo e director artístico Marcelo de Souza afirmou que, ao idealizar o guarda-roupa para a peça, pretendeu que esta se situasse, de certa forma, “fora do tempo” ou atemporal. Onde as fadas surgem como aparições, indo ao encontro da concepção mais tradicional do figurino e da coreografia do ballet clássico, o mesmo acontecendo em relação ao par protagonista. Já o guarda-roupa das restantes personagens, permite ao espectador situar a história em qualquer época, seja ela medieval, renascentista, na belle époque ou contemporânea.

Marcelo enfatizou, ainda, a intenção de introduzir o contraste entre o elemento clássico e o moderno, ao confrontar a dicotomia dos arquétipos do Bem e do Mal, que são sublinhados por dois estilos opostos quer no que toca ao guarda-roupa, quer a dança propriamente dita. Isto é: ao artificialismo do ambiente da corte, espartilhado no protocolo regido pelo Mestre-de-Cerimónias, Marcelo opõe a entrada da ultra-rebelde Fada Má e do seu séquito.

Ela é, nitidamente e desde o primeiro momento, “ pessoa indesejada, cuja presença é fisicamente incómoda, segundo afirma Marcelo Souza.

É, sobretudo, sexualmente provocadora, exibindo uma sexualidade ambígua e um visual inspirado nas drag queen – cabelo rapado, botas com plataformas e um vestido vermelho e preto de onde emerge um corpo musculado, a sugerir uma bomba de sensualidade, prestes a explodir.

A Fada Má e os seus seguidores tentam, ainda, introduzir o erotismo na corte, ao aliciar os outros intervenientes.

A interpretação desta Fada Má, com algo de dominatrix, esteve a cargo de Isabel Ariel e foi, sem sombra de dúvida, a melhor interpretação de todo o espectáculo, nivelada apenas com a de Elena Martinova.

Isabel alia, ao perfeito domínio da técnica de dança, um excepcional talento como actriz. Um verdadeiro “animal de palco”. Ou a Callas da dança moderna.


Um belo espectáculo, onde a improvisação do corpo de baile infantil proporcionou um momento de especial deleite e descontracção na plateia.

Um belo projecto de desenvolvimento e formação de novos talentos.


A continuar.

Em nome da Arte.


Cláudia de Sousa Dias

2007-10-20

Cineliterário - Debate e partilha de opiniões na Biblioteca Camilo Castelo Branco


No passado dia 26 de Setembro o filme de Patrick Maarsden "O Bandolim do Capitão Corelli", baseado no romance homónimo do escritor franco-britânico Louis de Bernières, foi objecto de uma mini-tertúlia que se prolongou para além do tempo de projecção do filme.


O tema do romande incide sobre os antecedentes que estiveram na origem da guerra dos balcãs, abarcando também o papel das mulheres numa sociedade rural duma ilha grega, no meio do mar Jónico, nos anos 40. Uma ilha que é também um ponto estratégico disputado por vários impérios ao longo da História da Europa.


O livro fala, também, das fidiculdades de integração que quem pretende ser diferente, da religiosidade, costumes e tradições gregos, da relação da população nativa com os invasores, do contraste entre a bonomia eo espirito leggero dos militares que integram a divisão Acqui e o formalismo e rigidez autoritária dos alemães.


O debate foi enriquecido com a presença e os comentários da escritora Manuela Monteiro e de José Manuel Silva, empresário e cinéfilo.


Foram sublinhados, pelos vários intervenientes, aspectos como o aligeirar da narrativa para o grande écran, a transformação de um romance de elevado conteúdo dramático, histórico e político, referente a inúmeros acontecimentos chave que tiveram lugar no século vinte e que desencadearam significativas alterações geo-políticas nas décadas subsequentes, como a Guerra Fria e a queda do muro de Berlim, num folhetim adocicado onde brilha a presença de Penélope Cruz – algo inspirada em Irene Papas – e onde Nicolas Cage esteve muito aquém do seu melhor ao construir um Capitão Corelli algo superficial, um tudo nada light, seguindo um estereótipo da personalidade italiana tal como é vista nos EUA.


Do debate, extrai-se, à laia de conclusão, haver uma acentuada assimetria entre livro e filme, destacando-se o primeiro pela positiva.


Do filme, ressalta a beleza da fotografia, a perfeição da execução da cena do terramoto onde se observa a terra a sofrer contracções, como o útero de uma mãe a dar à luz.


Um facto de cariz geológico que adquire um significado metafórico, que poderá ser extrapolado para o campo da geopolítica, pressupondo uma nova ordem mundial que sofre outro revés em Novembro de 1989 com a queda do Muro de Berlim. A partir daí, estarão lançadas as sementes que desencadearam a Guerra na ex-Jugoslávia, altura em que foi escrita a obra.


O próximo debate do Cineliterário será no dia 31 de Outubro com o filme "Chocolate", do mesmo realizador, a pertir do best-seller de Joanne Harris.



Cláudia de Sousa Dias

2007-09-16

"No Restaurante das Orquídeas"




Adorei o peixe que me cozinharam para o almoço.

Luna deliciou-se com a caldeirada de frutos do mar com camarões-tigre e amêijoas brancas gigantes, servida num púcaro de barro e regada com um vinho branco, maduro e adocicado, como ela gosta.

O cheiro é delicioso mas eu prefiro o meu peixinho.

Neste momento estou encostado aos pés de Luna , que estão deliciosamente frescos e parecem cheirar levemente a algas e a maresia…

Ela escreve, sentada à mesa, de laca preta, enquanto espera pela sobremesa. O tapete, macio, de veludo vermelho, contrasta vivamente com as sandálias de tiras, pretas e brilhantes, como a laca da mesa de estilo oriental.

Reparo, agora, que toda a decoração faz lembrar um restaurante chinês, ou japonês, onde dominam as madeiras aromáticas, cujo penetrante cheiro a sândalo e a cânfora me faz pensar em lugares exóticos e distantes como a Malásia ou Madagáscar. As cores do pau-preto e pau-rosa sugerem um ambiente fresco e intimista, onde o verde espreita em cada recanto, uma vez que o dono do restaurante é, para além de chef gourmet e um decorador de talento, um apaixonado por orquídeas raras, que colecciona e expõe no restaurante de forma a deslumbrar os clientes (sobretudo os do género feminino).

O resultado é uma vaga sensação de se estar a almoçar ou jantar debaixo dos jardins suspensos da antiga Babilónia ou numa clareira, habitada por humanos, no meio de uma floresta tropical…

Estar neste lugar é como saborear um festival de cor e frescura para fugir ao inferno do sol mordente do meio-dia que transforma os humanos de pele mais sensível em autênticas lagostas grelhadas…

É aqui que Luna aproveita as horas de maior calor para se refugiar e escrever os seus textos…

Acho que o último é sobre o andorinhão negro que encontrou na rua e resolveu adoptar há alguns meses atrás…

Se fosse eu a encontrá-lo o seu destino seria bem diferente…

Enquanto ela escreve vou aproveitar para dormir uma soneca, encostado às suas pernas…


O Falcão-Andorinha


Falki entrou na minha vida como um prelúdio de uma noite poética, onde eu teria de declamar um trecho de um livro de uma jovem escritora, a ser lançado nesse dia.

O poema seleccionado era um hino ao amor e às coisas belas.

Mas antes de entrar para o recinto os meus olhos detiveram-se numa figurinha negra, caída na berma da estrada, junto ao passeio.

Um pássaro. Pequeno e escuro, com malhinhas cinzentas, no pescoço, nas extremidades das asas e na cauda.

Não voava. Parecia em estado de choque. Peguei nele, cuidadosamente. Ao contacto com a malha da minha blusa, trepou imediatamente para o meu ombro e tentou esconder-se no meu cabelo que, naquela noite usava solto.

Voltei a pegar nele para o observar melhor. O bico e as asas curvas fizeram-me pensar tratar-se de uma ave de rapina. Mas o tamanho era o de uma andorinha. Seria um filhote de falcão?

Na altura, fiquei convencida que sim.

Nessa noite, a poesia ficou, para mim, em segundo plano.

Só conseguia pensar no bem-estar da pequena ave. Dei-lhe de beber e coloquei-a numa espécie de ninho de guardanapos de papel. Mas ela parecia estar contente na minha mão.
Tanto que até conseguiu adormecer.

Ao chegar a casa, os meus pais apaixonaram-se por ela.

Imediatamente.

Perdidamente.

Tentámos alimentá-la de várias formas.

Primeiro, com papa insectívora, com uma minúscula colherzinha de café.

Que ele cuspia, quase na totalidade. Depois experimentámos carne de bife de peru, cortada aos bocadinhos. Que ele engolia, de olhos fechados.

Depois, deixava-mo-lo voar pela casa. A princípio, executava voos curtos, hesitantes.

Mas depois que ficou a conhecer as coordenadas da casa, os cantos, as esquinas, os locais onde havia plantas, orientava-se pelas variações de luz e pelo cheiro a terra.

Cedo ficou a conhecer onde ficavam todas as janelas.

Falki tinha a loucura das vidraças.

Ia de um lado ao outro da casa, certeiro como um raio ou uma seta, disparada por uma besta. Desferia curvas, contornava esquinas, desde a janela da marquise, passando pelo corredor sombrio, virando à esquerda, após o que disparava, em seguida, para a janela do quarto como um míssil.

Certa vez estava eu no meu quarto com ele, a examinar-lhe o comprimento das asas. Ao soltá-lo, ele descreveu um semi-círculo , a partir do meu lado esquerdo contornando o quarto, ao passar por detrás das minhas costas poisando, depois, no meu ombro direito, lançando-se, depois, impetuosa e alegremente em direcção à janela.

Passou-se uma semana.

Duas semanas.

A cada dia que passava, amávamos Falki um pouco mais.

Talvez porque tivéssemos de o alimentar a mão, cerca de quatro vezes ao dia, tendo de lhe abrir o bico para lhe introduzir a carne, cuidadosamente cortada aos bocadinhos, enquanto que os outros pássaros olhavam, ciumentos, dentro das gaiolas.

Mas também notámos que a sua vida era o Vento.

Que soprava lá fora.

Que o chamava.

Ele imaginava-se, sem dúvida, a passar-lhe por debaixo das asas durante o voo que lhe era tão ou mais necessário do que a comida ou o afecto que lhe dávamos…

Começava eu, então, a pensar seriamente se não estaria na altura de o levar ao parque ornitológico…

…mas ele ainda não conseguia comer sozinho…

…e também não crescia, conforme o que seria de esperar, tratando-se de um falcão- peneireiro, como julgávamos.

Ou então lévá-lo para a quinta dos meus tios, no Cartaxo, onde poderia caçar à vontade…

Um dia, ao chegar a casa, fui ver como estava ele, como sempre fazia desde que o trouxe para casa.

Ao que a minha mãe respondeu, com um ar sombrio:

- Olha, não está lá muito bem…Não me parece muito bem disposto…Vomitou a comida…Não quis voar…Dei-lhe de beber…mais logo dou-lhe daquela carne mais tenrinha, a ver se ele melhora…

No dia seguinte, logo pela manhã, a primeira coisa que fiz logo que me pus a pé foi ver como ele estava. Parecia melhor.

Fui um pouco mais alegre para o trabalho, mas pelo sim pelo não, procurei o contacto do parque ornitológico de Gaia, porque sentia que estava na altura de procurar um lugar onde ele se sentisse feliz.

Ao chegar a casa , à noitinha, volto a perguntar pelo meu filhote com asas.

A minha mãe responde-me, com voz trémula:

- Está a morrer…

Não pude acreditar. Olhei para ele, prostrado, caído. Todo ele exprimia dor. Tomei a resolução de o levar ao parque logo pela manhã, numa corrida contra o tempo.

Foi a pior noite da minha vida. Dei voltas e mais voltas na cama, levantei-me vezes sem conta. Mas todos os pássaros, lá em casa dormem com coberturas leves por cima das gaiolas para não serem incomodados pelas luzes das lâmpadas eléctricas da rua.

O gato olhava-me inquieto, da janela do quarto.

Mas, pela primeira vez na minha vida, não conseguia dar-lhe atenção.

Mas ele sentia a minha angústia.

Contudo não consegui fazer-lhe uma única festa naquela noite.

Voltei a deitar-me. Sonhei que apanhava um comboio em pleno andamento. A certa altura, tinha de saltar e apanhar outro comboio que fazia a ligação ao destino que eu pretendia. Apanhei o segundo comboio por uma unha negra.
Ao viajar neste segundo comboio, vi entrar a dada altura na carruagem uma pessoa da minha família com um carrinho de bebé. Ela estava de luto. A alcofa era negra. As cobertas negras. Os lençóis negros também. Espreitei e vi um carita cinzenta, com uma touca negra. Levantei-me. Fitei os seus olhos negros e os cabelos de viúva e exclamei:

- Não…

Acordei nesse instante.

Corri para a marquise onde a minha mãe já estava a tentar alimentar Falki.

Peguei nele. Senti-lhe o pequeno estômago, duro como pedra. Agarrei numa caixa de sapatos e coloquei-o lá dentro, sem tampa.

Peguei na carteira e saí disparada em direcção à estação. Apanhei o comboio para Campanhã e perguntei à Irene se me levava a Gaia. Disse-me logo que sim.

No comboio, toda a gente olhava, compungida o pequeno falcão moribundo, do tamanho de uma andorinha.

Ao chegar a Campanhã dirigi-me para a porta da estação. A Irene e os filhos chegaram no mesmo instante. Falki sentia-se melhor na minha mão do que na caixa. As duas crianças quiseram imediatamente ver o Falcão, curiosas e entusiasmadas. Queriam participar do salvamento.

Entrámos no carro e pusemo-nos a caminho. Ao entrarmos em Gaia, virámos duas vezes na direcção errada e perdemo-nos. O abdómen de Falki relaxava na minha mão mas não abria os olhos.

Uma das crianças observou:

- Parece que está com dificuldades em respirar…

Irene encontra finalmente a estrada que vai dar ao parque ornitológico.

Falki vira a cabeça na minha direcção e volta à posição inicial para descansar. O portão do parque está a escassos metros de distância.

Sorrio, com a esperança a chegar-me aos olhos.

Olho para Falki.

Está a dormir.

Não se mexe.

O coração não bate.

- Irene…

Irene examina-o.

Em seguida, olha-me nos olhos.

Abana a cabeça.

Olho o portão do parque.

Não consigo reagir.

- Levámo-lo na mesma?

- Claro que sim.

Ao chegar, mostro o meu filhote falcão ao porteiro.

- Olhe, eu trazia aqui uma ave, um falcão peneireiro para entregar ao parque…Falei ontem com o tratador pelo telefone…já tinha avisado que vinha…mas quando cheguei a casa ele já não estava nada bem…e só consegui vir hoje…

- Fez a sua obrigação. Mas olhe que este não é um peneireiro…É um andorinhão…O peneireiro é muito maior…

- Mas é igualzinho...o bico… as garras…

- Pois…há muitas aves parecidas. Mas este é insectívoro. Pode comer carne. Mas o grosso da alimentação, são insectos…Sempre que encontrar um passarinho destes, ponha-o a voar a partir de um sítio alto, para que ele ganhe impulso para o voo.

- Pois…ele tinha verdadeira loucura pela janela e por sítios altos…

Saí daquele lugar paradisíaco cheios de aves, cantos e chilreios de toda a espécie, com a alma envolta em escuridão.

Afinal, foi a primeira vez que perdi um ser a quem amei como a um filho.


Voltei as costas ao Paraíso e preparei-me para enfrentar o Inferno do Remorso e da Culpa…

por: Luna


Parece que Luna terminou de escrever. Os seus olhos estão marejados de lágrimas. Algumas caem-lhe no papel, manchando-o de tinta. Na mesa ao lado está uma família, composta por três crianças e uma senhora de cerca de quarenta e cinco anos de idade. Penso que são primos afastados.

Duas das crianças têm cabelos negros, mas a menina mais velha que deve rondar os dez anos de idade tem o cabelo louro como milho, mais claro que o da avó, fulvo como uma juba leonina. Todos eles têm olhos claros.

Como os gatos siameses.

A menina loira levanta-se da mesa e vem ter com Luna.

- Tenho uma coisa para ti...
- A sério, amor? E de que se trata? – Luna sorri, enquanto limpa os olhos.
- Uma estrela, que apanhei entre as rochas, debaixo de água! Gostas?

A menina tira de uma bolsinha cor-de-rosa, uma estrela-do-mar, enorme, de um laranja vivo.

- É linda, Maria. Obrigada!
- Feliz aniversário! – Maria abraça-a efusivamente.

Luna esconde a cara no pescoço da criança.

Diamantes de sal, rolam-lhe pela cara.

O gelo quebra-se e transforma-se e desfaz-se em água do mar.

É Verão.


Desert Rose






2007-08-07

“Quarenta Graus”



O sol do meio-dia torna impossível caminhar na escaldante areia branca onde os poucos banhistas que se atrevem a cruzar os escassos metros que separam o refúgio sombrio das barracas verdes-escuras da água. E os poucos que se atrevem a fazê-lo saltitam como algumas espécies de insectos ou lagartos do deserto, ora num pé ora no outro, correndo para as escadas de madeira que vão dar ao bar da praia ou para a frescura da orla marítima em busca de humidade e alívio para as queimaduras nas plantas dos pés.

Sentada num rochedo, com os pés mergulhados numa poça, onde posso observar anémonas rosa-púrpura, mexilhões em tons antracite e lapas cor-de-cal, passo mais uma generosa camada de protector solar nos ombros, braços, pescoço e colo, onde a pele é sempre mais martirizada.

A sombra do chapéu de palha de aba larguíssima, a fazer lembrar um sombrero mexicano, torna-se bastante confortável àquela hora do dia, dispensando o uso de óculos de sol que, além de deixarem marcas na cara, transmitem-me uma desagradável sensação de ficar parecida com uma mosca de cada vez que me olho numa superfície espelhada….

…o que me faz ignorar a maior parte dos veraneantes que esboçam, de minuto a minuto, aqueles sorrisinhos ténues, vagamente trocistas – vulgo, “amarelos” – entre divertidos e invejosos, ante a aparente excentricidade de 180 cm de diâmetro das abas do chapéu.

Um autêntico guarda-sol portátil.

Espalhafatoso, mas eficaz.

Certamente mais do que um par de óculos de sol…

A sombra proporcionada pela minha extravagante toillette de praia permite-me perder o olhar no infinito azul que se estende à minha frente. O prazer inigualável de desfrutar da tonalidade turquesa que se funde com o azul-safira das águas profundas da linha o horizonte, onde se notam algumas sombras índigo e cobalto, para adquirirem uma transparência de água-marinha, que se alterna com a tonalidade verde-esmeralda das águas habitadas por sargaços é impossível de ser traduzido por palavras.

O fundo da água torna-se cristalino deixando ver corais, peixes multicores e outros animais marinhos.

Um ouriço-do-mar passeia perigosamente perto dos meus pés.

É melhor redobrar a vigilância.

Também não me apetece pisar nenhum peixe-pedra camuflado nas rochas…

A escassos metros de mim, está uma senhora de cerca de quarenta e cinco anos de idade que também observa o horizonte.

Mas algo contraria a atitude descontraída, típica de quem está a gozar férias…
…todos os seus gestos denunciam uma ansiedade quase que frenética, traduzida numa expressão angustiada nos olhos semicerrados e nas mãos, em pala, à altura da testa…
…que se alia à tensão dos músculos faciais, dos lábios contraídos num rictus de desespero, num esgar de preocupação e no franzir das sobrancelhas…

A gigantesca aba do meu chapéu permite-me manter o rosto na penumbra e estudar atentamente as feições da mulher, ainda jovem, que perscruta ansiosamente o mar.

Sem o receio de ser tomada por indiscreta, observo com atenção, para não deixar escapar o mínimo detalhe.

Trata-se de uma senhora dona de uma beleza deslumbrante. Uma beleza amadurecida, completa e inquestionável.

A pele dourada é a moldura de um corpo ainda na plenitude da feminilidade, com músculos firmes e delineados, provavelmente por sessões de natação diárias, dada a tonicidade que exibe nos ombros, braços e dorsais.

O cabelo brilha num dourado fulvo, salpicado de pouquíssimos fios prateados, sem estar ainda contaminado pelo artificialismo dos químicos comprados na cabeleireira. As feições correctas de testa alta, nariz estreito e vertical e queixo altivo fazem-na parecer uma Vénus esculpida por Fídias…

No entanto, as duas rugas de preocupação entre as sobrancelhas, insistem em estragar a harmonia de uma rosto perfeito. Também os olhos de água-marinha, da mesma transparência dos recifes, se movem frenéticos, perscrutando a costa e detendo-se nas inquietantes sombras que se aproximam, em velocidade crescente, da zona onde os banhistas desfrutam da água…

- Maria?! Mafalda?! João?!

Duas crianças traquinas, de cabelos castanhos e faiscantes olhares azuis com reflexos cinza-prata surgem detrás dos rochedos.

- Avó! Olha o que nós apanhámos!

Mafalda exibia, orgulhosa dois ouriços castanhos-avermelhados e João uma estrela-do-mar cor-de-laranja, ainda viva. Nas caritas cor de canela, emolduradas por rebeldes cabelos pretos sobressaem uns olhos marinhos, muito semelhantes aos da Avó.

- E a Maria?!

- Está dentro de água. A apanhar anémonas. Mais lá ao fundo…

A avó sente o pânico subir assustadoramente pelas veias e a galopar, desenfreado, em direcção às têmporas…

Volta a olhar o horizonte.

As sombras estão cada vez mais perto.

Uma barbatana triangular, denteada, surge à superfície.

Uma palidez de morte cobre-lhe o rosto à medida que sente as pernas ficarem cada vez mais moles. A visão parece querer fugir-lhe ao mesmo tempo que sente perder o equilíbrio.

- Vóvó?!

Uma criança de dez anos, surge do lado oposto, de entre as rochas mais afastadas. Bela como uma ninfa do mar. A pequena sereia de cabelos de um louro claríssimo, feérico, ofuscante como a luz solar, tinha uma expressão estranhamente contrariada. Os olhos, ligeiramente mais escuros que os da avó – de um azul-safira, precioso e rico como as águas profundas – estavam marejados de lágrimas reprimidas e contraídos por uma expressão de sofrimento. A pele do rosto – mais clara, apesar de já dourada pelo sol, apresentava uma palidez inquietante.

- Vóvó! Trago aqui as anémonas. Mas magoei-me! Olha! Tenho o pé a deitar sangue!

A avó quase desmaiava.

- Maria! Não sabes que é muito perigoso ires para o pé dos corais?! Podes picar-te ao calcar um peixe venenoso ou seres mordida por uma cobra coral…Elas andam por aí…Para não falar da possibilidade de fazeres um corte ao roçar nalguma pedra mais aguçada…Alguns corais também cortam como facas…e o cheiro a sangue pode atrair outras coisas também…

- O quê, Vóvó?

- Ora, o quê! – replica sadicamente o pequeno diabrete moreno de olhos azuis – Os Tubarões! Depois engolem-te inteirinha com espinhas, quer dizer, ossos e tudo! Já vi na televisão, num filme do Spielberg! Ficas uma autêntica papa, pior do que carne para hambúrguer!

- Não te preocupes com isso agora. Está na hora do almoço e precisamos de tratar desse pé. Vamos aproveitar que toda a gente está a fugir da água em massa e fazer uma corrida até à praia para ver quem chega primeiro. Tu, Maria, vens ao colo, porque não podes correr ao pé-cochinho. Está bem, meninos? Vamos lá, despachem-se!

As sombras negras, por debaixo da água, estão agora a escassos metros da praia.

Os banhistas saíram em debandada.

Foi instalada a bandeira vermelha, apesar da maré baixíssima.

Também para mim está na hora de ir almoçar…

…antes que me converta em almoço.

Pego nos meus livros e no trabalho, manuscrito, e encaminho-me para o restaurante onde deixei o meu gato de olhos esmeralda.

Ele odeia a água.

Lá terá as suas razões…


Desert Rose

2007-07-22

“O Xaile Indiano”


É noite.

Estamos no nosso refúgio.

Na varanda da casa de praia.

Mais uma vez.

O mar olha-me do fundo da sua negrura de breu, com reflexos de prata. As portas de vidro da sala estão corridas para deixar entrar a brisa…o areal estende-se diante de nós, numa tonalidade de marfim, junto ao qual o mar chão serve de espelho à Lua que está no seu zénite.

Antes que a sua gémea, mergulhe no Oceano, ela vai à cozinha buscar uma chávena de chá verde, para saborear devagarinho, reclinada na espreguiçadeira na varanda…

Aposto que vai ouvir Gershwin….

Ouço o miado aveludado de um clarinete…

Summertime…

Acertei.

A tristeza impregnada no timbre da voz de Ella Fitzgerald espalha-se pelas ondas impregnando a carícia do vento de uma tonalidade escura. Grave. Nocturna. Negra e macia como veludo…

Segue-se Leontine Price. Outra voz negra, mas esta é acetinada e de uma pureza cristalina, aliás, diamantina que chega até às estrelas…

O corpo bronzeado de Luna está envolto no xaile de seda indiano, dourado como as pérolas orientais usadas pelas marahani. Os reflexos do xaile, que ela enrolou à volta do corpo, como um sari, lembram a ondulação do mar, há poucas horas atrás, ao pôr-do-sol. E a luz pálida da Lua, que o atravessa, denuncia cada movimento muscular de um corpo moldado pelo seu desporto favorito: a vela.

Vela e vento.

Porque Luna é brisa e tempestade.

E o xaile um presente que oferece a si mesma para celebrar a sua sede inesgotável de liberdade e independência.

Não é por acaso que nos damos tão bem.

Luna gosta do seu canto.

Do seu espaço.

Que não suporta ver invadido por uma presença estranha.

E eu também não.

Nisso somos semelhantes.

A brisa marítima não está suficientemente fresca para dissipar o ar abafado da sala.

Luna levanta-se e caminha em direcção à praia. O cabelo negro-andorinha cai-lhe pelas costas, realçado pelo tom oiro da seda.

Luna mergulha num mar sereníssimo.

Sereníssima…ela…também…

Como a lua…

Como a espuma das ondas…

Luna é o sol da meia-noite a entrar nas águas negras do Atlântico…

A Lua desce.

Ao seu encontro.



Desert Rose

2007-07-16

O desmaio do pássaro, visto pelos olhos de jade de um gato ciumento




Não sei o que vê a minha dona naquele passaroco peneirento e tão… cagarola…

…que não pode ver uma folha cair da árvore sem dar um salto e esvoaçar, completamente desorientado, esbarrando-se nas grades da gaiola…

Até em sonhos, não deixa de ser o pássaro mais cobardolas que já vi…


Por falar em sonhos, já vos contei o último que tive com ele?

Parece-me que não.

Aqui há três meses atrás, no início da Primavera, estava eu a dormitar à janela, com o sol da manhã a aquecer-me o pêlo e a expulsar os restinhos de Inverno das articulações, quando Luna decidiu pendurar o bicharoco no ramo do pessegueiro do lado de fora da janela.

Ignorei-os aos dois.

Fechei os olhos e inspirei um pouco a brisa que entrava pela nesguinha da janela aberta, fazendo esvoaçar a cortina…

O Júlio, esse melro-pavão, estava, então pendurado na árvore, mesmo à minha frente, só com o vidro a separar-nos.

Parece mesmo provocação…

Por detrás da árvore fica o jardim.

E, por detrás do jardim, o muro de pedra, cheio de buganvílias púrpura, carmim e fogo.

O pássaro grasnava alegre e descaradamente, como sempre, sobretudo quando passeavam diante da gaiola, desafiadoras, as libelinhas de asas transparentes e delicadamente rendadas, borboletas castanhas, amarelas ou brancas e uma ou outra daquelas moscas azuladas.

As rosas do jardim que fica por debaixo desta janela são o paraíso das borboletas, sobretudo as rosas brancas, cujo perfume se chega a ver, toscamente imitado, nas perfumarias.

Assim como o das frésias.

Brancas, também. E amarelas.

Há, também, aquela roseira de um magenta aveludado que lança uma fragrância ligeiramente frutada, doce e, ao mesmo tempo, com uma acidez de maracujá, que atrai os insectos fazedores de mel, que eu quero ver a milhas de distância do meu focinho…

Estava eu tranquilamente a gozar este cenário idílico, meio a dormitar, quando oiço o Júlio esvoaçar caindo, em seguida, abaixo do poleiro, desmaiado…

Fulminado?

Não…

Inconsciente.

Para meu gáudio…(eheheh)

…e, mais à frente, melhor dizendo, ao fundo do jardim, em cima do muro, estava um desses cães boxer, amarelados, com o focinho todo às pregas a olhar para a gaiola e a ladrar…

Curiosamente aquela horrorosa besta ladrava exactamente como aqueles cãezinhos irritantes e minúsculos da raça Chihuahua que eu costumo fazer em picadinho quando me aparecem à frente…

Luna, no escritório, ouviu o barulho, levantou-se da secretária e foi ver o que se passava. Quando chegou à gaiola tratou logo de pegar naquele exagerado, hiper-dramático e histriónico pássaro e pôs-se a fazer-lhe… uma massagem cardíaca…!

Qualquer dia, aplica-lhe uma respiração boca a boca num dos seus inúmeros chiliques…!

Oh! Como eu detesto aquele pássaro!

Se pudesse segurá-lo nos dentes…

Só um bocadinho…

Bem, o pássaro, por fim, lá acordou e voltou para a gaiola.

Não sem antes Luna tê-lo estragado com mimos e até lhe ter dado um pouco de…bolo de coco!


E para mim…nada…!

De repente, abri os olhos e… fiquei sem perceber patavina. A janela estava fechada e eu no sofá encostado às almofadas.

O Júlio estava no jardim de Inverno na varanda coberta com o toldo azul.

Luna chama-me.

O prato de leite espera-me na cozinha.

Está na hora do pequeno-almoço.


Cláudia de Sousa Dias

2007-07-06

Conversa e sessão de Autógrafos com Bruna Lombardi











Afastada há já mais de uma década das telenovelas e a viver nos EUA, Bruna Lombardi é uma mulher activa e multifacetada. A escrita, o cinema e a apresentação de um programa televisivo são actividades que a realizam profissionalmente. A cultura é, para ela, uma paixão à qual se dedica com a motivação de um cruzado impregnado dos ideais de progresso e desenvolvimento intelectual como motores de mudança.

Bruna Lombardi esteve em Vila Nova de Famalicão no dia 30 de Junho, na Biblioteca Municipal Camilo Castelo Branco, para a apresentação do seu romance Filmes Proibidos, uma reedição com a chancela da Magnólia, a irmã mais jovem das Quasi Edições. Extremamente empática, Bruna Lombardi é uma mulher envolvente que utiliza as suas mais do que desenvolvidas competências na arte de comunicar ao interagir com o público.

Discreta e muito distante da imagem de mulher fatal que quase sempre a acompanhou nas telenovelas, BL é uma mulher culta e extremamente inteligente. Algo que sobressai na escrita e no imaginário que projecta no romance Filmes Proibidos (vide http://www.hasempreumlivro.blogspot.com/ arquivo de Fevereiro de 2005) – um livro que fala da tentação do abismo, da possibilidade de fazer a escolha errada. Uma dentada na maçã para sair da perfeição edénica e depois empreender o caminho de volta.

A respeito do livro Bruna comenta, em conversa com um público que evidenciou uma forte curiosidade relativamente ao desenvolvimento da sua faceta como escritora:
“É o meu primeiro romance. Já tinha escrito poesia, um livro infantil (…)”.

E, também, um diário aquando da sua participação na novela Grande Sertão – Veredas, um papel muito duro, no qual interpreta uma mulher que esconde a sua feminilidade, assumindo uma identidade masculina. Provavelmente o melhor papel da sua carreira televisiva onde contracena com Tony Ramos, numa adaptação do romance homónimo de Guimarães Rosa para o pequeno écran. O isolamento, a desolação do lugar durante as filmagens, levaram a actriz a uma atitude introspectiva e a procurar na escrita uma compensação para a solidão esmagadora, causada pela desolação da paisagem sertaneja.

Filmes Proibidos foi um trabalho posterior a este diário, transformado, depois, em livro.

“Filmes Proibidos é a história de uma mulher que se apaixona perdidamente, que se entrega sem rede de segurança…é uma paixão impossível de resistir. É como ser-se tomada por uma faísca de loucura. Depois, a personagem passa por uma acção de modificação, transformadora. Porque nunca somos a mesma pessoa depois de uma paixão.”

Quando lhe pedimos para falar um pouco mais acerca da personagem central do romance, para desvendar um pouco a personalidade da mulher que ousa pisar a linha vermelha que indica o limiar do perigo, a escritora responde:

“É uma mulher urbana, do nosso século, que tenta fazer com que a vida dê certo, mas as circunstâncias são sempre adversas. Ela entra numa espiral, onde acaba por perder o controle de si mesma e dos outros. É um processo de desconstrução. Mas é impossível crescer sem antes passar por uma floresta escura. Acha-se sempre a luz depois do furacão. E ela está no olho do furacão.”

Bruna Lombardi mostrou-se impressionada com o aspecto da cidade, apreciando especialmente os espaços verdes e…a comida! - “ Devia ser proibida…!” – achando-a irresistível, sobretudo os doces.

Bruna Lombardi salientou, ainda, o impacto dos diferentes meios de comunicação enfatizando que:

“A televisão é mais rápida (na transmissão da mensagem), mas o livro é que permanece. O livro abre as portas da alma. Transporta-nos, exercita a imaginação. O que você lerá, vai-te acompanhar a vida inteira. A Biblioteca, para mim, é um lugar sagrado. Um legado de história e cultura, sem preço. Quando alguém diz que não quer morrer sem plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro, está a pensar em legar algo para a posteridade. Ler é tão importante quanto escrever. O escritor precisa de, pelo menos, um leitor. E para o leitor é bom quando lê um livro, se identifica com o personagem e pensa: não estou sozinho. Já imaginou um mundo sem livros, sem bibliotecas? Num mundo sem livros vamos ficar mais cruéis, mais desumanos. Vamos, pois, preservar o Livro e as bibliotecas.”

Quando, do público irrompe a pergunta:

“Qual, na sua carreira de artista, actriz e escritora, a faceta que se sobrepõe, que predomina?”, Bruna Lombardi afirma que “elas acabam se somando. Um escritor é um actor “para dentro”. São mais tímidos, mais introvertidos, mas na hora em que estão escrevendo, eles estão interpretando vários papéis. E como actores, também se transformam em vários personagens (...). Ambas as facetas sempre correram muito paralelas. Finalmente, com o cinema, consegui fazer com que elas se encontrassem: eu faço o guião para o filme e trabalho como actriz.”

Bruna elogiou, ainda, o espírito empreendedor das Quasi Edições e do Grupo DoImpensável, do qual também faz parte a editora Magnólia, sublinhando a dificuldade em triunfar no mundo editorial. E que, apesar das dificuldades no mercado, esta pequenina editora famalicense está a conseguir impor-se no mercado Brasileiro. Teceu, ainda, rasgados elogios ao executivo local, aproveitando para incentivar a multiplicação de eventos semelhantes, ao referir a necessidade de investir nesta área:

“A Arte sempre dependeu de mecenas. Senão não teríamos a Capela Sistina. Não teríamos as Caravelas e os Descobrimentos. Não teríamos Mozart. Fernando Pessoa fez mais, com a Poesia, do que muitos. Transformou Portugal num país mundialmente conhecido. Nos EUA lê-se e chora-se com Fernando Pessoa. Um país é conhecido pela sua Arte. E, também, pela comida. Mas isso não é problema para vocês (risos). Por isso, é importante que quem tenha a possibilidade de ajudar ao desenvolvimento da cultura, é importante que o faça. Porque a cultura abre portas, canais.”

Inquirida em relação aos autores portugueses da sua preferência, para além do já mencionado Fernando Pessoa, Bruna Lombardi revela:

“Fiz, durante dez anos, uma programa de entrevistas – Gente de Expressão. Numa dessas entrevistas conheci José Saramago, que é um ser humano muito interessante. O livro Ensaio sobre a Cegueira está a ser adaptado para cinema pelo mesmo director de A Cidade de Deus e a ser rodado no Canadá. Olha só quantas portas se abriram através de um livro.”

E foi assim a conversa com uma das mulheres mais belas e inteligentes do século XX, após a qual se seguiu a sessão de autógrafos no Auditório da biblioteca onde distribuiu cumprimentos e simpatia.

Aguardamos ansiosamente nova visita.

E um novo livro.

Para abrir portas para novos mundos.


Cláudia de Sousa Dias

2007-07-02

Cold Mountain no Cineliterário




















Estas são as imagens dos mais belos momentos do cineliterário da passada 4ªfeira, dia 27 de Junho.

As fotos dizem respeito a algumas cenas do filme Cold Mountain de Anthony Minghella baseado na obra homónima de Charles Frazier (vide http://www.hasempreumlivro.blogspot.com/ arquivo de Janeiro de 2006) com Jude Law, Nicole Kidman e Renée Zellwegger.


Apesar de a crítica ter massacrado o filme, comparando-o a uma versão menor de E tudo o vento levou, trata-se de uma obra de grande beleza plástica. Um filme que revela a força, a violência, a animalidade brutal dos dois lados da guerra no impacto das bombas ao arrancar as roupas em chamas dos corpos queimados, que dá ao filme a nota de realismo que a aclamada produção da época dourada de Hollywood carece.

A extrema dificuldade em transpor para a tela uma personalidade introspectiva de um misantropo como Inman, que quase não fala, aliada à timidez de Ada, são talvez os factores responsáveis por comentários referentes àquilo que chamaram de "dificuldade em quebrar o gelo" entre os dois actores ou "falta de química".

Para quem leu o livro é notório que o realizador se limitou a respeitar a obra literária.

O olhar de Jude Law é muito mais expressivo do que qualquer palavra. O "gelo" de Nicole é largamente compensado pelo timbre da voz, perfeitamente impregnada do sotaque sulista que, ao assumir o papel de narradora - tal como no livro, a história é contada a duas vozes onde há como que duas narrativas paralelas - está temperada pela emoção, por uma saudade pungente.

Mas se, por um lado, Anthony Minghella não conseguiu exprimir totalmente a dureza, a agressividade do clima da Montanha Gelada da Carolina do Norte para com um ferido de guerra, a beleza agreste e gélida, o silêncio eloquente da brancura nevada das montanhas, estão inequivocamente retratados.
E omnipresentes.
Para não falar da belíssima cena de amor dos protagonistas. Cada plano é captado de modo a exibir as cores solares ou, diria mesmo, vulcânicas, dos quadros de Caravaggio, Boticelli ou Tiziano. Corpos iluminados pelo fogo, sob o fundo escuro da cabana de madeira. Cada plano, cada ângulo da nudez de Jude e Nicole é uma obra prima digna de figurar na Galeria Uffizzi.

Um filme a ver. Um livro a degustar. Palavra a palavra.



Cláudia de Sousa Dias

2007-06-19

"O Leopardo" de Luchino Visconti e "O Crime do Padre Amaro" de Carlos Carrera











O Cinema e a Literatura unem-se para fomentar debates e troca de ideias no Centro de Estudos Camilianos e na Biblioteca Municipal de Vila Nova de Famalicão.

A última semana de cada mês, em Famalicão, é dedicada às tertúlias literárias.

E a semana literária do mês de Maio começou com “O Leopardo” de Luchino Visconti, filme de culto protagonizado por Burt Lancaster, Alain Delon e Claudia Cardinale, que os famalicenses tiveram a oportunidade de (re)ver no Centro de Estudos Camilianos em S. Miguel de Ceide. A obra do realizador baseia-se no romance de Giuseppe Tomasi di Lampedusa, o aristocrata liberal que, nos últimos anos de vida, se debruçou sobre o tema da circulação das elites, tendo como pano de fundo uma época particularmente quente na história italiana: a unificação da Península, sob o comando das tropas do revolucionário Garibaldi – os Camisas Vermelhas.

Lampedusa inspirou-se na visão do, também, aristocrata e sociólogo Vilfredo Paretto e no seu modelo teórico de circulação das elites, no qual os leões – ou, neste caso, os Leopardos, que é o símbolo presente no brasão da família Salina – estão no topo da pirâmide social. Logo abaixo, estão as raposas – ou chacais, ou hienas – que fazem pressão no sentido de romperem as barreiras sociais que os impedem de se emparelharem com a aristocracia, ou simplesmente as famílias mais ilustres e tradicionais, e passarem, eles próprios, a fazerem parte da elite. Um tema que estava na ordem do dia, nos finais do século XIX e inícios do século XX, que coincide com a juventude do Autor.

Maria João Avilez, na apresentação do filme, salientou a obra cinematográfica como o esforço de conjunto de três príncipes: o autor, Príncipe de Lampedusa que elaborou a trama enquanto repousava, durante os seus dois últimos anos de vida, no Palazzo della Marina; o seu filho adoptivo, que não poupou esforços no sentido de ver publicado o romance; e Luchino Visconti, príncipe de Marone, descendente dos Visconti de Milão. Três aristocratas intelectuais, liberais, que se destacaram por contestarem a ordem estabelecida. Sobretudo Visconti, que alia a sua orientação sexual dissonante de uma maioria heterossexual, à simpatia pelos ideais marxistas, factos lhe granjearam pouca simpatia por parte das facções mais conservadoras. O Cardeal Ruffino chega mesmo a classificar “O Leopardo” como uma das grandes vergonhas sicilianas, colocando a obra em pé de igualdade com… a Máfia!

Maria João Avilez chamou, ainda a atenção para a beleza dos pormenores no filme, o apreço, o preciosismo dos detalhes como “o esvoaçar da cortina durante o rezar do terço no palazzo Salina”, “o pó da estrada impregnado nos fatos ao sair da carruagem para entrar na missa”, “o pormenor de uma jarra” ou ainda “a sucessão de portas que se abrem” para dar a ideia da dimensão do palácio…

Devo, porém acrescentar que, para além do valor histórico e sociológico, o filme é de uma impressionante sensibilidade estética. Todos os planos são autênticos quadros, a lembrar o período do romantismo – sobretudo Winterhalter. Até mesmo a cena na qual Fabrizio Salina vai à sala de banho refazer a sua toilette, durante a noite do baile, e se vê como pano de fundo, uma profusão de vasos sanitários com o conteúdo por despejar, parece tratar-se de uma natureza morta!

Sem falar no refinadíssimo sentido de humor que o realizador tem em comum com o Autor da obra literária na sincronia demonstrada entre o olhar de tédio da Princesa Salina e o oportuno e desdenhoso bocejo do cão de fila, durante um diálogo entre o príncipe e o Padre Pirrone.

Compromissos pessoais impediram a jornalista de trocar impressões com o público no final do filme, mas bastou a sua presença e comentários para despertar a sensibilidade de potenciais cinéfilos.



Já “O Crime do Padre Amaro” de Carlos Carrera, projectado no dia 30 de Maio na Biblioteca Municipal, é uma adaptação livre do romance homónimo de José Maria Eça de Queirós, que insere a trama num contexto actual ao transferir a acção da pacata Leiria de 1875 para uma remota aldeiazinha no México dos nossos dias. Os nomes das personagens são quase todos alterados, tirando o par romântico Amaro e Amélia – papéis brilhantemente interpretados por Gael Garcia Bernal e Ana Claudia Talancón.

O humor sarcástico de Eça de Queirós é religiosamente preservado no filme, cuja primeira cena é composta por uma repelente “tecedeira de anjos” – leia-se: mulher que faz abortos ou se desembaraça de recém-nascidos indesejáveis – apelidada de Dionísia que, ajoelhada diante de um altar, canta um hino, numa horrenda voz de cana rachada. Um quadro hilariante que quebra toda a solenidade do acto. Trata-se de uma vilã cuja presença, ao longo do filme, tem como objectivo o de ridicularizar o peso dos rituais, que nas mentes mais simples, actuam como uma droga e substituem o pensamento crítico.

A pureza e idealismo iniciais de Amaro assim como a inocência de Amélia estão bastante mais enfatizados no filme de Carrera do que no livro do escritor português. A paixão adolescente do jovem casal sobressai em cada olhar, no mais pequeno gesto, dispensando, quase, a necessidade de se tocarem. O cinismo do jovem padre, criado por Eça de Queirós encontra-se, no filme bastante atenuado, sobretudo por um humanismo que não figura em nenhum parágrafo da obra escrita.

O Amaro de Carrera sente remorsos devido à sua pusilanimidade, porque ama, realmente, a jovem, embora não o suficiente para desistir da carreira eclesiástica. Ao contrário do Amaro de Eça que comete, na realidade, um crime – um assassínio – ou, pelo menos, permite que esse crime seja perpetrado, quando estava nas suas mãos impedi-lo, sem demonstrar sombra de verdadeiro arrependimento. Apenas medo de ser punido. A atitude deste Amaro com a jovem repetir-se-à no futuro. O alvo será doravante mulheres casadas, de forma a não acarretar problemas …

Mas se Carrera aligeirou um pouco o carácter do Amaro de Eça, no filme, foi, em contrapartida, impiedoso para com a Igreja enquanto instituição ao mostrar um clero colaborador com o narcotráfico no que respeita ao branqueamento de capitais.

O tema de discussão no final do filme versou sobre a comparação do tratamento do tema em duas épocas e culturas distintas, que têm em comum dois autores, em diferentes áreas, ambos inconformistas e temporalmente separados em mais de um século, ancorados em locais onde a mudança de mentalidades se opera ao ritmo da erosão do granito ou do basalto…



Cláudia de Sousa Dias

2007-06-04

Anabela Duarte na Casa das Artes – Kurt Weill e Boris Vian reunidos em palco pela voz sublime da cantora



Foi com um enorme e agradável sentimento de surpresa que desfrutámos, no passado dia 18 de Maio, da presença e da voz de Anabela Duarte, a ex-vocalista dos Mler Ife Dada, na Casa das Artes, com canções de Kurt Weill e Boris Vian, num registo totalmente diferente daquele que ficou conhecido do grande público nos anos 80.

Com este espectáculo, Anabela apresenta o seu último trabalho – Machine Lyrique – composto exclusivamente por canções de Boris Vian e Kurt Weill . Dois autores que, pela temática abordada, foram considerados quase que marginais, pelo facto de se dedicarem a parodiar o meio social e cultural, tanto europeu como americano, no período que se seguiu à Segunda Grande Guerra. Weill foi, inclusive saneado, no seu pais natal, durante o período do nazismo, sendo obrigado a emigrar. A intenção de ambos era, realmente, ultrapassar a fronteira do social e politicamente correcto ao escreverem canções como “Le Deserteur” ou “Je bois” (Vian) ou a homenagearem grupos underground como as prostitutas ou os marinheiros, respectivamente caracterizados por Weill com “J’attends un navire” e “Surabaya Johnny”.

Anabela Duarte deleitou o público, desconhecedor da sua faceta de actriz, à qual junta uma belíssima voz trabalhada, ao longo dos anos, durante os quais desenvolveu uma carreira multifacetada: desde a monografia da sua licenciatura – O Fantástico na Ópera McBeth de Verdi – até à interpretação de peças da cena lírica e clássica de autores como Verdi, Bellini, Donizzetti, Strauss, Satie, Bach, Mozart, Carl Orff e Offenbach, entre muitos outros, passando pela dança – moderna e clássica –, o teatro, a música – piano – e, ainda, uma pós-graduação em antropologia. Tudo mais-valias que, em palco, fazem toda a diferença colocando-a a anos-luz de interpretações medíocres.

O dramatismo que coloca em canções como “Je bois” ou “J’attends un Navire” (Vian) ou a sensualidade natural em “Surabaya Johnny” (Weill) a beleza lírica em “September Song” (Weill), assim como o equilíbrio perfeito entre a musicalidade do canto e a declamação em “Bilbao Song” (Weill) ou “Je suis Snob” (Vian), que se conjuga com um momento de inesperada e extrema sensualidade quando, na interpretação de “Speak Loud”, se parte uma alça do vestido – o erotismo a rebentar pelas costuras a extravasar do vestido, justíssimo – um momento muito “Vian”…

A extensibilidade da voz de Anabela e a facilidade com que se movimenta nos agudos está patente em “Cet Été” (Vian), numa interpretação exigente e fisicamente extenuante em termos de esforço vocal.

Tal como em “Tchaikovski” (Weill) uma composição alucinante, de inspiração cossaca, cujo ritmo atinge um paroxismo quase demoníaco, orgíaco no final – uma das canções mais exigentes de todo o repertório.

Mas a “cereja no bolo” ficou para o final espectáculo: o belíssimo “Youkali Tango” (Weill) onde Anabela Duarte exibe toda a técnica vocal da bela voz de soprano, soberba, desde os pianissíme aos fortíssime, que facilmente dispensa o uso do microfone! Uma interpretação que provocou o inequívoco efeito “pele de galinha”, brilhantemente acompanhada ao piano por Ian Mikittoumov.

O público rendeu-se, definitivamente. Aplaudida de pé, Anabela foi obrigada a regressar mais duas vezes ao palco para os encores. O primeiro, uma sátira de Vian e, para terminar, o inédito e hilariante “La Valse des Chats” do poeta “enfant terrible”, deixando-nos deliciados com linguagem dos miados.

Uma intérprete que prima pela sobriedade do visual. De negro, sem um único enfeite. Sem uma única jóia.

Só o Talento.

E o feitiço da sedução na voz.

Cláudia de Sousa Dias

2007-05-18

"Melro de Penas azuis"



O meu gato observa atentamente o melro indiano da minha mãe, dentro da gaiola. Um melro de de penas azuis escuras, safiras iridiscentes, como o pescoço de um pavão. A curiosidade e o instinto de caçador são activados pelos pulinhos nervosos do pássaro, que vem comer à minha mão. No Inverno, as suas patitas negro-azeviche estão, normalmente, geladas, pelo que o animal se sente bem ao empoleirar-se na minha mão, para fugir ao frio do poleiro, que está, mesmo assim, cuidadosamente forrado a tecido.

Se calhar, devíamos trocar a seda por veludo no Inverno…

Trata-se de um melro que não canta como os outros melros – pretos, de bico alaranjado – europeus. É um melro que grasna. E que quase fala. Também gosta de assobiar ao desafio com o pessoal da casa. É aquilo a que se pode chamar de um pássaro interactivo.

Chamei-lhe Júlio.

Por causa do gato da minha avó.

Júlio, também.

O gato mais inteligente de todos os tempos.

E bravio. Como um lince.

Indomável e independente. Completamente senhor do seu nariz.

Um gato que esperava cautelosamente a minha avó sair de casa para se enfiar na cama onde dormiam a minha mãe e as minhas tias, que o adoravam.

Apesar das pulgas.

Inteligente, também, pela precisão com que calculava a exacta fracção de segundos de distracção da minha avó e roubar o carapau de cima da banca de granito na cozinha onde ela preparava o jantar.

Ou quando empurrava um ovo cru de cima da mesa para que este se estatelasse no chão da cozinha, que ele limpava cuidadosamente, deixando apenas as cascas como prova do crime!

Mas a capacidade de raciocínio do Júlio-pássaro, o de penas azuis-safira – que se tornam esmeralda ou ametista consoante a intensidade da luz, penas onde apenas ao sol do meio-dia se distinguem os ocelos, quase negros, nas extremidades das asas – não lhe fica nada a dever.

Mal ouve a porta do frigorífico a ser aberta ou a gaveta dos talheres, põe-se logo a grasnar, como que a dizer: “Não se esqueçam de mim! Sou tão gente como vós!”

O que é verdade.

Pelo menos na necessidade de comunicar, os pássaros tornam-se tão gregários e sociáveis quanto os homens.

Ou até mais.

O que tenho observado leva-me a concluir que, quanto mais conversa se dá a um pássaro, mais homem ele se julga.

Até se esquece que está prisioneiro. Porque o amor que lhe temos impede-o de definhar.

De tristeza.

De solidão.

De saudade…

O meu gato de olhos verdes tem ciúmes.

Logo que me vê dar de comer ao Júlio, pela manhã, vem roçar-se nas minhas pernas, nuas.

Não sabe que os amo aos dois. De forma igual. Mas por razões diferentes.

Ambos se assemelham.

Na astúcia. E na inteligência, manifesta na capacidade de memorizar e associar elementos. E na dedicação àqueles de quem recebem amor.

O gato nunca esquece quem o maltrata. Mais cedo ou mais tarde terá de dar o troco.

De preferência quando o agressor já tiver esquecido.

Ama as pessoas que o mimam, mas esquece-se delas, se elas o esquecerem.

Olho por olho…

Já o pássaro prisioneiro precisa da atenção humana para sobreviver. Mesmo tendo companheira.

Mas, na verdade, mesmo tendo nascido em cativeiro, sem possibilidade de sobreviverem sozinhos, nunca precisarão tanto de nós como nós deles…

Do seu canto.

Da sua beleza.

Do seu amor.


Desert Rose

2007-05-12

"A festa do Sol e da Lua"


Julho.

O calor torna o ar irrespirável de tão opressivo.

A energia que emana da pedra granítica dos paralelos na rua dá-nos a ilusão do ondular da paisagem, como no deserto do Sahara, onde as rochas parecem derreter na linha do horizonte.

Mas a noite chega, enfim, e traz o manto de frescura e o canto dos melros a celebrar a beleza estonteante da lua cheia…

Em casa, com a varanda da fachada voltada para o jardim, Melina dá os últimos retoques na mesa pronta para o jantar.


O perfume da carne temperada com ervas aromáticas está espalhado pela casa toda.

Os doces repousam no aparador: a mousse de manga, com o seu perfume doce e ligeiramente acidulado; o creme de maçã com canela, polvilhado de bolacha pulverizada e recoberto com uma generosa camada de natas; o irresistível tiramisú – oferta de Grazia, cujo olhar verde só assemelha aos dos meus irmãos –; a mousse de abacate, enriquecida com vinho do porto; o doce da avó de Catarina – um guloso bolo de bolacha, guarnecido com uma finíssima camada de ovos-moles. E, claro, o bolo de Luna, feito pela mãe, com tâmaras, damascos e ameixas secas, figos desidratados e uma profusão de passas avelãs, amêndoas e nozes envolvidas na massa de cor escura do açúcar mascavado…E, por cima, uma generosa cobertura de chocolate preto.

Mas a mim não me deixam nem tocar com a pontinha dos bigodes no aparador…

Escondo-me debaixo da mesa, onde sempre acabo por lambariscar qualquer coisita…

Melina está atarefadíssima, desde o princípio da tarde, a cozinhar doces e salgados.

Agora mesmo está a retirar do forno o rolo de carne e as kiches de legumes verdes, frango e cogumelos…

É a mulher-estrela mais linda do mundo, com os olhos e cabelos dourados e as faces de coral e de avental atado à cintura…

Uma cara de sol.

Um riso estival, condensado numa gargalhada que enche a casa inteira de alegria.

Melina faz anos hoje. A casa está cheia de convidados.

Alegres e bem-dispostos.

Por causa do sorriso de Melina.

A melhor amiga de Luna, a minha amiga de beleza nocturna.

A duas: simétricas.

O dia e a noite.

Luz e sombra.

O Sol e a Lua.

Já encetadas as sobremesas, chega a altura de cortar o bolo de aniversário, trazido por Luna.

E a Lua está, agora, no seu zénite.

Melina exclama:

- Vejam, encomendei uma Lua gigante, de propósito para esta noite!

E corta o bolo.

Luna levanta-se e, em vez dos habituais Parabéns ouve-se:

Libiamo, libiamo ne' lieti calici

Che la bellezza infiora,

E la fuggevol ora

S'inebri a voluttà.

Libiamo ne' dolci fremiti

Che suscita l'amore,

Poiché quell'occhio al core

Onnipotente va.

Libiamo, amor fra i calici

Più caldi baci avrà.

O brinde termina com uma ensurdecedora salva de palmas.

Melina é a felicidade em pessoa.

A transbordar de alegria para os convivas como uma dourada taça de champagne.


Desert Rose

2007-05-07

Experimentando a vida


Stefan Sagmeister foi o designer escolhido para o novo logo da Casa da Música.
«Everything I do always come back to me» é a inscrição que foi colocada na «Onda» da Casa da Música e que dá o mote à instalação.

Foi impressionante, tinha acabado de atravessar a Avenida da Boavista e, deparo-me com esta experiência de causa-efeito que caiu como um meteorito na minha vida. A impressão remete-nos para um cenário colorido, um país das maravilhas que encontramos em nós.
Entrei.Saí. Mergulhei em mim.Vi-me ao espelho, por dentro e por fora. Arabie.

Deixo-vos uma lista de experiências que assinam várias campanhas de S. Sagmeister:

Helping other people helps me.
Having guts always works out for me.
Thinking life will be better in the future is stupid. I have to live now.
Starting a charity is surprisingly easy.
Being not truthful works against me.
Everything I do always comes back to me.
Assuming is stifling.
Drugs feel great in the beginning and become a drag later on.
Over time I get used to everything and start taking for granted.
Money does not make me happy.
Travelling alone is helpful for a new perspective in life.
Keeping a diary supports personal development.
Trying to look good limits my life.
Material luxuries are best enjoyed in small doses.
Worrying solves nothing.
Complaining is silly. Either act or forget.
Actually doing the things I set out to do increases my overall level of satisfaction.
Everybody thinks they are right.
Low expectations are a good strategy.
Whatever I want to explore professionally, its best to try it out for myself first.
Everybody who is honest is interesting.

http://hillmancurtis.com/hc_web/film_video/source/sag.php

2007-04-19

Gato assustado, de chuva fria e trovoada tem medo...



A trovoada está fortíssima.

Luna está à janela do quarto a observar as pesadas nuvens cor-de-chumbo que o vento de leste empurra em direcção à nossa casa, ao mesmo tempo que as árvores se inclinam servilmente à passagem do Imperador dos Vendavais.

Ao longe, os relâmpagos cortam o céu, rasgando a imensa abóbada cinzenta, cujas faíscas de lume branco lembram cintilações de diamantes, à luz do lustre da sala.

Estou ao colo de Luna, mas só me apetece fugir para dentro do armário, apesar do conforto da camisola angorá negra que ela hoje traz vestida. O olhar também está de luto, sem aquela cintilação, mesclada de âmbar e açúcar mascavado, emitida pelas suas pupilas quando atravessadas pela luz solar do Verão. O rosto está, de momento, ocupado pelas Sombras.

Uma árvore em frente ao jardim, na berma da estrada, é arrancada pela raiz. A cidade mergulha nas trevas, imediatamente após um clarão azulado ter iluminar o crepúsculo, transformando-o em dia pleno, durante uma fracção de segundo.

Um estrondo ensurdecedor faz estremecer as paredes, numa assombrosa explosão de energia.

O meu pêlo está em pé.

Luna apercebe-se do facto e pousa-me suavemente no parapeito.

Está na altura de voltar para o refúgio do meu armário.

Lá fora choram, esfaimados e molhados até aos ossos, os gatinhos de Runa e Amélie, as minhas duas namoradas...

É demasiado, para os meus ouvidos de gato...

Desert Rose

2007-04-05

Perdão



Photo: Bettina Rheims /Serge Bramly

2007-03-25

" Um perfume brilhantemente Surrealista"



Choosing 1864 George Frederick Watts (1817-1904)

CHOIX “Um perfume biihantemente surrealista”. Lançado pela marca DADADANDY, este perfume sem odor foi inspirado no quadro Choosing do pintor G.F. Watts. Este perfume foi apresentado na exposição Surrealism and The Shop 2007 no Palais Des Etoiles.



A escolha entre o mundano e virtuosidade.
Camélias.Violetas.Vanguarda.Sabedoria.
Devo confessar que tenho um grande fascínio por fragância, aromas, odores. Fazem-me sonhar, transportam-me para o tempo que eu desejo. Assinatura intemporal aquela que deixamos com o nosso perfume. Sublinho o que Coco Chanel disse " a mulher que não usa perfume não tem futuro". Sonho com lugares e pessoas. Sonho com cheiros. O futuro está presente na minha memória olfactiva.
Uma curiosidade: existe um projecto em curso para tornar possível(!!!) cheirar pefumes na internet em 2015(!!!).

2007-03-17

Uma noite com Yann Tiersen na Casa das Artes



Para muitos espectadores a enorme expectativa criada à volta do concerto de Yann Tiersen, que teve lugar no passado dia 6 de Março na Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão prendia-se, sobretudo, com o trabalho que deu origem às bandas sonoras dos filmes O fabuloso destino de Amélie Poulain e Goodbye Lenin.

No entanto, as arranjos musicais elaborados pelo compositor que, no seu último trabalho, sintetiza dois géneros musicais completamente opostos – o clássico e o rock – possibilitaram o reconhecimento imediato das melodias de pendor mais clássico, presentes em trabalhos anteriores, que surgem agora “vestidas” de um dinamismo proporcionado pelos instrumentos eléctricos, cuja energia contagiou o público. Este viu-se literalmente transportado para o estado de euforia e delírio, que se traduziu num dos mais entusiásticos aplausos da História da Casa das Artes.

A guitarra eléctrica substituiu, por diversas vezes, ao longo do concerto, o violoncelo, enquanto que, noutros momentos, o virtuosismo do violino manipulado por Tiersen, quase imitava o som das gaivotas e das orcas, ao interpretar uma das melodias do seu trabalho Le Phare, onde predominam os sons da beira-mar – uma das prestações mais aplaudidas do espectáculo.

Uma das guitarras foi, muitas vezes, percutida como se se tratasse de um xilofone – golpe de audácia criativa que caracteriza o compositor - , instrumento utilizado com bastante frequência nos trabalhos de Tiersen, enquanto que a imitação do som do vento resultava de uma combinação do som do violino com a manipulação de uma serra de carpinteiro.

O concerto revestiu-se de um grande ecletismo rítmico, onde o espectador melómano pôde sentir-se passar, de uma momento para o outro, do paraíso ao Inferno, através da criação de um contraste chocante entre a agressividade da guitarra e dos instrumentos de percussão, com a doçura do xilofone.

Por outro lado, a calma e a envolvência da voz de Tiersen, que substituía o timbre aquático da voz de Shannon Wright, opunha-se ao ritmo dos instrumentos electrónicos impróprio para cardíacos.

Mais perto do final do espectáculo, nos temas instrumentais retirados do álbum Les Retrouvailles, a guitarra e o órgão criam como que uma música fantasmal a lembrar uma viagem nocturna na auto-estrada do silêncio.

Subitamente, os gemidos do violino rasgam a noite com os seus requebros, a fazerem lembrar os mais complexos capricci de Paganini. O canto do violino é, por sua vez, cortado pelo impressionante abalo sísmico da bateria, após o qual, a voz de Yann Tiersen, regressa como um narcótico.

Por fim, chega aos nossos ouvidos a doçura dos acordes de um acordéon, a trazer à memória as cenas interpretadas por Audey Tautou ao interpretar Amélie Poulain, numa melopeia repentinamente transmutada num ritmo galopante, onde o arco do violino de Tiersen se movimenta num frenesi dionisíaco, parando abruptamente.

A multidão aplaude, em êxtase absoluto.

O concerto termina. A multidão grita “bravos”. Ouvem-se assobios estridentes. O público permanece de pé a bater palmas durante mais de dez minutos seguidos, exigindo o regresso do músico.

Yann Tiersen volta ao palco para os encores.

O violino e o som do marulhar das ondas inundam o auditório. O compositor terá ainda de regressar mais duas vezes ao palco. O Público está simplesmente insaciável.

A seguir veio a sessão de autógrafos, após a qual o compositor ainda cedeu alguns minutos do seu tempo para uma mini-entrevista, antes de partir com a sua banda para Lisboa.

Em resposta ao pedido do Jornal Cidade Hoje para falar um pouco do seu último trabalho, Yann Tiersen afirma:

«A minha intenção foi a de construir versões completamente diferentes da minha anterior discografia, partindo das velhas canções. Foi como que um começar de novo, um renascimento, um abrir de novas portas.»

A formação de Yann Tiersen é clássica, tal como tivemos a oportunidade de observar pela mestria demonstrada nos seus solos ao violino ou, em trabalhos anteriores, ao piano.

«Eu estudei piano e violino desde os seis até aos doze anos de idade. Depois, já “farto”do estilo clássico, descobri o rockn’roll, nos anos da minha adolescência. Fundei uma banda. E agora, com este novo “live álbum” fecha-se o ciclo ao reunir os dois estilos em palco!».

Quando lhe perguntamos se para o próximo ano ou daqui a dois anos, poderemos contar com Yann Tiersen na Casa das Artes de Famalicão, acompanhado por uma orquestra ele responde simplesmente:

«Talvez as duas coisas: a orquestra e a guitarra eléctrica…»

E foi assim a noite de 6 de Fevereiro de 2007 em que Yann Tiersen levou ao rubro a cidade de Famalicão.

Um compositor contemporâneo, cujo talento o colocará, sem sombra de dúvida, na galeria dos Imortais.

Ficámos à espera, num eterno encore.

Cláudia de Sousa Dias

2007-02-26

“Uma noite poética de Verão”




Sentado no canto da janela que dá para o extenso jardim onde se vê o salgueiro choramingas a mergulhar os ramos no pequeno regato que corre na direcção Norte-Sul, observo as andorinhas que volteiam, lá em cima. Por vezes, surpreendem-me com os seus voos rasantes em busca de insectos, velozes como flechas disparadas pelo arco de Arthemis.

A vidraça ocupa toda a parede que dá para Sul, e pela manhã, bem cedo, pode-se observar, daqui do parapeito, o sol-nascente a surgir por entre as colinas.

No interior da loja, as mesas reservadas para os convidados – brancas como todo o resto da decoração, onde as paredes imaculadas contrastam com o vermelho sanguíneo dos quadros e das almofadas do banco que ocupa todo o comprimento da parede perpendicular à janela – estão dispostas junto à vidraça.

Começam a chegar os poetas. Mas antes de se sentarem à mesa, onde será servido o jantar, os seus olhares detém-se, gulosos, a admirar as prateleiras de onde lhes sorriem provocantemente as compotas – de pêssego, amora preta, figo, abóbora com amêndoas, mirtilo, maçã, creme de cenoura – e os requintadíssimos chocolates parisienses; do lado oposto estão os patês, os vinagres aromáticos e, junto à porta de entrada, os melhores vinhos, das castas mais raras vindas de todo o país.

É altura de se dirigirem para a mesa.

Porque hoje é noite pertence à Poesia. E à poesia subordinada aos prazeres da mesa.

Uma orgia de sabores em nome do Pecado da Gula…

Os amigos de Luna, escolheram este lugar para se reunirem e “colocar a conversa em dia” enquanto se degustam des plus exquisites gourmandises.

Solta-se o aroma da poesia ao som dos acordes da guitarra do Sr. Carlos, enquanto que a lua avermelhada de Agosto se ergue, cheia, no horizonte.

Os intervalos são preenchidos com a beleza nostálgica da música de Zeca Afonso…

Ou com os versos de Neruda, em castelhano, pela voz de Luna.

Ele, sombrio, observa-a a um canto. Gosta de ouvi-la declamar, embora não seja amante de poesia.

Ele é somente o amante de…

…Luna.

Pelo canto do olho observo como a amiga de Luna se insinua tentando cativá-lo enquanto que e minha dona, de vestido sanguíneo como as figuras das telas dos quadros da que enfeitam as paredes, declama Los Muertos de la Plaza..

Luna tem garras afiadas, que exibe discretamente.

O amante só tem olhos para ela.

Esgotado o repertório sibarita, dionisíaco, e recheado de fina ironia, criteriosamente seleccionado pelo Professor, surge o momento dos “espontâneos”.

Após um momento de silêncio, ouvem-se os primeiros acordes da Habanera de Georges Bizet e eia que entra…

Carmen.

Luna Carmen.

Como um cravo vermelho vestida. De lábios carmim e cabelos negros entre os quais espreita uma rosa mais rubra que o mais rutilante dos rubis de Caxemira.

A sua boca abre-se e ela canta:


L’amour est un oiseau rebelle
Que nul ne peut aprivoiser
Et c’est bien en vain qu’on l’appelle
S’il lui convient de refuser.

Rien n’y fait ménace ou prière
L’un parle bien l’autre se tait
Et c’est l’autre que je préfère
Il n’a rien dit mais il me plaît.

L’amour…l’amour…l’amour…l’amour…

L’amour est un enfant de Bohéme
Il n’a jamais, jamais connu de loi
Si tu ne m’aime pas, je t’aime,
Si je t’aime, prends garde à toi.

L’oiseaux que tu coyais surprendre
Batit de aile et s’envola
L’amour est loin tu peux l’attendre
Tu ne l’attends plus il est lá.

Tout autour de toi vite, vite
Il vient s’en va puis il revient
Tu croyais le tenir il t’evite
Tu crois l’éviter il te tient.

L’amour…l’amour…l’amour…l’amour…

L’amour est un enfant de Bohême
Il n’a jamais, jamais connu de loi
Si tu ne m’aime pas je t’taime
Si je t’aime…prends garde à toi.

O amante cora.

A rosa cai-lhe no colo.

Todos os olhares convergem para Luna. Ou Carmen.

A rival abandona a sala, batendo com a porta.

Lá fora, um carro arranca, ouvindo-se o cantar dos pneus.

A festa continua.


Desert Rose

2007-02-20

Carnaval Alemão "enriquecido" !

O humor culmina com a deadline da campanha dos E.U.A. contra o Projecto Nuclear do Irão.

2007-02-11

Onde estás Kyoska?

2007-02-08

O olhar de Luna





Ontem, pela manhã, no café onde habitualmente me sento, virada para a janela, a compor mais um dos meus textos de crítica literária, vi sentar-se uma estranha mulher na mesa em frente à minha.

O facto nada teria de extraordinário se não fosse a sua expressão peculiar que me deixava intrigada: um olhar perdido algures, fixo, num ponto qualquer do infinito, mas não reflectia a expressão sonhadora de quem está a focar o pensamento em imagens ou acontecimentos agradáveis.

Também não era um olhar melancólico.

A boca, que seria igualmente bela, se não estivesse contraída num gesto de impaciência e contrariedade, exibia os maxilares tensos, ao mesmo tempo que quase se ouvia o ranger dos dentes. Simultaneamente, o movimento da cabeça indicava estar profundamente irritada, ao mover a cabeça da esquerda para a direita, num gesto de censura.

O rosto seria belo, se os olhos azul-turquesa, pequenos, enterrados nas órbitas e quase sem pestanas não tivessem aquela expressão fugidia, velada, de uma raposa prestes a assaltar a capoeira. Uns olhos incapazes de olhar alguém directamente nos olhos, com medo de ver o seu próprio reflexo.
Irradiavam um permanente sentimento de …dureza. Tédio. Irritação.

A sensualidade há muito que havia abandonado o corpo daquela mulher que tinha tudo para ser bela: o contraste entre a cor dos olhos, semelhante à água das praias das Caraíbas com o cabelo negro-asa-de-corvo, cortado num estilo muito pouco feminino e em total desarmonia com a estrutura facial. A pele, lisa, de grão finíssimo e textura de um pêssego maduro, estava precocemente marcada pelas rugas da amargura que lhe desciam desde as asas do nariz até aos cantos da boca e pelos pequeníssimos sulcos verticais que lhe marcavam o lábio superior.

Amargura.

E azedume.

Eram as emoções que transpareciam em toda a sua pessoa. No rosto, de traços finos, na postura, de braços cruzados sobre o peito e até na forma de trajar, austera e sombria, acentuada pelo xaile negro cruzado sobre os ombros.

Continuei a escrever e, a dada altura, quando voltei a olhar na direcção da mesa onde ela estava sentada, a estranha figura já tinha saído.

Quanto a mim, sou da opinião que a Mulher é, de facto, a construtora da sua felicidade. Mas a realidade é que, tradicionalmente, a mulher portuguesa não dá valor a si mesma e pauta a sua vida pela austeridade. Sobretudo nos meios rurais e, particularmente, na geração dos meus pais e dos meus avós.

Uma austeridade física e emocional.

Que o diga Hans Christian Andersen quando passou cá pela terra de Camões e se inspirou na mulher portuguesa para construir a personalidade da Mãe Pata em “O pátio dos Patos”.

Ao olhar aquela mulher, sentada na mesa do café, lembrei-me das palavras da minha querida avó que dizia que “uma mulher que se cuida demasiado não é boa dona de casa”.

Talvez não.

Mas o facto é que o aspecto exterior, a expressão e a forma como nos mimamos a nós próprios e aos outros reflectem o estado de alma da pessoa: se é doce, humana, se é frívola, materialista, se é vulcânica ou glaciar.

A atitude que temos primeiro para com o nosso corpo e, a seguir, a forma como olhamos aqueles que estão à nossa volta é determinante para construir a rede social que facilita ou não a integração do nosso eu. São dois factores determinantes que condicionam o poder de atrair ou repelir o Outro. A capacidade de fazer-se amar.

Que não é exclusiva das que nascem belas.

Porque a beleza é algo que se cultiva a partir de uma atitude interior proveniente de uma atitude emocional, adaptada ao conceito de belo, na nossa cultura.

Logo, a beleza é uma atitude construtiva.

E a fealdade uma atitude destrutiva.

Ou seja, a beleza tem de nascer dentro de nós, a partir de uma energia renovável, de forma a captar o que há de belo à nossa volta e impregnar o nosso “eu sensível”, como diria Milan Kundera, do bem-estar dado pelo prazer despoletado pelo sentimento do Belo.

Como o pêlo negro e os olhos verdes do meu gato…

Caso contrário, resta-nos deixar morrer em nós essa capacidade, desprezando-nos a nós e aos outros.

Eu, como sibarita assumida, não quero nem de longe ofender a deusa Afrodite, apesar de conservar o espírito independente e selvagem de Arthemis…

Nem por sombras…


Desert Rose

2007-02-01

O frio aperta


Photo:Jerôme Bondy

Na Internet não há beijos nem abraços...

2007-01-28

«Ocidentoxicação»


Photo: Cyril Etellin
No inicio da guerra do Afeganistão, na fronteira com o Paquistão, um jovem jihadi diza aum jornalista que os Americanos nunca venceriam porque « eles adoram a Pepsi-Cola, mas nós adoramos a morte».
Posted by Picasa

2007-01-22

Viagem criativa

Photo: Yvette Gougue


A iRreverêncIa do teu olhar
Trampolim para o desConhecido
ViAJamOs AO som
de um beijo
Rumo a um munDO criativo
A tempo inteiro

2007-01-12

Perfume a Saudade


Uma...

...duas...

...três gotas de perfume percorrem a carótida que pulsa suavemente, no pescoço de cisne...

O aroma a pimenta espalha-se no ar. Segue-se o mistério verde da fragrância das folhas de pitósporo. Depois, a mirra, o almíscar, o âmbar e o gálbano libertam-se à medida que as gotas avançam, indo morrer na morna quietude do vale entre os seios...

Ela olha pela janela do quarto. A luz da tarde fere-lhe os olhos. Il pomeriggio è troppo azzurro, como diz a canção italiana.

Os olhos buscam repouso no verde profundo dos bosques que se confundem com a linha do horizonte a leste... Ela sabe que aquele solo está atapetado de cogumelos e croccus, como na época em que saltava os muros da escola para colher as florinhas de pétalas lilases, com os estames azul-índigo, e fazer um raminho que oferecia à professora...

O aroma dos pinheiros e o cheiro da caruma vêm-lhe à memória , trazendo de volta a Avó e os passeios até à mata para apanhar as pinhas, que colocavam no forno, a assar.

Nessa altura, eu colocava-me no fogão em cima das panelas com a aletria e os mexidos que coziam em lume brando, até à altura em que o meu rabo ficava em chamas. Então era ver avó e neta correr atrás de mim, com um pano para apagar o fogo que queimava
a minha bela cauda...

Depois de estarem assadas, a avó pegava nas pinhas e retirava-lhes cuidadosamente os pinhões, cujo miolo era extraído com a ajuda de um alicate ou quebra-nozes. Eram tão saborosos que a gulodice das duas fazia com que quase não chegassem para os mexidos que a avó sabia fazer como ninguém. Ela tinha os seus pequenos segredos...por exemplo: carradas de mel e açúcar mascavado, que lhe davam uma exótica tonalidade achocolatada e...um generoso cálice de vinho do Porto!

E depois, era o aroma a canela a impregnar a velha cozinha.

A casa inteira.

O aroma que eu desejaria que se prolongasse por todo o ano.

Mais do que aroma, canela é Perfume a festa, com o qual se combate o frio e a tristeza do período de solstício de Inverno.

Com risos.

Com o prazer de estarmos juntos.

Um prazer cristalizado no passado.

No aroma a canela...

Os olhos dela fogem do bosque e vão afogar a saudade no azul profundo, impregnado de cheiro a meresia...

Ela fecha os olhos e aspira o ar, concentrando-se no ruído das ondas que se espraiam na areia, e inundam os palácios da memória...

A paz instala-se.

E o perfume, em cujo coração sobressai a nota verde do pitósporo, mistura-se lentamente com a fragrância, erógena e sexuada do Oceano...



Desert Rose

2006-12-19

Feliz Natal

Foto: Bettina Rheims e Serge Bramly

2006-12-09

“O Temporal”


O vento uiva nas janelas.

O céu cinzento, opressivo, desloca-se lentamente com as suas nuvens cor de antraz – densas, pesadíssimas e grávidas de chuva.

Na linha do horizonte, os relâmpagos cortam os céus a uma velocidade que nenhum veículo construído por mãos humanas consegue ainda alcançar. A trovoada vai-se tornando cada vez mais audível. O vento embate com violência nos vidros da janela do quarto. O gato de olhos esmeralda refugia-se no roupeiro, esconderijo onde se sente protegido dos piores elementos, humanos – os ralhetes da dona – ou naturais. Enrolado na pele de raposa que, por motivos ecológicos, já não uso há anos, o animal cor de ébano espreita a tempestade por uma nesga da porta, direccionando o olhar à janela que deixei, propositadamente, com as cortinas afastadas para gozar o espectáculo da intempérie.

Deitada na cama, também eu olho a tempestade da janela. Tal como o gato, enrolo-me ainda mais no edredon, estremecendo, apesar do quarto aquecido pelo termo ventilador.

A vontade de sentir o conforto do corpo do amante de tempos idos, numa noite em que o telhado ameaça voar pelos ares, começa a fazer-se sentir. Fecho os olhos. O quarto começa a ficar com a temperatura amena da do início do mês de Junho.

Abro os olhos novamente.

Na almofada ao lado, um rosto de feições perfeitas, longas pestanas e belíssimos lábios carnudos de framboesa. As coxas entrelaçam-se. O desejo invade-nos as entranhas como lava vulcânica a espalhar-se pelas veias, à velocidade do relâmpago que atravessa agora os céus de chumbo. Por um breve instante, vejo iluminar-se a noite sem lua, da janela do meu quarto…

Fecho os olhos, mais uma vez…

Imagino o beijo de Zeus a destilar descargas eléctricas no meu ventre… no instante em que tomo consciência do volume do seu sexo junto à minhas coxas nuas…

Subitamente, um feixe de lume branco desaba sobre o jardim e ouve-se, de seguida, um som semelhante ao detonar de um míssil, fazendo estremecer perigosamente os vidros da janela…O gato solta uma miado arrepiante.

Levanto-me da cama. O termo ventilador deixou de funcionar. Todas as luzes da cidade estão apagadas. A escuridão, lá fora, é impenetrável. Outro raio revela uma cratera no canteiro onde cresciam as minhas rosas negras do oriente.

Bom, não eram bem negras.

Eram antes de um vermelho-negro como as mais negras ginjas de Maio, de um exótico perfume almiscarado.

Melindrosas e frágeis, demoraram quatro anos a florescer.

Morreram.

Numa fracção de segundos.

E eu um pouco com elas…

Da porta entreaberta do meu guarda-roupa cintilam os cautelosos olhos verdes do gato…


Desert Rose

2006-11-27

Sobre António Fagundes e “As Mulheres da minha Vida”

Tive, no passado dia 17 de Novembro, que tive a oportunidade de assistir na Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão, à peça As Mulheres da minha Vida, com um actor que, para o Grande Público, dispensa apresentações.

O carisma de António Fagundes conjugado com a qualidade da peça levada a palco, contribuíram, respectivamente, para que a lotação esgotasse em todas as récitas e para que o actor fosse aplaudido de pé por um público completamente seduzido. A genialidade do texto de Neil Simon, aliada ao virtuosismo e expressividade de António Fagundes conseguiram hipnotizar o público, logo à primeira frase. Quanto às restantes personagens, elas actuam como elementos de suporte que gravitam à volta do protagonista, George, um escritor de sucesso.

E as mulheres da vida de George nada mais são do que as diferentes formas de afectividade, que ele consegue exprimir.

A peça consiste essencialmente num monólogo, ou melhor, num diálogo interno, imaginário, de um escritor – George – com as pessoas que lhe são mais próximas, todas elas mulheres: a irmã, Karen, sensível, dedicada e solitária, que o ama incondicionalmente, o seu grande apoio afectivo; Diana, a esposa actual, uma executiva de topo , com quem tem graves problemas de comunicação, devido ao facto de viverem em mundos completamente diferentes; Carol, a filha na fase adulta, inteligente, culta, devotada ao pai, mas quase sempre ausente; a recordação da filha na fase infantil, observadora, perspicaz e doce; a memória da falecida esposa, Júlia, com quem teve um casamento idílico, de uma felicidade quase perfeita, com todos os sonhos realizados; a psicóloga, Edith, a consciência de George, cuja frieza objectividade e sentido de humor algo ácido, o levam a olhar para si mesmo como se fosse Outro, facilitando-lhe a introspecção. Edith é a consciência do lado negativo de George.

O aspecto mais curioso dos diálogos é o facto de todas estas personagens entrarem em diálogo uma com as outras e não somente com o protagonista. O tema da conversa é só um: o próprio George, o que é um sintoma mais do que evidente do seu extremo narcisismo. Todo o diálogo interno com as restantes personagens é originário da mente do próprio protagonista. Nestes diálogos ou monólogos, George é sempre o centro das atenções. Para ele, é extremamente importante a forma como os outros o vêem, para analisar o tipo de relação que estabelece com as pessoas. George é um a pessoa extremamente insegura., sempre encerrado em si mesmo, na sua concha, refugiado no mundo restrito da sua caixinha de trabalho – o computador.

A evolução da personagem consiste exactamente num trabalho de auto descentralização ou de extroversão, passando a focar-se nas necessidades daqueles que o rodeiam.

A intensa actividade mental, expressa mo monólogo interno de George é característica da estrutura mental típica de quem faz da escrita criativa a sua ocupação principal: é a mente de alguém que está em constante diálogo consigo próprio e a reconstituir as situações do quotidiano.

Por outro lado, o diálogo real entre George e Diana, é o espelho que reflecte o dia-a-dia de duas pessoas que não têm muitos interesses em comum e que optam por formas de estar e de se relacionar com os outros completamente diferentes, para não dizer opostas. O que as obriga necessariamente a uma ruptura. Sobretudo quando ambos têm personalidades fortes – como é o caso – tornando impossível a submissão de um face à forma de estar do outro. Ou têm ambos de passar por uma fase de amadurecimento e crescimento para tornar possível uma vida em comum.

Por todas estas razões As Mulheres da minha Vida é uma peça imperdível. Pelo menos, enquanto o elenco estiver em digressão em Portugal...

Cláudia de Sousa Dias

2006-11-25

Dedicado ao Miguel

2006-11-18

Andorinhas de Maio


Na semana passada, partiu mais uma andorinha do beiral da minha janela...

Hoje, ela voa em direcção ao sol, para aquecer o coração, que o gelo, na terra engoliu...

Antes dela, partiram já duas em Maio.

Uma em 2002.

Outra em 2005.

Que será de mim quando todas as andorinhas partirem em busca do sol...

Esta partiu em Novembro, como no conto de Oscar Wilde...

Todos os que a amaram sentem hoje a falta dela. O corvo Vicente, o ternurento Jeff, de pêlo dourado e olhos de quem pede colo, como só os cães sabem pedir. E as flores, as plantas, as uvas, as árvores e os frutos que ela extraía da terra com mãos amorosas e que as pequeninas Catarina e Mariana tanto amavam. Porque aquelas mãos que cuidavam da terra e dos animais e dos seus com todo o amor do Mundo, punham um sabor especial nas maçãs, nas uvas e nos figos que colhia do pomar. E quando o pai das pequenas lhas punha na mesa e dizia: "a avó trouxe-vos isto", elas imediatamente desdenhavam a fruta ou os legumes do supermercado. "Porque as maçãs e as batatas da avó é que são boas..."

A partir de agora a minha querida andorinha cuidará das árvores de fruto no Jardim do Paraíso...

Só espero que, para encontrá-la, não me engane no caminho...

Cláudia de Sousa Dias

2006-11-13

Anthony and the Johnsons

Inesquecível.
Porque há momentos e surpresas
que montam casa em nós pela vida inteira.

2006-11-02


“I was lying in my bed last night…”

A tua voz ouve-se dentro de mim. Nos lençóis vibra a dor de sentimentos silenciosos. Ao som do piano, uma lágrima escorre chamando a solidão. Cada nota inspira em mim uma nostalgia. Um passado de ti. É difícil acreditar nessas noites. Gosto do amanhecer da tua janela e do aroma dos jasmins. O piano embala-me a dizer o quanto te quero e estamos juntos .

2006-10-25

Sonho de um Gato numa Noite de Verão




Hoje sonhei com o casamento da minha Dona.

Luna.

O casamento de sonho para um gato. Que mais parecia uma tela animada de Dali, ou de Bosch, consoante o ponto de vista.
Qualquer semelhança com a boda de Alexandra e Gonçalo, a cujo banquete assisti, do alto de uma laranjeira e onde a presença nocturna de Luna brilhava, como uma nuvem de lilás e prata, é inexistente…

A não ser o olhar de um gato voyeur, escondido nas sombras…

No meu sonho, Luna trajava um vestido branco-gelo, de reflexos azulados, a contrastar vivamente com o cabelo negro. Nas orelhas, dois diamantes faiscavam com pingentes de pedra da lua a condizer com a tonalidade do vestido. Na pele que o decote, pronunciadíssimo, exibia, cintilavam as partículas vaporizadas pelo perfume, especialmente seleccionado para esse dia (claro que os meus sonhos são sempre perfumados…é pena é não sonhar mais vezes com peixe…).

Do noivo só me vêm à mente imagens confusas. Moreno, espessas sobrancelhas negras, olhos árabes, de longas pestanas recurvadas e lábios carnudos.

Das igrejas sempre tive pavor. Por isso, da cerimónia religiosa não tenho quaisquer imagens.
Lembro-me, das minhas outras vidas, das perseguições que me faziam a mim e à minha família, na época medieval, os Domini Canes, afirmando que éramos os animais consagrados à bruxaria, classificando-nos de demoníacos e queimando-nos vivos na fogueira como faziam com os cristãos novos... Desde então, sou incapaz de entrar em tais lugares…

As imagens mais vívidas, para mim, são aquelas que me ficaram da recepção – principalmente da altura em que serviram peixe. Um gato guloso como eu, delicia-se, normalmente, a bisbilhotar as recepções nupciais e todo o tipo de banquetes, lanches ou patuscadas para dar às narinas o prazer de saborear os petiscos – principalmente se puder surripiar uma fatia de salmão fumado ou de queijo mozzarella...

Mas, meio refeição, sucedeu algo de insólito: os noivos escaparam-se, sub-repticiamente, antes de cortarem o bolo, deixando os convidados estupefactos.

Como nunca receei os instintos assassinos da Curiosidade, segui-os até à garagem. Foi então que os meus indiscretos, maliciosos e esmeraldinos olhos pousaram nas linhas esguias da bella carrosseria cinza-prata do Ferrari 512 Scagliatelli, onde os insaciáveis apaixonados davam largas aos seus apetites libidinosos…

Entretanto, na sala onde decorria o banquete, os convidados aguardavam, impacientes.

Horas depois, os noivos regressam, desgrenhados.

A noiva ostentava uns lábios inchados, uma maquilhagem borratada, um mamilo atrevido a espreitar descaradamente pelo decote e um sorriso de orelha a orelha.

O noivo, ligeiramente cambaleante, com o nó da gravata desfeito, a camisa desabotoada e a braguilha aberta, passava, atabalhoadamente, a mão pelo cabelo.

Durante um minuto fez-se um silêncio absoluto quebrado apenas pelo zumbido dos mosquitos trombeteiros e pelo canto dos grilos e das cigarras.

A tensão e o embaraço aumentavam a cada segundo.

Então, o pai da noiva engasga-se, quase asfixia com um pedaço de carne de veado e tem de ser socorrido.

A mãe da noiva engole uma tablette inteira de xanax e quase se afoga ao adormecer com a cara mergulhada no prato de creme de espargos.

A mãe do noivo desmaia de vergonha.

O pai do noivo fuma um charuto cubano de um só trago, mudando de cor logo a seguir – de uma palidez colérica para um tom esverdeado, denunciando uma aguda crise de fígado.

Os restantes convidados olham os noivos, entre divertidos e estupefactos.

Entretanto, alguns dos casais mais jovens trocam olhares maliciosos e decidem imitar os anfitriões, indo apanhar ar fresco antes da sobremesa…

Alguns deles aproveitam para espreitar ou experimentar o capot cinza do Ferrari da discórdia.

Começa então a formar-se uma fila interminável à porta da garagem da luxúria...

Um cheirinho a peixe fresco invade-me as narinas...

Abro os olhos.

Um suculento carapau cozido espera-me na tigela do pequeno-almoço, acompanhado de um prato de leite fresco…

Desert Rose

2006-10-20

Um poema reescreve-se de muitas maneiras, pela vida fora.
Mas dói à mesma quando o verso quebra.
E, no tombo, falta o chão. Para todas as palavras.

2006-10-18

Sortilégio Lunar




O luar entra pela janela aberta do terraço. A sua luminosidade nacarada atravessa os cortinados diáfanos, agitados pela brisa marítima que inunda a sala, nua, com o cheiro da maresia.

A superfície espelhada do chão de granito negro reflecte a sombra do piano de ébano, em contraste com a brancura imaculada das paredes e da gigantesca lua branca que entra pela janela, nele projectada.

O calor é opressivo, sufocante.

Ela levanta-se da cama, encharcada de suor, e dirige-se para a sala.
A brisa refrescante acaricia-lhe o corpo nu. O suave bater das ondas produz-lhe um efeito estranhamente calmante.

Subitamente o olhar de veludo negro repara na grande pérola suspensa no firmamento que se prepara para desaparecer no horizonte. O seu reflexo move-se lentamente no lago de trevas do chão da sala.

O seu reflexo e o da Lua.

Movem-se em direcção ao piano.

Vêm-lhe à mente Débussy e o seu Clair de Lune e, em seguida, a Sonata ao Luar de Beethoven, alguns Nocturnos de Chopin.

Sente a magia lunar entranhar-se nas veias seduzir-lhe o olhar e enfeitiçar-lhe o ouvido…

O impulso de se sentar ao piano invade-a como a maré.

A sede de produzir música torna-se insuportável.

Os longos e esguios dedos caem sobre o teclado como as primeiras gotas de chuva na areia...

Soam as primeiras notas.

Lentas.

Graves.

Lembram o bater das ondas.

O canto de uma ave nocturna.

Um melro.

Negro.

Como o cabelo do amante adormecido.

Como as teclas dos acordes da música nocturna de Debussy...

...o Amante desperta.

A sua sombra, reflectida na parede pela penumbra, move-se lenta e silenciosamente seguindo rasto da música enluarada...

O feitiço da música transmutado em pura sedução.

Um estranho sortilégio percorre-lhe os nervos num apelo directo à posse.

Diana. A deusa da Lua. Indomável. Inatingível. Impossível de tomar nos braços.

Mas não hoje.

Hoje a Deusa incarnou o corpo da amada.

Possui-la será como possuir a Lua.

Ou Diana.

Ou Arthemis.

Ela sente-o aproximar-se.

Sente as ondas de calor que emanam do corpo dele ainda antes de tocar a sua pele.

O veludo asa de corvo do seu cabelo roça-lhe a pele da cor da Lua.

O som de um disparo rompe a harmonia da Noite.

A música pára.

A luz branca da lua mergulha no abismo negro do oceano iluminando-o durante alguns segundos.

Suspiros de angústia confundem-se com o rumor das ondas...

Altiva, a Deusa regressa ao Olimpo.

A lua acabou de morrer.



Desert Rose

2006-10-07

As três mulheres da minha vida

Foto: D. Issermann
As três mulheres da minha vida.
Deslizei pelo seu sexo e fiz a viagem mais alucinante.
Entrelaçadas por histórias de sexo jamais vividas.
Uma deu-me vida, outra ensinou-me, outra deu-me amor.
Fazem-me acreditar todos os dias.

Alquimia

Foto: Veronique Viardin
"O que me dói não é
O que há no coração
Mas essas coisas lindas
Que nunca existirão..."
Fernando Pessoa

2006-10-04

Despertar

A neblina,
a manhã que se levanta
como quem encobre as palavras
e esconde os corpos, coisas vivas.
A terra sussurra a vida,
mansamente.





2006-09-27

Aqui na terra

Douro. O mistério.
A identidade feita com mãos de terra.
As raízes que moram pelo lado de dentro da vida.
A alma pasmada. Um corpo. Nosso.
O coração da natureza fotografado pelo lado de fora.

Aqui na terra

Douro. Este mistério.
Estes montes, cativos de mãos feitas de terra.
Esta curva, o rio, marca de água de vidas inteiras.
A natureza em bruto. Pura. Deleite do olhar. Da alma.
Raízes. A identidade por dentro. Do que somos.

2006-09-18

Linha Infinita

Photo: Jean-Pierre Gouget
Uma visão persegue-me, trilha um futuro!
Encontrei – a à uns anos em frente a uma janela, não voltarei a vê-la por dentro.
Resta o futuro, que insiste em cruzar-me com este caminho apurado. O que quererá ele fazer-me vislumbrar?
Saudades daquela janela, em que o mundo estava todo à minha frente!
Hoje, volto-o a vê-lo numa outra moldura e com outro movimento. Mas algo permanece imutável…

2006-09-12

"Crónica do desfecho de um conto de fadas..."






A luz de uma tarde dourada de final de Verão envolvia o terreno de terra batida onde o pó se soltava, sedento, debaixo dos passos dos convidados.

O dia estava quente. Ao chegar ao mosteiro, não resisti a espreitar a igreja de estilo gótico, apesar de saber que o casamento de Alexandra seria uma cerimónia laica, realizada no recinto ao lado, isto é, na respectiva quinta. O banquete iria decorrer nos claustros.
Dentro da igreja, um casal estava a celebrar a cerimónia religiosa e trocava votos de amor e fidelidade eternas. A noiva, morena, de cabelos longos, negros e ondulados, trajava um cândido vestido branco, com um delicado véu transparente que lhe descia do alto da cabeça, arrastando-se pelo chão.

O oposto de Alexandra.

A bela sílfide de cabelos dourados e olhos de safira ou turquesa, consoante a luz ou o humor, era o mais doce dos querubins, em bebé. Uma criança adorável: meiga, calma, extremamente observadora e com uma inteligência precoce, que se manifestava na qualidade estética dos trabalhos de artes plásticas e no vocabulário utilizado, pouco comum numa pré-adolescente. Alexandra, foi sempre bela. Desde a altura em que saboreávamos os doces em casa da avó, no Domingo de Páscoa, ou a espessa e cremosa mousse de chocolate, em casa da tia Nana. Uma beleza que chamava a atenção dos transeuntes, quando passava na rua, acompanhando-me no ao périplo pelas livrarias da cidade do Porto, em busca de espécimes raros. Ficavam como que hipnotizados…

E Alexandra foi sempre uma apaixonada pela Beleza. As suas mãos, de dedos finos, com os polegares ligeiramente curvados para fora, pareciam ter sido desenhadas para trabalhar com o lápis e a borracha, efectuar esboços, como Leonardo. Tirou a nota máxima na prova de desenho - o pré-requisito exigido pela Faculdade de Belas Artes em Lisboa. Nem poderia ser de outra forma.

E, naquele sábado, Alexandra casava-se. Os convidados foram chegando, pouco a pouco.

Belos.

Todos eles.

Em homenagem à noiva, cuja chegada aguardavam, na maior das expectativas.

O noivo, alto e esguio, cumprimentava jovialmente os familiares e amigos mais íntimos de ambos. A felicidade faiscava-lhe no olhar claro. E no sorriso fácil e tímido.
Trajava de cinzento, com um jarro amarelo na lapela.

Foi, então, anunciado o momento de os convidados se dirigirem para o local onde iria ser realizada a cerimónia.

Atravessámos um magnífico jardim arborizado, cujo tecto verde, semelhante ao de uma floresta no tempo dos druidas, filtrava o sol, refrescando agradavelmente a pele, deixando-nos envoltos na penumbra.

Por alguns momentos, os convidados pareciam mover-se como sombras. Saímos para o lado oposto, encarando a luz do dia. Pisávamos um caminho de terra ligeiramente solta, ladeado por vinhas em forma de ramada, como é típico no Minho, de onde pendiam cachos de uvas de um verde-dourado. Ao fundo, esperavam-nos as cadeiras, alinhadas diante da mesa onde se sentaria a juiz.

Os melros e os pintassilgos cantavam furiosamente. Piscos e rabirruivos procuravam insectos por entre as ervas.

Subitamente, alguns dos convidados que ficaram de pé, abriram alas.

A voz grave, profunda e ligeiramente rouca do vocalista do dos Tindersticks fez-se ouvir, acentuando a atmosfera romântica do local.

A noiva entrou, triunfante e bela, como uma deusa de mármore carnal, esculpida pelas mãos de um Praxíteles, inspiradas na beleza perfeita de Aphrodite. A fronte arcadiana, decorada com as cores de Boticelli, deslumbrou a assistência pela aura de magia das princesas dos contos de fadas.

Alexandra estava bela como o dia, quando saiu da penumbra do arvoredo, como uma dríade, numa ampla saia em seda selvagem e com o esbelto corpo moldado pelo finíssimo drapeado do corpete em musselina cor de champagne – uma suave declinação do tom de mel dos seus cabelos, apanhados num penteado clássico.

Ao sair da obscuridade do arvoredo, envolta numa nuvem de musselina e seda cujo tonalidade lhe realçava a pele, ligeiramente dourada, e os cabelos de uma faiscante luz solar, Alexandra dispensava o uso de jóias. Apenas umas pequeninas pérolas marinhas descansavam nas orelhas minúsculas e perfeitas. Marinhas como a tonalidade aquática dos mares do sul nos seus olhos que, naquela tarde, reflectiam o céu de estio.
Alexandra excedeu as expectativas dos convidados, arrancando-lhes um aplauso de admiração.

O pai da noiva deu alguns passos incertos, nervoso.

O halo de luz do entardecer envolvia os noivos enquanto trocavam as alianças, entregues pelo pequeno e loiríssimo Francisco, de andar ainda cambaleante, que exigiu, inflexivelmente, que lhe fosse devolvida a caixinha das alianças.

A alegria irradiava do rosto de Alexandra, que se confundia com a poalha de ouro da chuva solar que descia sobre os convidados. Mas nos olhos de Gonçalo, brilhava a água salgada da emoção.

O jantar, servido nos claustros do mosteiro, foi iluminado pela luz bruxuleante das velas, acentuando a atmosfera medieval do lugar, ao som de uma música suave.

Eu fiquei na mesa que homenageava Ellis Regina com o poema Romaria. Mas na festa também estiveram presentes Jacques Brel, Eric Satie, Vinicius de Moraes, Jim Morrison, David Bowie…

Bom, estiveram presentes…

…sob a forma de poema, claro!

A festa terminou com um divertidíssimo convívio, para o qual muito contribuiu a boa disposição do noivo e dos seus amigos que tomaram a seu cargo a agradável tarefa de animar a festa e contagiar a todos com a sua alegria.

A lua brilhava, gloriosa.

Rainha absoluta no firmamento azul-nocturno.

Uns olhos verdes fitavam-me do alto de uma árvore.

Cintilantes.

Incandescentes.

O pêlo da criatura negra como uma noite sem lua faz-me pensar no cabelo do homem que amo.

Mas, tal e qual uma Cinderela de sapatos de prata, tive de sair um pouco antes da hora, apesar de não ter deixado nenhum pelo caminho.

Mas vontade não me faltava. Os pés não perdoam a afronta dos saltos agulha.

Um brinde aos noivos.

Em cristalinas flutes, obviamente.

Nunca em sapatos de saltos de doze centímetros.

Nem pensar…!

Pois…

Será...?

E…porque não…?!

(eheheh…!)


Desert Rose

2006-09-11

Lucidez


Foto:Mondino
A que distância, perguntava Shopenhauer, se devem manter dois ouriços , no auge de um inverno gélido, para se aquecerem mutuamente sem se picarem e ferirem um ao outro

2006-08-31

Porosidade

Absorvo teu cheiro
Fresco, animal
Refinado

Pelo prazer exala aventuras
Utopias
Modelado pela tua individualidade
Meu corpo evoca
Paisagens olfactivas
Num exercício estético
Cheiro a ti
Foto:Jean-Baptiste Mondino

2006-08-29


" a dependência é uma besta, quando dá cabo do desejo e a liberdade é uma maluca que sabe quanto vale um beijo"

Jorje Palma

2006-08-28

Anos 80

Ontem fizeste-me lembrar que houve uma época em que vestia de preto, que tinha o cabelo espetado e usava umas botas que, se não eram da tropa, andavam lá perto. Fases. Pois. O meu grupo de amigos, com algumas excepções, curtia muito as depressões associadas à música que ouviam, povoando o imaginário de crucifixos, drogas e alucinações. Eu, com eles, tinha a cumplicidade das canções e das vestimentas. Ontem, bright eyes, fizeste-me lembrar tudo isso e as canções desse tempo, que também partilhavas e partilhas. The Felt, Jesus and Mary Chain, The Sound, The Mission, Sisters of Mercy, eu sei lá que mais. A nossa juventude teve, de facto, a melhor banda sonora do mundo. E canções de amor como esta:

REEL AROUND THE FOUNTAIN
The Smiths

It's time the tale were told
Of how you took a child
And you made him old

It's time the tale were told
Of how you took a child
And you made him old
You made him old


Reel around the fountain
Slap me on the patio
I'll take it now
Oh ...


Fifteen minutes with you
Well, I wouldn't say no
Oh, people said that you were virtually dead
And they were so wrong


Fifteen minutes with you
Oh, well, I wouldn't say no
Oh, people said that you were easily led
And they were half-right
Oh, they ... oh, they were half-right, oh


It's time the tale were told
Of how you took a child
And you made him old
It's time that the tale were told
Of how you took a child
And you made him old
You made him old


Oh, reel around the fountain
Slap me on the patio
I'll take it now
Ah ... oh ...


Fifteen minutes with you
Oh, I wouldn't say no
Oh, people see no worth in you
Oh, but I do.
Fifteen minutes with you
Oh, I wouldn't say no
Oh, people see no worth in you
I do.
Oh, I ... oh, I do
Oh ...


I dreamt about you last night
And I fell out of bed twice
You can pin and mount me like a butterfly
But "take me to the haven of your bed"
Was something that you never said
Two lumps, please
You're the bee's knees
But so am I


Oh, meet me at the fountain
Shove me on the patio
I'll take it slowly
Oh ...


Fifteen minutes with you
Oh, I wouldn't say no
Oh, people see no worth in you
Oh, but I do.
Fifteen minutes with you
Oh, no, I wouldn't say no
Oh, people see no worth in you
I do.
Oh, I ... I do
Oh, I do
Oh, I do
Oh, I do

2006-08-25

“Luna”



“Luna”

Foi aos 30 anos, o meu primeiro beijo. Numa tarde de Domingo de um Verão moribundo. E, na mesa do canto da minha pastelaria favorita, onde servem uns deliciosos croissants com molho de chocolate.
Dantes, eu tinha o hábito de lá ir em busca desses croissants quentinhos, que a simpática senhora de olhos verdes e sorriso rasgado abria para,em seguida, os regar com a deliciosa calda de chocolate liquefeito. Que eu me deliciava a saborear, enquanto descia o Chiado para devorar com os olhos as montras das livrarias. Por vezes, distraída, nem reparava que a calda do chocolate me escorria, subrepticiamente, para a manga do casaco. Uma vez, só me dei conta do facto quando um transeunte, impecavelmente vestido no seu facto de executivo e agasalhado com uma requintada Burberrys, me chamou a atenção, apontando para a manga com um sorriso divertido…
Claro que corei até à raiz dos cabelos, apesar de rir de mim própria, enquanto despia o casaco e descia o Chiado em direcção ao Rossio e apesar, também, do frio de Outubro...

Mas naquele dia, foram uns lábios carnudos, vermelhos e suculentos que me tiraram o apetite e me provocaram um estranho e inexplicável sorriso de orelha a orelha intrigando todos aqueles que me eram próximos.

- De onde lhe vem aquela misteriosa felicidade? – perguntavam-se.


Luna, a minha dona era então uma jovem de trinta anos que arvorava constantemente um ar melancólico, expressão taciturna.

O olhar, duas estrelas negras, insondáveis, coroadas por sobrancelhas de carvão, em contraste absoluto com uma pele claríssima, quase transparente, mas que se harmonizavam perfeitamente com os cabelos castanhos escuros.

O seu meio sorriso dava-lhe a expressão idiomática de uma Gioconda.
Uma beleza sombria.

Além disso, era uma intelectual, mas de uma personalidade algo cismática e introvertida…
Luna gostava da auto-análise, da introspecção. Queria conhecer-se em profundidade, sondar os mais obscuros recantos da sua mente, para melhor poder controlar as suas próprias reacções. Porque o auto-domínio é a chave do Poder.

Luna adorava mostrar-se aos outros como um ser racional, ostentar a sua cultura como o pavão gosta de ostentar a cauda para seduzir a companheira, Luna gostava impressionar pelo saber e pelo amor profundo ao Conhecimento.

Era uma devota fidelíssima da deusa Razão. E, por isso, evitava tudo o que extravasasse os seus limites. Receava até a dependência emocional de alguém.

Mas ela sabia que, lá no fundo de si mesma, havia algo escondido, no mais profundo abismo da sua mente, que era imprevisível, indomável. E que teimava em assomar à superfície nos momentos mais inconvenientes.

Quando o auto-domínio, a presença de espírito era mais necessária.

Bastava que alguém soubesse accionar a mola que despoletava o ataque de riso incontrolável – no momento exacto em que a situação requeria que se munisse de toda a fleuma possível e imaginária, do seu sentido crítico, do seu sentido de equilíbrio – a sua blindagem face ao ridículo e ao burlesco.

Ou então que alguém escarnecesse em público de uma falha cometida. As críticas destrutivas conseguiam sempre o seu objectivo: aniquilar, reduzir a pó a sua auto-estima. Nesses momentos, a vontade de sucumbir ao choro só era controlável porque Luna possuía uma vontade de ferro e um orgulho faraónico.

A ira, só assomava à superfície quando ela se sentia defraudada ou então quando era verbal e maldosamente ofendida.

Então as pupilas dilatavam-se-lhe ao mesmo tempo que se lhe alterava o tom de pele primeiro, para uma palidez de morte, para em seguida adquirir um tom vermelho- púrpura enquanto que os dois sóis negros dardejavam raios fulminantes.

Luna, nessas alturas, não conseguia articular uma única palavra. Mas o seu agressor ia, gradualmente, recuando e os seus insultos ou agressões iam também, pouco a pouco, baixando de volume até este desviar os olhos e bater em retirada.

Ninguém consegue olhar fixamente as Fúrias nos olhos de Luna durante muito tempo.

Mas um belo dia, quando trabalhava num projecto de investigação sociológica, os seus olhos de noite encontraram um olhar de âmbar. Uma cor que se repetia nuns cabelos castanhos-claros, ligeiramente compridos, e numa barba aloirada de textura surpreendentemente macia.

Tinha um ar helénico, um perfil que fazia lembrar um filósofo da antiguidade.

Mas o que captou a atenção de Luna foi a forma displicente como o jovem cruzava as suas longas pernas, ao mesmo tempo que degustava um cigarro, num trejeito levemente dândi.

Tinha um sorriso felino.

Um gato que gosta de brincar cruelmente com a sua presa antes de a devorar.

Um sorriso hipnótico.

Ela sentiu-se aprisionada como o insecto negro no âmbar dos seus olhos leoninos.

Quanto mais queria libertar-se mais presa se sentia, envolvida na teia de sedução que o Belo lhe lançava…

Todos os sinais de alarme dispararam…

Ela ignorou-os.

Pura e simplesmente…




Cláudia de Sousa Dias

2006-08-23

A minha paixão


Existem coisas que não deixo na minha ausência: os meus livros. A eles vão desaguar todas as minhas alegrias e tristezas. Há dias, um desses livros fez-me chorar, senti a nossa história, o nosso amor platónico, sim mas só até eu te pôr a mão. A sintonia de afectos fazia escorrer lágrimas até à última página. Não é o meu estilo chorar, mas aquele livro só o sente quem ama. Além desse, existem outros lá na prateleira. A minha vida virou uma página.

2006-08-14

"Gato Empoleirado em Janela Aberta"




"Gato empoleirado em Janela aberta"

O meu pêlo é negro como a noite sem estrelas nem lua e os meus olhos, esmeraldas incandescentes que cintilam à mais pequena oscilação de luz. Que quando repouso, empoleirado, à janela da biblioteca, transformam-me em objecto de adoração da minha dona.

Nas noites de Verão, costumam deixar essa janela aberta. E eu divirto-me, semi-deitado no parapeito, a observar as suculentas borboletas nocturnas que teimam em voltear, provocantes, insolentes, diante dos meus bigodes...

Durante o dia, são os pardais ou, porventura um melro, mais afoito, que assomam diante do meu extasiado nariz, curiosos. Ou que apenas buscam as migalhas do bolo de chocolate que a pequena Catarina gosta de saborear à janela, à hora do lanche...

As borboletas continuam a passar mas são de outras cores – amarelas, brancas, cor-de-fogo, listradas como zebras e até lilases. E não querem nada comigo...

Só estão interessadas em sugar o néctar das rosas e sentir o perfume das suas pétalas aveludadas...

Às vezes dou um saltito lá para baixo e vou explorar a parte do jardim junto ao pinhal. Adoro o cheiro a caruma e, sobretudo, de poder esticar os músculos numa corrida alucinante atrás de um ou outro esquilo, ali pelo bosque.

Se soubessem a loucura que é persegui-los pelas árvores, pelos canteiros, pelos recantos mais insondáveis do jardim, garanto-lhes que não hesitariam em experimentar!

Durante o Inverno, prefiro sentar-me naquela poltrona em frente à lareira, muitas vezes ao colo da minha dona, enquanto lê um livro ou escreve no seu diário ou poemário...

Sabem, ela gostaria de escrever um livro! Mas ainda não se convenceu totalmente de que é uma escritora.

Talvez eu a consiga convencer...

Quem sabe?


Cláudia de Sousa Dias

2006-08-12

O que custa a liberdade!


2006-08-11

O treino das janelas de oiro - um conto Zen


Um conto que mergulha nas profundezas do nosso ser e que apela a que saibamos estar disponíveis para receber lições de nós próprios:

"Quando Koshi Takisawa tinha três anos, agarrou pela primeira vez o seu avô pela manga e indicou com o dedinho a outra parte do vale, gritando de felicidade: “Ali!”
Ao fazê-lo, a sua voz límpida tremeu comicamente e o avô riu-se. Depois, o velho continuou a saborear lentamente o seu cachimbo e acenou com a cabeça:
“Sim, sim, olha, um momento!
Koshi nascera numa pequena aldeia de montanha camada Fan Tan Si. Os seus pais eram camponeses, e por isso tinham de se levantar cedo todas as manhãs. O dia acompanhava o percurso do Sol. E exactamente como as cabras, os bois e as galinhas, Koshi ia para a cama ao pôr-do-sol.
Uma vez, quando Koshi tinha seis anos, pouco antes de escurecer, perguntou ao pai:”Papá, porque é que aquelas janelas são de ouro?”, indicando com a mão o outro lado do vale, onde havia casas. No entanto, o pai limitou-se a responder: “Ainda não o entendi”.
O vale estendia-se de norte a sul, e no seu fundo durante milénios, um rio impetuoso escavara um leito profundo. Muitas vezes Koshi brincara na sua margem com as barquinhas de bambu, mas todas as crianças conheciam o grande perigo existente na travessia do rio. Viviam na parte ocidental já há gerações, e apenas os homens com as suas grades barcas podiam navegar no rio profundo.
Aos nove anos, Koshi perguntou à mãe porque é que as janelas do outro lado eram de ouro, e as da sua aldeia, pelo contrário, não. A mãe nem sequer o olhou, dizendo “ Mas Koshi, sempre as mesmas perguntas…”
Entretanto, koshi aprendera muitas coisas e atingira os doze anos. Sabia distinguir ervas e plantas, sabia fazer a fogaça de arroz, e era capaz de ajudar um vitelinho a vir ao mundo. Mas uma coisa Koshi ainda não conseguira entender: Porque é que as casas do outro lado do vale tinham janelas de ouro e as da sua aldeia, pelo contrário, não?
Aos quinze anos, Koshi já não fazia tantas perguntas como antes. E a quem teria podido fazê-las? Tinha a impressão de que existiam diferentes qualidades de perguntas. Havia perguntas que ninguém sabia dar respostas…e havia perguntas que ninguém fizera ainda…e evidentemente, havia perguntas que não se podiam fazer.
E, precisamente, a pergunta sobre janelas de ouro do outro lado do vale era uma pergunta que reunia em si as três qualidades.
Aos 17 anos, era considerado uma pessoa de poucas falas, e precisamente no dia do seu aniversário, perguntou ao pai mais uma vez: “ Mas diz-me, já estiveste do outro lado, onde existem as janelas de ouro?
O pai olhou-o e respondeu: “ Koshi, somos gente simples, mas temos do que viver e não invejamos ninguém. De que nos servem as janelas de ouro? Pára de sonhar com ouro e riqueza, e conseguirás viver bem aqui.”
Nessa noite, Koshi Takisawa desceu o vale, apanhou uma das barcas maiores e atravessou o rio. As ondas, os escolhos e a escuridão exigiram toda a sua força, coragem e a sua destreza. Levou muito tempo e foi empurrado para lá do sítio onde pretendia chegar. Deste modo, só alcançou a outra margem já passava muito da meia-noite. Iniciou então a subida e, atravessando caminhos inacessíveis e terrenos selvagens, subiu directamente ao cimo, às casas com janelas de ouro.
O Sol começava a elevar-se lentamente, e Koshi estava morto de cansaço, do esforço. Continuou à mesma o seu caminho, jurara a si próprio só parar depois de alcançar as casas com janelas de ouro.
“Não invejamos…haviam-lhe dito. M