2012-06-10

A SALAMANDRA


Photo by Erkan Torunn for Resim & Fotoğraf.

Eu não elejo as chamas
Lançam-me sobre elas

Na intensamente amarela sinto-me inquieta
Na recta não sinto nada

A fumegante é como eu mesma
A transparente evito-a

Se pudesse eleger eu
Mítico réptil
Gostaria de viver tranquila a minha desassossegada vida

Em ti
A resplandecente.


Lars Forssel
En kärleksdikt, 1960

Tradução deAmadeu Baptista

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DURMO EM TI

Photo by I dream of Lebanon.


Durmo em ti
Não o podes saber
Próximo do nascimento durmo
e perto do sedutor

Dás voltas na cama
Como uma baleia grávida
Como um plâncton de grandes olhos
Adormeço em ti

Amo-te
Não o saberás nunca
Próximo da morte durmo
e faço estalar as minhas carapaças.

Lars Forssel
En kärleksdikt, 1960

Tradução de Amadeu Baptista

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BALADA 1952

Photo by João Braz.

I

O teu sexo é vermelho escuro
E húmido como carne de fruta

E o negro bosque que o cobre
Ondeia quando sopro

Ali no mais profundo há uma maçã de inverno
Viscosa como após a chuva

E sobre o teu rosto deslizam
As sombras das asas de sete pássaros

Uma perna sobre as minhas costas
Um mão nos meus testículos

E a tua boca abre-se como uma amêijoa
E sinto-me seguro

II

E tu dormes
Com os olhos semi-fechados e os reclames luminosos
Pintam diabos nas paredes

É em Paris ou em Roma
Ou Salzburgo ou

O mundo está demasiadamente connosco
Nós estamos junto
Amanhã vamos a

O teu pé sobre a minha boca
O teu alento sobre o meu pé

III

E amanhã acordamos
Um assobio da rua
No ouvido protesta a bigorna
E tu lavas-te atrás da cortina
E quando saímos vencemos

Lars Forssel
En kärleksdikt, 1960

Tradução de Amadeu Baptista

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O LAMENTO DOS AMANTES

Photo by Sandra for Resim & Fotoğraf.


O ácer
espera a primavera
Sabe que voltará
e regará as suas raízes.
Mas o fogo do nosso amor
será encoberto com fuligem
com os anos.
Amada.
Contradiz-me.
Corpos
entrelaçando-se mutuamente.
Nós somos um.
Mas sinto uma ameaça.
É o destino dos amantes,
boca contra boca,
pé contra pé,
ser lentamente empurrados para a morte.
Amada.
Contradiz-me.

Laars Forssel
Fragmento de Variações sobre Yeats, Ända, 1968

Tradução de Amadeu Baptista

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2012-06-09

A ORELHA DE VAN GOGH


Photo by Erkan Torunn for  Resim & Fotoğraf.

Van Gogh corta a orelha
Envolve-a num pano
Que lentamente se tinge de vermelho
E envia-o
A ti


Que fazes tu com essa prova
De amor, loucura, dor?


Atira-la com repugnância ao fogo da lareira
Ou ao lixo?
Ou esconde-la furtivamente, talvez com algum orgulho,
Num cofre?


Uma vez sussurraste nela alguma coisa
Que tu esqueceste
Mas ele recordava


Tenho a vaga ideia de
Que essa orelha continua a existir
Atenta
Escutando eternamente
A luz do cruel campo de cereais


E o rumos do sol implacável

Lars Forssel
Ända, 1968

tradução de Amadeu Baptista

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