2012-05-27

A ESTAÇÃO DE COMBOIOS







Photo by Flores.

Em memória de Guillaume Apollinaire

Chove sempre no meu sono
o meu sonho enche-se de lama
é uma paisagem obscura
e eu estou à espera de um comboio
o chefe da estação colhe malmequeres
que cresceram entre os carris
pois há já muito tempo
que um comboio não entra nesta estação
e de repente os anos passaram
eu estou sentado por detrás de um vidro
o cabelo e a barba cresceram
como se estivesse doente
e enquanto o sono me toma de novo
silenciosamente ela vem
segura uma faca na mão
e cautelosa aproxima-se
crava a faca no meu olho direito.

Luisa Monteiro

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2012-05-18

Um anjo

Photo by Erkan Torunn for Resim & Fotoğraf.
Há um anjo que chora na minha língua. Um mocho branco olha-me em silêncio por entre as sombras das árvores e encandeia até à dor a ingenuidade do sono. Eu posso falar de solidão por 1001 noites seguidas. Eu posso! -- mesmo sem a literatura. Pela manhã, os ossos amarelos do riso segregam um olhar macio ao abrunheiro; abrunheiro-menino e um bom dia velho cheio de vermelho de uma boca seca de penas. O anjo teima em não sair da minha língua -- já tão de pedra tumular -- e chora o sangue do filho que há-de nunca nascer.

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