2008-08-05

Concerto para Violino e Orquestra de Brahms por um Violinista Checo


O último andamento do concerto para violino e orquestra de Johannes Brhams dança-me no ouvido, num vórtice rodopiante de gemidos, arrancados pelo movimento frenético do arco a caixa de ressonância da madeira centenária do stradivarius do violinista checo que vive no apartamento ao lado...
A música foi sempre o meu lugar de evasão, sobretudo quando o caos opressivo, sufocante, das noites de Agosto quase faz derreter as paredes de betão do prédio onde habito...
As notas do violino, na varanda ao lado, impelem-me para o mar. Fazem aumentar a já imensa sede daquela frescura nocturna da orla marítima, do cheiro levemente salgado a maresia, a algas e moluscos, do reflexo prateado dos astros nas águas negras, que vêm morrer à praia de areias pálidas, diante de uma imensa janela imaginária, misturando-se ao ruido narcótico das ondas...
Fuga...
Refúgio...
Para o mar...
Para as ondas...de Virginia ou de um outro qualquer oceano imaginário.
Fuga à sensação de emparedamento, omnipresente na selva de betão da Cidade. Onde os seres se desumanizaram e se desligaram já de tal forma dos sons da natureza que exigem a morte do pássaro que canta à janela, enquanto que o barulho infernal vindo dos bares e discotecas no rés-do-chão faz estremecer as paredes dos edifícios...
Alguns quarteirões mais adiante, a jovem que dançou em cima das colunas até às quatro horas da madrugada, a lembrar uma sacerdotisa de Baco, exige a decapitação do galo anunciador da alvorada...
Outra jovem, grávida, requer o desaparecimento do melro que tenta cativar a fêmea com os seus trinados, em frente à janela do quarto, por lhe espantar o sono e induzir sonhos e desejos interditos...
Já agora, porque não decretar a extinção dos grilos e das cigarras, do coaxar de todos os anfíbios, do pio de todas as aves nocturnas, predadoras de todas as variantes de roedores portadores da velha yersinia pestis, que outrora dizimou populações inteiras de humanos na Europa?
Ah...deixem-me imergir no mundo de Neptuno, em cujo seio cantam cetáceos e sereias...

E em cuja orla não seja probido o canto do melros.

E onde a alvorada se anuncia pela voz de trombeta do galo de penas azuis.


Desert Rose

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2007-09-16

"No Restaurante das Orquídeas"




Adorei o peixe que me cozinharam para o almoço.

Luna deliciou-se com a caldeirada de frutos do mar com camarões-tigre e amêijoas brancas gigantes, servida num púcaro de barro e regada com um vinho branco, maduro e adocicado, como ela gosta.

O cheiro é delicioso mas eu prefiro o meu peixinho.

Neste momento estou encostado aos pés de Luna , que estão deliciosamente frescos e parecem cheirar levemente a algas e a maresia…

Ela escreve, sentada à mesa, de laca preta, enquanto espera pela sobremesa. O tapete, macio, de veludo vermelho, contrasta vivamente com as sandálias de tiras, pretas e brilhantes, como a laca da mesa de estilo oriental.

Reparo, agora, que toda a decoração faz lembrar um restaurante chinês, ou japonês, onde dominam as madeiras aromáticas, cujo penetrante cheiro a sândalo e a cânfora me faz pensar em lugares exóticos e distantes como a Malásia ou Madagáscar. As cores do pau-preto e pau-rosa sugerem um ambiente fresco e intimista, onde o verde espreita em cada recanto, uma vez que o dono do restaurante é, para além de chef gourmet e um decorador de talento, um apaixonado por orquídeas raras, que colecciona e expõe no restaurante de forma a deslumbrar os clientes (sobretudo os do género feminino).

O resultado é uma vaga sensação de se estar a almoçar ou jantar debaixo dos jardins suspensos da antiga Babilónia ou numa clareira, habitada por humanos, no meio de uma floresta tropical…

Estar neste lugar é como saborear um festival de cor e frescura para fugir ao inferno do sol mordente do meio-dia que transforma os humanos de pele mais sensível em autênticas lagostas grelhadas…

É aqui que Luna aproveita as horas de maior calor para se refugiar e escrever os seus textos…

Acho que o último é sobre o andorinhão negro que encontrou na rua e resolveu adoptar há alguns meses atrás…

Se fosse eu a encontrá-lo o seu destino seria bem diferente…

Enquanto ela escreve vou aproveitar para dormir uma soneca, encostado às suas pernas…


O Falcão-Andorinha


Falki entrou na minha vida como um prelúdio de uma noite poética, onde eu teria de declamar um trecho de um livro de uma jovem escritora, a ser lançado nesse dia.

O poema seleccionado era um hino ao amor e às coisas belas.

Mas antes de entrar para o recinto os meus olhos detiveram-se numa figurinha negra, caída na berma da estrada, junto ao passeio.

Um pássaro. Pequeno e escuro, com malhinhas cinzentas, no pescoço, nas extremidades das asas e na cauda.

Não voava. Parecia em estado de choque. Peguei nele, cuidadosamente. Ao contacto com a malha da minha blusa, trepou imediatamente para o meu ombro e tentou esconder-se no meu cabelo que, naquela noite usava solto.

Voltei a pegar nele para o observar melhor. O bico e as asas curvas fizeram-me pensar tratar-se de uma ave de rapina. Mas o tamanho era o de uma andorinha. Seria um filhote de falcão?

Na altura, fiquei convencida que sim.

Nessa noite, a poesia ficou, para mim, em segundo plano.

Só conseguia pensar no bem-estar da pequena ave. Dei-lhe de beber e coloquei-a numa espécie de ninho de guardanapos de papel. Mas ela parecia estar contente na minha mão.
Tanto que até conseguiu adormecer.

Ao chegar a casa, os meus pais apaixonaram-se por ela.

Imediatamente.

Perdidamente.

Tentámos alimentá-la de várias formas.

Primeiro, com papa insectívora, com uma minúscula colherzinha de café.

Que ele cuspia, quase na totalidade. Depois experimentámos carne de bife de peru, cortada aos bocadinhos. Que ele engolia, de olhos fechados.

Depois, deixava-mo-lo voar pela casa. A princípio, executava voos curtos, hesitantes.

Mas depois que ficou a conhecer as coordenadas da casa, os cantos, as esquinas, os locais onde havia plantas, orientava-se pelas variações de luz e pelo cheiro a terra.

Cedo ficou a conhecer onde ficavam todas as janelas.

Falki tinha a loucura das vidraças.

Ia de um lado ao outro da casa, certeiro como um raio ou uma seta, disparada por uma besta. Desferia curvas, contornava esquinas, desde a janela da marquise, passando pelo corredor sombrio, virando à esquerda, após o que disparava, em seguida, para a janela do quarto como um míssil.

Certa vez estava eu no meu quarto com ele, a examinar-lhe o comprimento das asas. Ao soltá-lo, ele descreveu um semi-círculo , a partir do meu lado esquerdo contornando o quarto, ao passar por detrás das minhas costas poisando, depois, no meu ombro direito, lançando-se, depois, impetuosa e alegremente em direcção à janela.

Passou-se uma semana.

Duas semanas.

A cada dia que passava, amávamos Falki um pouco mais.

Talvez porque tivéssemos de o alimentar a mão, cerca de quatro vezes ao dia, tendo de lhe abrir o bico para lhe introduzir a carne, cuidadosamente cortada aos bocadinhos, enquanto que os outros pássaros olhavam, ciumentos, dentro das gaiolas.

Mas também notámos que a sua vida era o Vento.

Que soprava lá fora.

Que o chamava.

Ele imaginava-se, sem dúvida, a passar-lhe por debaixo das asas durante o voo que lhe era tão ou mais necessário do que a comida ou o afecto que lhe dávamos…

Começava eu, então, a pensar seriamente se não estaria na altura de o levar ao parque ornitológico…

…mas ele ainda não conseguia comer sozinho…

…e também não crescia, conforme o que seria de esperar, tratando-se de um falcão- peneireiro, como julgávamos.

Ou então lévá-lo para a quinta dos meus tios, no Cartaxo, onde poderia caçar à vontade…

Um dia, ao chegar a casa, fui ver como estava ele, como sempre fazia desde que o trouxe para casa.

Ao que a minha mãe respondeu, com um ar sombrio:

- Olha, não está lá muito bem…Não me parece muito bem disposto…Vomitou a comida…Não quis voar…Dei-lhe de beber…mais logo dou-lhe daquela carne mais tenrinha, a ver se ele melhora…

No dia seguinte, logo pela manhã, a primeira coisa que fiz logo que me pus a pé foi ver como ele estava. Parecia melhor.

Fui um pouco mais alegre para o trabalho, mas pelo sim pelo não, procurei o contacto do parque ornitológico de Gaia, porque sentia que estava na altura de procurar um lugar onde ele se sentisse feliz.

Ao chegar a casa , à noitinha, volto a perguntar pelo meu filhote com asas.

A minha mãe responde-me, com voz trémula:

- Está a morrer…

Não pude acreditar. Olhei para ele, prostrado, caído. Todo ele exprimia dor. Tomei a resolução de o levar ao parque logo pela manhã, numa corrida contra o tempo.

Foi a pior noite da minha vida. Dei voltas e mais voltas na cama, levantei-me vezes sem conta. Mas todos os pássaros, lá em casa dormem com coberturas leves por cima das gaiolas para não serem incomodados pelas luzes das lâmpadas eléctricas da rua.

O gato olhava-me inquieto, da janela do quarto.

Mas, pela primeira vez na minha vida, não conseguia dar-lhe atenção.

Mas ele sentia a minha angústia.

Contudo não consegui fazer-lhe uma única festa naquela noite.

Voltei a deitar-me. Sonhei que apanhava um comboio em pleno andamento. A certa altura, tinha de saltar e apanhar outro comboio que fazia a ligação ao destino que eu pretendia. Apanhei o segundo comboio por uma unha negra.
Ao viajar neste segundo comboio, vi entrar a dada altura na carruagem uma pessoa da minha família com um carrinho de bebé. Ela estava de luto. A alcofa era negra. As cobertas negras. Os lençóis negros também. Espreitei e vi um carita cinzenta, com uma touca negra. Levantei-me. Fitei os seus olhos negros e os cabelos de viúva e exclamei:

- Não…

Acordei nesse instante.

Corri para a marquise onde a minha mãe já estava a tentar alimentar Falki.

Peguei nele. Senti-lhe o pequeno estômago, duro como pedra. Agarrei numa caixa de sapatos e coloquei-o lá dentro, sem tampa.

Peguei na carteira e saí disparada em direcção à estação. Apanhei o comboio para Campanhã e perguntei à Irene se me levava a Gaia. Disse-me logo que sim.

No comboio, toda a gente olhava, compungida o pequeno falcão moribundo, do tamanho de uma andorinha.

Ao chegar a Campanhã dirigi-me para a porta da estação. A Irene e os filhos chegaram no mesmo instante. Falki sentia-se melhor na minha mão do que na caixa. As duas crianças quiseram imediatamente ver o Falcão, curiosas e entusiasmadas. Queriam participar do salvamento.

Entrámos no carro e pusemo-nos a caminho. Ao entrarmos em Gaia, virámos duas vezes na direcção errada e perdemo-nos. O abdómen de Falki relaxava na minha mão mas não abria os olhos.

Uma das crianças observou:

- Parece que está com dificuldades em respirar…

Irene encontra finalmente a estrada que vai dar ao parque ornitológico.

Falki vira a cabeça na minha direcção e volta à posição inicial para descansar. O portão do parque está a escassos metros de distância.

Sorrio, com a esperança a chegar-me aos olhos.

Olho para Falki.

Está a dormir.

Não se mexe.

O coração não bate.

- Irene…

Irene examina-o.

Em seguida, olha-me nos olhos.

Abana a cabeça.

Olho o portão do parque.

Não consigo reagir.

- Levámo-lo na mesma?

- Claro que sim.

Ao chegar, mostro o meu filhote falcão ao porteiro.

- Olhe, eu trazia aqui uma ave, um falcão peneireiro para entregar ao parque…Falei ontem com o tratador pelo telefone…já tinha avisado que vinha…mas quando cheguei a casa ele já não estava nada bem…e só consegui vir hoje…

- Fez a sua obrigação. Mas olhe que este não é um peneireiro…É um andorinhão…O peneireiro é muito maior…

- Mas é igualzinho...o bico… as garras…

- Pois…há muitas aves parecidas. Mas este é insectívoro. Pode comer carne. Mas o grosso da alimentação, são insectos…Sempre que encontrar um passarinho destes, ponha-o a voar a partir de um sítio alto, para que ele ganhe impulso para o voo.

- Pois…ele tinha verdadeira loucura pela janela e por sítios altos…

Saí daquele lugar paradisíaco cheios de aves, cantos e chilreios de toda a espécie, com a alma envolta em escuridão.

Afinal, foi a primeira vez que perdi um ser a quem amei como a um filho.


Voltei as costas ao Paraíso e preparei-me para enfrentar o Inferno do Remorso e da Culpa…

por: Luna


Parece que Luna terminou de escrever. Os seus olhos estão marejados de lágrimas. Algumas caem-lhe no papel, manchando-o de tinta. Na mesa ao lado está uma família, composta por três crianças e uma senhora de cerca de quarenta e cinco anos de idade. Penso que são primos afastados.

Duas das crianças têm cabelos negros, mas a menina mais velha que deve rondar os dez anos de idade tem o cabelo louro como milho, mais claro que o da avó, fulvo como uma juba leonina. Todos eles têm olhos claros.

Como os gatos siameses.

A menina loira levanta-se da mesa e vem ter com Luna.

- Tenho uma coisa para ti...
- A sério, amor? E de que se trata? – Luna sorri, enquanto limpa os olhos.
- Uma estrela, que apanhei entre as rochas, debaixo de água! Gostas?

A menina tira de uma bolsinha cor-de-rosa, uma estrela-do-mar, enorme, de um laranja vivo.

- É linda, Maria. Obrigada!
- Feliz aniversário! – Maria abraça-a efusivamente.

Luna esconde a cara no pescoço da criança.

Diamantes de sal, rolam-lhe pela cara.

O gelo quebra-se e transforma-se e desfaz-se em água do mar.

É Verão.


Desert Rose






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2007-08-07

“Quarenta Graus”



O sol do meio-dia torna impossível caminhar na escaldante areia branca onde os poucos banhistas que se atrevem a cruzar os escassos metros que separam o refúgio sombrio das barracas verdes-escuras da água. E os poucos que se atrevem a fazê-lo saltitam como algumas espécies de insectos ou lagartos do deserto, ora num pé ora no outro, correndo para as escadas de madeira que vão dar ao bar da praia ou para a frescura da orla marítima em busca de humidade e alívio para as queimaduras nas plantas dos pés.

Sentada num rochedo, com os pés mergulhados numa poça, onde posso observar anémonas rosa-púrpura, mexilhões em tons antracite e lapas cor-de-cal, passo mais uma generosa camada de protector solar nos ombros, braços, pescoço e colo, onde a pele é sempre mais martirizada.

A sombra do chapéu de palha de aba larguíssima, a fazer lembrar um sombrero mexicano, torna-se bastante confortável àquela hora do dia, dispensando o uso de óculos de sol que, além de deixarem marcas na cara, transmitem-me uma desagradável sensação de ficar parecida com uma mosca de cada vez que me olho numa superfície espelhada….

…o que me faz ignorar a maior parte dos veraneantes que esboçam, de minuto a minuto, aqueles sorrisinhos ténues, vagamente trocistas – vulgo, “amarelos” – entre divertidos e invejosos, ante a aparente excentricidade de 180 cm de diâmetro das abas do chapéu.

Um autêntico guarda-sol portátil.

Espalhafatoso, mas eficaz.

Certamente mais do que um par de óculos de sol…

A sombra proporcionada pela minha extravagante toillette de praia permite-me perder o olhar no infinito azul que se estende à minha frente. O prazer inigualável de desfrutar da tonalidade turquesa que se funde com o azul-safira das águas profundas da linha o horizonte, onde se notam algumas sombras índigo e cobalto, para adquirirem uma transparência de água-marinha, que se alterna com a tonalidade verde-esmeralda das águas habitadas por sargaços é impossível de ser traduzido por palavras.

O fundo da água torna-se cristalino deixando ver corais, peixes multicores e outros animais marinhos.

Um ouriço-do-mar passeia perigosamente perto dos meus pés.

É melhor redobrar a vigilância.

Também não me apetece pisar nenhum peixe-pedra camuflado nas rochas…

A escassos metros de mim, está uma senhora de cerca de quarenta e cinco anos de idade que também observa o horizonte.

Mas algo contraria a atitude descontraída, típica de quem está a gozar férias…
…todos os seus gestos denunciam uma ansiedade quase que frenética, traduzida numa expressão angustiada nos olhos semicerrados e nas mãos, em pala, à altura da testa…
…que se alia à tensão dos músculos faciais, dos lábios contraídos num rictus de desespero, num esgar de preocupação e no franzir das sobrancelhas…

A gigantesca aba do meu chapéu permite-me manter o rosto na penumbra e estudar atentamente as feições da mulher, ainda jovem, que perscruta ansiosamente o mar.

Sem o receio de ser tomada por indiscreta, observo com atenção, para não deixar escapar o mínimo detalhe.

Trata-se de uma senhora dona de uma beleza deslumbrante. Uma beleza amadurecida, completa e inquestionável.

A pele dourada é a moldura de um corpo ainda na plenitude da feminilidade, com músculos firmes e delineados, provavelmente por sessões de natação diárias, dada a tonicidade que exibe nos ombros, braços e dorsais.

O cabelo brilha num dourado fulvo, salpicado de pouquíssimos fios prateados, sem estar ainda contaminado pelo artificialismo dos químicos comprados na cabeleireira. As feições correctas de testa alta, nariz estreito e vertical e queixo altivo fazem-na parecer uma Vénus esculpida por Fídias…

No entanto, as duas rugas de preocupação entre as sobrancelhas, insistem em estragar a harmonia de uma rosto perfeito. Também os olhos de água-marinha, da mesma transparência dos recifes, se movem frenéticos, perscrutando a costa e detendo-se nas inquietantes sombras que se aproximam, em velocidade crescente, da zona onde os banhistas desfrutam da água…

- Maria?! Mafalda?! João?!

Duas crianças traquinas, de cabelos castanhos e faiscantes olhares azuis com reflexos cinza-prata surgem detrás dos rochedos.

- Avó! Olha o que nós apanhámos!

Mafalda exibia, orgulhosa dois ouriços castanhos-avermelhados e João uma estrela-do-mar cor-de-laranja, ainda viva. Nas caritas cor de canela, emolduradas por rebeldes cabelos pretos sobressaem uns olhos marinhos, muito semelhantes aos da Avó.

- E a Maria?!

- Está dentro de água. A apanhar anémonas. Mais lá ao fundo…

A avó sente o pânico subir assustadoramente pelas veias e a galopar, desenfreado, em direcção às têmporas…

Volta a olhar o horizonte.

As sombras estão cada vez mais perto.

Uma barbatana triangular, denteada, surge à superfície.

Uma palidez de morte cobre-lhe o rosto à medida que sente as pernas ficarem cada vez mais moles. A visão parece querer fugir-lhe ao mesmo tempo que sente perder o equilíbrio.

- Vóvó?!

Uma criança de dez anos, surge do lado oposto, de entre as rochas mais afastadas. Bela como uma ninfa do mar. A pequena sereia de cabelos de um louro claríssimo, feérico, ofuscante como a luz solar, tinha uma expressão estranhamente contrariada. Os olhos, ligeiramente mais escuros que os da avó – de um azul-safira, precioso e rico como as águas profundas – estavam marejados de lágrimas reprimidas e contraídos por uma expressão de sofrimento. A pele do rosto – mais clara, apesar de já dourada pelo sol, apresentava uma palidez inquietante.

- Vóvó! Trago aqui as anémonas. Mas magoei-me! Olha! Tenho o pé a deitar sangue!

A avó quase desmaiava.

- Maria! Não sabes que é muito perigoso ires para o pé dos corais?! Podes picar-te ao calcar um peixe venenoso ou seres mordida por uma cobra coral…Elas andam por aí…Para não falar da possibilidade de fazeres um corte ao roçar nalguma pedra mais aguçada…Alguns corais também cortam como facas…e o cheiro a sangue pode atrair outras coisas também…

- O quê, Vóvó?

- Ora, o quê! – replica sadicamente o pequeno diabrete moreno de olhos azuis – Os Tubarões! Depois engolem-te inteirinha com espinhas, quer dizer, ossos e tudo! Já vi na televisão, num filme do Spielberg! Ficas uma autêntica papa, pior do que carne para hambúrguer!

- Não te preocupes com isso agora. Está na hora do almoço e precisamos de tratar desse pé. Vamos aproveitar que toda a gente está a fugir da água em massa e fazer uma corrida até à praia para ver quem chega primeiro. Tu, Maria, vens ao colo, porque não podes correr ao pé-cochinho. Está bem, meninos? Vamos lá, despachem-se!

As sombras negras, por debaixo da água, estão agora a escassos metros da praia.

Os banhistas saíram em debandada.

Foi instalada a bandeira vermelha, apesar da maré baixíssima.

Também para mim está na hora de ir almoçar…

…antes que me converta em almoço.

Pego nos meus livros e no trabalho, manuscrito, e encaminho-me para o restaurante onde deixei o meu gato de olhos esmeralda.

Ele odeia a água.

Lá terá as suas razões…


Desert Rose

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2007-07-22

“O Xaile Indiano”


É noite.

Estamos no nosso refúgio.

Na varanda da casa de praia.

Mais uma vez.

O mar olha-me do fundo da sua negrura de breu, com reflexos de prata. As portas de vidro da sala estão corridas para deixar entrar a brisa…o areal estende-se diante de nós, numa tonalidade de marfim, junto ao qual o mar chão serve de espelho à Lua que está no seu zénite.

Antes que a sua gémea, mergulhe no Oceano, ela vai à cozinha buscar uma chávena de chá verde, para saborear devagarinho, reclinada na espreguiçadeira na varanda…

Aposto que vai ouvir Gershwin….

Ouço o miado aveludado de um clarinete…

Summertime…

Acertei.

A tristeza impregnada no timbre da voz de Ella Fitzgerald espalha-se pelas ondas impregnando a carícia do vento de uma tonalidade escura. Grave. Nocturna. Negra e macia como veludo…

Segue-se Leontine Price. Outra voz negra, mas esta é acetinada e de uma pureza cristalina, aliás, diamantina que chega até às estrelas…

O corpo bronzeado de Luna está envolto no xaile de seda indiano, dourado como as pérolas orientais usadas pelas marahani. Os reflexos do xaile, que ela enrolou à volta do corpo, como um sari, lembram a ondulação do mar, há poucas horas atrás, ao pôr-do-sol. E a luz pálida da Lua, que o atravessa, denuncia cada movimento muscular de um corpo moldado pelo seu desporto favorito: a vela.

Vela e vento.

Porque Luna é brisa e tempestade.

E o xaile um presente que oferece a si mesma para celebrar a sua sede inesgotável de liberdade e independência.

Não é por acaso que nos damos tão bem.

Luna gosta do seu canto.

Do seu espaço.

Que não suporta ver invadido por uma presença estranha.

E eu também não.

Nisso somos semelhantes.

A brisa marítima não está suficientemente fresca para dissipar o ar abafado da sala.

Luna levanta-se e caminha em direcção à praia. O cabelo negro-andorinha cai-lhe pelas costas, realçado pelo tom oiro da seda.

Luna mergulha num mar sereníssimo.

Sereníssima…ela…também…

Como a lua…

Como a espuma das ondas…

Luna é o sol da meia-noite a entrar nas águas negras do Atlântico…

A Lua desce.

Ao seu encontro.



Desert Rose

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2007-07-16

O desmaio do pássaro, visto pelos olhos de jade de um gato ciumento




Não sei o que vê a minha dona naquele passaroco peneirento e tão… cagarola…

…que não pode ver uma folha cair da árvore sem dar um salto e esvoaçar, completamente desorientado, esbarrando-se nas grades da gaiola…

Até em sonhos, não deixa de ser o pássaro mais cobardolas que já vi…


Por falar em sonhos, já vos contei o último que tive com ele?

Parece-me que não.

Aqui há três meses atrás, no início da Primavera, estava eu a dormitar à janela, com o sol da manhã a aquecer-me o pêlo e a expulsar os restinhos de Inverno das articulações, quando Luna decidiu pendurar o bicharoco no ramo do pessegueiro do lado de fora da janela.

Ignorei-os aos dois.

Fechei os olhos e inspirei um pouco a brisa que entrava pela nesguinha da janela aberta, fazendo esvoaçar a cortina…

O Júlio, esse melro-pavão, estava, então pendurado na árvore, mesmo à minha frente, só com o vidro a separar-nos.

Parece mesmo provocação…

Por detrás da árvore fica o jardim.

E, por detrás do jardim, o muro de pedra, cheio de buganvílias púrpura, carmim e fogo.

O pássaro grasnava alegre e descaradamente, como sempre, sobretudo quando passeavam diante da gaiola, desafiadoras, as libelinhas de asas transparentes e delicadamente rendadas, borboletas castanhas, amarelas ou brancas e uma ou outra daquelas moscas azuladas.

As rosas do jardim que fica por debaixo desta janela são o paraíso das borboletas, sobretudo as rosas brancas, cujo perfume se chega a ver, toscamente imitado, nas perfumarias.

Assim como o das frésias.

Brancas, também. E amarelas.

Há, também, aquela roseira de um magenta aveludado que lança uma fragrância ligeiramente frutada, doce e, ao mesmo tempo, com uma acidez de maracujá, que atrai os insectos fazedores de mel, que eu quero ver a milhas de distância do meu focinho…

Estava eu tranquilamente a gozar este cenário idílico, meio a dormitar, quando oiço o Júlio esvoaçar caindo, em seguida, abaixo do poleiro, desmaiado…

Fulminado?

Não…

Inconsciente.

Para meu gáudio…(eheheh)

…e, mais à frente, melhor dizendo, ao fundo do jardim, em cima do muro, estava um desses cães boxer, amarelados, com o focinho todo às pregas a olhar para a gaiola e a ladrar…

Curiosamente aquela horrorosa besta ladrava exactamente como aqueles cãezinhos irritantes e minúsculos da raça Chihuahua que eu costumo fazer em picadinho quando me aparecem à frente…

Luna, no escritório, ouviu o barulho, levantou-se da secretária e foi ver o que se passava. Quando chegou à gaiola tratou logo de pegar naquele exagerado, hiper-dramático e histriónico pássaro e pôs-se a fazer-lhe… uma massagem cardíaca…!

Qualquer dia, aplica-lhe uma respiração boca a boca num dos seus inúmeros chiliques…!

Oh! Como eu detesto aquele pássaro!

Se pudesse segurá-lo nos dentes…

Só um bocadinho…

Bem, o pássaro, por fim, lá acordou e voltou para a gaiola.

Não sem antes Luna tê-lo estragado com mimos e até lhe ter dado um pouco de…bolo de coco!


E para mim…nada…!

De repente, abri os olhos e… fiquei sem perceber patavina. A janela estava fechada e eu no sofá encostado às almofadas.

O Júlio estava no jardim de Inverno na varanda coberta com o toldo azul.

Luna chama-me.

O prato de leite espera-me na cozinha.

Está na hora do pequeno-almoço.


Cláudia de Sousa Dias

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2007-05-18

"Melro de Penas azuis"



O meu gato observa atentamente o melro indiano da minha mãe, dentro da gaiola. Um melro de de penas azuis escuras, safiras iridiscentes, como o pescoço de um pavão. A curiosidade e o instinto de caçador são activados pelos pulinhos nervosos do pássaro, que vem comer à minha mão. No Inverno, as suas patitas negro-azeviche estão, normalmente, geladas, pelo que o animal se sente bem ao empoleirar-se na minha mão, para fugir ao frio do poleiro, que está, mesmo assim, cuidadosamente forrado a tecido.

Se calhar, devíamos trocar a seda por veludo no Inverno…

Trata-se de um melro que não canta como os outros melros – pretos, de bico alaranjado – europeus. É um melro que grasna. E que quase fala. Também gosta de assobiar ao desafio com o pessoal da casa. É aquilo a que se pode chamar de um pássaro interactivo.

Chamei-lhe Júlio.

Por causa do gato da minha avó.

Júlio, também.

O gato mais inteligente de todos os tempos.

E bravio. Como um lince.

Indomável e independente. Completamente senhor do seu nariz.

Um gato que esperava cautelosamente a minha avó sair de casa para se enfiar na cama onde dormiam a minha mãe e as minhas tias, que o adoravam.

Apesar das pulgas.

Inteligente, também, pela precisão com que calculava a exacta fracção de segundos de distracção da minha avó e roubar o carapau de cima da banca de granito na cozinha onde ela preparava o jantar.

Ou quando empurrava um ovo cru de cima da mesa para que este se estatelasse no chão da cozinha, que ele limpava cuidadosamente, deixando apenas as cascas como prova do crime!

Mas a capacidade de raciocínio do Júlio-pássaro, o de penas azuis-safira – que se tornam esmeralda ou ametista consoante a intensidade da luz, penas onde apenas ao sol do meio-dia se distinguem os ocelos, quase negros, nas extremidades das asas – não lhe fica nada a dever.

Mal ouve a porta do frigorífico a ser aberta ou a gaveta dos talheres, põe-se logo a grasnar, como que a dizer: “Não se esqueçam de mim! Sou tão gente como vós!”

O que é verdade.

Pelo menos na necessidade de comunicar, os pássaros tornam-se tão gregários e sociáveis quanto os homens.

Ou até mais.

O que tenho observado leva-me a concluir que, quanto mais conversa se dá a um pássaro, mais homem ele se julga.

Até se esquece que está prisioneiro. Porque o amor que lhe temos impede-o de definhar.

De tristeza.

De solidão.

De saudade…

O meu gato de olhos verdes tem ciúmes.

Logo que me vê dar de comer ao Júlio, pela manhã, vem roçar-se nas minhas pernas, nuas.

Não sabe que os amo aos dois. De forma igual. Mas por razões diferentes.

Ambos se assemelham.

Na astúcia. E na inteligência, manifesta na capacidade de memorizar e associar elementos. E na dedicação àqueles de quem recebem amor.

O gato nunca esquece quem o maltrata. Mais cedo ou mais tarde terá de dar o troco.

De preferência quando o agressor já tiver esquecido.

Ama as pessoas que o mimam, mas esquece-se delas, se elas o esquecerem.

Olho por olho…

Já o pássaro prisioneiro precisa da atenção humana para sobreviver. Mesmo tendo companheira.

Mas, na verdade, mesmo tendo nascido em cativeiro, sem possibilidade de sobreviverem sozinhos, nunca precisarão tanto de nós como nós deles…

Do seu canto.

Da sua beleza.

Do seu amor.


Desert Rose

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2007-05-12

"A festa do Sol e da Lua"


Julho.

O calor torna o ar irrespirável de tão opressivo.

A energia que emana da pedra granítica dos paralelos na rua dá-nos a ilusão do ondular da paisagem, como no deserto do Sahara, onde as rochas parecem derreter na linha do horizonte.

Mas a noite chega, enfim, e traz o manto de frescura e o canto dos melros a celebrar a beleza estonteante da lua cheia…

Em casa, com a varanda da fachada voltada para o jardim, Melina dá os últimos retoques na mesa pronta para o jantar.


O perfume da carne temperada com ervas aromáticas está espalhado pela casa toda.

Os doces repousam no aparador: a mousse de manga, com o seu perfume doce e ligeiramente acidulado; o creme de maçã com canela, polvilhado de bolacha pulverizada e recoberto com uma generosa camada de natas; o irresistível tiramisú – oferta de Grazia, cujo olhar verde só assemelha aos dos meus irmãos –; a mousse de abacate, enriquecida com vinho do porto; o doce da avó de Catarina – um guloso bolo de bolacha, guarnecido com uma finíssima camada de ovos-moles. E, claro, o bolo de Luna, feito pela mãe, com tâmaras, damascos e ameixas secas, figos desidratados e uma profusão de passas avelãs, amêndoas e nozes envolvidas na massa de cor escura do açúcar mascavado…E, por cima, uma generosa cobertura de chocolate preto.

Mas a mim não me deixam nem tocar com a pontinha dos bigodes no aparador…

Escondo-me debaixo da mesa, onde sempre acabo por lambariscar qualquer coisita…

Melina está atarefadíssima, desde o princípio da tarde, a cozinhar doces e salgados.

Agora mesmo está a retirar do forno o rolo de carne e as kiches de legumes verdes, frango e cogumelos…

É a mulher-estrela mais linda do mundo, com os olhos e cabelos dourados e as faces de coral e de avental atado à cintura…

Uma cara de sol.

Um riso estival, condensado numa gargalhada que enche a casa inteira de alegria.

Melina faz anos hoje. A casa está cheia de convidados.

Alegres e bem-dispostos.

Por causa do sorriso de Melina.

A melhor amiga de Luna, a minha amiga de beleza nocturna.

A duas: simétricas.

O dia e a noite.

Luz e sombra.

O Sol e a Lua.

Já encetadas as sobremesas, chega a altura de cortar o bolo de aniversário, trazido por Luna.

E a Lua está, agora, no seu zénite.

Melina exclama:

- Vejam, encomendei uma Lua gigante, de propósito para esta noite!

E corta o bolo.

Luna levanta-se e, em vez dos habituais Parabéns ouve-se:

Libiamo, libiamo ne' lieti calici

Che la bellezza infiora,

E la fuggevol ora

S'inebri a voluttà.

Libiamo ne' dolci fremiti

Che suscita l'amore,

Poiché quell'occhio al core

Onnipotente va.

Libiamo, amor fra i calici

Più caldi baci avrà.

O brinde termina com uma ensurdecedora salva de palmas.

Melina é a felicidade em pessoa.

A transbordar de alegria para os convivas como uma dourada taça de champagne.


Desert Rose

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2007-04-19

Gato assustado, de chuva fria e trovoada tem medo...



A trovoada está fortíssima.

Luna está à janela do quarto a observar as pesadas nuvens cor-de-chumbo que o vento de leste empurra em direcção à nossa casa, ao mesmo tempo que as árvores se inclinam servilmente à passagem do Imperador dos Vendavais.

Ao longe, os relâmpagos cortam o céu, rasgando a imensa abóbada cinzenta, cujas faíscas de lume branco lembram cintilações de diamantes, à luz do lustre da sala.

Estou ao colo de Luna, mas só me apetece fugir para dentro do armário, apesar do conforto da camisola angorá negra que ela hoje traz vestida. O olhar também está de luto, sem aquela cintilação, mesclada de âmbar e açúcar mascavado, emitida pelas suas pupilas quando atravessadas pela luz solar do Verão. O rosto está, de momento, ocupado pelas Sombras.

Uma árvore em frente ao jardim, na berma da estrada, é arrancada pela raiz. A cidade mergulha nas trevas, imediatamente após um clarão azulado ter iluminar o crepúsculo, transformando-o em dia pleno, durante uma fracção de segundo.

Um estrondo ensurdecedor faz estremecer as paredes, numa assombrosa explosão de energia.

O meu pêlo está em pé.

Luna apercebe-se do facto e pousa-me suavemente no parapeito.

Está na altura de voltar para o refúgio do meu armário.

Lá fora choram, esfaimados e molhados até aos ossos, os gatinhos de Runa e Amélie, as minhas duas namoradas...

É demasiado, para os meus ouvidos de gato...

Desert Rose

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2007-02-26

“Uma noite poética de Verão”




Sentado no canto da janela que dá para o extenso jardim onde se vê o salgueiro choramingas a mergulhar os ramos no pequeno regato que corre na direcção Norte-Sul, observo as andorinhas que volteiam, lá em cima. Por vezes, surpreendem-me com os seus voos rasantes em busca de insectos, velozes como flechas disparadas pelo arco de Arthemis.

A vidraça ocupa toda a parede que dá para Sul, e pela manhã, bem cedo, pode-se observar, daqui do parapeito, o sol-nascente a surgir por entre as colinas.

No interior da loja, as mesas reservadas para os convidados – brancas como todo o resto da decoração, onde as paredes imaculadas contrastam com o vermelho sanguíneo dos quadros e das almofadas do banco que ocupa todo o comprimento da parede perpendicular à janela – estão dispostas junto à vidraça.

Começam a chegar os poetas. Mas antes de se sentarem à mesa, onde será servido o jantar, os seus olhares detém-se, gulosos, a admirar as prateleiras de onde lhes sorriem provocantemente as compotas – de pêssego, amora preta, figo, abóbora com amêndoas, mirtilo, maçã, creme de cenoura – e os requintadíssimos chocolates parisienses; do lado oposto estão os patês, os vinagres aromáticos e, junto à porta de entrada, os melhores vinhos, das castas mais raras vindas de todo o país.

É altura de se dirigirem para a mesa.

Porque hoje é noite pertence à Poesia. E à poesia subordinada aos prazeres da mesa.

Uma orgia de sabores em nome do Pecado da Gula…

Os amigos de Luna, escolheram este lugar para se reunirem e “colocar a conversa em dia” enquanto se degustam des plus exquisites gourmandises.

Solta-se o aroma da poesia ao som dos acordes da guitarra do Sr. Carlos, enquanto que a lua avermelhada de Agosto se ergue, cheia, no horizonte.

Os intervalos são preenchidos com a beleza nostálgica da música de Zeca Afonso…

Ou com os versos de Neruda, em castelhano, pela voz de Luna.

Ele, sombrio, observa-a a um canto. Gosta de ouvi-la declamar, embora não seja amante de poesia.

Ele é somente o amante de…

…Luna.

Pelo canto do olho observo como a amiga de Luna se insinua tentando cativá-lo enquanto que e minha dona, de vestido sanguíneo como as figuras das telas dos quadros da que enfeitam as paredes, declama Los Muertos de la Plaza..

Luna tem garras afiadas, que exibe discretamente.

O amante só tem olhos para ela.

Esgotado o repertório sibarita, dionisíaco, e recheado de fina ironia, criteriosamente seleccionado pelo Professor, surge o momento dos “espontâneos”.

Após um momento de silêncio, ouvem-se os primeiros acordes da Habanera de Georges Bizet e eia que entra…

Carmen.

Luna Carmen.

Como um cravo vermelho vestida. De lábios carmim e cabelos negros entre os quais espreita uma rosa mais rubra que o mais rutilante dos rubis de Caxemira.

A sua boca abre-se e ela canta:


L’amour est un oiseau rebelle
Que nul ne peut aprivoiser
Et c’est bien en vain qu’on l’appelle
S’il lui convient de refuser.

Rien n’y fait ménace ou prière
L’un parle bien l’autre se tait
Et c’est l’autre que je préfère
Il n’a rien dit mais il me plaît.

L’amour…l’amour…l’amour…l’amour…

L’amour est un enfant de Bohéme
Il n’a jamais, jamais connu de loi
Si tu ne m’aime pas, je t’aime,
Si je t’aime, prends garde à toi.

L’oiseaux que tu coyais surprendre
Batit de aile et s’envola
L’amour est loin tu peux l’attendre
Tu ne l’attends plus il est lá.

Tout autour de toi vite, vite
Il vient s’en va puis il revient
Tu croyais le tenir il t’evite
Tu crois l’éviter il te tient.

L’amour…l’amour…l’amour…l’amour…

L’amour est un enfant de Bohême
Il n’a jamais, jamais connu de loi
Si tu ne m’aime pas je t’taime
Si je t’aime…prends garde à toi.

O amante cora.

A rosa cai-lhe no colo.

Todos os olhares convergem para Luna. Ou Carmen.

A rival abandona a sala, batendo com a porta.

Lá fora, um carro arranca, ouvindo-se o cantar dos pneus.

A festa continua.


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2007-02-08

O olhar de Luna





Ontem, pela manhã, no café onde habitualmente me sento, virada para a janela, a compor mais um dos meus textos de crítica literária, vi sentar-se uma estranha mulher na mesa em frente à minha.

O facto nada teria de extraordinário se não fosse a sua expressão peculiar que me deixava intrigada: um olhar perdido algures, fixo, num ponto qualquer do infinito, mas não reflectia a expressão sonhadora de quem está a focar o pensamento em imagens ou acontecimentos agradáveis.

Também não era um olhar melancólico.

A boca, que seria igualmente bela, se não estivesse contraída num gesto de impaciência e contrariedade, exibia os maxilares tensos, ao mesmo tempo que quase se ouvia o ranger dos dentes. Simultaneamente, o movimento da cabeça indicava estar profundamente irritada, ao mover a cabeça da esquerda para a direita, num gesto de censura.

O rosto seria belo, se os olhos azul-turquesa, pequenos, enterrados nas órbitas e quase sem pestanas não tivessem aquela expressão fugidia, velada, de uma raposa prestes a assaltar a capoeira. Uns olhos incapazes de olhar alguém directamente nos olhos, com medo de ver o seu próprio reflexo.
Irradiavam um permanente sentimento de …dureza. Tédio. Irritação.

A sensualidade há muito que havia abandonado o corpo daquela mulher que tinha tudo para ser bela: o contraste entre a cor dos olhos, semelhante à água das praias das Caraíbas com o cabelo negro-asa-de-corvo, cortado num estilo muito pouco feminino e em total desarmonia com a estrutura facial. A pele, lisa, de grão finíssimo e textura de um pêssego maduro, estava precocemente marcada pelas rugas da amargura que lhe desciam desde as asas do nariz até aos cantos da boca e pelos pequeníssimos sulcos verticais que lhe marcavam o lábio superior.

Amargura.

E azedume.

Eram as emoções que transpareciam em toda a sua pessoa. No rosto, de traços finos, na postura, de braços cruzados sobre o peito e até na forma de trajar, austera e sombria, acentuada pelo xaile negro cruzado sobre os ombros.

Continuei a escrever e, a dada altura, quando voltei a olhar na direcção da mesa onde ela estava sentada, a estranha figura já tinha saído.

Quanto a mim, sou da opinião que a Mulher é, de facto, a construtora da sua felicidade. Mas a realidade é que, tradicionalmente, a mulher portuguesa não dá valor a si mesma e pauta a sua vida pela austeridade. Sobretudo nos meios rurais e, particularmente, na geração dos meus pais e dos meus avós.

Uma austeridade física e emocional.

Que o diga Hans Christian Andersen quando passou cá pela terra de Camões e se inspirou na mulher portuguesa para construir a personalidade da Mãe Pata em “O pátio dos Patos”.

Ao olhar aquela mulher, sentada na mesa do café, lembrei-me das palavras da minha querida avó que dizia que “uma mulher que se cuida demasiado não é boa dona de casa”.

Talvez não.

Mas o facto é que o aspecto exterior, a expressão e a forma como nos mimamos a nós próprios e aos outros reflectem o estado de alma da pessoa: se é doce, humana, se é frívola, materialista, se é vulcânica ou glaciar.

A atitude que temos primeiro para com o nosso corpo e, a seguir, a forma como olhamos aqueles que estão à nossa volta é determinante para construir a rede social que facilita ou não a integração do nosso eu. São dois factores determinantes que condicionam o poder de atrair ou repelir o Outro. A capacidade de fazer-se amar.

Que não é exclusiva das que nascem belas.

Porque a beleza é algo que se cultiva a partir de uma atitude interior proveniente de uma atitude emocional, adaptada ao conceito de belo, na nossa cultura.

Logo, a beleza é uma atitude construtiva.

E a fealdade uma atitude destrutiva.

Ou seja, a beleza tem de nascer dentro de nós, a partir de uma energia renovável, de forma a captar o que há de belo à nossa volta e impregnar o nosso “eu sensível”, como diria Milan Kundera, do bem-estar dado pelo prazer despoletado pelo sentimento do Belo.

Como o pêlo negro e os olhos verdes do meu gato…

Caso contrário, resta-nos deixar morrer em nós essa capacidade, desprezando-nos a nós e aos outros.

Eu, como sibarita assumida, não quero nem de longe ofender a deusa Afrodite, apesar de conservar o espírito independente e selvagem de Arthemis…

Nem por sombras…


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2007-01-12

Perfume a Saudade


Uma...

...duas...

...três gotas de perfume percorrem a carótida que pulsa suavemente, no pescoço de cisne...

O aroma a pimenta espalha-se no ar. Segue-se o mistério verde da fragrância das folhas de pitósporo. Depois, a mirra, o almíscar, o âmbar e o gálbano libertam-se à medida que as gotas avançam, indo morrer na morna quietude do vale entre os seios...

Ela olha pela janela do quarto. A luz da tarde fere-lhe os olhos. Il pomeriggio è troppo azzurro, como diz a canção italiana.

Os olhos buscam repouso no verde profundo dos bosques que se confundem com a linha do horizonte a leste... Ela sabe que aquele solo está atapetado de cogumelos e croccus, como na época em que saltava os muros da escola para colher as florinhas de pétalas lilases, com os estames azul-índigo, e fazer um raminho que oferecia à professora...

O aroma dos pinheiros e o cheiro da caruma vêm-lhe à memória , trazendo de volta a Avó e os passeios até à mata para apanhar as pinhas, que colocavam no forno, a assar.

Nessa altura, eu colocava-me no fogão em cima das panelas com a aletria e os mexidos que coziam em lume brando, até à altura em que o meu rabo ficava em chamas. Então era ver avó e neta correr atrás de mim, com um pano para apagar o fogo que queimava
a minha bela cauda...

Depois de estarem assadas, a avó pegava nas pinhas e retirava-lhes cuidadosamente os pinhões, cujo miolo era extraído com a ajuda de um alicate ou quebra-nozes. Eram tão saborosos que a gulodice das duas fazia com que quase não chegassem para os mexidos que a avó sabia fazer como ninguém. Ela tinha os seus pequenos segredos...por exemplo: carradas de mel e açúcar mascavado, que lhe davam uma exótica tonalidade achocolatada e...um generoso cálice de vinho do Porto!

E depois, era o aroma a canela a impregnar a velha cozinha.

A casa inteira.

O aroma que eu desejaria que se prolongasse por todo o ano.

Mais do que aroma, canela é Perfume a festa, com o qual se combate o frio e a tristeza do período de solstício de Inverno.

Com risos.

Com o prazer de estarmos juntos.

Um prazer cristalizado no passado.

No aroma a canela...

Os olhos dela fogem do bosque e vão afogar a saudade no azul profundo, impregnado de cheiro a meresia...

Ela fecha os olhos e aspira o ar, concentrando-se no ruído das ondas que se espraiam na areia, e inundam os palácios da memória...

A paz instala-se.

E o perfume, em cujo coração sobressai a nota verde do pitósporo, mistura-se lentamente com a fragrância, erógena e sexuada do Oceano...



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2006-12-09

“O Temporal”


O vento uiva nas janelas.

O céu cinzento, opressivo, desloca-se lentamente com as suas nuvens cor de antraz – densas, pesadíssimas e grávidas de chuva.

Na linha do horizonte, os relâmpagos cortam os céus a uma velocidade que nenhum veículo construído por mãos humanas consegue ainda alcançar. A trovoada vai-se tornando cada vez mais audível. O vento embate com violência nos vidros da janela do quarto. O gato de olhos esmeralda refugia-se no roupeiro, esconderijo onde se sente protegido dos piores elementos, humanos – os ralhetes da dona – ou naturais. Enrolado na pele de raposa que, por motivos ecológicos, já não uso há anos, o animal cor de ébano espreita a tempestade por uma nesga da porta, direccionando o olhar à janela que deixei, propositadamente, com as cortinas afastadas para gozar o espectáculo da intempérie.

Deitada na cama, também eu olho a tempestade da janela. Tal como o gato, enrolo-me ainda mais no edredon, estremecendo, apesar do quarto aquecido pelo termo ventilador.

A vontade de sentir o conforto do corpo do amante de tempos idos, numa noite em que o telhado ameaça voar pelos ares, começa a fazer-se sentir. Fecho os olhos. O quarto começa a ficar com a temperatura amena da do início do mês de Junho.

Abro os olhos novamente.

Na almofada ao lado, um rosto de feições perfeitas, longas pestanas e belíssimos lábios carnudos de framboesa. As coxas entrelaçam-se. O desejo invade-nos as entranhas como lava vulcânica a espalhar-se pelas veias, à velocidade do relâmpago que atravessa agora os céus de chumbo. Por um breve instante, vejo iluminar-se a noite sem lua, da janela do meu quarto…

Fecho os olhos, mais uma vez…

Imagino o beijo de Zeus a destilar descargas eléctricas no meu ventre… no instante em que tomo consciência do volume do seu sexo junto à minhas coxas nuas…

Subitamente, um feixe de lume branco desaba sobre o jardim e ouve-se, de seguida, um som semelhante ao detonar de um míssil, fazendo estremecer perigosamente os vidros da janela…O gato solta uma miado arrepiante.

Levanto-me da cama. O termo ventilador deixou de funcionar. Todas as luzes da cidade estão apagadas. A escuridão, lá fora, é impenetrável. Outro raio revela uma cratera no canteiro onde cresciam as minhas rosas negras do oriente.

Bom, não eram bem negras.

Eram antes de um vermelho-negro como as mais negras ginjas de Maio, de um exótico perfume almiscarado.

Melindrosas e frágeis, demoraram quatro anos a florescer.

Morreram.

Numa fracção de segundos.

E eu um pouco com elas…

Da porta entreaberta do meu guarda-roupa cintilam os cautelosos olhos verdes do gato…


Desert Rose

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2006-10-25

Sonho de um Gato numa Noite de Verão




Hoje sonhei com o casamento da minha Dona.

Luna.

O casamento de sonho para um gato. Que mais parecia uma tela animada de Dali, ou de Bosch, consoante o ponto de vista.
Qualquer semelhança com a boda de Alexandra e Gonçalo, a cujo banquete assisti, do alto de uma laranjeira e onde a presença nocturna de Luna brilhava, como uma nuvem de lilás e prata, é pura coincidência…

A não ser o olhar de um gato voyeur, escondido nas sombras…

No meu sonho, Luna trajava um vestido branco-gelo, de reflexos azulados, a contrastar vivamente com o cabelo negro. Nas orelhas, dois diamantes faiscavam com pingentes de pedra da lua a condizer com a tonalidade do vestido. Na pele que o decote, exibia, cintilavam as partículas vaporizadas pelo perfume, com aroma de citrinos, laranja amarga, tangerina, néroli... (os meus sonhos são sempre perfumados…é pena é não sonhar mais vezes com peixe…).

Do noivo só me vêm à mente imagens confusas. Muito moreno, espessas sobrancelhas negras, olhos árabes, de longas pestanas recurvadas e lábios carnudos.

Das igrejas sempre tive pavor. Por isso, da cerimónia religiosa não tenho quaisquer imagens.
Lembro-me, das minhas outras vidas, das perseguições que me faziam a mim e à minha família, na época medieval, os Domini Canes, afirmando que éramos os animais consagrados à bruxaria, classificando-nos de demoníacos e queimando-nos vivos na fogueira como faziam com os cristãos novos... Desde então, sou incapaz de entrar em tais lugares…

As imagens mais vívidas, para mim, são aquelas que me ficaram da recepção – principalmente da altura em que serviram peixe. Adoro bisbilhotar estas recepções nupciais e todo o tipo de banquetes, lanches ou patuscadas para dar às narinas o prazer de saborear os petiscos – principalmente se puder surripiar uma fatia de salmão fumado ou de queijo mozzarella...

Mas, a meio da refeição, sucedeu algo de insólito: os noivos escaparam-se, sub-repticiamente, antes de cortarem o bolo, deixando os convidados estupefactos.

Como nunca receei os instintos assassinos da Curiosidade, segui-os até à garagem. Foi então que os meus indiscretos, maliciosos e esmeraldinos olhos pousaram nas linhas esguias da bella carrosseria cinza-prata de um qualquer carro italiano, provavelmente propriedade de algum padrinho da máfia local, onde os insaciáveis apaixonados davam largas aos seus apetites libidinosos…

Entretanto, na sala onde decorria o banquete, os convidados aguardavam, impacientes.

Horas depois, os noivos regressam, desgrenhados.

A noiva ostentava uns lábios inchados, uma maquilhagem borratada, um mamilo atrevido a espreitar pelo decote e um sorriso de orelha a orelha.

O noivo, ligeiramente cambaleante, com o nó da gravata desfeito, a camisa desabotoada e a braguilha aberta, passava, atabalhoadamente, a mão pelo cabelo.

Durante um minuto fez-se um silêncio absoluto quebrado apenas pelo zumbido dos mosquitos trombeteiros e pelo canto dos grilos e das cigarras.

A tensão e o embaraço aumentavam a cada segundo.

Então, o pai da noiva engasga-se, quase asfixia com um pedaço de carne de veado e tem de ser socorrido.

A mãe da noiva engole uma tablette inteira de xanax e quase se afoga ao adormecer com a cara mergulhada no prato de creme de espargos.

A mãe do noivo desmaia de vergonha.

O pai do noivo fuma um charuto cubano de um só trago, mudando de cor logo a seguir – de uma palidez colérica para um tom esverdeado, denunciando uma aguda crise de fígado.

Os restantes convidados olham os noivos, entre divertidos e estupefactos.

Entretanto, alguns dos casais mais jovens trocam olhares maliciosos e decidem imitar os anfitriões, indo apanhar ar fresco antes da sobremesa…

Alguns deles aproveitam para espreitar ou experimentar o capot cinza do Ferrari da discórdia.

Começa então a formar-se uma fila interminável à porta da garagem da luxúria...

Um cheirinho a peixe fresco invade-me as narinas...

Abro os olhos.

Um suculento carapau cozido espera-me na tigela do pequeno-almoço, acompanhado de um prato de leite fresco…

Desert Rose

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2006-10-18

Sortilégio Lunar




O luar entra pela janela aberta do terraço. Uma luminosidade nacarada atravessa os cortinados diáfanos, agitados pela brisa marítima que inunda a sala, nua, com o cheiro da maresia.

A superfície espelhada do chão de granito negro reflecte a sombra do piano de ébano, em contraste com a brancura imaculada das paredes e da gigantesca lua branca que entra pela janela, nele projectada.

O calor é opressivo, sufocante.

Ela levanta-se da cama, encharcada de suor, e dirige-se para a sala.
A brisa refrescante acaricia-lhe o corpo nu. O suave bater das ondas produz-lhe um efeito estranhamente calmante.

Subitamente o olhar de veludo negro repara na grande pérola suspensa no firmamento que se prepara para desaparecer no horizonte. O seu reflexo move-se lentamente no lago de trevas do chão da sala.

O seu reflexo e o da Lua.

Movem-se em direcção ao piano.

Vêm-lhe à mente Débussy e o seu Clair de Lune e, em seguida, a Sonata ao Luar de Beethoven, alguns Nocturnos de Chopin.

Sente a magia lunar entranhar-se nas veias seduzir-lhe o olhar e enfeitiçar-lhe o ouvido…

O impulso de se sentar ao piano invade-a como a maré.

A sede de produzir música torna-se insuportável.

Os longos e esguios dedos caem sobre o teclado como as primeiras gotas de chuva na areia...

Soam as primeiras notas.

Lentas.

Graves.

Lembram o bater das ondas.

O canto de uma ave nocturna.

Um melro.

Negro.

Como o cabelo do amante adormecido.

Como as teclas dos acordes da música nocturna de Debussy...

...o Amante desperta.

A sua sombra, reflectida na parede pela penumbra, move-se lenta e silenciosamente seguindo rasto da música enluarada...

O feitiço da música transmutado em pura sedução.

Um estranho sortilégio percorre-lhe os nervos num apelo directo à posse.

Diana. A deusa da Lua. Indomável. Inatingível. Impossível de tomar nos braços.

Mas não hoje.

Hoje a Deusa incarnou o corpo da amada.

Possui-la será como possuir a Lua.

Ou Diana.

Ou Arthemis.

Ela sente-o aproximar-se.

Sente as ondas de calor que emanam do corpo dele ainda antes de tocar a sua pele.

O veludo asa de corvo do seu cabelo roça-lhe a pele da cor da Lua.

O som de um disparo rompe a harmonia da Noite.

A música pára.

A luz branca da lua mergulha no abismo negro do oceano iluminando-o durante alguns segundos.

Suspiros de angústia confundem-se com o rumor das ondas...

Altiva, a Deusa regressa ao Olimpo.

A lua acabou de morrer.



Desert Rose

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2006-09-12

"Crónica do desfecho de um conto de fadas..."






A luz de uma tarde dourada de final de Verão envolvia o terreno de terra batida onde o pó se soltava, sedento, debaixo dos passos dos convidados.

O dia estava quente. Ao chegar ao mosteiro, não resisti a espreitar a igreja de estilo gótico, apesar de saber que o casamento de Alexandra seria uma cerimónia laica, realizada no recinto ao lado, isto é, na respectiva quinta. O banquete iria decorrer nos claustros.
Dentro da igreja, um casal estava a celebrar a cerimónia religiosa e trocava votos de amor e fidelidade eternas. A noiva, morena, de cabelos longos, negros e ondulados, trajava um cândido vestido branco, com um delicado véu transparente que lhe descia do alto da cabeça, arrastando-se pelo chão.

O oposto de Alexandra.

A bela sílfide de cabelos dourados e olhos de safira ou turquesa, consoante a luz ou o humor, era o mais doce dos querubins, em bebé. Uma criança adorável: meiga, calma, extremamente observadora e com uma inteligência precoce, que se manifestava na qualidade estética dos trabalhos de artes plásticas e no vocabulário utilizado, pouco comum numa pré-adolescente. Alexandra, foi sempre bela. Desde a altura em que saboreávamos os doces em casa da avó, no Domingo de Páscoa, ou a espessa e cremosa mousse de chocolate, em casa da tia Nana. Uma beleza que chamava a atenção dos transeuntes, quando passava na rua, acompanhando-me no ao périplo pelas livrarias da cidade do Porto, em busca de espécimes raros. Ficavam como que hipnotizados…

E Alexandra foi sempre uma apaixonada pela Beleza. As suas mãos, de dedos finos, com os polegares ligeiramente curvados para fora, pareciam ter sido desenhadas para trabalhar com o lápis e a borracha, efectuar esboços, como Leonardo. Tirou a nota máxima na prova de desenho - o pré-requisito exigido pela Faculdade de Belas Artes em Lisboa. Nem poderia ser de outra forma.

E, naquele sábado, Alexandra casava-se. Os convidados foram chegando, pouco a pouco.

Belos.

Todos eles.

Em homenagem à noiva, cuja chegada aguardavam, na maior das expectativas.

O noivo, alto e esguio, cumprimentava jovialmente os familiares e amigos mais íntimos de ambos. A felicidade faiscava-lhe no olhar claro. E no sorriso fácil e tímido.
Trajava de cinzento, com um jarro amarelo na lapela.

Foi, então, anunciado o momento de os convidados se dirigirem para o local onde iria ser realizada a cerimónia.

Atravessámos um magnífico jardim arborizado, cujo tecto verde, semelhante ao de uma floresta no tempo dos druidas, filtrava o sol, refrescando agradavelmente a pele, deixando-nos envoltos na penumbra.

Por alguns momentos, os convidados pareciam mover-se como sombras. Saímos para o lado oposto, encarando a luz do dia. Pisávamos um caminho de terra ligeiramente solta, ladeado por vinhas em forma de ramada, como é típico no Minho, de onde pendiam cachos de uvas de um verde-dourado. Ao fundo, esperavam-nos as cadeiras, alinhadas diante da mesa onde se sentaria a juiz.

Os melros e os pintassilgos cantavam furiosamente. Piscos e rabirruivos procuravam insectos por entre as ervas.

Subitamente, alguns dos convidados que ficaram de pé, abriram alas.

A voz grave, profunda e ligeiramente rouca do vocalista do dos Tindersticks fez-se ouvir, acentuando a atmosfera romântica do local.

A noiva entrou, triunfante e bela, como uma deusa de mármore carnal, esculpida pelas mãos de um Praxíteles, inspiradas na beleza perfeita de Aphrodite. A fronte arcadiana, decorada com as cores de Boticelli, deslumbrou a assistência pela aura de magia das princesas dos contos de fadas.

Alexandra estava bela como o dia, quando saiu da penumbra do arvoredo, como uma dríade, numa ampla saia em seda selvagem e com o esbelto corpo moldado pelo finíssimo drapeado do corpete em musselina cor de champagne – uma suave declinação do tom de mel dos seus cabelos, apanhados num penteado clássico.

Ao sair da obscuridade do arvoredo, envolta numa nuvem de musselina e seda cujo tonalidade lhe realçava a pele, ligeiramente dourada, e os cabelos de uma faiscante luz solar, Alexandra dispensava o uso de jóias. Apenas umas pequeninas pérolas marinhas descansavam nas orelhas minúsculas e perfeitas. Marinhas como a tonalidade aquática dos mares do sul nos seus olhos que, naquela tarde, reflectiam o céu de estio.
Alexandra excedeu as expectativas dos convidados, arrancando-lhes um aplauso de admiração.

O pai da noiva deu alguns passos incertos, nervoso.

O halo de luz do entardecer envolvia os noivos enquanto trocavam as alianças, entregues pelo pequeno e loiríssimo Francisco, de andar ainda cambaleante, que exigiu, inflexivelmente, que lhe fosse devolvida a caixinha das alianças.

A alegria irradiava do rosto de Alexandra, que se confundia com a poalha de ouro da chuva solar que descia sobre os convidados. Mas nos olhos de Gonçalo, brilhava a água salgada da emoção.

O jantar, servido nos claustros do mosteiro, foi iluminado pela luz bruxuleante das velas, acentuando a atmosfera medieval do lugar, ao som de uma música suave.

Eu fiquei na mesa que homenageava Ellis Regina com o poema Romaria. Mas na festa também estiveram presentes Jacques Brel, Eric Satie, Vinicius de Moraes, Jim Morrison, David Bowie…

Bom, estiveram presentes…

…sob a forma de poema, claro!

A festa terminou com um divertidíssimo convívio, para o qual muito contribuiu a boa disposição do noivo e dos seus amigos que tomaram a seu cargo a agradável tarefa de animar a festa e contagiar a todos com a sua alegria.

A lua brilhava, gloriosa.

Rainha absoluta no firmamento azul-nocturno.

Uns olhos verdes fitavam-me do alto de uma árvore.

Cintilantes.

Incandescentes.

O pêlo da criatura negra como uma noite sem lua faz-me pensar no cabelo do homem que amo.

Mas, tal e qual uma Cinderela de sapatos de prata, tive de sair um pouco antes da hora, apesar de não ter deixado nenhum pelo caminho.

Mas vontade não me faltava. Os pés não perdoam a afronta dos saltos agulha.

Um brinde aos noivos.

Em cristalinas flutes, obviamente.

Nunca em sapatos de saltos de doze centímetros.

Nem pensar…!

Pois…

Será...?

E…porque não…?!

(eheheh…!)


Desert Rose

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2006-08-25

“Luna”



“Luna”

Foi aos 30 anos, o meu primeiro beijo. Numa tarde de Domingo de um Verão moribundo. E, na mesa do canto da minha pastelaria favorita, onde servem uns deliciosos croissants com molho de chocolate.
Dantes, eu tinha o hábito de lá ir em busca desses croissants quentinhos, que a simpática senhora de olhos verdes e sorriso rasgado abria para,em seguida, os regar com a deliciosa calda de chocolate liquefeito. Que eu me deliciava a saborear, enquanto descia o Chiado para devorar com os olhos as montras das livrarias. Por vezes, distraída, nem reparava que a calda do chocolate me escorria, subrepticiamente, para a manga do casaco. Uma vez, só me dei conta do facto quando um transeunte, impecavelmente vestido no seu facto de executivo e agasalhado com uma requintada Burberrys, me chamou a atenção, apontando para a manga com um sorriso divertido…
Claro que corei até à raiz dos cabelos, apesar de rir de mim própria, enquanto despia o casaco e descia o Chiado em direcção ao Rossio e apesar, também, do frio de Outubro...

Mas naquele dia, foram uns lábios carnudos, vermelhos e suculentos que me tiraram o apetite e me provocaram um estranho e inexplicável sorriso de orelha a orelha intrigando todos aqueles que me eram próximos.

- De onde lhe vem aquela misteriosa felicidade? – perguntavam-se.


Luna, a minha dona era então uma jovem de trinta anos que arvorava constantemente um ar melancólico, expressão taciturna.

O olhar, duas estrelas negras, insondáveis, coroadas por sobrancelhas de carvão, em contraste absoluto com uma pele claríssima, quase transparente, mas que se harmonizavam perfeitamente com os cabelos castanhos escuros.

O seu meio sorriso dava-lhe a expressão idiomática de uma Gioconda.
Uma beleza sombria.

Além disso, era uma intelectual, mas de uma personalidade algo cismática e introvertida…
Luna gostava da auto-análise, da introspecção. Queria conhecer-se em profundidade, sondar os mais obscuros recantos da sua mente, para melhor poder controlar as suas próprias reacções. Porque o auto-domínio é a chave do Poder.

Luna adorava mostrar-se aos outros como um ser racional, ostentar a sua cultura como o pavão gosta de ostentar a cauda para seduzir a companheira, Luna gostava impressionar pelo saber e pelo amor profundo ao Conhecimento.

Era uma devota fidelíssima da deusa Razão. E, por isso, evitava tudo o que extravasasse os seus limites. Receava até a dependência emocional de alguém.

Mas ela sabia que, lá no fundo de si mesma, havia algo escondido, no mais profundo abismo da sua mente, que era imprevisível, indomável. E que teimava em assomar à superfície nos momentos mais inconvenientes.

Quando o auto-domínio, a presença de espírito era mais necessária.

Bastava que alguém soubesse accionar a mola que despoletava o ataque de riso incontrolável – no momento exacto em que a situação requeria que se munisse de toda a fleuma possível e imaginária, do seu sentido crítico, do seu sentido de equilíbrio – a sua blindagem face ao ridículo e ao burlesco.

Ou então que alguém escarnecesse em público de uma falha cometida. As críticas destrutivas conseguiam sempre o seu objectivo: aniquilar, reduzir a pó a sua auto-estima. Nesses momentos, a vontade de sucumbir ao choro só era controlável porque Luna possuía uma vontade de ferro e um orgulho faraónico.

A ira, só assomava à superfície quando ela se sentia defraudada ou então quando era verbal e maldosamente ofendida.

Então as pupilas dilatavam-se-lhe ao mesmo tempo que se lhe alterava o tom de pele primeiro, para uma palidez de morte, para em seguida adquirir um tom vermelho- púrpura enquanto que os dois sóis negros dardejavam raios fulminantes.

Luna, nessas alturas, não conseguia articular uma única palavra. Mas o seu agressor ia, gradualmente, recuando e os seus insultos ou agressões iam também, pouco a pouco, baixando de volume até este desviar os olhos e bater em retirada.

Ninguém consegue olhar fixamente as Fúrias nos olhos de Luna durante muito tempo.

Mas um belo dia, quando trabalhava num projecto de investigação sociológica, os seus olhos de noite encontraram um olhar de âmbar. Uma cor que se repetia nuns cabelos castanhos-claros, ligeiramente compridos, e numa barba aloirada de textura surpreendentemente macia.

Tinha um ar helénico, um perfil que fazia lembrar um filósofo da antiguidade.

Mas o que captou a atenção de Luna foi a forma displicente como o jovem cruzava as suas longas pernas, ao mesmo tempo que degustava um cigarro, num trejeito levemente dândi.

Tinha um sorriso felino.

Um gato que gosta de brincar cruelmente com a sua presa antes de a devorar.

Um sorriso hipnótico.

Ela sentiu-se aprisionada como o insecto negro no âmbar dos seus olhos leoninos.

Quanto mais queria libertar-se mais presa se sentia, envolvida na teia de sedução que o Belo lhe lançava…

Todos os sinais de alarme dispararam…

Ela ignorou-os.

Pura e simplesmente…




Cláudia de Sousa Dias

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2006-08-14

"Gato Empoleirado em Janela Aberta"




"Gato empoleirado em Janela aberta"

O meu pêlo é negro como a noite sem estrelas nem lua e os meus olhos, esmeraldas incandescentes que cintilam à mais pequena oscilação de luz. Que quando repouso, empoleirado, à janela da biblioteca, transformam-me em objecto de adoração da minha dona.

Nas noites de Verão, costumam deixar essa janela aberta. E eu divirto-me, semi-deitado no parapeito, a observar as suculentas borboletas nocturnas que teimam em voltear, provocantes, insolentes, diante dos meus bigodes...

Durante o dia, são os pardais ou, porventura um melro, mais afoito, que assomam diante do meu extasiado nariz, curiosos. Ou que apenas buscam as migalhas do bolo de chocolate que a pequena Catarina gosta de saborear à janela, à hora do lanche...

As borboletas continuam a passar mas são de outras cores – amarelas, brancas, cor-de-fogo, listradas como zebras e até lilases. E não querem nada comigo...

Só estão interessadas em sugar o néctar das rosas e sentir o perfume das suas pétalas aveludadas...

Às vezes dou um saltito lá para baixo e vou explorar a parte do jardim junto ao pinhal. Adoro o cheiro a caruma e, sobretudo, de poder esticar os músculos numa corrida alucinante atrás de um ou outro esquilo, ali pelo bosque.

Se soubessem a loucura que é persegui-los pelas árvores, pelos canteiros, pelos recantos mais insondáveis do jardim, garanto-lhes que não hesitariam em experimentar!

Durante o Inverno, prefiro sentar-me naquela poltrona em frente à lareira, muitas vezes ao colo da minha dona, enquanto lê um livro ou escreve no seu diário ou poemário...

Sabem, ela gostaria de escrever um livro! Mas ainda não se convenceu totalmente de que é uma escritora.

Talvez eu a consiga convencer...

Quem sabe?


Cláudia de Sousa Dias

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