2015-08-06

Ana Hatherly III














Esta Gente / Essa Gente




O que é preciso é gente
gente com dente
gente que tenha dente
que mostre o dente


Gente que não seja decente
nem docente
nem docemente
nem delicodocemente


Gente com mente
com sã mente
que sinta que não mente
que sinta o dente são e a mente

Gente que enterre o dente
que fira de unha dente
e mostre o dente potente
ao prepotente


O que é preciso é gente
que atire fora com essa gente


Essa gente dominada por essa gente
não sente como a gente
não quer ser dominada por gente


NENHUMA!


A gente
só é dominada por essa gente
quando não sabe que é gente


in Calculador de Improbabilidades

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Ana Hatherly II



Os Livros Estão Sempre Sós

Os livros estão sempre sós. Como nós. Sofrem o terrível impacto do presente. Como nós. Têm o dom de consolar, divertir, ferir, queimar. Como nós. Calam a sua fúria com a sua farsa. Como nós. Têm fachadas lisas ou não. Como nós. Formosas, delirantes, horrorosas. Como nós. Estão ali sendo entretanto. Como nós. No limiar do esquecimento. Como nós. Cheios de submissão ao serviço do impossível. Como nós.


Ana Hatherly, in 'Tisanas'

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Anna Hatherly I
















Acordei de repente no meio da noite na rua alguém chamara: A N A !

Então o nome correu pelos ares como um duríssimo triângulo como

um papagaio

de pedra o meu nome é de basalto é uma corrente

bate nos meus ouvidos oiço os seus elos A---N---A---!

São três dedos num só apontam para si mesmos ANA ANA ANA

às vezes parecem pancadas dum pequeno martelo batendo regularmente

bate em mármore talvez qualquer superfície dura e o eco

das pancadas corre em dois sentidos Sentido A <---> A

(corre pelos sentidos).




Tudo o que é sentido por A é sentido por A
N é A em fuga incompleto A   incompleto dois A. É um índice de A     OH ANA!
A negação A partícula O reversível O igual a si O em si
Um nome é em si O que jamais é fora de si
Oiço o meu nome corre sobre mim passa por mim
O meu nome não é eu
O nome passa por mim correndo vem ter comigo grita-me aos ouvidos
O nome é atirado contra mim cai em mim
Com o meu nome caio em mim         A N A
Três pancadas: uma na cabeça outra no peito outra na cabeça
É uma formação As letras voam formação V  


A      A               N

    N                A      A


Rapidamente uma pancada no estômago
Vejo o preso na cadeira Ouve o seu nome Vêm buscá-lo Abrem-se as grades
Vou morrer Não posso desprender-me Estou inocente
Empurram-me para a frente Tropeço pelos corredores no meio dos guardas
Abre-se a grande porta:          A N A !




Salto no ar
                    salto no ar absoluto precedida do meu nome
seguida do meu nome


                      O meu nome atira-me para a frente


                           empurra-me para a frente


                               corre pelo ar absoluto


                                   eu caio no fundo


Olho para o alto: o nome é um triângulo de basalto
Fecho os olhos
Penso na existência do nome.
Quero chorar. Doem-me os olhos. Choro lágrimas de tinta.
Quero olhar dizer o nome. A minha boca está cheia de tinta.
Estou dobrada. Quero erguer-me.
Estou dentro.

                                Tudo o que sou escreve o nome
                                       é para escrever o nome
                                           o vómito do nome
                                             a agonia do nome
                               A minha pele é o chumbo líquido do nome
Os meus membros são as teclas da máquina de escrever o nome


ANA ANA ANA ANA ANA ANA ANA ANA ANA ANA ANA ANA

O nome corre pelo corredor batendo nas paredes desdobrando o eco como
uma peça
de tecido anúncio eléctrico do nome vou de joelhos pelo nome cumpro antigas
promessas sangro tinta pelo nome subo pela máquina murmurando o nome
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...


ANA: se eu fosse disléxica e quisesse ler ANA jamais compreenderia
o que quer dizer ANA. Veria essas formas agudas - vértice, vértice, vértice
invertido
vértice. Mas não o que quer dizer ANA. Jamais compreenderia porque é
impossível
compreender o que quer dizer A - N - A. Por exemplo: o que se passa
na boca:
com uma certa força expelir o ar - A; um pouco de língua contra o céu
da boca
(empurrando levemente contra os dentes de cima) - N; outra vez expelir o ar
apoiando com uma certa força - A. Mas não é bem assim. O ar sai com a
descida da língua. Há só um A - o primeiro - o último não é um A. É um
resto do
movimento do N com um pouco do ar do primeiro A, suspendido em N e
por fim expelido
em A, prolongamento de N.
ANA é isto.
Isso.
A língua quase não se move. É um nome muito tranquilo. Pacífico mesmo. Para dizer ANA com força é preciso estar-se muito zangado. Normalmente
move-se
apenas a língua levemente dentro da boca. Não é preciso muito mais.... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...






Ana Hatherly, Poesia (1958/1978)

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